Blog católico e cultural, eventualmente jurídico, com divulgação de ideias, livros e opiniões.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
ERRATA
HAVIA ERROS DE TRANSCRIÇÃO NOS DOIS ÚLTIMOS 'POSTS', QUE FORAM CORRIGIDOS. TRATA-SE DO TRECHO EM QUE GUSTAVO CORÇÃO DIZ QUE UMA LOCOMOTIVA SUBSTITUI OUTRA LOCOMOTIVA, MAS UMA OBRA DE ARTE NÃO SUBSTITUI OUTRA OBRA DE ARTE.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
"QUADROS DE UMA EXPOSIÇÃO", GUSTAVO CORÇÃO
"Visitando outro dia a exposição
dos quadros pertencentes ao Museu de Arte de São Paulo, que durante um mês
estiveram exibidos no Rio, pude fazer, ou refazer, a viva e convincente
experiência da perenidade da arte. Contra a moderna tendência que vê na
sucessão de obras, de escolas, de buscas, mais a fugacidade do que a
permanência, mais as procuras instáveis do que as conquistas, mais o efêmero do
que o definitivo, e sobretudo mais os movimentos do que as obras, sempre tive
como postulado fundamental de sã filosofia estética que não existe superação e
substituição no processo evolutivo da arte, como realmente existe no progresso
da técnica. Uma locomotiva supera, substitui, torna obsoleta a diligência que transportou nossos avós; mas não há obra de arte que torne obsoleta outra obra de
arte. Os quadros se sucedem no tempo de surgimento, na hora de entrar no grande
salão universal que um dia, no último dia, estará completo; e então mostrará, a
Deus e aos anjos, a coleção de gestos com que uma estranha raça glosou o mote
fundamental da humana essência, assim como quem diz: – Quereis saber o que é um
homem? Aí está a variedade que nasce na riqueza de uma alma racional...
Sucedem-se as obras, chega uma após outra, condicionada, marcada pelo século,
mas não subordinada, não determinada pela história. O século passa com seus
outros sinais fugazes, a obra fica. O século passa com seus outros sinais
fugazes, a obra fica. E não fica apenas como permanecem nos museus os
utensílios e ferramentas de outras eras, comoventemente ridículos, a lembrar o
tempo em que o homem engatinhava naquele ofício. A genuína obra de arte fica e
permanece presente. Seu valor, embora colorido do ambiente em que surgiu,
transcende às circunstâncias e às épocas, marcando uma vitória sobre o tempo. Anda
assim errado o artista que tem, como primeira e principal, a preocupação de ser
de seu tempo. Submete-se assim ao que deve vencer; prende-se ao condicionamento
de que se deve livrar; e com tal alienação só poderá fazer obra medíocre de
imitação servil recomendada pela moda e exaltada por uma espécie de colunismo
social, que tanto existe para vestidos como para as artes, e até para o
apostolado religioso.”
(Gustavo Corção, “O desconcerto
do mundo”)
quarta-feira, 11 de junho de 2014
VESTÍGIOS DA ETERNIDADE
Caro
leitor, quando me acontece de ler algum clássico da literatura universal, uma
obra daquelas que nos eleva, que nos torna melhores, sinto imediatamente
gratidão pelo autor. Por vezes, agradeço em espírito a Beethoven não só por uma
obra completa, sinfonia, concerto ou sonata, mas por uma determinada nota ou por
algum trecho de determinada composição. Digo a ele: “Obrigado por exatamente
essa nota!” “Obrigado porque aqui não há mero enfeite supérfluo ou dissimulada
afetação, mas a sua alma nua, íntegra, em sonora comunicação.”
Tenho
pelos grandes artistas, não importa se pintores, escultores, músicos,
escritores, profunda gratidão e igual veneração. Por quê?, indaga-me o leitor.
Porque, respondo, a arte é um sacerdócio, é um prolongamento do poder criador
de Deus, é o sétimo dia da criação, em que Deus descansou para o homem
completar. A verdadeira arte, a arte genuína, que seja digna desse nome, é um vestígio
da eternidade, um relâmpago fora do tempo, uma antevisão do paraíso, uma
pregação de Deus.
