sábado, 10 de maio de 2014

"O DUPLO", DE DOSTOIÉVSKI (CITAÇÃO)


"O senhor Golyádkin quis gritar, mas não pôde, quis protestar de algum modo, mas não teve forças. Ficou de cabelos arrepiados e sentou-se, desfalecido de pavor. Aliás, havia razão para isso. O senhor Golyádkin reconhecera por completo seu amigo noturno. O amigo noturno não era senão ele mesmo -- o próprio senhor Golyádkin, outro senhor Golyádkin, mas absolutamente igual a ele --, era, em suma, aquilo que se chama o seu duplo, em todos os sentidos..."


(Dostoiévski, "O duplo")

terça-feira, 6 de maio de 2014

"CAMINHO DE PERFEIÇÃO", SANTA TERESA DE JESUS (CITAÇÃO)


"O fato de Ele ser bom não justifica, no entanto, que sejamos irreverentes."


(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

"CAMINHO DE PERFEIÇÃO", SANTA TERESA DE JESUS (CITAÇÃO)


"Quem poderá afirmar que é ruim, se começarmos a rezar as Horas ou o rosário, que iniciemos pensando Naquele com quem vamos falar e em quem é que fala para saber de que modo O havemos de tratar? Pois eu vos digo, irmãs, se o muito que é preciso fazer para compreender essas duas coisas fosse bem feito, antes de começardes a oração vocal que ides fazer, teríeis dedicado bastante tempo à oração mental. Sim; não vamos falar a um príncipe com o descuido com que falamos a um lavrador ou a uma pobre como nós, para quem qualquer tratamento é adequado."


(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

"CAMINHO DE PERFEIÇÃO", SANTA TERESA DE JESUS (CITAÇÃO)


"Mas, se quereis tratar com tão grande Senhor da maneira cabível, é bom que encareis Aquele com quem falais, bem como quem sois vós, ao menos para usar de cortesia. Porque como podeis chamar o rei de Alteza ou conhecer as cerimônias que se empregam para falar com uma grande personagem se não conheceis bem a Sua e a vossa condição social? Porque é de acordo com a dignidade, e conforme o uso comum, que se prestam as honras, sendo vital que também saibais disso se não quiserdes ser despedidas como simplórias, sem nada conseguir."


(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

QUE É A ORAÇÃO MENTAL, SANTA TERESA DE JESUS


"CAPÍTULO 22
Declara o que é oração mental.

 
1. Sabei, filhas, que a diferença entre a oração mental e não-mental não está em ter a boca fechada ou aberta; se, falando, entendo perfeitamente e percebo que falo com Deus, concentrando-me mais nisso do que nas palavras que digo, estão juntas aqui a oração mental e a vocal. Isso assim é, a menos que vos aconselhem a falar com Deus, rezando o pai-nosso, ao mesmo tempo que pensam no mundo; nesse caso, calo-me."
 
 
(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

sábado, 3 de maio de 2014

RECORDANDO DOM BOSCO


Jesus, eu só preciso da graça santificante na minha alma. Desde que eu a tenha, tira-me todo o resto.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O BOM LADRÃO


                        Em um texto recente, eu afirmei que todo murmurador é como o mau ladrão do evangelho. E que, na verdade, todos nós somos injustos, ladrões da glória de Deus. Não há justiça ou honestidade oponíveis a Deus. Diante de Deus, ninguém reclama com justiça. Toda reclamação ou murmúrio dirigidos a Deus são injustos.

 

                        Gostaria de avançar um pouco nessa meditação. Tenho para mim que todos nós estamos representados na paixão e morte do Senhor. A humanidade divide-se entre os dois ladrões, pois, repito, diante da inconcebível pureza de Deus, não há quem possa alegar inocência. (Se soubéssemos do que vamos prestar contas após a nossa morte, certamente surpreender-nos-íamos com o nível de exigência, lembra Santa Faustina. No Juízo Final, só teremos roubos a apresentar a Deus, pois até as nossas boas ações foi Ele quem fez em nós.) A única diferença é que uns têm consciência de que sofrem justamente – “para nós é justo. Ele, porém, não fez mal algum”, diz o bom ladrão –, outros, não. Ainda hoje diz o mau ladrão: “Se és o filho de Deus, salva-te a ti mesmo e a nós”. Quem sabe se ele não quer dizer: “salva a tua Igreja e a nós dos males deste mundo”?

