sábado, 20 de dezembro de 2014

HÃ?


Hermengarda era uma mulher muito inteligente. Ela sempre pensava muito pra falar, e mais ainda pra responder. Escrava da opinião alheia, afeita às gargalhadas, era sempre atenta ao que lhe cairia melhor. Servia-se a torto e a direito do indefectível “Hã?”, não por não entender o que o interlocutor lhe perguntava, mas para escolher, como se escolhe um vestido, a resposta que lhe conviria melhor.
 
A esse tipo de escolhas supérfluas tinha-se acostumado nossa heroína. Suas vestimentas estavam sempre destinadas a causar sensação, chamar a atenção para o belo desenho das suas formas, bastante curvilíneas, ainda que fosse uma coroa de quarenta anos, com trejeitos de adolescente mais que segura. Tão cheia de si e tão ciosa dos seus contornos, Hermengarda revelava sua falta de conteúdo. Não havia lugar nem espaço para os outros e para indagações de maior vulto no morno recôncavo da sua mente. Orgulhava-se de saber contar piadas, dramatizava, mas não sabia sorrir. Aliás, seus sorrisos eram de arame, de gesso, de concreto armado, de alguma coisa tensa que enrijecia os músculos da face.
 
Queria invariavelmente ser o centro das atenções, das conversas, ainda que pelas motivações mais pueris, como a sua seminudez física, sintoma, aliás, da sua seminudez espiritual. Ao exibir o corpo, Hermengarda escondia o vazio, a completa nudez da sua alma. Embora soubesse argumentar, divertia-se em mentir. Fingir era sua especialidade. Fazer tipo era o seu principal passatempo. Vestia-se com as ideias e os assuntos da moda.
 
Hermengarda era simpática – na verdade, bem menos do que imaginava –, mas daquela simpatia artificial e demagógica que ofende as pessoas de bem. Falava pelos cotovelos e parecia mesmo ter sido criada ao léu da sorte, como um cavalo sem rédeas e sem disciplina. Gênio indomável, era capaz de usar os outros e a sua bela aparência para atingir seus objetivos, por mais insignificantes que fossem. A dissimulação era a sua grande arma, o seu grande trunfo, de que poucos se apercebiam. Tão acostumada a mentir aos outros, passou a mentir a si própria...
Hermengarda era infeliz. Tão infeliz, mas tão infeliz, que sequer se dava conta da sua infelicidade. A pirotecnia das frivolidades, o festival das aparências, as exterioridades, as extravagâncias de que este mundo está cheio, as luzes de Natal, embriagavam-na, entorpeciam-na, cegavam-na, e, cega, bêbada, cambaleante, trôpega, tudo lhe parecia bem. Suas risadas eram gargalhadas de bêbado. Seus comentários sobre os outros não atravessavam a epiderme, a superfície, a zona cutânea. Tinha aversão, ainda que inconsciente, a toda espécie de honestidade e autenticidade. A sinceridade parecia-lhe um muro, um murro, um golpe. A verdade soava-lhe dura, áspera, implacável. Seu mundo era o de holofotes imaginários que a acompanhavam por toda parte. Ela não andava; desfilava.

Mas um dia a coisa começou a mudar...

(continuarei em breve)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A EXTREMA-UNÇÃO



Uma simpática amiga, cujo esposo também é meu amigo, pediu-me certa vez que eu escrevesse sobre a unção dos enfermos, este sacramento terrível outrora chamado de extrema-unção. (Foi o Concílio Vaticano II, nos números 73-75 da Constituição 'Sacrosanctum Concilium', que ordenou a troca do nome). Parece-me que o momento é oportuno para falar dele, pois o mês de novembro, o último do ano litúrgico, além de mês dos mortos, dos finados, é dedicado à meditação dos novíssimos, isto é, dos últimos acontecimentos da vida do homem: morte, juízo, céu, inferno e purgatório. Comecei a redigir este texto em novembro.