Aquela
obra, não importa de que tipo, que revela o gênio e em que o gênio se revela
leva-nos a um estado de contemplação algo semelhante ao êxtase dos místicos:
por um instante, esquecemo-nos do mundo e talvez até de nós mesmos, para
contemplar o belo. Ora, o êxtase dos ascetas, antegozo do céu, também é um
esquecer-se do mundo, elevar-se do mundo, para mergulhar na beleza insondável e
imutável, que, afinal, outra coisa não é do que o próprio Deus.
Ensinam-nos
os teólogos cristãos que Deus não é bom, ele é a bondade; Deus não é justo, ele
é a justiça; Deus não é belo; ele é a beleza. Só Deus existe por si mesmo, sem
depender de qualquer outro ser. Deus é a causa de todos os outros seres, enquanto
o ser de Deus não tem causa, é incausado. Deus é a causa incausada.
Ele não é causado, não é efeito de uma causa anterior a ele; simplesmente é. Todos os seres existem tão somente por participação no
ser de Deus. Se não participassem do ser de Deus de alguma forma, não seriam,
não existiriam.
Ora,
o mesmo acontece com a beleza. Tudo o que é belo retira a sua parcela de beleza
do ser de Deus. Fora de Deus não há beleza (com certeza, muitos modismos e
cortes de cabelo não são de Deus!). Se algo é genuinamente belo, estejamos
certos, é porque ele participa do ser de Deus em alguma medida. É por isso que,
quanto mais perfeita e acabada a obra, mais ela tende à atemporalidade, sua
maravilha atravessa o oceano dos tempos, cruza os mares das modas, surpreendendo
homens de várias idades ou épocas. Quanto menor a obra, mais temporal, mais
marcada ela é pelas cicatrizes do tempo. Pode-se dizer também que quanto mais
perfeito o produto do gênio humano, mais universal, mais desprendido ele está de
circunstâncias territoriais. Ele é universal no tempo e no espaço. Nesse
sentido, a verdadeira Igreja somente poderia ser católica, universal.
Assim,
podemos dizer sem medo de errar que o mal e a feiura não são entes, não
existem, pois não participam do ser de Deus, em que não há qualquer defeito ou
vício. O mal e o feio são carências de ser, privações de ser. O mal, o feio e o
injusto existem apenas como carências, como deficiências, como perdas de ser;
não possuem existência ontológica. Dessa forma explica-se um pouco a
transmissão do pecado original: os primeiros pais pecaram. O pecado acarretou
uma perda de ser em sua natureza original, pois só o que é puro e incorrupto,
íntegro, inteiro, pode corromper-se ou tornar-se viciado. Foi essa natureza
quebrada, viciada, ferida, que nossos primeiros pais nos transmitiram.
Gustavo
Corção construiu uma belíssima imagem em seu “O desconcerto do mundo”. Diz ele
que as obras artísticas genuínas serão apresentadas a Deus pelos homens, no
ofertório do fim do mundo. Tudo o que o espírito humano produziu de belo, será
ofertado à fonte e à origem de toda a beleza, no fim dos tempos:
“Uma
locomotiva supera, substitui, torna obsoleta a diligência que transportou nossos avós; mas não há obra de arte que torne obsoleta outra obra de arte. Os quadros se
sucedem no tempo de surgimento, na hora de entrar no grande salão universal que
um dia, no último dia, estará completo; e então mostrará, a Deus e aos anjos, a
coleção de gestos com que uma estranha raça glosou o mote fundamental da humana
essência, assim como quem diz: – Quereis saber o que é um homem? Aí está a
variedade que nasce na riqueza de uma alma racional... Sucedem-se as obras,
chega uma após outra, condicionada, marcada pelo século, mas não subordinada,
não determinada pela história. O século passa com seus outros sinais fugazes, a
obra fica.”
É
por tudo isso que eu alimento a serena convicção de que a arte contém vestígios
do paraíso, uma espécie de coautoria divina ou pó celeste, despertando nossos
sentidos para o que há de vir, preparando-nos para o súbito encontro com o
máximo grau de beleza, de cuja intensidade jamais poderíamos suspeitar. Deve
ser um esplendor solar, luminoso, a ponto de quase nos cegar.
Em
vista dessa gratidão que eu trago em meu peito por todo artista verdadeiro,
isto é, por aqueles que não estão presos à camisa de força da moda, às amarras
de tempo e de lugar, em virtude, repito, da minha veneração por essa peculiar
espécie de filhos de São Domingos, que prega pelo seu gênio, ocorre-me muitas
vezes de recomendá-los a Deus e de deplorar os maus artistas que envenenam
nossas almas com feiuras escatológicas.
