Márcio Luís Chila Freyesleben
A festa
sempre diz alguma coisa sobre aquilo que uma sociedade considera digno de
memória. Ao escolher certos dias, interromper o trabalho cotidiano e reuni-los
em torno de símbolos, ritos e celebrações, uma comunidade revela o que admira,
aquilo a que presta homenagem e, em alguma medida, a ordem de valores segundo a
qual procura viver. Por isso, a transformação do calendário ocidental não pode
ser vista como simples mudança de costumes. Ela acompanha uma alteração na
maneira de compreender o homem, o tempo e o próprio sentido da vida.
Na Cristandade, o calendário
ordenava o tempo em torno dos mistérios da Redenção. A Encarnação, a Paixão, a
Ressurreição, a Ascensão e Pentecostes davam ao ano sua cadência fundamental.
Ao redor desse centro encontravam-se as festas da Virgem Maria, dos mártires e
dos santos. Mesmo nesses casos, porém, a homenagem não terminava na pessoa
celebrada. O santo era venerado pela obra da graça que nele se realizara.
Honrá-lo significava reconhecer a ação de Deus em uma vida humana e oferecê-la
aos vivos como exemplo de fidelidade.
A antiga celebração dos mártires
mostra bem essa maneira de compreender a festa. A comunidade guardava a memória
do martírio não apenas para recordar uma personalidade admirável, mas porque
via naquela morte o testemunho de uma vida que alcançara seu verdadeiro fim. O
aniversário do martírio podia, por isso, ser chamado de nascimento para a vida
eterna. A memória do morto alimentava a fé dos vivos.
Havia, pois, uma relação íntima
entre calendário e cosmovisão. O tempo não era uma sucessão indiferente de
dias, preenchidos conforme a conveniência humana. Possuía uma ordem religiosa.
Certos acontecimentos mereciam ser recordados porque remetiam o homem a uma
realidade superior à sua própria existência. A festa suspendia o ritmo
ordinário da vida para lembrar que o trabalho, a necessidade material e as
preocupações imediatas não esgotavam a existência humana.
A secularização alterou pouco a
pouco essa compreensão. À medida que a cultura europeia perdeu sua unidade
religiosa, o calendário civil ganhou autonomia e começou a organizar a memória
coletiva segundo outros critérios. O homem, a nação, o Estado, a revolução, o
progresso e, mais tarde, as inúmeras identidades sociais passaram a fornecer
novos motivos de celebração. O calendário deixou de remeter ao transcendente e voltou-se cada vez mais
para realidades humanas.
A Revolução Francesa oferece talvez
o exemplo mais eloquente dessa transformação. A criação do calendário
revolucionário não pretendia apenas modificar os nomes dos meses ou a contagem
dos dias. Pretendia modificar a própria memória social. Novas datas, novos
símbolos, novos ritos e novas personagens deveriam educar o cidadão de uma
sociedade que procurava desvincular sua vida pública da antiga ordem cristã.
Não bastava derrubar instituições. Era necessário ensinar o homem a recordar
outras coisas e a celebrá-las de outra maneira.
A secularização do calendário,
contudo, não nasceu em 1789. A Revolução tornou explícita uma transformação que
vinha de longe e que prosseguiria depois dela. O calendário civil
converteu-se em instrumento de educação
social. Por meio dele, cada sociedade ensina o que merece ser lembrado, quem
merece ser admirado e quais valores devem receber reconhecimento público.
Existe, nesse aspecto, certa
semelhança entre a festa de um santo e a comemoração de um herói nacional.
Ambas preservam uma memória e apresentam uma vida como exemplo. A diferença
está no fundamento da homenagem. O santo não vale como medida última da grandeza
humana. Sua grandeza aponta para além dele próprio. O herói secular, ao
contrário, pode acabar celebrado por aquilo que realizou segundo os valores
estabelecidos pela própria sociedade. Em um caso, a vida exemplar remete a uma
ordem transcendente; no outro, a própria comunidade humana tende a estabelecer
a medida segundo a qual julga seus grandes homens.
Isso não torna ilegítima toda
comemoração cívica. A gratidão pela pátria, a memória dos antepassados e a
homenagem àqueles que serviram ao bem comum pertencem naturalmente à vida
social. O problema surge quando a nação, o Estado, a revolução ou seus heróis
recebem atributos que antes pertenciam ao sagrado. A política adquire então
feições de religião civil, com seus mártires, seus ritos, seus símbolos, suas
datas solenes e até suas formas próprias de ortodoxia.
A secularização da festa encontrou
no comércio um poderoso aliado. Seria erro, contudo, atribuir ao comércio a
origem do problema ou considerar incompatíveis a festa e os bens materiais.
Comer melhor em um dia festivo, oferecer presentes, ornamentar a casa, comprar
flores, preparar alimentos tradicionais ou reunir a família ao redor de uma
mesa são práticas antigas e perfeitamente conformes à natureza da celebração. O
homem não festeja apenas com o espírito. Festeja também com o corpo, com a
comida, com a música, com a beleza e com a companhia dos outros.
