sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

MIRADA SOBRE A FELICIDADE


Um dia encontrei-me num bar com uma conhecida, uma espécie de colega ou semi-amiga, num aniversário de um amigo comum, e ela lançou-me a seguinte pergunta, bastante incômoda e dura, com solapada ingenuidade:

— Olá, Paul! Como andam as coisas? Você está feliz?

Imediatamente pensei: “‘Feliz’?! Que pergunta é essa? Que falta de pudor a dessa infeliz? Por que se interessa pela minha nudez, pela nudez da minha alma, pelos mornos recônditos do meu espírito? Quer mesmo que eu me dispa? Que vai fazer ela com tal revelação? Acredita-se ela merecedora desse raio-x? Por que não me perguntou ela pura e simplesmente se estou bem, se estou alegre, coisas mais vagas, mais alheias, mais rasteiras? Quantos tratados os filósofos não escreveram sobre o que é a felicidade? Saberei eu o que é a felicidade para dizer se estou feliz? Não tenho a menor ideia da resposta.” Parecem muitos pensamentos, demasiadas perguntas para mísero meio segundo, contudo creio que consegui fazê-las. Mas não foi só.

Nesse mesmo meio segundo ou segundo e meio, vasculhei ou tentei vasculhar cada recanto, cada dobra da minha alma para ver se estava feliz. Pareceu-me que em alguns cantos, sim, em outros, não, em algumas galerias, mais ou menos. Mas o pior: tive a impressão cruel de que a felicidade é infinita e não se pode alcançar inteiramente. É uma meta inalcançável, a que sempre se acrescenta alguma coisa. Uma vez atingida, ela se aumenta, se multiplica, se desdobra, cria novas exigências. Sempre lhe falta algum pedaço.

É incrível o que eu conseguir fazer ou pensar agora já em dois segundos. Respondi qualquer coisa, qualquer estupidez ou banalidade, nem me lembro o quê. No futuro iria conhecer um blasfemador, um profanador da verdade, um herege, um garçom de restaurante famoso que me perguntaria após a refeição se eu estava feliz. Era uma pergunta sacrílega. Um uso indevido de palavra sagrada. Cheguei a dizer-lhe uma vez: “Não exagere! Não empregue a ‘felicidade’ para coisa tão pequena e instantânea, muito menos para supervalorizar o seu ofício...” Na verdade, não disse a parte final. Mas tive vontade.

Minha amiga conseguiu estragar ou aprofundar as trevas da minha noite, tirar o sabor do meu chope e absorver inteiramente meus pensamentos em volta da palavra ‘felicidade’. Não se faz assim covardemente uma pergunta filosófica na porta de um boteco!


terça-feira, 6 de novembro de 2018

"O OVO DA MINHOCA" E DUAS IMPRUDÊNCIAS

 
Quando estudei no Colégio Técnico da UFMG, o glorioso Coltec, fui editor, vamos dizer assim, do jornalzinho dos estudantes, com o magnífico nome de "O Ovo da Minhoca".
 
É com admiração que recordo que a minha integridade física foi preservada, mesmo diante de duas imprudências do editor e redator.
 
A primeira foi que certa vez inventei uma seção fictícia chamada "Troca-troca". Nessa seção pus um anúncio fictício mas com o nome real de um colega. O anúncio era assim: "Troco tevê preto e branco por gravata colorida." O colega veio tirar satisfações mas eu disse que foi uma homenagem e ficou por isso mesmo.
 
A segunda foi com outra seção, que plagiava escancaradamente o Millôr Fernandes.
 
No Coltec havia o curso técnico de "Instrumentação", não sei se ainda há, carinhosamente designado de "Instrumes".
 
Pois bem. Comecei a seção assim: "REFLEXÕES SEM ODOR, À moda dos estrumes da Instrumes".
 
Passei ileso. Tive sorte.
 
Nessa ocasião inventei ainda a seção do "Horóscopo Coltecano". Havia um signo em que as mulheres gostavam de usar cabelo e nariz grandes...
 

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

TODOS OS SANTOS

"Todos os santos", Fra Angelico.

Hoje, no calendário litúrgico, é a Solenidade de Todos os Santos. No Brasil, a CNBB, com prévia aprovação da Santa Sé, transfere-a para o domingo seguinte.

É muito bonita essa festa. É a comemoração que abrange também todos os santos não canonizados, nossos amigos, nossos parentes, aqueles que conviveram conosco e que já vivem na glória do céu.

