quarta-feira, 7 de agosto de 2013

CELIBATO E PEDOFILIA


O art. 295, parágrafo único, inciso II, do Código de Processo Civil diz: “Considera-se inepta a petição inicial quando da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão”.

Embora o texto acima transcrito seja oriundo de uma norma legal, do específico mundo do direito, a ideia nele contida é perfeitamente aplicável à ideológica correlação que se faz entre o celibato dos padres e os crimes de pedofilia praticados por alguns deles.

Há alguns dias, Carlos Alberto Di Franco publicou no “Estado de São Paulo” um excepcional artigo intitulado “Igreja, uma megacobertura”. Do seu texto, extraem-se essas valiosas informações:

“O conhecido sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas 100 sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto 6 mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo delito.

Na Alemanha, desde 1995, existiram 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, menos de 0,2%. Por que só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? E as outras 209 mil denúncias? Trata-se, como já afirmei, de um escândalo seletivo.”

Linhas acima, Di Franco havia afirmado:

“O exame sereno, tecnicamente responsável, mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos ocorridos é muitíssimo menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade.”

Em um sentido diametralmente oposto ao de Di Franco, mas também no “Estadão”, li ontem, 26/3/2013, o curioso artigo de Arnaldo Jabor: “Teologia da libertação sexual”. Embora eu me condoa e lamente profundamente o episódio por ele narrado e no qual figura como vítima – a Igreja realmente tem de ter tolerância zero com a pedofilia, cortando na própria carne –, o artigo de Jabor abusa dos lugares comuns, revela leitura ligeira e compreensão superficial da teologia católica e evidencia a inépcia com que a imprensa tantas vezes tem tratado do assunto. Da narração dos fatos não decorre logicamente a conclusão. Jabor acusa a Igreja de medievalismos, só que não se deu ao cuidado de ler Santo Agostinho. Santo Agostinho é mais moderno do que a ideia que Jabor tem da Igreja. Os estudos teológicos de Arnaldo Jabor não chegaram ao século IV!

Por que o Arnaldo não propõe acabar com o celibato dos professores de educação física? Seria mais lógico. Ou, se os professores de educação física da Itália não são celibatários, por que razão vincular o celibato com a pedofilia? E na Alemanha: qual é o grupo que responde pela maior parte dos casos de denúncias de pedofilia? Confesso que não sei, mas talvez a imprensa devesse saber.

Façamos um exercício de raciocínio. Dentre os padres católicos, a maior parte vive o celibato, que por sinal atravessou séculos isento dessa avalanche denuncista. Uma mínima parcela cometeu crimes de pedofilia. Esta parcela vivia o celibato? Era homossexual ou heterossexual? Pelo que se tem notícia, a maior parte dos casos de pedofilia no interior da Igreja deu-se entre pessoas do mesmo sexo. Então, por que não relacionar a pedofilia com o homossexualismo, em vez de relacioná-lo com o celibato, vivido pela maioria? Os padres pedófilos eram celibatários ou homossexuais?

Do nada, nada surge. Da abstinência sexual não pode surgir uma prática sexual. A prática sexual depravada só pode surgir entre os que têm vida sexual ativa, seja ela evidente ou oculta. É preciso distinguir o celibato real, verdadeiro, exercitado, do celibato aparente, simulado, fictício, irreal. Deve-se separar o celibato autêntico do falso. E a seleção dos candidatos ao sacerdócio deve ser capaz de distinguir os celibatários autênticos dos dissimulados.

Ora, a ideologia de emancipação dos homossexuais repele a conexão existente entre homossexualismo e pedofilia, não porque esse elo contrarie os fatos, mas porque desmente a teoria. Para as ideologias, o confronto com os fatos é uma espécie de exorcismo. Por que se fuzilam opositores a regimes ideológicos? Porque eles falam, e as palavras verdadeiras têm uma força assustadora.

As ideologias repelem os fatos como o diabo repudia a cruz. E o que o diabo faz no possesso quando vê o crucifixo? Grita e se contorce. Não é o que os defensores dos direitos dos homossexuais fazem quando se lhes opõem os fatos? O psicólogo holandês Gerard J. M. van den Aardweg, Ph.D. pela Universidade de Amsterdã, e o perito espanhol José María Amenós Vidal já demonstraram estatisticamente que o número de casos de pedofilia entre homossexuais é significativamente maior do que entre heterossexuais, o que constitui mais um ponto desfavorável à adoção de crianças por aqueles. Mas, a ideologia não nutre amor pelos fatos. Coincidentemente, o diabo, nossa alegoria, é chamado “pai da mentira”.

Na verdade, os defensores da causa gay, como de resto os últimos comunistas em extinção, veem a Igreja Católica como seu pior inimigo. Poderoso em força e em densidade intelectual. Por isso, procuram desacreditá-la.

Por que razão alguns querem editar a lei da mordaça gay, o PLC 122/2006, antigo PL 5003-b/2001? Para evitar o exorcismo dos fatos, isto é, a expulsão do diabrete da ideologia.

Por que razão querem retirar Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara? Por que tanta suscetibilidade com o que ele diz? É como eu lhe disse, leitor, a ideologia possui e subjuga as pessoas como o demônio possui os indivíduos. Embaraça-lhes o uso da razão. Põem-lhes escamas nos olhos. A oração que expele o mau espírito da ideologia é o ritual ou liturgia do confronto com os fatos. O sacramental utilizado é a água benta da clareza das ideias. Daí os gritos. Daí o contorcionismo. Os fatos doem. As preces têm eficácia.

O celibato mete medo, causa pavor. A castidade e a pureza dos padres e das freiras humilham-nos, desconcertam-nos. Não nos sentimos capazes de imitá-los. Desconfio que também os que vivem a homossexualidade sintam-se confundidos pelas pessoas continentes. Estas acusam a nossa sociedade encharcada de sexo. A mesma TV que promove a sacanagem, hipocritamente, condena a pedofilia. O celibato é um incômodo feixe de luz atirado aos olhos de quem está no breu, cambaleando, trôpego, embriagado pelo prazer dos sentidos. (Gostaria de perguntar a Arnaldo Jabor se prazer e alegria são a mesma coisa). A luz em si é boa, mas incomoda a quem está nas trevas. A continência sexual em si é boa, mas agride a quem quer comer o alimento dos porcos. Quem deplora o celibato é porque se sente incapaz de vivê-lo. Julga impossível aos outros o que é impossível para si. O inepto julga os demais ineptos.

Se alguém gritar contra este artigo, não me assustarei. É o exorcismo fazendo efeito. A propósito, deveríamos ir às ruas para defender o Feliciano. Não basta defendê-lo de longe. É o estado de direito que está em jogo. A França, outra vez, saiu na frente.
 
Paul Medeiros Krause
 
Texto também publicado no site da Revista Vila Nova

 

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