 

                        O bom ladrão também pede o auxílio divino. Ele não é autossuficiente. Ele é consciente de que não tem boas obras em que se apoiar para reivindicar alguma coisa. Mas os seus olhos estão postos no reino vindouro, em realidades transcendentes, mais altas: “Lembra-te de mim quando vieres em teu reino”. O mau ladrão é imediatista. Primeiro, ele questiona, põe em dúvida, o poder de Cristo. Em seguida, ele pede alívio instantâneo, temporal, mundano: “salva-te a ti mesmo e a nós” [da cruz, da morte, do sofrimento neste mundo]. O mau ladrão não enfrenta o sofrimento com ânimo de reparação. O bom ladrão, sim. Aliás, completamente nu na cruz, preso pelas mãos e pelos pés, a única coisa que o bom ladrão poderia oferecer a Deus era a reparação, a aceitação da dor. Por isso mesmo, ele entrou no paraíso naquele mesmo dia. Mais do que isso: ele é um dos santos da Igreja, São Dimas.

 

                        Queixamo-nos de Deus pela desordem em que o mundo anda. Mas, quem violou a ordem querida por Deus foi o homem, não o próprio Deus, que não pode contradizer-se. É curioso o modo de o homem encarar o próprio pecado: “Ai, meu Deus! Eu não queria esse efeito, essa consequência do pecado que eu não tinha previsto!” Estranho esse comportamento, não?! Nós trazemos o pecado ao mundo, com suas consequências de múltiplas ordens, e nos queixamos de Deus por não impedir certas consequências dos nossos pecados. “Eu não queria que a minha desordem fosse tão desordenada!!”, “Eu não queria que a minha desobediência tivesse efeitos tão desastrosos!!”, pensamos. Ora, quando Deus proibiu o pecado, Ele o fez sabendo de todas as suas múltiplas consequências, inclusive aquela de atingir pessoas inocentes. Deus não é culpado de o bêbado atropelar e matar uma velhinha indefesa. Ou era obrigação do anjo da guarda da velhinha desviar o carro com as próprias mãos?

 

                        Os efeitos danosos do pecado são uma espécie de ação livre na causa. Ao cometermos o erro, somos responsáveis também pelos seus efeitos. Não é incumbência divina ficar tolhendo os efeitos de nossos atos de desobediência. Creio até que Deus o faça inúmeras vezes, por liberalidade, mas não há um direito nosso, oponível a Ele, a respeito disso.

 

                        O pecado é uma espécie de estelionato. O diabo, quando nos propõe uma ação má, o faz como o golpista que quer vender-nos o falso bilhete premiado da loteria. Ele promete uma realidade mundana ilusória, uma vantagem próxima falsa, contando também com uma certa malícia nossa, cupidez, propensão para o mal. O fruto da árvore da ciência do bem e do mal possuía bom aspecto. Comprado o bilhete falso, a ilusória alegria prometida, o pecador iludido não só deixa de lucrar o prêmio, como tem diminuído o seu verdadeiro patrimônio, a graça de Deus em sua alma. Saboreado o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, Adão e Eva não só não se tornaram deuses, como ficaram nus, pois antes a graça de Deus os vestia.

 

                        Nem sempre nos damos conta disto: o demônio cobra, e caro!, de quem quer trabalhar para ele. Ao invés de retribuir, ele cobra, ele engana, ele rouba. Ele arromba as portas da nossa alma, roubando-nos tudo o que ali temos de mais precioso, e não deixa nada. Os dois ladrões estão nus.

 

                        Deus ao contrário, que já nos deu tudo, recompensa-nos por trabalhar para Ele. 10, 20, 30, 100 por um!

 

                        O direito contempla a hipótese de deserdação por ingratidão. No plano espiritual acontece algo semelhante: toda vez que pecamos usamos os bens que nos foram doados por Deus contra o próprio doador. Toda pecado é uma ingratidão, uma ofensa ao Doador de todos os dons. Nada mais justo seria que fôssemos deserdados.

 

                        Até para pecar nada usamos de próprio. Tudo o que usamos no pecado nos foi doado por Deus: o corpo, a memória, a vontade, os bens. Todos os dons nos foram doados para o louvor da glória de Deus, mas nós os empregamos para o nosso próprio deleite. Somos ou não usurpadores? Somos ou não somos ladrões?

 

                        Mas eu não digo essas palavras para desanimar ninguém. E não as digo como quem se encontra em melhor situação espiritual. Ao contrário, faço-o como doutor honoris causa em pecado. Digo-o apenas para lembrá-los e, ao lembrá-los, lembrar-me de que até o último momento podemos tornar-nos o bom ladrão. Não seremos felizes buscando a nossa própria glória, buscando-nos a nós mesmos, pois isso não é amor. Seremos felizes buscando um Outro, a glória de Outro, para que todos nós e tudo quanto existe está pré-ordenado. Deus, que é o próprio amor em Três Pessoas que se amam, estabeleceu que nos salvemos pelo amor.

 

 

Paul Medeiros Krause