No dia 1.º de novembro, a Igreja inicia a semana dos mortos, que se estende até o dia 8 de novembro. Durante esses oito dias é possível lucrar uma indulgência plenária, exclusiva para os falecidos, mediante uma visita ao cemitério, rezando-se lá pelo menos um Credo e um Pai-Nosso, além do cumprimento das condições gerais: desapego de todo pecado, mesmo venial; estado de graça obtido antes do fim da visita ao cemitério; confissão individual, pelo menos 20 dias antes ou depois da visita; comunhão e oração pelas intenções do Papa (pelo menos, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria).

A partir do meio-dia de hoje até às 24 horas de amanhã, a visita poderá ser a uma igreja paroquial, rezando-se lá pelo menos um Credo e um Pai-Nosso e cumprindo-se as condições gerais.

É um grande ato de caridade socorrer as almas do purgatório. Não nos esqueçamos delas. E não nos esqueçamos dos santos que conviveram conosco e que agora são nossos advogados, auxiliadores e intercessores no céu.

Todos os santos, rogai por nós!



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

NOSSO LOUVOR A DEUS, COM UMA PÁGINA ESPLENDOROSA

 
Nesse 7 de setembro, nosso louvor de agradecimento a Deus e a Nossa Senhora, por terem livrado o Brasil do comunismo em 1964, por meio do maravilhoso e dócil instrumento dos soldados da terra, mar e ar, com uma página esplendorosa do mestre Corção, falecido há quarenta anos:
 
“Naquela manhã, à saída da missa, percebemos logo que a anormalidade chegara a um ponto decisivo. Antes mesmo de ver os lenços azuis, sentimos o ar de um dia diferente. O que faziam ali aqueles rapazes de lenço azul e revólver na cinta? Eram milicanos. O que é que se esperava? Um ataque ao palácio do Governador da Guanabara.
 
Esboçavam-se filas diante dos armazéns. A cidade inteira - advinhávamos - se preparava e se retesava. Caminhamos na direção do Palácio e encontramos amigos, homens pacíficos, negociantes e professores, que se dirigiam também ao Palácio, com um revólver surgido na cinta que jamais sonhara tamanha responsabilidade. O brasileiro bom, o brasileiro sem jeito, modesto, caminhava mansamente e sem ares de heroísmo para uma situação em que possivelmente teria de dar a vida. Povo manso, povo bom, pensava eu, mas também povo bobo e sem jeito. O que iria acontecer?
 
Numa esquina ouvi uma conversa entre dois populares:
 
- Parece que os tanques vão atacar o Palácio pela Rua Passandu.
 
- Não pode. Ô cara, você não sabe que é contra-mão?
 
Perto do Palácio adensava-se a multidão, mas no meio dos homens canhestramente dispostos a dar a vida pela Pátria passavam meninos de bicicleta e moças risonhas e despreocupadas. Seria da mocidade, desta bateria nova e bem carregada, que eles tiram tamanha energia? Não. O povo todo, observando melhor, ostentava uma graciosa e leve coragem. Uma coragem humorística. E eu tive, de repente, a intuição viva e fulgurante da vitória desse gênio brasileiro contra a substância que o ameaçava.
 
Pouco depois chegou a primeira onda de notícias surpreendentes: os tanques tinham aderido ao Governador, as Forças Armadas dominavam a situação, João Goulart fugira do Palácio das Laranjeiras, sem tempo de meter a fralda da camisa para dentro das calças. Pouco tempo depois confirmava-se a notícia, e o povo brasileiro (com exceção dos intelectuais de esquerda e dos eclesiásticos paracomunistas) ficou sabendo que Nossa Senhora ouvira nossas súplicas, que Deus nos salvara e que o instrumento escolhido para este milagre fora o nosso bom soldado da terra, mar e ar.
 