Nós
devemos ser muito agradecidos a Deus pela arte. Nesse vale de lágrimas é-nos concedida
alguma distensão, algum remédio, algum alívio. Ela traz-nos uma espécie de
assombro, de susto, de gozosa e instantânea morte.
sábado, 7 de junho de 2014
EXCERTO DE "SOLILÓQUIOS", DE SANTO AGOSTINHO
"Deus, criador de todas as coisas, concede-me primeiro que eu faça uma boa oração; em seguida, que me torne digno de ser ouvido por ti; por fim, que me atendas. Deus, por quem tende a ser tudo aquilo que por si só não existiria. Deus, que não permites que pereça nem mesmo aquilo que se destrói. Deus, que do nada criaste este mundo, o qual acham belíssimo os olhos de todos os que o contemplam. Deus, que não fazes o mal e fazes que este não seja pior. Deus, que mostras aos poucos, que se aproximam do que é verdadeiro, que o mal é nada. Deus, por quem todas as coisas são perfeitas, ainda com a parte que lhes toca de imperfeição. Deus, por quem se atenua ao máximo qualquer dissonância quando as coisas piores se harmonizam com as melhores. Deus, a quem amam, consciente ou inconscientemente, todos os que possam amar. Deus, em quem todas as coisas subsistem e para quem, contudo, não é torpe a torpeza de qualquer criatura, a quem não prejudica a sua malícia nem o afasta o seu erro. Deus, que não quiseste que conhecessem a verdade senão os puros. Deus, Pai da verdade, Pai da sabedoria, Pai da verdadeira e suprema vida, Pai da felicidade, Pai do que é bom e belo, Pai da luz inteligível, Pai do nosso desvelo e iluminação, Pai da garantia pela qual somos aconselhados a retornar a ti."
(Santo Agostinho, "Solilóquios")
P.S.: Digam o que quiserem. Para mim, Santo Agostinho não tem par; é simplesmente imbatível.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
A VERDADEIRA BOMBA DE HIROSHIMA
Quando o Espírito Santo
suscitou o Concílio Vaticano II, tão criticado por aqueles que se apegam às
formas exteriores e desprezam o conteúdo do depósito da fé, Ele, na Sua
Onisciência, sabia que o leigo haveria de salvar a Igreja. O Espírito Santo
sabia que a Igreja de Cristo, que segue a mesma sorte do Seu Esposo, flagelada
se encontrava, e mais flagelada ainda seria. Por algum estranho desígnio de
Deus, a Igreja de Jesus Cristo parece ter estacionado na sexta-feira santa; às
vezes, parece mesmo ter estacionado na quinta do lava-pés, pois Judas continua
misturado com os apóstolos.
Perdoem-me o excesso de
franqueza ou de pessimismo, mas não há quem, olhando para a situação da fé
católica no Brasil, não depare com um desolador cenário de guerra. São miríades
e miríades de cadáveres insepultos, de aleijados, de amputados, de inválidos,
de queimados, de deformados espirituais que pululam aqui e ali, julgando-se ainda
pertencentes às fileiras da Igreja Militante. São almas assassinadas,
destroçadas, corrompidas, embotadas e amputadas por toneladas de lixo
teológico. A bomba de Hiroshima destruiu corpos e vidas; mas a hecatombe da
teologia da libertação arrasou almas, matando nelas a graça santificante, ridicularizou
dogmas, menoscabou sacramentos, devastou dioceses, esvaziou paróquias, desesperou
pobres, difamou ricos e, de quebra, lotou as igrejas protestantes.
Certa vez um sacerdote
muito instruído e piedoso disse-me: “qualquer irreverência para com Jesus Eucarístico
é mais grave do que uma guerra, em razão da dignidade da pessoa ofendida. Na
guerra, ofendem-se homens; no desrespeito à Hóstia Consagrada, ofende-se a Deus
diretamente”. Basta refletirmos nessas palavras, muito sábias, muito justas,
para percebermos que o flagelo, a hecatombe nuclear ainda persiste.
É claro que há muitos
sacerdotes e bispos santos, mas, por outro lado, há também dioceses em que a
falta de respeito, o achincalhe, diria quase a zombaria, para com Jesus
Eucarístico parece ter virado norma obrigatória, regra de conduta. Abrindo um
parêntese, gostaria de fazer notar que a página mais dura do Evangelho é
justamente aquela em que Jesus Cristo pegou do chicote com inflamada ira para
fazer cessar imediatamente a profanação do templo.
