Caros amigos, foi-me pedido para falar sobre a importância da humildade no serviço a Deus. Mas sendo a humildade uma virtude tão essencial, tão basilar, peço licença para tratar dela de um modo mais amplo. Acredito que podemos refletir sobre a importância da humildade na vida espiritual de todo o cristão. A observação que eu faria é que os que estão no serviço de Deus, os que são consagrados a Deus de alguma forma, devem ser ainda mais humildes do que os outros, para receberem mais graça, correspondendo à sua missão, porque serão mais tentados.
Não somos pelagianos. O pelagianismo foi uma heresia, combatida por Santo Agostinho, que dizia que podemos progredir moralmente, progredir na vida espiritual, sem o auxílio da graça de Deus, por nosso próprio esforço. Isso é impossível! Na verdade, não há vida espiritual sem humildade. Assim como o orgulho é a raiz, é a origem, é o princípio de todo pecado, causa da queda de Satanás e dos nossos primeiros pais, a humildade, sua virtude contrária, é a base, o fundamento da vida espiritual: é o alicerce de todas as outras virtudes.
A palavra “humildade” vem de “húmus”, que quer dizer terra. Ela significa que devemos nos inclinar para a terra, reconhecendo que somos feitos de pó.
Dizem os autores espirituais que as virtudes são como os dedos das mãos; estão interligadas. Quando uma virtude cresce, todas as outras crescem juntas, como os dedos de uma mão, que ficaria deformada se um dedo crescesse sozinho. Se não crescemos na humildade, não crescemos verdadeiramente nas outras virtudes.
Foi pelo orgulho que Lúcifer, de mais alto dos anjos, tornou-se o pior dos demônios. Foi pelo orgulho dos nossos primeiros pais, querendo tornar-se iguais a Deus, que o pecado, a morte, a dor, as doenças físicas e espirituais entraram no mundo, como também ocorreu para os seres humanos a perda dos dons preternaturais, isto é, que estão acima da natureza humana, como o da ciência infusa e o domínio das paixões, além da imortalidade e impassibilidade já aludidas.
O orgulho é como uma venda posta nos olhos da alma. É uma falsidade que impede de contemplar a Deus. É uma visão distorcida e aumentada das nossas qualidades e dos defeitos dos outros. Lúcifer, sendo mera criatura e, como tal, sendo infinitamente inferior a Deus, encantou-se consigo mesmo, julgou-se infinitamente melhor do que era, quis ser igual a Deus e disse: “não servirei [a Deus]”. O que levou o humilde Miguel a dizer: “Quem é como Deus?” Como o orgulho é uma visão falsa da realidade, Deus não revela os seus segredos aos soberbos, mas aos que se fazem pequeninos, os humildes.
Assim, nós percebemos quanta razão tinha Santa Teresa de Jesus quando fazia, no Caminho de Perfeição, a sua célebre definição: “a humildade é a verdade”. Em outras palavras, a humildade é uma visão correta, verdadeira, da grandeza de Deus e do nosso nada. Devemos nos lembrar sempre de que Deus, que é tudo e é fonte de tudo, nos criou do nada e nos mantém constantemente no ser, na existência. Se não fosse assim, voltaríamos ao nada. Muitos erroneamente pensam que Deus nos criou e depois não faz mais nada. Não é assim. Ele nos conserva continuamente no ser, na existência. Não fosse assim, voltaríamos ao nada de onde viemos. É o que nos ensina Santo Tomás.
Um dos escritores de que eu mais gosto é Fiódor Dostoiévski. Ele é famoso por conhecer profundamente a alma humana, a psicologia humana. Ele é um fino psicólogo. Esse grande autor conseguia descrever com muita precisão e coerência os perfis psicológicos de seus personagens. E uma das coisas que eu mais gostei de ler em seus livros é a descrição que ele faz de alguns personagens: “fazia uma ideia exagerada das próprias virtudes e qualidades”. Isso chama-se orgulho. É o oposto da humildade.
A humildade, ao contrário do que muitos pensam, não é uma ideia exagerada dos próprios defeitos, ou diminuída das próprias virtudes. A humildade, como diz a grande Reformadora do Carmelo, é a verdade. Bem por isso, São Paulo pôde dizer, mantendo a humildade: “combati o bom combate. Completei a carreira. Guardei a fé. Sou o último dos apóstolos, nem mereço ser chamado apóstolo, mas trabalhei mais do que todos”. A humildade, repito, é a verdade.
Vejamos a excelência da humildade. Eu diria que é a virtude que mais atrai a Deus. Ele escolheu para serem seus pais as duas pessoas mais humildes da história, Maria e José.