 
Dois dias depois, em todas as cidades grandes do Brasil, o povo encheu as ruas com a Marcha da Família - com Deus pela Liberdade. Eu e quatro amigos estivemos perdidos, imersos na mais densa multidão que jamais víramos reunida. Ali estava o que os intelectuais de esquerda chamavam o antipovo. Ali estava o sangue vivo de nosso bom Brasil. E eu então senti-me possuído de uma enorme admiração por este povo singular que acabava de vencer uma Copa do Mundo no combate ao comunismo.... Agradecendo a Deus os favores de exceção que de certo modo não merecíamos, agradecia também os favores da natureza e das merecidas consequências. Grande povo! 'A Europa curvou-se ante o Brasil' nos dias de Santos Dumont. Menino de quatro anos, cantei o pequeno hino de nossa projeção internacional. Velho, às portas dos setenta, cantava outro hino e candidamente prelibava a admiração universal diante da facilidade dançarina, graciosa, dionisíaca, com que o povo brasileiro pôs a correr os comunistas. (Mal sabia, na embriaguez de meu entusiasmo, que o mundo inteiro nos caluniaria. Os Estados Unidos com base na superstição de sua liberal democracia, ou no seu 'democratismo', e a Europa com base no esquerdismo que se apoderou dos meios de comunicação).
 
Foi um dos mais belos espetáculos que vi. E tenho pena dos corações alienados que não tiveram a capacidade para acolher tão boa e tão bela alegria. Lembrei-me de uma página de Léon Bloy. A França acabara de marcar a vitória do Marne. Os jornais estavam encharcados de júbilo, de esperança, de triunfo. Mas Léon Bloy folheava os jornais com cólera crescente, e depois com tristeza infinita. O que é que o velho leão procurava nos cantos dos jornais? Lá está escrito em seu Diário: 'Je cherche en vain le nom de Dieu' [Eu procuro em vão o nome de Deus].
 
Ora, em nossa grande Marcha - cuja fotografia está diante de mim - não houve menção de um só nome dos tantos civis e militares que bem mereceram o aplauso do povo. Havia um só nome: o nome de Deus."
 
 
(Gustavo Corção, na sua antológica e densa introdução de "O século do nada", sobre a vitória do Brasil sobre o comunismo em 1964)
 
 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

MEMÓRIA DE SÃO DOMINGOS DE GUSMÃO

Urna com os restos mortais de São Domingos, em Bolonha

CUMPRE, Ó PAI, O QUE DISSESTE


Em 1221, numa sexta-feira, 6 de agosto, duma cela do convento dominicano de Bolonha voava para o Céu a alma de São Domingos de Gusmão, o homem que, segundo palavras do Eterno Pai a Santa Catarina de Sena, foi o mais parecido com o Filho de Deus encarnado, na sua alma, no seu corpo e nas suas obras.
 
Nasceu em Caleruega, uma pequena aldeia da Província de Burgos e Diocese de Osma, no dia 24 de junho de 1170, dia da festa de São João Batista, a quem tão de perto viria a imitar no seu longo e fecundo apostolado.
 
A sua família era das mais distintas e ilustres do reino. Filho de pais santos, superou, em ciência e santidade, todos os seus familiares. Aos 14 anos ingressou na Universidade de Palência, sendo considerado, entre os estudantes, um autêntico anjo pela pureza do seu coração e penetração da sua inteligência.
 
Cedo começou a revelar o seu amor aos irmãos carentes, física e espiritualmente, e total desprendimento dos bens terrenos. Um dia, ao verificar os horríveis efeitos da fome por que passavam os pobres, consequência duma prolongada seca, para os poder socorrer vende tudo o que possui, até os preciosos códices por onde estudava, dizendo: "Não quero peles mortas, quando vejo morrer as vivas" [os livros eram feitos de peles de animais]. Outra vez, ao ver uma mulher chorar amargamente por um seu irmão cativo dos mouros, e sem meios para o resgatar, oferece-se para ficar no lugar do prisioneiro e, deste modo, o libertar do cativeiro.
 
Concluídos os estudos, Domingos transfere-se para Osma e ali é eleito arcediago da catedral. Em 1203 acompanha o seu bispo numa longa viagem até à Dinamarca, ao serviço do rei Afonso IX de Leão. Nessa viagem, toma contato direto com a heresia albigense. Em Tolouse, na hospedaria em que pernoitam, Domingos passa toda a noite a disputar com o proprietário da hospedaria, herético fanático, e leva-o a abraçar a verdadeira fé. Este acontecimento constitui um marco decisivo na sua vida: na ânsia de salvar almas, da Dinamarca segue para Roma a fim de obter do Papa autorização para se dedicar à evangelização dos cumanos. Inocêncio III, porém, preferiu confiar-lhe a conversão dos albigenses que assolavam sobretudo o sul da França.
 