Toda vez que eu saibo de alguém das minhas relações que fica gravemente enfermo, a primeira coisa que me ocorre é indagar se tal pessoa recebeu a unção dos enfermos. Pode ser que às vezes eu cometa uma indiscrição. Em algumas ocasiões, os parentes próximos do enfermo assustam-se, como se tal indagação equivalesse a uma sentença de morte para o doente. É como se eu dissesse: “Coitado, esse aí vai vestir o paletó de madeira!”, “Esse aí já era!”, “Vai bater a cachuleta!”, “Finou-se!”.

Ainda não fui capaz de vencer a falta de habilidade com as palavras e com as pessoas, mas tenho pelo menos dois argumentos em minha defesa, que, se não me absolvem, pelo menos me atenuam a culpa: o primeiro é que a unção dos enfermos não se destina apenas aos que vão morrer, mas tem finalidade curativa, destina-se a curar, ainda que precipuamente a alma. Diz São Tiago no final da sua epístola (Tg 5,14-15): “Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o aliviará; e, se tiver cometido pecados, estes lhe serão perdoados.” (Pois bem. Embora o católico não viva apenas da Bíblia, mas da Bíblia, da Tradição e do Magistério, o sacramento de que nos ocupamos tem base bíblica, embora não exclusivamente. A Tradição e o Magistério também o consagram). O segundo é este: com a salvação eterna não se brinca; não podemos deixar que uma pessoa se perca por respeito humano.

O Código de Direito Canônico também vem em meu socorro. No cânon 1001 ele diz: "Cân. 1001. Cuidem os pastores de almas e os parentes dos enfermos que estes sejam confortados em tempo oportuno com esse sacramento".

Já falei disso uma outra vez: a estranha capacidade do homem de nossos dias de esquecer o mais importante, de relegar o essencial ao segundo plano, deixa-me perplexo. A hora da morte não é para brincadeiras. Ninguém vai se preocupar com sujar ou estragar um terno, atrapalhar o penteado, perder a pose ou a compostura, se o que estiver em jogo for uma vida humana, se uma pessoa estiver morrendo na sua frente e um ato seu puder salvá-la. Ocorre que aqui estamos diante de algo muito mais grave do que a mera morte física ou biológica: a morte espiritual, o inferno eterno, sofrimentos insuportáveis a que nenhuma outra morte porá fim.

A ideia que faço do inferno é a seguinte: é a de um desespero insuportável, de uma dor talvez até mais moral, espiritual, do que física, pior que a de um suicida, com o agravante de que não há morte que possa interrompê-la, não há remédio para esse mal. Digo isso porque o desespero de um suicida é o pior sofrimento que eu consigo imaginar sobre a face da terra.

Um padre sábio uma vez me disse ter notícia de muitos casos de moribundos que parecem estar justamente esperando a unção dos enfermos para morrer. Eles sobrevivem miraculosamente, ou quase isso, até a chegada do sacerdote. Recebida a unção, eles entregam a alma a Deus. Observemos que a unção dos enfermos, como atesta São Tiago, perdoa os pecados. Além disso, conforta e revigora a alma, fortalece-a no combate da doença e das tentações. Talvez esses moribundos não se salvassem se não tivessem recebido o sacramento.

Santa Faustina, em seu "Diário", demonstra-nos que a hora da agonia é uma hora tremenda, é uma hora grave e decisiva, em que os demônios tentam-nos com especial força. Não deve ser por qualquer motivo ocioso que nas Ave-Marias pedimos a intercessão de Nossa Senhora para a hora da nossa morte. Santa Faustina tinha muita compaixão pelos agonizantes.

Estabelece, a respeito da unção, o Código de Direito Canônico:

"Cân. 1004 - § 1. A unção dos enfermos pode ser administrada ao fiel que, tendo atingido o uso da razão, começa a estar em perigo por motivo de doença ou velhice.

§ 2. Pode-se repetir este sacramento se o doente, depois de ter convalescido, recair em doença grave, ou durante a mesma enfermidade, se o perigo se agravar.

Cân. 1005 - Na dúvida se o doente já atingiu o uso da razão [normalmente se considera a idade de sete anos], se está perigosamente doente, ou se já está morto, administre-se o sacramento.

