segunda-feira, 2 de junho de 2014

O MENDIGO II

 
Conforme observação nele próprio inserida, o texto "O mendigo" foi deliberadamente modificado. Provavelmente, o será novamente e está inconcluso. Trata-se de uma experiência. Aguardem posteriores mudanças e complementos. Espera-se que um dia seja concluído, não sendo impossível que venha a ser radicalmente modificado.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O MENDIGO



As golas das suas camisas não fechavam mais. Devido à espessura do seu pescoço, os botões não mais entravam nas casas. Muitas daquelas estavam desbotadas. Uma ex camisa azul agora era lilás. As mangas de quase todas, não sabia por quê, estavam menores do que os seus braços. Já fazia tempo não usava gravatas. As pernas de algumas calças jeans estavam muito compridas; sem dobras, arrastavam-se no chão. O cinto de couro marrom ameaçava romper-se perto do furo mais usado. Alguns de seus dentes, quase na gengiva, tinham manchas amarronzadas, talvez pelo consumo excessivo de café. Suas roupas de baixo pareciam trapos. Estava acima do peso. O rosto inchado. A barriga em formato de pera.

 

Já há anos não ia ao médico nem ao oculista. Seu dentista, há muito, cobrava a extração dos sisos. Seus óculos apertavam as laterais do rosto formando dois sulcos e, muito provavelmente, o grau das lentes havia sido ultrapassado pela necessidade da vista. Ao aguardar, sentado, o início de uma audiência, deu-se conta de novo de que a sola de seu sapato estava furada. (Mas o incômodo mesmo foi pensar que ali, num lugar solene, estando de pernas cruzadas, poderiam ver-lhe a incômoda ferida. Já se havia acostumado com a chaga aberta do sapato, oculta sob seus pés).

 

Os flertes tornaram-se escassos. A indiferença, o seu pão cotidiano. Os convites, nulos. O desprezo, seu cão de estimação. Descia ladeira abaixo. Rolava. O desgaste era completo. O cansaço, imenso. Dava-se conta disso. Estava plenamente consciente. Só não encontrava forças. Não encontrava ânimo. Estava exausto.

 

Alguma coisa devia estar errada. Fora do lugar. (Não era possível!) Há certas vidas que são morte. Há certas mortes que são vida.

 

De quando em quando lembrava-se da primeira página de “A descoberta do outro”. Gustavo Corção recordava um trecho de Alexandre Herculano: “Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?” Era como ele próprio se sentia. Extenuado de uma longa viagem, de uma viagem de quarenta anos; amarrado ao próprio cadáver. Arrastando-o aonde quer que fosse. Havia dois eus. Um eu morto e um eu vivo. O vivo conformado com a morte do outro. O morto, inerme, impassível, um peso insuportável para o vivo.

 

Sua alma estava em farrapos. Sentia-a surrada, espancada, saqueada. Não sei com base em que chegava a essa conclusão, mas parecia-lhe que a sua parte imaterial havia apanhado a pauladas, tivesse vértebras quebradas. Com forças esvaziadas, nulas, após lutar com um adversário muito maior e mais forte, era como um semimorto deixado em qualquer parte.

 

Havia uma pedra no meio do caminho. Uma pedra enorme. No meio dele, em cima dele, do lado dele, dentro dele. Estava fincado na lama. Não saía do lugar, patinava e cada vez mais se sujava e afundava.

 

Seus olhos, seus sonhos e a sua vida estavam gastos. Sua alma envelhecera. Era preciso trocar de vida. Era preciso trocar de alma.

 

Ele era um mendigo. Mendigo da misericórdia de Deus e da benevolência dos homens. Um esmoler. Vivia de esmolas grandes e pequenas, que às vezes o tornavam rico. Ainda assim porém eram esmolas.

 

O nosso mendigo ia da extrema riqueza à infinita pobreza de um dia para o outro ou, mesmo, de um instante a outro. De possuidor do céu a merecedor do calor do inferno. Sentia mesmo caminhar no céu e, de repente, mergulhar no abismo sob seus pés. Imaginava entender bem a voz de Deus, o seu peculiar dialeto, o seu particularíssimo idioma. Sendo Deus espírito, sabia que a sua forma de comunicar-se era espiritual, diferente da dos homens. Não se tratava de uma sucessão de palavras pronunciadas. Outras vezes, parecia-lhe sentir o hálito de Baal, ser arrastado pelo diabo por becos escuros e caminhos tortuosos, quase sem volta e sem forças para reagir.

 

Do banquete às bolotas dos porcos. Do palácio à sarjeta. O nosso mendigo vivia de extremos: do refinado requinte à miséria completa. Da contemplação de Deus à companhia dos demônios. Do banquete nupcial aos esbarrões com os ratos e aos pisões no esgoto.