Se Nosso Senhor me
permitir hoje, eu gostaria de pegar emprestado o Seu chicote e beber do cálice
da Sua ira. Porque muitos de nossos templos têm sido diuturnamente profanados,
e com tal desfaçatez, que não é possível que a coisa continue dessa forma.
Na Igreja Nossa Senhora
do Carmo do Sion, em Belo Horizonte, Minas Gerais, permite-se que um herege
zombe de Jesus Cristo, do culto à Virgem Maria e brinque de celebrar Missa.
Ora, o templo é sagrado. Não há razões diplomáticas que justifiquem a
profanação do templo por um ex padre que zomba da Eucaristia e encena, na
presença Dela, uma afrontosa peça de teatro.
Em outras paróquias da
mesma diocese (não digo que sejam todas; há exceções!), é comum verem-se
pessoas adultas assistindo às Missas com roupas de fazer caminhada, shorts ou
calças tão apertadas que mostram quase os contornos da alma. É tal a ideia que
as pessoas têm da liturgia, que a Missa vira um anexo da caminhada, uma
“escapadinha” do exercício físico. Elas não têm a compreensão de que estão
realmente diante do Calvário, da Paixão do Senhor, que se atualiza, que se
realiza de forma incruenta, diante de seus olhos. Não entendem que só há uma
Missa: a do Calvário, que não é repetida ou relembrada, mas simplesmente
atualizada, tornada presente. Nem são disso esclarecidas.
Não sei quantas vezes já
tive de pedir a pessoas que nem conheço que não mascassem chicletes dentro da
Igreja e, sobretudo, durante as Missas. Duas ou três vezes impedi, pela força
da argumentação, que indivíduos recebessem a comunhão mantendo ainda a goma de
mascar na boca. Em outra ocasião, reparei que a pessoa não ousou comungar com o
chiclete, mas poucos instantes antes da comunhão, colou-o na parte inferior do
banco.
Ora, a boa educação já
exigiria que, por respeito aos outros, aos demais fiéis, se honrasse um lugar,
um ambiente, uma celebração que para eles são sagrados. Um comportamento
condizente com o lugar seria o mínimo que o bom tom e a boa educação exigiriam.
Mas, o caso é mais grave, há profanação do templo, violação de direitos
divinos.
O cenário é apavorante;
é devastador. É a própria abominação da desolação, de que nos fala o Evangelho,
que tomou o templo.
Não se explica aos fiéis
que também as vestes e o comportamento devem corresponder à dignidade da pessoa
com quem se encontra. Ninguém vai dirigir-se a um monarca ou chefe de estado trajando
short de caminhada, agitando uma goma de mascar na boca e calçado de sandálias
havaianas... Há pessoas que se assentam numa Igreja como se estivessem num
banco de praça; ficam escornadas, de pernas cruzadas, falando alto e
gargalhando. Muitas vezes, conversando no celular. É um calamitoso cenário de guerra.
Há paróquias em que os
livros litúrgicos, os lecionários, não se encontram em boa ordem, em situação
digna. Às vezes, andam sujos, engordurados, mal cuidados. Dão até nojo de serem
tocados.
Isso sem falar nessas
fábricas de comunhões sacrílegas que são as confissões comunitárias, realizadas
com evidente abuso e que dão a falsa impressão aos participantes de que podem
ficar anos sem confessar individualmente os seus pecados graves.
Há sacerdotes que
proíbem os fiéis de ajoelharem-se no momento da consagração,
institucionalizando uma espécie de anarquia litúrgica, pois não estão
revestidos de autoridade para tal.
Outros, impedem os fiéis
de exercerem o seu legítimo direito de receber a comunhão na boca, ou ajoelhados.
Outros ainda, institucionalizam a comunhão ‘self service’: o próprio fiel toma
a Hóstia e a molha no vinho, sendo que, na verdade, é Cristo que Se doa, é
Cristo que Se entrega a nós. Se é Cristo que se doa, é o sacerdote ou o
ministro que devem entregar a Hóstia ao fiel. Há um profundo significado teológico
nas normas litúrgicas.
Não, meus amigos! Não é
possível continuar assim!