Cân. 1006 - Administre-se este sacramento aos doentes que ao menos implicitamente o pediram quando estavam no uso de suas faculdades.

Cân. 1007 - Não se administre a unção dos enfermos aos que perseverarem obstinadamente em pecado grave manifesto."

O Papa Paulo VI, na sua Constituição Apostólica sobre o Sacramento da Unção dos Enfermos, de 30 de novembro de 1972, esclarece que a referida unção é atestada na tradição da Igreja, sobretudo em sua liturgia, pelos mais antigos testemunhos, tanto no Oriente como no Ocidente.

O mesmo Paulo VI aprovou o Rito da Unção dos Enfermos e sua Assistência Pastoral, promulgado por Decreto da Sagrada Congregação para o Culto Divino de 7 de dezembro de 1972.

É importante frisar que antes de uma operação cirúrgica pode ser dada ao enfermo a unção sagrada sempre que uma doença grave seja a causa da intervenção. A velhice também, desde que comece a oferecer perigo de morte, é motivo para a unção dos enfermos. O tempo oportuno do sacramento, pois, é o momento em que começa o perigo de morte. Não é necessário que esta seja iminente, que o enfermo esteja à beira da morte. Basta a probabilidade, não se exigindo que seja mais provável que morra do que sobreviva.

Do referido ritual de 7 de dezembro de 1972, extrai-se:

"Para atender mais facilmente aos casos particulares, em que os fiéis, por doença repentina ou qualquer outro motivo, se vejam de repente em perigo de morte, recorra-se ao Rito Contínuo, pelo qual o enfermo recebe sucessivamente os sacramentos da Penitência, da Unção e da Eucaristia sob forma de viático.

Porém, se há perigo de morte iminente e não houver tempo para ministrar todos os sacramentos do modo que foi estabelecido, dê-se primeiro ao doente a oportunidade de uma confissão sacramental, ainda que realizada genericamente em caso de necessidade; em seguida seja-lhe dado o viático, que todos os fiéis em perigo de morte têm a obrigação de receber. Finalmente, se ainda houver tempo, seja-lhe ministrada a Sagrada Unção.

Se, por motivo de enfermidade, não puder receber a sagrada comunhão, seja-lhe conferida a Unção dos Enfermos."

Recorde-se que a unção dos enfermos perdoa os pecados, se o enfermo não estiver em condições de obter tal perdão pelo sacramento da Penitência, como esclarece o Catecismo da Igreja Católica. Se o enfermo estiver lúcido e em condições de confessar-se, deve fazê-lo, dispondo-se bem para receber a unção, sobretudo se estiver em pecado mortal. Como esclarece o Padre Paulo Ricardo, o perdão dos pecados na unção dos enfermos é efeito secundário. Ele é efeito primário de outro sacramento: a confissão.

Acrescente-se, ainda, que o sacerdote, ao administrar os sacramentos ao fiel em perigo de morte (se possível, a confissão, a unção e a Eucaristia ou "viático"), pode conceder-lhe a bênção apostólica com a indulgência plenária (em artigo de morte), mesmo que tal fiel já tenha recebido outra indulgência plenária no mesmo dia. Trata-se de uma exceção.

Sobre isso, a norma 18 da Constituição Apostólica sobre a Doutrina das Indulgências do Papa Paulo VI, de 1.º de janeiro de 1967, complementa:

"N. 18. No caso da impossibilidade de haver um padre para administrar a um fiel em perigo de morte os sacramentos e a bênção apostólica com a indulgência plenária a ela ligada, de que se trata no cân. 468, parágrafo 2, do CDC [trata-se do Código de Direito Canônico anterior], concede benignamente nossa piedosa Mãe Igreja a esse fiel bem disposto a indulgência plenária a lucrar em artigo de morte, com a condição de ter ele durante a vida habitualmente recitado algumas orações. Para aquisição dessa indulgência é louvável empregar um crucifixo ou uma cruz. Essa mesma indulgência plenária em artigo de morte pode ser ganha por um fiel, ainda que ele já tenha no mesmo dia ganho outra indulgência plenária."

