sexta-feira, 16 de maio de 2014

SÃO SIMÃO STOCK


Comemoramos hoje São Simão Stock, monge carmelita do século XIII, que recebeu das mãos de Nossa Senhora do Carmo o escapulário, que se tornou um objeto de devoção mariana universal, cujo uso foi estimulado por inúmeros Papas.

TRECHO DE "DOIS AMORES -- DUAS CIDADES", DO CORÇÃO


"A moderna psicologia profunda, principalmente na doutrina freudiana do 'super-ego', trouxe ao mundo um reforço de desconfiança em relação ao que recebemos de nosso pai, que passou a ser o mais suspeito dos personagens. Tudo o que vem do pai, do mestre, da tradição, de Deus, é visto como coação, como pressão, como imperialismo psicológico. Para cortar esse vínculo, atiramo-nos para o lado da mãe escura que devora os seus filhos.

Terá acontecido alguma coisa assim na origem de nossa história. Não temos a pretensão de esboçar aqui uma psicanálise de nossos primeiros pais; mas temos a convicção de que é impossível tratar do problema e do mistério do amor próprio sem o socorro da teologia. No caso, sem lembrar o pecado original. Marca, estigma, ferida deixada pelo pecado original, mesmo depois de sua total extinção pelo batismo, o amor-próprio será o que os teólogos chamam 'fomes peccati'.
E àquele que vai procurando algo que seja seu, absolutamente seu, sem sombra de alienação, sem sociedade dos homens e de Deus, podemos responder com toda a tradição católica que só temos de nosso, puramente nosso, a miséria de nossos pecados e de nosso amor-próprio."
 

 (Corção, "Dois amores -- duas cidades")




quinta-feira, 15 de maio de 2014

CARTA AO DESESPERO

 

Se há uma espécie de pessoas de quem eu tenho compaixão é a dos que estão em desespero. Não há nada mais aflitivo do que sentir-se encurralado, não enxergar uma saída, não ver sentido na vida, encontrar-se em um labirinto. Parece que um turbilhão de pensamentos passa pela cabeça do desesperado, que ele não consegue impor domínio e pôr ordem em seus raciocínios e sentimentos. Há uma tal velocidade na sucessão de ideias, que é quase impossível agarrar-se a alguma delas. Em outras palavras: o desespero é a antessala do inferno, uma espécie de anarquia ou revolta dos sentimentos, o caos em forma de fenômeno psíquico. No portal do inferno de Dante há a advertência: “deixai toda a esperança, ó vós que entrais!”.

 

Talvez alguém se surpreenda ao ler este pequeno texto justamente agora que está em pânico. Não há razão para surpresa, porém. Escrevi para você mesmo, e a Providência incumbiu-se de romper a distância que há entre mim e você. Em primeiro lugar, é preciso convencer-se de que há uma saída, procurá-la, mesmo que não seja possível vê-la imediatamente. É preciso deixar entrar um sopro de luz em sua alma, como o luar banhando os ombros de Cristo no Monte das Oliveiras. É necessário abrir as janelas do espírito para uma brisa nova, um novo frescor, para uma claridade tranquila.

 

Agrada-me tanto a cena da troca de olhares entre Cristo e São Pedro, após a prisão Daquele. Tenho para mim que aquele olhar pacífico foi decisivo e salvou Pedro. Mas, se Pedro não estivesse ali, não estivesse olhando o Senhor nos olhos, não experimentaria aquela claridade humilde entrando em sua alma.

 

Em “Crime e castigo”, há uma troca de olhares em tudo semelhante àquela, que se dá entre Sônia e Raskólnikov, após este fazer uma reverência aos homens e pedir perdão à terra por ter cometido duplo assassinato. Menciona-se até mesmo que Sônia acompanhava discretamente Raskólnikov em seu calvário.

 

"Eis que se lembrou das palavras de Sônia: 'Vai a um cruzamento, faz uma reverência ao povo, beija a terra, porque pecaste também perante ela, e diz a todo mundo em voz alta: 'Eu sou um assassino!'. Tremeu todo ao se lembrar disso. E já estava tão oprimido pela desesperadora melancolia e pela inquietação de todo esse tempo, mas especialmente das últimas horas, que acabou se precipitando para a possibilidade dessa sensação inteira, nova, completa. Ela chegou de súbito como uma espécie de acesso: começou a lhe arder na alma como uma fagulha e de repente se apossou de tudo como fogo. Tudo nele amoleceu, e as lágrimas jorraram. Do jeito que estava caiu no chão...

 

Ajoelhou-se no meio da praça, inclinou-se até o chão e beijou essa terra suja, com êxtase e felicidade. Levantou-se e tornou a inclinar-se."

 

Cristo também passou pelo desespero, atravessou-o. Não há miséria humana que Ele não tenha tocado, apalpado com as próprias mãos, experimentado.