 

Que fazer? Que devia fazer? Como deixar a mendicância que parecia mais forte do que ele, que parecia arrastá-lo – como uma correnteza invisível –, para atos e pensamentos soturnos? Como romper as cordas invisíveis que moviam seus braços, que fisgavam suas pernas, que o agitavam como uma marionete, sem força, nem vontade?

 

Ah, o nosso mendigo! Eu ainda o vejo perambulando pelas ruas da cidade, pedindo esmolas em toda parte. Mendigando ali, esmolando aqui, esperando por um milagre. Ah! eu vejo aquele mendigo esperando o céu se abrir e a sua redenção cair de lá de cima como um tijolo. Ah! eu vejo o meu mendigo nos bares, restaurantes, esquinas, mendigando afeto, implorando olhares, de um jeito bastante esquisito. Eu sinto da sua solidão a espessura. Da sua escuridão, a tessitura. Dos seus tombos, a fratura.

 

Lá vai ele, o mendigo! Outra vez. Mais uma vez. Em mais uma noite que o desfez, que o partiu ao meio. Lá vai ele. No seu passo sempre igual...

 

Pensando bem, pode ser que o nosso mendigo não mendigasse afeto. Pode ser que ele, inconscientemente, procurasse outra coisa, que tivesse, sem saber, uma fome de outra natureza. Às vezes penso que ele tinha fome de beleza. A beleza era como que necessária aos seus ossos porosos, à sustentação do seu esqueleto. A beleza, não a convenção, era um feixe de luz para a sua vista, era como que uma pista, uma indicação, algo a iluminar o caminho a seguir.

 

Sem a beleza, ele era o mais pobre de todos os homens. O mais surdo de todos os surdos, o mais mudo de todos os mudos, o mais cego e mais aleijado de todos os nascidos de mulher. Havia nele uma espécie de envenenamento, de intoxicação. A beleza era o antídoto. O seu natural era dotado de uma espécie de retração, de convulsão, de aversão à feiura. A feiura cegava-o. Feria-o. A feiura esmagava-o. Envenenava-o. Quebrava-o. Em uma palavra, a feiura matava-o.

 

Cada vez mais tomava consciência de que a beleza lhe era absolutamente, completamente, urgentemente, necessária. A feiura asfixiava-o, algemava-o, amarrava-o. Havia nele como que uma angustiosa dependência química. Ele precisava respirar oxigênio. Precisava de ar puro. Precisava deixar a beleza entrar suavemente pela janela da sua vida, pelas comportas da sua alma, como o frescor das manhãs, como uma sinfonia de bem-te-vis, exorcizando a feiura.

 

Pensava ele: “a beleza cura”, “a beleza salva, ela me salvará”, “a beleza me erguerá, me satisfará, me saciará”. Acrescentava com os seus botões: “O ‘idiota’ é o mais belo livro já escrito: a beleza, com toda a certeza, sem nenhuma dúvida, sem qualquer dúvida, irresistivelmente, inapelavelmente, salvará o mundo. E, se ela salva o mundo, também me salvará.” Sentia isso o idiota, digo, o nosso amigo.
 

 

* O presente texto foi deliberadamente modificado. Provavelmente, o será novamente e está inconcluso. Trata-se de uma experiência. Aguardem posteriores mudanças e complementos. Espera-se que um dia seja concluído.
 

 

Paul Medeiros Krause

quinta-feira, 22 de maio de 2014

MAIS CITAÇÕES DE "INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO"


Partilho com você, leitor, trechos extraordinários ainda do Prefácio de "Introdução ao Cristianismo":


“Todas as grandes civilizações estão abertas umas para as outras e para a verdade. Todas trazem alguma contribuição para o ‘vestido multicolor’ da noiva, da qual fala o Salmo 44 que os Padres da Igreja aplicavam à Igreja.”
 

“Deus tornou-se totalmente concreto em Cristo, mas isso fez também com que o seu mistério aumentasse ainda mais. Deus é sempre infinitamente maior do que todos os nossos conceitos e todas as nossas imagens e todos os nossos nomes. O fato de nós o professarmos como Deus trino não significa de modo algum que já sabemos tudo a seu respeito, muito pelo contrário: isso nos mostra o quão pouco sabemos dele e quão pouco o entendemos e compreendemos.”


“A partir do prólogo de João está no centro de nossa fé cristã em Deus o conceito do Logos, que significa razão, sentido, mas também palavra – um sentido, portanto, que é palavra, que é relação, que é criador. O Deus que é Logos nos afiança a racionalidade do mundo, a racionalidade do nosso ser, a adequação da razão a Deus e a adequação de Deus à razão, mesmo que a sua razão ultrapasse infinitamente a nossa e nos pareça tantas vezes como escuridão.”

