domingo, 16 de agosto de 2026

A SECULARIZAÇÃO DA FESTA

Márcio Luís Chila Freyesleben


A festa sempre diz alguma coisa sobre aquilo que uma sociedade considera digno de memória. Ao escolher certos dias, interromper o trabalho cotidiano e reuni-los em torno de símbolos, ritos e celebrações, uma comunidade revela o que admira, aquilo a que presta homenagem e, em alguma medida, a ordem de valores segundo a qual procura viver. Por isso, a transformação do calendário ocidental não pode ser vista como simples mudança de costumes. Ela acompanha uma alteração na maneira de compreender o homem, o tempo e o próprio sentido da vida.

Na Cristandade, o calendário ordenava o tempo em torno dos mistérios da Redenção. A Encarnação, a Paixão, a Ressurreição, a Ascensão e Pentecostes davam ao ano sua cadência fundamental. Ao redor desse centro encontravam-se as festas da Virgem Maria, dos mártires e dos santos. Mesmo nesses casos, porém, a homenagem não terminava na pessoa celebrada. O santo era venerado pela obra da graça que nele se realizara. Honrá-lo significava reconhecer a ação de Deus em uma vida humana e oferecê-la aos vivos como exemplo de fidelidade.

A antiga celebração dos mártires mostra bem essa maneira de compreender a festa. A comunidade guardava a memória do martírio não apenas para recordar uma personalidade admirável, mas porque via naquela morte o testemunho de uma vida que alcançara seu verdadeiro fim. O aniversário do martírio podia, por isso, ser chamado de nascimento para a vida eterna. A memória do morto alimentava a fé dos vivos.

Havia, pois, uma relação íntima entre calendário e cosmovisão. O tempo não era uma sucessão indiferente de dias, preenchidos conforme a conveniência humana. Possuía uma ordem religiosa. Certos acontecimentos mereciam ser recordados porque remetiam o homem a uma realidade superior à sua própria existência. A festa suspendia o ritmo ordinário da vida para lembrar que o trabalho, a necessidade material e as preocupações imediatas não esgotavam a existência humana.

A secularização alterou pouco a pouco essa compreensão. À medida que a cultura europeia perdeu sua unidade religiosa, o calendário civil ganhou autonomia e começou a organizar a memória coletiva segundo outros critérios. O homem, a nação, o Estado, a revolução, o progresso e, mais tarde, as inúmeras identidades sociais passaram a fornecer novos motivos de celebração. O calendário deixou de remeter  ao transcendente e voltou-se cada vez mais para realidades humanas.

A Revolução Francesa oferece talvez o exemplo mais eloquente dessa transformação. A criação do calendário revolucionário não pretendia apenas modificar os nomes dos meses ou a contagem dos dias. Pretendia modificar a própria memória social. Novas datas, novos símbolos, novos ritos e novas personagens deveriam educar o cidadão de uma sociedade que procurava desvincular sua vida pública da antiga ordem cristã. Não bastava derrubar instituições. Era necessário ensinar o homem a recordar outras coisas e a celebrá-las de outra maneira.

A secularização do calendário, contudo, não nasceu em 1789. A Revolução tornou explícita uma transformação que vinha de longe e que prosseguiria depois dela. O calendário civil converteu-se  em instrumento de educação social. Por meio dele, cada sociedade ensina o que merece ser lembrado, quem merece ser admirado e quais valores devem receber reconhecimento público.


Existe, nesse aspecto, certa semelhança entre a festa de um santo e a comemoração de um herói nacional. Ambas preservam uma memória e apresentam uma vida como exemplo. A diferença está no fundamento da homenagem. O santo não vale como medida última da grandeza humana. Sua grandeza aponta para além dele próprio. O herói secular, ao contrário, pode acabar celebrado por aquilo que realizou segundo os valores estabelecidos pela própria sociedade. Em um caso, a vida exemplar remete a uma ordem transcendente; no outro, a própria comunidade humana tende a estabelecer a medida segundo a qual julga seus grandes homens.

Isso não torna ilegítima toda comemoração cívica. A gratidão pela pátria, a memória dos antepassados e a homenagem àqueles que serviram ao bem comum pertencem naturalmente à vida social. O problema surge quando a nação, o Estado, a revolução ou seus heróis recebem atributos que antes pertenciam ao sagrado. A política adquire então feições de religião civil, com seus mártires, seus ritos, seus símbolos, suas datas solenes e até suas formas próprias de ortodoxia.