A inversão aparece quando essas
coisas deixam de servir à festa e passam a lhe fornecer o significado. O
presente, que deveria expressar afeição, transforma-se em obrigação de compra.
O chocolate deixa de acompanhar a Páscoa e passa a ocupar o lugar da própria
Páscoa. O Natal, em vez de anunciar o nascimento de Cristo, converte-se em uma
temporada de vendas, ornamentação e confraternização cujo motivo original mal
precisa ser mencionado. Conservam-se as luzes, a ceia, os presentes e a árvore,
enquanto se torna possível retirar da celebração justamente o acontecimento que
lhe deu origem.
Há uma diferença considerável entre
comercializar elementos de uma festa e comercializar a própria festa. No
primeiro caso, o mercado fornece bens que ajudam a celebrá-la. No segundo, ele
passa a fabricar seu conteúdo. A pergunta mais simples talvez seja também a
mais esclarecedora: o objeto serve à celebração ou toma o lugar dela?
As comemorações dedicadas aos pais,
às mães, aos namorados e a outras relações humanas devem ser examinadas sob o
mesmo critério. Paternidade, maternidade, amizade e amor conjugal são bens
humanos verdadeiros. Nada impede que recebam homenagem pública. A secularização
começa quando essas realidades são separadas da ordem que lhes dá sentido e
reduzidas ao sentimento, à homenagem convencional ou ao consumo.
A paternidade pode ser recordada
como responsabilidade, proteção, autoridade e transmissão da vida. A
maternidade pode ser celebrada como acolhimento, cuidado, sacrifício e serviço
à vida. O amor entre homem e mulher pode ser compreendido como doação, fidelidade
e preparação para uma comunhão duradoura. Quando esse conteúdo desaparece,
resta com facilidade uma data comercial que manda comprar alguma coisa para
demonstrar um afeto cuja natureza já não se sabe explicar.
Por essa razão, a recuperação cristã
dessas festas não exige necessariamente sua supressão. Pode ocorrer pela
restituição de seu conteúdo. Uma comemoração familiar pode tornar-se ocasião de
gratidão, oração, reconciliação, convivência, cuidado dos idosos e auxílio aos
necessitados. Aquilo que o comércio apresenta como oportunidade de compra pode
ser reconduzido àquilo que a festa deveria ser: oportunidade de encontro e
gratuidade.
Seria incompleto, entretanto,
atribuir toda a secularização a forças exteriores à religião. Uma festa pode
conservar o nome cristão, seus símbolos tradicionais e até algumas de suas
cerimônias, e ainda assim perder a substância religiosa que lhe deu origem. Uma
festa de padroeiro pode reunir procissão, música, barracas, comida e grande
participação popular e acabar reduzida a acontecimento social. O Natal pode
conservar o presépio como decoração. A festa junina pode guardar o nome dos
santos e esquecer inteiramente quem foram eles. A procissão pode sobreviver
como folclore depois de desaparecer a disposição interior que lhe dava sentido.
A festa cristã reúne, portanto, três
ordens que precisam permanecer unidas. A primeira dirige o homem para Deus e
para os mistérios da salvação. A segunda reúne a comunidade, fortalece a
família e conserva a memória comum. A terceira acolhe os bens materiais
próprios da alegria humana: comida, descanso, música, presentes, beleza e
convivência. Nada há de impróprio nessa dimensão material. A desordem começa
quando ela se emancipa das outras e pretende bastar a si mesma.
O problema da festa moderna pode ser
compreendido, assim, como um problema de ordem. Não foi necessário destruir
todas as antigas celebrações. Em muitos casos, bastou conservar suas formas e
mudar seu centro. O transcendente cedeu lugar ao humano; a memória religiosa, à
memória civil; a gratuidade, ao consumo; a veneração, à admiração; a comunidade
de fé, ao público consumidor. A festa continuou existindo, porém passou a
ensinar outra coisa.
Recuperar seu sentido não exige
hostilidade à alegria, ao comércio ou às comemorações civis. Exige recolocar
cada coisa em seu lugar. O presente pode servir ao amor, a refeição pode servir
à comunhão, a música pode servir à alegria, o descanso pode devolver ao homem a
consciência de que sua existência não se reduz ao trabalho. Até uma data
nascida do comércio pode receber conteúdo mais elevado quando deixa de ser
ocasião para comprar e se torna ocasião para agradecer.
A questão, portanto, não está em
saber se há presentes, comida, música ou dinheiro envolvidos em uma celebração.
Está em saber o que se celebra e por que se celebra. Uma sociedade revela muito
de si pelas festas que conserva e pelas que cria. Quando o calendário se ordena
em torno de Deus, o tempo recorda ao homem que sua vida possui origem e fim que
o transcendem. Quando o próprio homem passa a ocupar o centro, suas
realizações, afetos, identidades e desejos tornam-se matéria suficiente para a
celebração. E quando o mercado se apropria desse vazio, a festa corre o risco
de chegar ao seu último estágio de secularização: deixa de celebrar algo para
transformar-se, ela própria, em mercadoria.
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