Por tudo isso, meus amigos, não negligenciemos o tesouro espiritual que a Igreja, Mãe solícita e mestra, põe em nossas mãos.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ERASMO, O ASNO


Erasmo de Roterdã (sim! Trata-se de um caso de homonímia!) era um ser de uma espécie superior. Na verdade, para dizer melhor, era um ser superior da sua espécie. Asno de nascimento e por um implacável decreto da natureza, possuía uma inteligência maior que a de muitos seres humanos, tanto que fora admitido – apesar do seu mau cheiro de animal e dos hábitos alimentares pouco ortodoxos – aos estudos, aprovado no vestibular e encontrava-se cursando o último período de direito, em uma honrada instituição universitária.

Aquela criatura peluda, que precisava sentar-se nas últimas carteiras para não atrapalhar a visão dos colegas, era um dos melhores alunos da classe, possuía boas notas e deixava pasmos todos os que assistiam às suas incríveis intervenções em sala de aula, saborosamente perspicazes. Tudo indicava seria ele o orador da turma – apesar dos relinchos que às vezes inadvertidamente soltava –, pois além de ter boa voz, escrevia bem, ousando até a publicar artigos no jornal dos estudantes. Todos criam que ele ganharia o prêmio conferido ao melhor aluno da turma.

No princípio do curso, Erasmo chegou a interessar-se por algumas colegas, mas era um pouco tímido e reservado – quase um criado-mudo! –, devido à terrível fama de seus ancestrais de dedicar-se diuturnamente a asneiras. Um certo complexo de inferioridade assaltava-o, dificultava-lhe as relações, além do seu temperamento assertivo e um tanto quanto renitente. De quando em quando, alguns colegas montavam nele, expondo-o à zombaria coletiva, mas havia também os companheiros leais e inseparáveis, que o defendiam, animavam e admiravam.

Alguns diziam:

– Esse burro vai longe!

Outros prognosticavam:

– Esse asno vai acabar sendo juiz!

Outros criticavam-no por às vezes pastar alguma grama da redondeza, ao que ele, espirituosamente, retrucava:

– Vocês comem o bandejão e estão falando de mim?!

Erasmo era um espantoso caso de animal com alma racional. Muitas vezes fora expulso da faculdade pelos vigias, açoitado por alunos de outras turmas, que imaginavam tratar-se de um quadrúpede estúpido qualquer e o enxotavam como se faz a um cachorro que entra numa igreja. Contudo, logo vinha alguém que conhecia os seus peculiares predicados, a sua inusitada condição de aluno quadrúpede, de animal dotado de razão, mais do que isso, de aguda razão. Alguns acabavam recordando-se de tê-lo visto uma ou outra vez falando no orelhão.

Mesmo andando sobre quatro patas, algumas coisas estupefaziam-no. Ele tinha a impressão de que muitos de seus colegas ruminavam, só que com a silenciosa docilidade dos cordeirinhos. Ele via uma estranha linearidade no comportamento do rebanho, equivalente à dos de sua espécie que sempre fazem a mesma coisa, sem maiores reflexões, desde que o mundo é mundo. Percebia, com estarrecimento, que alguns de seus amigos eram tão dóceis aos mestres quanto seus irmãos aos capatazes. Novamente, com uma diferença: seus irmãos sabiam dar coices!

Mas, voltemos ao último semestre. Erasmo estava concentrado nos estudos. Vivia como um asceta. Não bebia, não fumava, não ia pras baladas. Nem sabia quem estava pegando quem. Ele nem se dava conta da existência de uma sua colega, mula, que partilhava algo de sua índole. Só por isso não a mencionei ainda. Também ela era um ser superior. Superior às outras mulas. Ademais, era belíssima, meiguíssima, finíssima, humílima e vários outros íssimas. Não se sabe como, mas era mais bela que todas as outras alunas reunidas e elevadas à décima potência. O sonho de consumo de qualquer animal menos distraído. Também ela passara pelos dissabores de possuir uma alma racional em corpo de animal. Apenas seu nome soava um pouco estranho: Suplícia, mas tinha algo que ver com a sua sorte. Suplícia apaixonou-se por Erasmo.