A secularização da festa encontrou no comércio um poderoso aliado. Seria erro, contudo, atribuir ao comércio a origem do problema ou considerar incompatíveis a festa e os bens materiais. Comer melhor em um dia festivo, oferecer presentes, ornamentar a casa, comprar flores, preparar alimentos tradicionais ou reunir a família ao redor de uma mesa são práticas antigas e perfeitamente conformes à natureza da celebração. O homem não festeja apenas com o espírito. Festeja também com o corpo, com a comida, com a música, com a beleza e com a companhia dos outros.

A inversão aparece quando essas coisas deixam de servir à festa e passam a lhe fornecer o significado. O presente, que deveria expressar afeição, transforma-se em obrigação de compra. O chocolate deixa de acompanhar a Páscoa e passa a ocupar o lugar da própria Páscoa. O Natal, em vez de anunciar o nascimento de Cristo, converte-se em uma temporada de vendas, ornamentação e confraternização cujo motivo original mal precisa ser mencionado. Conservam-se as luzes, a ceia, os presentes e a árvore, enquanto se torna possível retirar da celebração justamente o acontecimento que lhe deu origem.

Há uma diferença considerável entre comercializar elementos de uma festa e comercializar a própria festa. No primeiro caso, o mercado fornece bens que ajudam a celebrá-la. No segundo, ele passa a fabricar seu conteúdo. A pergunta mais simples talvez seja também a mais esclarecedora: o objeto serve à celebração ou toma o lugar dela?

As comemorações dedicadas aos pais, às mães, aos namorados e a outras relações humanas devem ser examinadas sob o mesmo critério. Paternidade, maternidade, amizade e amor conjugal são bens humanos verdadeiros. Nada impede que recebam homenagem pública. A secularização começa quando essas realidades são separadas da ordem que lhes dá sentido e reduzidas ao sentimento, à homenagem convencional ou ao consumo.

A paternidade pode ser recordada como responsabilidade, proteção, autoridade e transmissão da vida. A maternidade pode ser celebrada como acolhimento, cuidado, sacrifício e serviço à vida. O amor entre homem e mulher pode ser compreendido como doação, fidelidade e preparação para uma comunhão duradoura. Quando esse conteúdo desaparece, resta com facilidade uma data comercial que manda comprar alguma coisa para demonstrar um afeto cuja natureza já não se sabe explicar.

Por essa razão, a recuperação cristã dessas festas não exige necessariamente sua supressão. Pode ocorrer pela restituição de seu conteúdo. Uma comemoração familiar pode tornar-se ocasião de gratidão, oração, reconciliação, convivência, cuidado dos idosos e auxílio aos necessitados. Aquilo que o comércio apresenta como oportunidade de compra pode ser reconduzido àquilo que a festa deveria ser: oportunidade de encontro e gratuidade.

Seria incompleto, entretanto, atribuir toda a secularização a forças exteriores à religião. Uma festa pode conservar o nome cristão, seus símbolos tradicionais e até algumas de suas cerimônias, e ainda assim perder a substância religiosa que lhe deu origem. Uma festa de padroeiro pode reunir procissão, música, barracas, comida e grande participação popular e acabar reduzida a acontecimento social. O Natal pode conservar o presépio como decoração. A festa junina pode guardar o nome dos santos e esquecer inteiramente quem foram eles. A procissão pode sobreviver como folclore depois de desaparecer a disposição interior que lhe dava sentido.

A festa cristã reúne, portanto, três ordens que precisam permanecer unidas. A primeira dirige o homem para Deus e para os mistérios da salvação. A segunda reúne a comunidade, fortalece a família e conserva a memória comum. A terceira acolhe os bens materiais próprios da alegria humana: comida, descanso, música, presentes, beleza e convivência. Nada há de impróprio nessa dimensão material. A desordem começa quando ela se emancipa das outras e pretende bastar a si mesma.

O problema da festa moderna pode ser compreendido, assim, como um problema de ordem. Não foi necessário destruir todas as antigas celebrações. Em muitos casos, bastou conservar suas formas e mudar seu centro. O transcendente cedeu lugar ao humano; a memória religiosa, à memória civil; a gratuidade, ao consumo; a veneração, à admiração; a comunidade de fé, ao público consumidor. A festa continuou existindo, porém passou a ensinar outra coisa.

Recuperar seu sentido não exige hostilidade à alegria, ao comércio ou às comemorações civis. Exige recolocar cada coisa em seu lugar. O presente pode servir ao amor, a refeição pode servir à comunhão, a música pode servir à alegria, o descanso pode devolver ao homem a consciência de que sua existência não se reduz ao trabalho. Até uma data nascida do comércio pode receber conteúdo mais elevado quando deixa de ser ocasião para comprar e se torna ocasião para agradecer.

