sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A MORTE DE IVAN ILITCH

É vergonhoso, é verdade, mas somente agora em julho li A morte de Ivan Ilitch, de Lev ou Leão Tolstói. Já havia lido outro livro extraordinário, nacional, que trata da mesma temática: Lições de abismo, de Gustavo Corção. Tanto Ivan Ilitch quanto o protagonista do único romance de Corção começam a enxergar a vida com outros olhos ao perceberem que o abismo se aproxima, isto é, com as lupas da morte. Ora, também nós deveríamos começar a enxergar a nossa sociedade com outros olhos ao percebermos que agoniza.

Não se trata de ser pessimista, pois para o católico o otimismo é artigo de fé. O bom filho da Igreja sabe que só há dois tipos de acontecimentos: os que Deus manda e os que Deus permite. Deus só manda coisas boas; mas pode permitir que acontecimentos ruins sucedam, para tirar deles bens maiores do que o bem original. Deus brinca com o mal; humilha-o, ridiculariza-o, tem total domínio sobre ele. Ensina Santo Agostinho que Deus não permitiria o mal se não pudesse extrair dele um bem maior. Por certo, embora sejam personagens fictícios, para Ivan Ilitch e para João Maria, a doença trouxe uma recuperação da vista, da sua vista interior.

 É necessário pedir ao Divino Redentor frequentemente o mesmo que aquele cego de nascença: “Senhor, que eu veja!”. Sim, é indispensável, porque a mídia mente para nós. Quem não percebe que os meios de comunicação são partidários? Que a maior parte deles está a serviço do dinheiro mais do que do homem e que isso significa ceder à pressão de grandes laboratórios e da indústria do aborto? Quem não se dá conta de que o Estado profere falsidades oficiais e que nos rouba mediante uma carga tributária escorchante? ... que as universidades nos enganam? O pai da mentira tem muitos filhos, e os filhos fazem o que aprenderam do seu pai.

Quem não percebe que, em determinados momentos, surgem aparentemente por acaso certos assuntos nos jornais: supostos casos de crimes de homofobia, descobertas promissoras com o uso de células-tronco (adultas, sem que a imprensa esclareça esse “pormaior”)?

É preciso pedir a Deus: “que eu veja!”. Mas não basta ficar no pedido. Devemos ficar atentos porque Deus tem nos atendido. Ele nos tem dado olhos. Quantas pessoas Ele coloca no nosso caminho que enxergam mais do que nós! Quantas pessoas boas nos fazem compreender coisas que não compreenderíamos sozinhos! Quantos homens e mulheres, vivos e falecidos, nos tomam pelos braços e nos conduzem, cientes da nossa cegueira, das trevas da nossa ignorância! Ó, meus amigos, isso é um tremendo dom dos Céus!

Em um certo sentido, posso dizer que Gustavo Corção é meus olhos. Passei a enxergar o mundo de outro modo depois que o encontrei. Refiro-me, em especial, ao livro Dois amôres – duas cidades, verdadeiramente enciclopédico e que explica com precisão cirúrgica como surgiu a civilização moderna, a civilização do homem exterior. A meu sentir, um católico que se pretenda instruído não está autorizado a deixar de ler A descoberta do outro, Três alqueires e uma vaca, Lições de abismo e O desconcerto do mundo. À medida que se os lê, percebem-se as escamas caindo dos olhos da alma, à semelhança das escamas de São Paulo. Corção é mais do que um mestre; é um amigo, um pai, um confidente. Peço a Deus por ele constantemente, porque, ainda que tenha feito afirmações perigosas no fim da vida – a respeito das quais, suplico à Trindade instantemente que o perdoe –, há em seus escritos lições indispensáveis, imprescindíveis, um remédio, um antídoto.

Não há dúvida de que a cura da cegueira espiritual e intelectual passa por Gilbert Keith Chesterton, com destaque para Ortodoxia, obra-prima para a qual não encontro adjetivos. Tudo de Chesterton é bom. Chamaria a atenção do leitor para a biografia de Santo Tomás de Aquino e para Hereges. São dignos de nota os contos policiais do Padre Brown, bem assim O homem eterno, apesar de a leitura deste ter se me afigurado intrincada, talvez por deficiência da tradução.

Dom Estêvão Bettencourt (do qual ainda conservo alguns e-mails), o Prof. Felipe Aquino, o Pe. Paulo Ricardo, Olavo de Carvalho e, em certa medida, até o blog do Reinaldo Azevedo, fazem parte da terapêutica. Recomendo apenas que não tenhamos gurus. Os homens erram; a Igreja, não. Não sejamos olavetes ou reinaldetes. Infalível é somente o Magistério da Igreja.
 

Paul Medeiros Krause

Nenhum comentário:

Postar um comentário