 

Olhemos para Ele no Monte das Oliveiras. Um trecho, menor do que um versículo, chama-me muito a atenção no Evangelho de São Lucas: “Erguendo-se após a oração”. (Notemos que Raskólnikov também se ergue). Deus estava prostrado – que mistério estupendo! –, deitado no solo, com o rosto por terra. Ele havia se retirado para um lugar deserto, tranquilo, no qual estava acostumado a rezar. Pediu ajuda, a solidariedade, dos que Lhe eram mais íntimos: Pedro, Tiago e João. Não Se confiou a todos os discípulos nem a todos os apóstolos – pois eles podiam escandalizar-se e talvez não O pudessem ajudar. Confiou-Se apenas àqueles que Lhe eram mais próximos. É bem verdade que os seus não O ajudaram muito – em alguma coisa sim, pois permaneceram ali –, mas em contrapartida os anjos do Céu vieram confortá-Lo.

 

O Evangelho parece oferecer-nos um bom roteiro: no momento do desespero, procurar um lugar ou ambiente tranquilo. Talvez esse “lugar” possa ser entendido como um “momento” de tranquilidade, de solidão, de estar a sós consigo, com Deus e com os mais íntimos. Recorrer com intensidade à oração e recomendar-se às preces e aos cuidados dos mais íntimos, mesmo com insistência. Cristo pediu a ajuda daqueles mais próximos por três vezes. Se, por um desígnio da Providência, os amigos não nos ajudarem, Deus mandará os seus anjos confortar-nos. Não há oração que fique sem resposta. Deus não fica em silêncio. Ele não tem prazer com o nosso sofrimento. Ele entende e se compadece do nosso sofrimento.

 

Falando concretamente, esse olhar o Senhor nos olhos, esse recorrer à oração, esse deixar o luar banhar-nos as costas na cena da agonia, pode significar ligar o rádio ou a TV em algum programa religioso, por exemplo, na Canção Nova. Esses bons programas podem ser os verdadeiros anjos que vêm do Céu para consolar-nos. Quem sabe pode significar também ouvir um CD de oração ou assistir a um DVD com alguma boa pregação? Quem sabe visitar Deus no sacrário de alguma Igreja tranquila e rasgar-lhe o coração como rasgou-se em dois o véu do templo? O doce olhar de Cristo espera-nos em algum lugar, para nos dar a paz. Deixemo-nos olhar.

 

Quanto ao mais, continuemos a procurar com paz e decisão a saída, a entender que solicitação a vida nos faz, podendo lançar mão dos ensinamentos do grande Viktor Frankl: a pergunta que se deve fazer não é o que a vida ainda tem a oferecer-me, mas o que eu ainda tenho a oferecer à vida, que será que ela me pede diante dessa situação concreta? Por que será que eu ainda estou no mundo? A respeito de que esse desespero me interpela?

 

 

 

Paul Medeiros Krause

quarta-feira, 14 de maio de 2014

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA", DE SANTO AGOSTINHO (EXCERTO)


"A poucos é concedido que a alma veja a si mesma (nesta vida atual), mas ela pode fazer isso com a inteligência.

Somente à inteligência é concedido perceber que nada existe maior e superior às coisas. E superior às coisas que existem com uma certa 'inchação'; pois não é absurdo chamar de inchação à extensão do corpo ('tumor'), ou alargamento. Se isto fosse o melhor de nós, os elefantes seriam mais sábios que os homens. E se algum parente destes animais disser que os elefantes são sábios -- já me admirei vendo que alguns homens têm dúvidas a respeito --, concordará certamente que a operosa abelha mostra saber mais que um asno, e comparar os tamanhos destes animais é uma asneira."

(Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA", DE SANTO AGOSTINHO (EXCERTO)


"Alguns animais enxergam muito melhor que nós pela visão natural, e nos dizemos superiores aos animais pelo uso da razão, e, sendo assim, seria intolerável dizer que, nesta superioridade, a visão da inteligência não é nada. Afirmar que a visão da mente é o mesmo que a visão dos olhos é uma coisa indigna de se afirmar."

 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA" (EXCERTO)


"E seria vergonhoso para o homem duvidar do argumento de razão, quando lhe foi concedida a potência racional. Duvidaria menos de tais argumentos que das coisas vistas com os olhos do corpo, órgãos que, frequentemente, vivem em luta com os humores que produzem."
 

 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA" (EXCERTO)


"A razão nos demonstra que não há corpo algum sem longitude, latitude e altura, e nenhuma de tais noções é suficiente, se faltam as outras duas. A alma, porém, com certa visão interior, da inteligência, pode perceber até a simples linha.

[...]

Já definimos a linha como superior às demais dimensões, por ser menos divisível. E as outras são mais divisíveis porque ocupam maior extensão. A linha não ocupa mais que a longitude, retirada a qual não sobraria nada. Portanto, o que é superior à linha não pode ter extensão."

 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")