 
“O mundo vem da razão, e essa razão é pessoa, é amor – é isso o que a fé bíblica nos diz a respeito de Deus. A razão pode e deve falar de Deus, do contrário ela se mutila a si mesma. Isso inclui o conceito de criação. O mundo não é apenas ‘maia’, ou seja, aparência que, em última análise, devemos deixar para trás. Ele não é apenas a roda infinita dos sofrimentos, da qual devemos tentar escapar. O mundo é positivo. Ele é bom, apesar de todo mal e todo sofrimento que há nele, e é bom viver nele. O Deus que é criador e que se manifesta em sua criação dá direção e medida também à ação do homem.”

 

(Joseph Ratzinger, Prefácio à reedição de 2010 de “Introdução ao Cristianismo”)

 

 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO", A OBRA-PRIMA DE JOSEPH RATZINGER (TRECHO)

"Prefácio à reedição de 2000


'Introdução ao Cristianismo' -- ontem, hoje e sempre


Desde a redação desta obra passaram-se mais de trinta anos em que a história universal continuou avançando em ritmo acelerado. São dois os anos que, na retrospectiva, marcaram de modo especial as últimas décadas do milênio recém-concluído: 1968 e 1989. O ano de 1968 assinala a rebelião de uma nova geração que não só julgou insuficiente, cheia de injustiças, de egoísmo e de avareza a obra de reconstrução do pós-guerra, como reputou errado e fracassado todo o percurso da história a partir da vitória do cristianismo. Ela começaria a fazer tudo melhor, edificando, finalmente, o mundo da liberdade, da igualdade e da justiça; além disso estava convencida de ter encontrado na grande corrente do pensamento marxista o caminho que levaria a essa meta. O ano de 1989 trouxe a derrocada inesperada dos regimes socialistas na Europa que deixaram atrás de si a herança triste de uma terra arrasada e de almas destruídas. Quem esperava, então, ter chegado a nova hora da mensagem cristã viu-se frustrado. Apesar de não ser pequeno o número de fiéis cristãos no mundo todo, o cristianismo não conseguiu apresentar-se como alternativa memorável nesse momento histórico. No fundo, a doutrina marxista da salvação, se bem que dividida em variantes diversas de instrumentalização, era vista como o único roteiro para o futuro, baseado em motivação ética e, ao mesmo tempo, em conformidade com a visão científica do mundo. Por isso não chegou a desaparecer simplesmente após o choque de 1989. Basta lembrar a pouca repercussão que tiveram os relatos dos horrores dos gulags comunistas e o esquecimento em que logo caiu a voz de Soljenitsin: são coisas de que não se fala. Existe uma espécie de vergonha que o proíbe; até mesmo o regime assassino de Pol Pot só parece merecer rápidas menções casuais. Mesmo assim sobrou uma sensação de decepção e uma profunda perplexidade. Já não se confia em grandes promessas morais, afinal, o próprio marxismo se tinha considerado uma delas. A meta era: justiça para todos, paz, abolição de formas de governo injustas etc. Para alcançar objetivos tão nobres, viram-se obrigados a cancelar no percurso os fundamentos éticos, podendo inclusive recorrer ao terror como meio para alcançar o bem. Depois de terem vindo à luz, pelo menos durante uns momentos, os escombros do humanitarismo que resultaram desse pensamento, opta-se agora por um recuo ao pragmatismo, quando não se confessa abertamente uma atitude de desprezo pelo elemento ético. Um exemplo trágico pode ser observado na Colômbia onde se começou, inicialmente sob auspícios marxistas, uma luta pela libertação dos pequenos agricultores pisados pelos grandes capitalistas. Com o tempo formou-se de fato uma república de rebeldes que, constituída hoje à margem do poder do Estado, explora abertamente o tráfico de drogas e nem procura mais nenhuma justificativa moral, ainda quando é sabido que está satisfazendo uma demanda que vem dos países ricos e que está dando emprego e pão a muitas pessoas que dificilmente encontrariam um lugar na ordem econômica vigente. Numa situação de tal perplexidade, o cristianismo não deveria reencontrar a sua voz, 'introduzindo' o novo milênio na sua mensagem e tornando-a compreensível, para que possa servir de roteiro em direção ao futuro?
 
Onde estava a voz da fé cristã em todo esse tempo? Em 1967, quando este livro foi escrito, estava em pleno andamento a efervescência que caracterizou os primeiros anos depois do Concílio. Exatamente esse tinha sido o propósito do Vaticano II: conferir ao cristianismo novamente a força de fazer história."