A questão, portanto, não está em saber se há presentes, comida, música ou dinheiro envolvidos em uma celebração. Está em saber o que se celebra e por que se celebra. Uma sociedade revela muito de si pelas festas que conserva e pelas que cria. Quando o calendário se ordena em torno de Deus, o tempo recorda ao homem que sua vida possui origem e fim que o transcendem. Quando o próprio homem passa a ocupar o centro, suas realizações, afetos, identidades e desejos tornam-se matéria suficiente para a celebração. E quando o mercado se apropria desse vazio, a festa corre o risco de chegar ao seu último estágio de secularização: deixa de celebrar algo para transformar-se, ela própria, em mercadoria.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

TRÂNSITO DE SÃO DOMINGOS

Basílica de São Domingos em Bolonha
Basílica de São Domingos em Bolonha

CUMPRE, Ó PAI, O QUE DISSESTE


Em 1221, numa sexta-feira, 6 de agosto, duma cela do convento dominicano de Bolonha voava para o Céu a alma de São Domingos de Gusmão, o homem que, segundo palavras do Eterno Pai a Santa Catarina de Sena, foi o mais parecido com o Filho de Deus encarnado, na sua alma, no seu corpo e nas suas obras.
 
Nasceu em Caleruega, uma pequena aldeia da Província de Burgos e Diocese de Osma, no dia 24 de junho de 1170, dia da festa de São João Batista, a quem tão de perto viria a imitar no seu longo e fecundo apostolado.
 
A sua família era das mais distintas e ilustres do reino. Filho de pais santos, superou, em ciência e santidade, todos os seus familiares. Aos 14 anos ingressou na Universidade de Palência, sendo considerado, entre os estudantes, um autêntico anjo pela pureza do seu coração e penetração da sua inteligência.
 
Cedo começou a revelar o seu amor aos irmãos carentes, física e espiritualmente, e total desprendimento dos bens terrenos. Um dia, ao verificar os horríveis efeitos da fome por que passavam os pobres, consequência duma prolongada seca, para os poder socorrer vende tudo o que possui, até os preciosos códices por onde estudava, dizendo: "Não quero peles mortas, quando vejo morrer as vivas" [os livros eram feitos de peles de animais]. Outra vez, ao ver uma mulher chorar amargamente por um seu irmão cativo dos mouros, e sem meios para o resgatar, oferece-se para ficar no lugar do prisioneiro e, deste modo, o libertar do cativeiro.
 
Concluídos os estudos, Domingos transfere-se para Osma e ali é eleito arcediago da catedral. Em 1203 acompanha o seu bispo numa longa viagem até à Dinamarca, ao serviço do rei Afonso IX de Leão. Nessa viagem, toma contato direto com a heresia albigense. Em Tolouse, na hospedaria em que pernoitam, Domingos passa toda a noite a disputar com o proprietário da hospedaria, herético fanático, e leva-o a abraçar a verdadeira fé. Este acontecimento constitui um marco decisivo na sua vida: na ânsia de salvar almas, da Dinamarca segue para Roma a fim de obter do Papa autorização para se dedicar à evangelização dos cumanos. Inocêncio III, porém, preferiu confiar-lhe a conversão dos albigenses que assolavam sobretudo o sul da França.
 
Aqui começa a ingente e frutuosíssima gesta apostólica de Domingos. Com a sua alegre e doutrinal pregação, rapidamente conquista a simpatia de alguns jovens universitários que aderem ao seu sublime ideal de conquistar almas para Deus. Rodeado de uma plêiade de virtuosos e cultos sacerdotes, ardendo em vivos desejos de participarem em tão santa cruzada, funda a Ordem dos Pregadores, confirmada oficialmente pelo Papa Honório III, com a Bula 'Religiosam Vitam', de 22 de dezembro de 1216.

Domingos e seus filhos "empreenderam viva luta contra os erros e contra os vícios que ao tempo dizimavam o rebanho de Cristo. A vida de São Domingos é de uma operosidade que raia pelo inverossímil: pregando, percorreu, sempre a pé, a Espanha, a França e a Itália; fundou numerosos conventos para homens e mulheres. Deus honrou-o com o dom das profecias e milagres". E, segundo uma tradição imemorial, da Santíssima Virgem, de quem era profundo devoto, numa ermida a ela dedicada, terá recebido a revelação do Rosário; não, é claro, como a praticamos hoje, mas na sua gênese.