De que adianta, por exemplo,
construir uma nova catedral se as pessoas não são ensinadas a se comportar
dignamente dentro dela? Desejam-se novas profanações, novos vilipêndios? De que
adianta construir uma igreja de pedra se não se constrói ao mesmo tempo uma
bela igreja espiritual, de pessoas vivas, verdadeiros adoradores, que são os
que o Pai deseja?
O povo é bom, e aqui
retomo a ideia inicial, o povo é espiritual por natureza. Ele sente o rastro, sente
o cheiro de Deus. O povo só não tem sido formado, só não tem sido instruído. Os
teólogos da libertação quiseram colocar o povo no lugar de Deus, como se ele, o
povo, fosse um bezerro de ouro, o destinatário da liturgia, da celebração
eucarística. Não! A liturgia é obra de Deus, para Deus. É Cristo quem celebra a
Eucaristia, oferecendo-Se a Deus Pai por nós. O povo é bom e reconhece que não
pode tomar o lugar de Deus.
O Espírito Santo, conhecendo
os tempos difíceis por que passaria a Igreja, conferiu maior importância aos
leigos. Muitos leigos têm feito uma heroica ação benfazeja, estudando e ensinando
aos demais a doutrina e as normas da Igreja, coisa que competiria primariamente
ao clero. São esses leigos, que exigem a comunhão na boca, que se ajoelham na
hora da consagração, que são ciosos dos seus direitos e dos direitos de Jesus
Cristo, que estão fazendo a diferença.
Louvado seja o Divino
Espírito Santo! Bendito seja o Concílio Vaticano II!
Paul Medeiros Krause
EXCERTOS DE "ORTODOXIA", DE GILBERT KEITH CHESTERTON
“Ora, essa é exatamente a
reivindicação que venho fazendo para o cristianismo. Não simplesmente que ele
deduz verdades lógicas, mas que quando de repente se torna ilógico, ele
encontrou, por assim dizer, uma verdade ilógica. Ele não apenas acerta em
relação às coisas, mas também erra (se assim se pode dizer) exatamente onde as
coisas saem erradas. Seu plano se adapta às irregularidades ocultas e espera o
inesperado. É simples no que se refere à verdade sutil. Admite que o homem tem
duas mãos, mas não admite (embora todos os modernistas lamentem o fato) a
dedução óbvia de que tenha dois corações.
Meu único propósito neste
capítulo é mostrar isso; mostrar que quando sentimos a existência de algo
estranho na teologia cristã, geralmente vamos descobrir que existe algo
estranho na verdade.
Eu aludi a uma frase absurda que
afirmava que não se pode crer neste ou naquele credo em nossa época. É claro
que se pode acreditar em qualquer coisa em qualquer época. Mas, embora pareça
estranho, há de fato um sentido em que um credo, quando digno de alguma crença,
pode ser abraçado mais firmemente numa sociedade complexa do que numa simples.
Se um homem julgar que o cristianismo é verdadeiro em Birmingham, ele realmente
tem razões mais claras para ter fé do que se o tivesse julgado verdadeiro em
Mércia. Pois quanto mais complicada parecer a coincidência, tanto menos ela
pode ser uma coincidência. Se caíssem flocos de neve na forma, digamos, do
coração [brasão] de Midlothian, poderia ser um acidente. Mas se caíssem flocos
de neve com a forma exata do labirinto de Hampton Court, acho que se poderia
chamar isso de milagre.
É exatamente esse tipo de milagre
que passei a perceber na filosofia do cristianismo. A complicação do nosso
mundo moderno prova a verdade do credo mais perfeitamente do que qualquer um dos
simples problemas das épocas de fé. Foi em Notting Hill e Battersea que comecei
a ver que o cristianismo era verdadeiro. É por isso que a fé tem aquela elaboração
de doutrinas e detalhes que tanto incomoda os que admiram o cristianismo sem
acreditar nele. Quando alguém abraça uma crença, essa pessoa se sente orgulhosa
de sua complexidade, como os cientistas se sentem orgulhosos da complexidade da
ciência. O fato mostra como ela é rica em descobertas.”