 

terça-feira, 20 de maio de 2014

SÃO BERNARDINO DE SENA



Curvo-me, hoje, com reverência perante o grande pregador São Bernardino de Sena. Curiosamente, São Bernardo de Claraval, doutor da Igreja, cujo nome é parecido com o seu, é comemorado também no dia 20, só que de agosto. Os dois são grandes apóstolos, filhos prediletos, da Virgem Maria.

Embora São Bernardino de Sena não seja doutor da Igreja, impressionam-me a sabedoria, a beleza, a força e a precisão das suas palavras. Sua doutrina parece ter a mesma estatura da dos santos doutores. Muitas citações dele são encontradas no célebre "Glórias de Maria", de Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igreja.
 
 
 
 

sábado, 17 de maio de 2014

ROSÁRIO NA PRAÇA DO PAPA, DOMINGO, 18/5, ÀS 9 HORAS


Prezado amigo, prezada amiga,
 
 
Amanhã rezaremos o santo rosário completo na Praça do Papa, no bairro Mangabeiras, às 9 horas da manhã, encontrando-nos em frente à cruz. No dia 18 de maio comemora-se o aniversário de nascimento do grande Papa São João Paulo II, que pisou nessa mesma praça e lhe deu o nome ou apelido. Será também uma nossa homenagem a Nossa Senhora no seu mês, maio.
 
Peço-lhe que pense desde já em suas intenções, compareça e leve quem você quiser. Caso você não possa ir, reze por nós. Nós rezaremos pelas suas intenções.
 
Após a recitação de alguns mistérios na Praça do Papa, faremos um pequena caminhada pelas ruas do bairro Mangabeiras, continuando a recitação pública do santo rosário, dando testemunho humilde da nossa fé.
 
 
Um abraço e até amanhã,
 
 
Paul

O QUE PENSAVA CERTA MÃE




"Permita-me, meu irmão, que lhe venha trazer uma reminiscência de minha infância. Em minha casa paterna, no escritório de meu pai, em cima de sua mesa de trabalho, havia um quadro. Entre as lembranças que sempre me acompanham na vida, há esta que está bem viva; parece que, ainda hoje, estou vendo este quadro, com toda a nitidez.
 
Atrás dum vidro grosso, havia uma estampa, que uma armação de metal mantinha erguida, bem visível a todos os que se aproximassem. Apresentava a figura duma mulher com um menino ao lado, os dois ricamente vestidos. Ela era Branca de Castela, rainha de França; ele, o príncipe Luís, mais tarde Luís IX, o grande São Luís, rei de França, cuja festa celebramos no dia 25 de agosto. Em baixo da gravura, havia esta frase: 'Meu filho, você sabe bem quanto eu o amo, mas prefiro vê-lo morto a saber que cometeu um pecado mortal.'
 
Estas palavras exprimiam bem a fé e a fortaleza dessa mulher extraordinária, assim não estranhamos que tenha dado à igreja um grande cristão, um santo canonizado.

Mas não deveria ser este o propósito de cada um de nós, a disposição constante de nossa vida? Olhemos as legiões de mártires da Igreja. Por que foram sacrificados? Simplesmente para não cometerem um pecado mortal, renegando Cristo.
 
Que é o pecado mortal? Uma transgressão grave da lei divina, com pleno conhecimento e inteira liberdade. Uma injúria séria a Deus. O homem prefere um prazer momentâneo à amizade com Deus. Diz ao Altíssimo que este deleite lhe é mais valioso do que o próprio Senhor; se não afirma isto por palavras, ele o faz por ato.
 
São estas as consequências dum único pecado mortal:

1) perda da graça divina, assim este pecado é chamado mortal, pois de algum modo traz a morte à alma, privando-a da vida de Deus;

2) o homem deixa de ser templo de Deus, o Espírito Santo retira-se de sua alma;

3) são cancelados seus méritos espirituais, é como se perdesse tudo de bom que fez na vida;

4) arrisca-se à condenação eterna. Se morrer neste estado, ficará perpetuamente no inferno. Poderá haver desgraça maior?
 
Paremos um pouco e meditemos nestas verdades. Terminemos nossa reflexão com uma conversa com o Senhor, digamos a Cristo que preferimos morrer a perder a vida divina - a graça - em nosso coração."
 
 
(Dom Cristiano Frederico Portela de Araújo Pena, 1.º bispo de Divinópolis, falecido em 2 de agosto de 2000 em odor de santidade, ordenado bispo em 17 de maio de 1959, há exatos 55 anos. Pai espiritual e um dos maiores responsáveis pela formação cristã do autor deste blog).
 
 
* Aí do céu, Dom Cristiano, dê-nos a sua bênção!