Aqui começa a ingente e frutuosíssima gesta apostólica de Domingos. Com a sua alegre e doutrinal pregação, rapidamente conquista a simpatia de alguns jovens universitários que aderem ao seu sublime ideal de conquistar almas para Deus. Rodeado de uma plêiade de virtuosos e cultos sacerdotes, ardendo em vivos desejos de participarem em tão santa cruzada, funda a Ordem dos Pregadores, confirmada oficialmente pelo Papa Honório III, com a Bula 'Religiosam vitam', de 22 de dezembro de 1216.

Domingos e seus filhos "empreenderam viva luta contra os erros e contra os vícios que ao tempo dizimavam o rebanho de Cristo. A vida de São Domingos e´ de uma operosidade que raia pelo inverossímil: pregando, percorreu, sempre a pe´, a Espanha, a França e a Itália; fundou numerosos conventos para homens e mulheres. Deus honrou-o com o dom das profecias e milagres". E, segundo uma tradição imemorial, da Santíssima Virgem, de quem era profundo devoto, numa ermida a ela dedicada, terá recebido a revelação do Rosario; não, e´ claro, como a praticamos hoje, mas na sua gênese.

São Domingos tinha também uma extraordinária devoção a Jesus Eucarístico. Dificilmente se encontrara´ um adorador noturno que, como ele, tenha passado tantas horas junto do sacrário, desde o crepúsculo ate´ o amanhecer, orando em variadas e expressivas atitudes: ora de joelhos, ora de pe´, com os braços em cruz ou de mãos juntas elevadas para o ceu; outras vezes todo prostrado no pavimento da igreja.

Após uma vida tão laboriosa e cheia, Domingos, esgotado pelo trabalho, pelo calor do verão e pela febre, ele, que nunca quis dormir numa cama, nem sequer num simples colchão, viu-se forçado a deitar-se numa pobre enxerga de palha, no convento de Bolonha. Conheceu, então, que chegara a hora de receber o merecido "salario" do seu imenso labor na vinha do Senhor. Com São Paulo, podia dizer confiadamente: "Avizinha-se o tempo da minha libertação. Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora já me aguarda a merecida coroa, que me entregara´ o Senhor, justo juiz... O Senhor esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse proclamada" (2 Tm 4, 6-8.17).

"Humilde ate à ultima hora, fez confissão geral diante dos irmãos presentes", deixando todos edificados, porque nunca perdera a inocência batismal; pediu o sacramento da unção dos enfermos e o santo viatico e, de seguida, que os irmãos se preparassem para a encomendação da alma. Todos se ajoelharam para iniciar as ladainhas, mas Domingos pediu-lhes que esperassem um pouco e começou a falar-lhes como Jesus aos seus discípulos na ultima Ceia: "Amai-vos uns aos outros, sede humildes, pobres e puros. Deixo-vos este testamento e esta herança com a benção de Deus e a minha".

Chorando, Frei Ventura aproximou-se dele e disse-lhe: "Pai, vede como nos deixais a todos consternados e órfãos. Lembrai-vos de nos quando estiverdes na gloria de Deus". São Domingos levantou os olhos para o ceu, juntou as mãos, rezou e, voltando-se para os seus filhos angustiados, disse-lhes: "Espero no Senhor que depois de morto vos serei mais útil do que em vida. Não vos esquecerei, levo-vos no coração. No ceu ajudar-vos-ei mais do que aqui". E, momentos depois, a sua santa alma voava para Deus. "Ao amortalha-lho, tiraram a cadeia de ferro que lhe cingia o corpo e com que se disciplinava".

Domingos foi canonizado por Gregorio IX a 13 de junho de 1234. A sua festa litúrgica celebra-se a 8 de agosto.

Desde que a trasladação das suas relíquias se fez numa terça-feira (24 de maio de 1232), este dia ficou, na Ordem Dominicana, consagrado ao Santo Patriarca.

Deus de ternura e compaixão, que suscitaste em Domingos o pregador do teu Evangelho de misericórdia, Evangelho da plenitude da justiça, e o levaste a construir uma família que, em obras e palavras, testemunhasse a gratuidade do teu amor, ajuda-nos a encontrar o silencio donde saia a palavra que alumie de esperança a nossa noite e o gesto que nos traga uma paz ardente.

Faz do Espirito de Jesus Cristo a graça da nossa vida. Amém.




Fonte: Novena a S. Domingos. Editorial Apostolado do Rosario. 2. ed. actualizada. Fatima. 2006.

Distribuidor: Secretariado Nacional do Rosario. Padres Dominicanos.
                      Rua de São Domingos s/n - 2495-431 FATIMA
                      E-mail: snrosario@clix.pt