São Domingos tinha também uma extraordinária devoção a Jesus Eucarístico. Dificilmente se encontrará um adorador noturno que, como ele, tenha passado tantas horas junto do sacrário, desde o crepúsculo até o amanhecer, orando em variadas e expressivas atitudes: ora de joelhos, ora de pé, com os braços em cruz ou de mãos juntas elevadas para o céu; outras vezes todo prostrado no pavimento da igreja.

Após uma vida tão laboriosa e cheia, Domingos, esgotado pelo trabalho, pelo calor do verão e pela febre, ele, que nunca quis dormir numa cama, nem sequer num simples colchão, viu-se forçado a deitar-se numa pobre enxerga de palha, no convento de Bolonha. Conheceu, então, que chegara a hora de receber o merecido "salário" do seu imenso labor na vinha do Senhor. Com São Paulo, podia dizer confiadamente: "Avizinha-se o tempo da minha libertação. Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora já me aguarda a merecida coroa, que me entregará o Senhor, justo juiz... O Senhor esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse proclamada" (2 Tm 4, 6-8.17).

"Humilde até à ultima hora, fez confissão geral diante dos irmãos presentes", deixando todos edificados, porque nunca perdera a inocência batismal; pediu o sacramento da unção dos enfermos e o santo viático e, de seguida, que os irmãos se preparassem para a encomendação da alma. Todos se ajoelharam para iniciar as ladainhas, mas Domingos pediu-lhes que esperassem um pouco e começou a falar-lhes como Jesus aos seus discípulos na última Ceia: "Amai-vos uns aos outros, sede humildes, pobres e puros. Deixo-vos este testamento e esta herança com a bênção de Deus e a minha".

Chorando, Frei Ventura aproximou-se dele e disse-lhe: "Pai, vede como nos deixais a todos consternados e órfãos. Lembrai-vos de nós quando estiverdes na glória de Deus". São Domingos levantou os olhos para o céu, juntou as mãos, rezou e, voltando-se para os seus filhos angustiados, disse-lhes: "Espero no Senhor que depois de morto vos serei mais útil do que em vida. Não vos esquecerei, levo-vos no coração. No céu ajudar-vos-ei mais do que aqui". E, momentos depois, a sua santa alma voava para Deus. "Ao amortalhá-lho, tiraram a cadeia de ferro que lhe cingia o corpo e com que se disciplinava".

Domingos foi canonizado por Gregório IX a 13 de junho de 1234. A sua festa litúrgica celebra-se a 8 de agosto.

Desde que a trasladação das suas relíquias se fez numa terça-feira (24 de maio de 1232), este dia ficou, na Ordem Dominicana, consagrado ao Santo Patriarca.

Deus de ternura e compaixão, que suscitaste em Domingos o pregador do teu Evangelho de misericórdia, Evangelho da plenitude da justiça, e o levaste a construir uma família que, em obras e palavras, testemunhasse a gratuidade do teu amor, ajuda-nos a encontrar o silêncio donde saia a palavra que alumie de esperança a nossa noite e o gesto que nos traga uma paz ardente.

Faz do Espírito de Jesus Cristo a graça da nossa vida. Amém.


Fonte: Novena a S. Domingos. Editorial Apostolado do Rosário. 2. ed. actualizada. Fátima. 2006.

Distribuidor: Secretariado Nacional do Rosário. Padres Dominicanos.
                    Rua de São Domingos s/n - 2495-431 FÁTIMA
                    E-mail: snrosario@clix.pt
 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

ANTIGAMENTE CALAVAM-SE...

Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: "Meu caro C. me diga uma coisa: a Igreja antigamente era ou não era uma coisa muito inteligente?"

Ia responder-lhe com ênfase: "Era!" Mas enquanto vacilei alguns segundos meu amigo desenvolveu a idéia: "Olhe aqui. Eu bem sei que antigamente existiam padres simplórios, freiras tapadíssimas, leigos ainda mais simplórios e tapados. A burrice não é novidade, é antiqüíssima. Garanto-lhe que ao lado do artista genial que pintava touros nas cavernas de Espanha, anunciando há quarenta mil anos a brava raça de toureiros, havia dois ou três idiotas a acharem malfeita a pintura.

 — Mas, calavam-se, disse eu. 

E logo o meu amigo uivou uma exclamação que trazia na composição harmônica de suas vibrações todas as explosões da alma: a alegria, a angústia, a aflição de convencer, a tristeza de um bem perdido e até a cólera...