“Foram Huxley, Herbert Spencer e
Bradlaugh que me trouxeram de volta à teologia ortodoxa. Eles me semearam na
mente as primeiras fortes dúvidas da dúvida. Nossas avós estavam muito certas
quando diziam que Tom Paine e os livres-pensadores perturbavam a cabeça. Perturbavam
mesmo. Perturbaram a minha de um modo horrível. O racionalista me fez perguntar
se a razão tinha alguma utilidade qualquer; e, quando terminei Herbert Spencer,
eu já fora tão longe que duvidei (pela primeira vez na vida) se a evolução
havia sequer acontecido. Quando depus a última das palestras ateias do Coronel
Ingersoll, irrompeu o terrível pensamento: ‘Tu quase me persuadiste a ser cristão’.
Eu o era de um modo desesperado.”
“O cristianismo era atacado de
todos os lados e por todas as razões contraditórias. Mal um racionalista
acabara de demonstrar que ele pendia demais para o oriente, outro demonstrava
que ele pendia demais para o ocidente. Mal a minha indignação se arrefecera
diante de sua configuração quadrada angular e agressiva, minha atenção era
novamente chamada para observar e condenar sua irritante natureza redonda e
sensual.”
“O caso começou a ficar
alarmante. Não parecia tanto que o cristianismo era suficientemente perverso a
ponto de incluir qualquer vício, mas sim que qualquer pau era bom para bater
nele. Como seria essa coisa assombrosa que as pessoas queriam tanto
contradizer, a ponto de fazê-lo sem importar-se de contradizer-se a si mesmas?”
(Gilbert Keith Chesterton, “Ortodoxia”)
segunda-feira, 2 de junho de 2014
EXCERTO DE "DOIS AMORES -- DUAS CIDADES"
“O primeiro efeito que
preveríamos [da infiltração cultural do nominalismo], ou que observaríamos, é o
da desvalorização do homem, a partir da desvalorização do conhecimento. Se se
retrai ou contrai o conhecimento, é o homem que diminui. A catástrofe
epistemológica será acompanhada inevitavelmente de uma catástrofe cultural e
humanística. Resta saber em que direção se desvalorizou o homem. A história nos
diz que essa degradação, disfarçada nos primeiros lances com as cores da
emancipação, consistiu numa atenção voltada para a relação Homem-Natureza mais
do que para as relações Homem-Deus e Homem-Homem.
Poderemos conceder que o
nominalismo tenha contribuído para o progresso da Ciência positiva, que em si é
um bem de inestimável valor? Até certo ponto cremos que o nominalismo ajudou o
progresso científico. Quando mais não seja pelo fato de desviar maior número de
estudantes bem dotados para a pesquisa científica do que para as especulações
teológicas.
O que é indubitável é que o
nominalismo, pelo descrédito trazido à teologia e à metafísica, produziu o ‘cientificismo’,
isto é, a cultura comandada pela ciência, em vez de ser comandada pela religião
e pela filosofia. Acompanhando a tendência empirista, vem a tendência ‘quantitativista’
e materializadora, que mais tarde, a partir de Descartes, ganhará enorme vigor.
Outro efeito, de incalculáveis consequências, é o processo armado pelo
nominalismo contra o ‘senso comum’. E ainda assinalaríamos o que chamamos a ‘desvalorização
do valor’ especialmente promovida pelo positivismo, que é a mais virulenta
reedição moderna do velho nominalismo.
Merece ainda menção especial um
prejuízo trazido pelo descrédito da metafísica e pela depressão da cultura
religiosa dos tempos modernos: referimo-nos aos fatores que molestarão, durante
quatro séculos, o desenvolvimento do ideal democrático, que seria a mais bela
aquisição cultural dessa civilização se não estivesse ferida por tantos golpes.
[...]
A cândida ideia que ocorrerá a
muitos espíritos é a seguinte: na continuação dos tempos, a Ciência polirá
todas as arestas do Velho Homem, iluminará todas as trevas, resolverá todas as
dificuldades. Ora, essa ideia, comicamente falsa, extravagantemente falsa, foi
difundida e tornou-se o ar que respiramos e a água que bebemos; e isto só
aconteceu porque a Civilização Ocidental Moderna já não tinha à sua presidência
os dados da antiga sabedoria. Se a tivesse, ouviria a censura clara e irrefutável:
a ciência dos elementos exteriores aumenta o domínio do homem sobre eles, mas não
acrescenta nada ao domínio do homem sobre si mesmo. Conhecer a natureza inferior é
bom; conhecê-la em detrimento do conhecimento da alma e de Deus não é bom.”
(Gustavo Corção, “Dois amores –
duas cidades”)
Assinar:
Postagens (Atom)