Para resgatar a humanidade, Deus seguiu o caminho inverso do que homem seguiu para pecar. O homem caiu pelo orgulho. Deus nos resgatou, nos elevou pela humildade. E a renovação da obra de Deus é superior à inocência original do homem.
O homem pecou querendo tornar-se igual a Deus. Deus nos salvou fazendo-se homem, rebaixando-se. O rebaixamento de Deus é muito maior do que um homem tornar-se um verme, pois entre Deus e nós há uma distância infinita, que não há entre o homem e um verme.
Um anjo apareceu a Eva convidando-a a desobedecer a Deus e a levar Adão a se tornar como Deus. Um anjo apareceu a Maria, convidando-a a obedecer a Deus, ajudando o Novo Adão, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a rebaixar-se, fazendo-se homem. Ela deu à humanidade o verdadeiro fruto da árvore da Ciência do Bem e do Mal.
Ao encarnar-se, humilhando-se Ele mesmo em primeiro lugar, Deus escolheu os santos mais humildes para serem seus pais: José e Maria. Eles devem ser o nosso modelo. Reparemos como eles não fazem nada para aparecer, para se distinguir, para singularizar-se. Os autores espirituais criticam fortemente a singularidade. Assim devemos ser: discretos, sem chamar a atenção, sem piedades chamativas, preferindo as devoções mais comuns do que as mais chamativas e especiais.
Só Cristo pode dizer de Si mesmo: “aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. Todos os que dizem ser humildes ou que querem ser louvados por sua humildade são orgulhosos refinados, disfarçados, de um orgulho ainda mais perverso. Quando uma pessoa se considera humilde, no mesmo instante perdeu a humildade, e o seu edifício espiritual desaba.
Conta-se que Dom Bosco teve uma visão ou sonho sobrenatural em que ele via os demônios debatendo no inferno sobre como tentariam seus filhos espirituais do Oratório Festivo. Eles examinaram vários pontos, concluindo que por estes fracassariam. Finalmente resolveram tentar os meninos pela soberba. E Dom Bosco despertou assustado...
São Francisco de Sales possui uma máxima muito interessante. Ele diz que não existe pessoa casta que não seja humilde. Esse grande doutor da Igreja entende impossível existir um orgulhoso casto, porque Deus se afasta e permite que o orgulhoso caia nos pecados mais vergonhosos, para abater e corrigir o seu orgulho.
Vejamos como é interessante o que Jesus falou: seu coração é manso e humilde. A humildade e a mansidão são virtudes conexas. Os orgulhosos são impacientes, são violentos. Quantas brigas de trânsito por impaciência, por orgulho, por pequenas bagatelas! Quanta intolerância quanto aos defeitos dos outros! Quanta falta de respeito à dignidade e ao direito dos outros! O orgulhoso não tolera os defeitos dos outros, mas é condescendente com os próprios. A maioria das brigas de trânsito se dá por orgulho: orgulho e violência. Foi por orgulho que Caim, ciumento, matou Abel. O diabo é homicida desde o princípio.
Já tive oportunidade de dizer que as virtudes morais podem ser adquiridas ou infusas. Só possui as virtudes morais infusas quem está em estado de graça. As virtudes morais adquiridas são instáveis e não estão conectadas umas às outras, às virtudes vizinhas. Para ter uma verdadeira humildade, a pessoa precisa estar em estado de graça e possuir a virtude moral infusa da humildade, que é uma subespécie da temperança, assim como a mansidão e a castidade. A temperança está ligada ainda ao dom do Espírito Santo do Temor de Deus. Somente quem está em estado de graça possui os dons do Espírito Santo. Eis as conexões todas da virtude moral da humildade em quem está saudável espiritualmente.
Só é humilde quem ama a humilhação, quem aceita ser humilhado, quem reconhece que, por seus pecados, todo desprezo e humilhação do mundo são pouco. Há indivíduos que gostam de se fazerem de humildes, de falar mal de si mesmos para serem corrigidos ou elogiados, mas não suportam ser criticados pelos outros, só por si mesmos. Também não toleram os defeitos dos outros, são intransigentes com os defeitos alheios. Isso é falta de humildade e refinada soberba.
Para pôr concretamente em prática a humildade eu recomendo o livro do Papa Leão XIII, “A prática da humildade”. Quantas lições preciosas há nesse livro! Uma das medidas que ele mais recomenda é evitar toda singularidade. Devemos procurar sumir na multidão, não chamar atenção para nada, estar mais abertos a aprender do que a ensinar, nunca adotar ares professorais, exalando autoridade. Há muitas outras lições práticas nesse livro, que eu gostaria de recomendar muito!