Lançando mão de recursos mais ou menos sutis, de expedientes mais ou menos criativos, Suplícia tentava a todo custo chamar a atenção de Lutero, digo, de Erasmo, que, absorto em suas meditações, absolutamente não a notava. Deixava ela às vezes cair os livros no chão para que ele pegasse, o que este fazia de bom grado, mas sem distinguir o dolo específico contido na ação da estupenda, extraordinária, magnífica e fenomenal colega.

Depois de muita persistência de Suplícia, caíram as escamas dos olhos de Erasmo e ele viu. Viu que ela o amava. Começaram a namorar... Só que o namoro não demorou muito, pois Erasmo era um asceta, um místico, um ser esquisito, que só pensava em estudar.

Suplícia não se conformou com o rompimento, que lhe partiu o coração. Caiu em depressão profunda, começou a embriagar-se e a usar drogas. Sua aparência tornou-se horrível. Parecia não dormir. Alguns diziam:

– Vejam o seu estado deplorável! Está apaixonada! Não se valoriza!

Outros comentavam:

– Não suportou o baque. Ficou louca. Perdeu a cabeça.

Suplícia tentava preencher o vazio que havia em si, o vazio deixado por Erasmo. Mas trocava os pés pelas mãos, digo, as patas traseiras pelas dianteiras. Rolava ladeira abaixo, na ladeira da existência. Perdeu o juízo.

E essa, meus amigos, acreditem ou não, é a verdadeira história, é a verdadeira origem da mula-sem-cabeça.

Paul Medeiros Krause
 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

EM BREVE


Prezados amigos, em breve teremos:

-- "Extrema unção";

-- "Erasmo, o asno"; e,

-- "Hã?".

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

MÁSCARAS


            Prezado leitor, será que nós estamos plenamente convencidos de que Deus criou-nos para a felicidade suprema e completa? Será que nos conduzimos por essa verdade?

 

            Estou me aproximando dos meus quarenta anos, no ano que vem os completo, se Deus quiser, e as leituras e a experiência de vida acumuladas até aqui levam-me a crer que a maioria de nós não nos convencemos da nossa vocação inadiável para a felicidade. Ou, dito de outra forma, estou convencido da existência de uma tentação sutil, sorrateira, que o demônio arma aos crentes: a ideia ilusória de que seguir o caminho de Deus significa negar a própria natureza, o aniquilamento do próprio eu, o sacrifício da espontaneidade e da criatividade, a mutilação da personalidade.

 

            O demônio é como o PT, na verdade, o PT, verdadeira sucursal do inferno, é como o demônio: acusa os outros do que ele faz. A grande verdade é que o capeta, quanto mais uma pessoa a ele se confia, de forma tácita (talvez a mais comum) ou expressa, mais destrói a sua natureza, o seu eu, a sua identidade única, a sua liberdade e espontaneidade. As personalidades confiadas ao pai da mentira são fragmentadas, sem unidade e coerência. O diabo, astuto conhecedor da natureza humana, sugere continuamente aos homens a ideia de que Deus os quer tristes e frustrados, os quer mutilados, quer negar-lhes tudo. Lembremo-nos da primeira mentira da serpente no Livro do Gênesis: “É verdade que Deus vos proibiu de comer de toda árvore do jardim?”.

 

            O Livro do Gênesis é de uma atualidade gritante. Aquela mentira é diuturnamente soprada aos ouvidos da nossa alma pelo inimigo do gênero humano. Desgraçado, derrotado, sumamente infeliz, invejoso, escravo dos seus vícios, Satanás deseja ver-nos desgraçados, destroçados, fragmentados, sumamente infelizes como ele.

 

            Há uma máxima, salvo engano, da teologia escolástica: “A graça não anula a natureza, mas a leva à perfeição”, isto é, a ação de Deus, a ação do Espírito Santo na alma em estado de graça, não destrói a natureza humana, não a mutila, não a cerceia, mas eleva-a, aperfeiçoa-a. Nesse sentido, só pode ser uma tentação diabólica pensar que a ação do Espírito Santo na nossa alma aniquilará o nosso próprio eu, sufocará a nossa individualidade, destruirá os nossos gostos, as nossas inclinações, eliminará os nossos lazeres, lançará uma camisa de força em nossa criatividade. Nada mais falso! É justamente o contrário. O Espírito Santo tão somente aperfeiçoará os nossos mais legítimos anseios, orientando-os para o seu pleno atingimento.