— Pois é! CALAAAVAM-SE!!! 

Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezenove anos, e meu herói dezessete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu "explicador" de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor.

 Recomeçava eu a explicar certo problema quando ele, numa decisão brusca, me deteve e suplicou:

 — Explica devagar, devagarzinho, porque eu sou burro.

 Na outra ponta do fio meu amigo de hoje explodiu:

 — Que gênio! QUE GÊNIO!!

 Era efetivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui sua trajetória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e portanto intelectual. O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum fator ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes. Já ouvi e li muitas vezes o termo "mutação" surrupiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo "um mundo em mutação".

 Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles. Será genético o fenômeno e por conseguinte transmissível?

 — "Receio muito", gemeu a voz de meu amigo, "você não leu os jornais da semana passada?"

 — O quê? — perguntei com a aflição já engatilhada.

 — A descoberta do capim!

 Não tinha lido tão importante notícia, e o meu amigo explicou-me: um sábio, creio que dinamarquês, chegou à conclusão de que o capim é um dos melhores alimentos do homem. Meu amigo não me explicou se se tratava do 'Homo Sapiens', do 'Everlasting Man', de Chesterton, ou do 'Homo postconciliarius'. Seja como for, dentro de quatro ou cinco anos teremos a humanidade de quatro e espalhada nos pastos.

 * * *

 Estas reflexões amaríssimas, como diria o "agregado" de Machado de Assis, vieram-me hoje ao espírito depois da leitura de "La Documentation Catholique", e principalmente depois da casual leitura de um volume encontrado entre outros livros de vinte anos atrás: "O personalismo", de Emmanuel Mounier.

 Nunca lera nada desse personagem que fundou a revista "Esprit" e que fez escola. Abri à página 42 da tradução editada pela Livraria Duas Cidades e li: "O homem é um ser natural". Detenho-me nesta proposição seguida desta outra: "Será somente um ser natural?" E depois: "Será, inteiramente, um joguete da natureza?" Ora, é fácil de ver que nenhuma dessas proposições tem sentido, e nenhuma conexão se percebe entre elas. Ou então, se o leitor quiser ser mais exato, diremos que todo aquele fraseado joga com a polivalência de termos equívocos pretendendo com essa confusão transmitir ao desavisado adepto do "personalismo" um sentimento de profundidade ou de rara acuidade. O que quer dizer "um ser natural"? Dotado de natureza própria todos os seres o são, desde o átomo de hidrogênio até Deus. Tenho diante dos olhos o dorso de um livro de Garrigou-Lagrange: "Dieu, son existance et sa nature". Logo, Deus é um ser natural. Se por natural se entende tudo o que pertence ao universo criado, todos os seres, exceto o Incriado, serão seres naturais: a água, um gato, São Miguel Arcanjo. Se o termo natural se contrapõe a artificial, todos nós sabemos que um homem não é montado como um rádio de pilha, ou como uma máquina de costura. Logo, é um ser natural. Mas não se entende por que razão foi preciso fundar "Esprit", lançar o progressismo, atirar-se nos braços do comunismo, comprometer Jacques Maritain, excitar tanta gente em torno de tão óbvia proposição.

 Emmanuel Mounier já morreu coberto de glória há mais de dez anos. Podemos tranqüilamente dizer que era 'burro', apesar de tudo o que foi escrito em francês a seu respeito, como já podemos dizer tranqüilamente que Teilhard de Chardin era meio tantã. Dentro de cinqüenta anos ninguém mais saberá em que consistiu o "personalismo" de Mounier, ou o "phenomène humain" de Teilhard de Chardin. Essas obras foram o consolo e a volúpia de muitos leitores que, não entendendo nada do que liam, ao menos se aliviavam com este pensamento balsâmico: todos os livros são escritos para ninguém entender. E assim os idiotas do mundo tiveram um decênio ou dois de júbilo.

 Passarão esses autores, mas se é verdadeira a descoberta das propriedades do capim, muitos novos autores surgirão a perguntar "se o homem é um ser natural". Já se ouve o tropel... Mas — quem sabe — talvez o próprio capim, entre suas virtudes estudadas em Estocolmo ou Copenhague, entre duas pornôs, traga uma espécie de calmante que nos devolva o genial tipo clássico do burro que se conhecia e que não fundava revistas católicas nem rasgava novos horizontes para a Igreja.

 

(Gustavo Corção. "O Globo", 22/08/70. Crônica encontrada também no livro "Conversa em sol menor")