 

            É por desconhecer essas verdades que muitas vezes usamos máscaras. É por ignorar isso que tantas vezes nos apresentamos diante de Deus e dos homens como nós não somos, exibindo virtudes que não possuímos e dissimulando nossos defeitos. Temos uma visão equivocada, distorcida e estereotipada da santidade. Muitas vezes, até para rezar, utilizamos entonações sentimentais, piegas, esquisitas, pasteurizadas, como se a eficácia da nossa oração dependesse de uma certa homogeneidade, da opinião exterior da assembleia, e não da nossa nudez, da nossa tranquila simplicidade diante de Deus, que conhece até as dobras das nossas almas. Muitas vezes temos a ideia falsa de que Deus deseja um monte de robozinhos que O sirvam. Esses robozinhos, se olharem para o lado, já estariam pecando. Nada disso. Isso é escrúpulo.

 

            “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Deus não nos quer com máscaras. Deus não nos quer com poses de santos; quer-nos santos, sem pose. Santos ao natural, com os cabelos ao vento. Ele não quer entonações afetadas, sorrisos forçados, artificialismos. Ele quer que sejamos santos com toda a tranquila espontaneidade que emerge das nossas almas banhadas pela luz do seu Espírito. Deus quer expandir a nossa personalidade ao máximo, e não manietá-la. Não é à toa que, ao ressuscitar Lázaro, Cristo mandou que o desligassem, o desamarrassem. Deus não nos impõe pesos desnecessários, pois o seu fardo é suave, e o seu peso, leve.

 

            O Espírito Santo é criativo por natureza, e Ele quer que sejamos livres, criativos também. Deus só nos proíbe a autodestruição. O pecado é uma espécie de automutilação, de autoflagelo ou suicídio espiritual. A Lei de Deus, portanto, só nos proíbe de ferirmos a nós mesmos e aos outros. O pecado nos desfigura; a graça nos cura.

 

            É sempre bom lembrar as palavras do Papa João Paulo II no início do seu Pontificado: “Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarai as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas econômicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem 'o que é que está dentro do homem'. Somente Ele o sabe!”

 

            O que Deus nos tira, meus irmãos, é o que não é Dele: são as falsas alegrias, os falsos gozos, as falsas amizades, as falsas esperanças neste mundo ilusório, pois, como diz São Paulo, “a figura deste mundo passa”.

 

            Tenhamos a coragem de ser nós mesmos. De corresponder cada vez mais à nossa própria natureza, à nossa própria identidade. Deus que nos criou com todos os nossos dons quer que os desenvolvamos ao máximo, e não que enterremos nossos talentos na terra. Ele mesmo disse isso no Evangelho. Ele não quer tolher a nossa personalidade, não quer vestir-nos uma camisa de força. Pelo contrário, o Espírito Santo é o espírito da abertura, da alegria, da liberdade calma, da espontaneidade tranquila, da simplicidade serena. Nosso Criador não nos deu dons para que nós os atrofiássemos.

 

            Confesso a vocês, e talvez já tenha dito isso antes, para mim, as manhãs de domingo são uma metáfora, uma figura do paraíso, da eternidade. Quando vou fazer meu esporte nas manhãs de domingo, vejo tanta alegria, tanta espontaneidade, tanta criatividade nas pessoas: vejo bicicletas diferentes, skates diferentes, tantos tipos de motos, carros, brinquedos e diversões. Vejo coisas que eu nem imaginava que existissem. Estou seguro de que o paraíso é assim: uma explosão de felicidade, de criatividade e de espontaneidade, em que as nossas personalidades se mostram integralmente e encontram a sua plena realização e o seu pleno desenvolvimento, sob o sol luminoso da presença de Deus.
 

 

Paul Medeiros Krause