segunda-feira, 30 de junho de 2014

NOSSA SENHORA DO CARMO



            Certamente o leitor já ouviu falar das sete maravilhas do mundo, que alguém classificou como pertencentes ao “mundo antigo”. Nomearam também depois as sete maravilhas do mundo moderno. Queria eu revelar-lhe que possuo de meu lado as minhas próprias sete maravilhas. Creio que ao leitor seja igualmente permitido ter as suas. Gostaria, pois, de falar de uma dessas belezas extraordinárias, descomunais, que pelo menos a mim causa especial deslumbramento.


            Em primeiro lugar, trago reminiscências da juventude e algumas ligações afetivas: minha missa de colação de grau em Direito coincidiu com o dia de Nossa Senhora do Carmo. Recordo-me também agora de que a nossa missa em ação de graças pela conclusão do segundo grau teve lugar na Igreja Nossa Senhora do Carmo, do Sion. Perto da minha casa há um mosteiro de monjas carmelitas, das quais eu sempre tive inveja – não sei se no bom ou no mau sentido –, em razão da sua heroica coragem de deixar o mundo e generosidade para com Deus. (Na verdade, parece-me que enclausurado, fora dos muros do Carmelo, encontra-se o mundo. Livres são as irmãs). Santa Teresa foi uma das leituras favoritas da minha adolescência e juventude. E ainda hoje o é.


            Quando menino eu não gostava de cidades históricas. Achava-as tristonhas. Os passeios em Ouro Preto sempre me pareciam enfadonhos. Chegado, porém, à idade adulta, elas passaram a atrair-me irresistivelmente. E, nessas idas e vindas, conheci Tiradentes, já com vinte e seis anos.


            Gostei tanto da cidade que passei a ir até lá várias vezes ao ano, dedicando-lhe pelo menos alguma parcela das minhas férias. Muitas vezes, a parcela única, total. E foi assim que descobri uma das maravilhas escondidas do mundo: a novena de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei (que é bem próxima a Tiradentes). É tal o esplendor da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, são tão solenes os dias de preparação e os festejos da Rainha do Monte Carmelo, tão extraordinárias as execuções barrocas da bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos, que eu me arrisco a afirmar isto: a festa de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei, com sua novena preparatória, é uma das sete maravilhas escondidas do mundo. Não se trata de uma apoteose, de uma epifania, apenas para mim. Trata-se de um colosso maravilhosamente escondido, um tesouro encravado entre as serras de Minas.


            Que há nessa novena, que há nessa festa? Beleza, tradição e devoção. É possível sentir a fé de nossos avós em sua pureza genuína, simples e profunda, cercada, adornada de grande dignidade, de uma suntuosidade real. Ali se tem a impressão de que a Rainha dos Anjos recebe homenagens mais condignas. De que a misteriosa realeza de Deus deixa-se entrever, deixa escapar algumas faíscas. Há uma pompa real na igreja, na música, nas imagens, na procissão e na própria cidade que a procissão percorre.


            Após as missas às 18h30, há a magnífica novena, enriquecida pela execução de obras antigas e belíssimas por parte da orquestra, entremeada de esplêndidas pregações de aproximadamente meia hora. Costumam ser três os pregadores, que se substituem a cada três dias. Não raro um dos pregadores é um bispo. Um detalhe que a meu ver enriquece o ato é o uso do púlpito antigo, localizado no meio da Igreja, no alto.


            A procissão com as belíssimas imagens barrocas de Nossa Senhora do Carmo e São Simão Stock merece uma especial menção. É tocante a parada da imagem de Nossa Senhora diante do cemitério da Ordem Terceira do Carmo, como que a significar a visita da Mãe de Deus às almas do purgatório, para trazer-lhes alívio e levá-las definitivamente ao paraíso. Na missa das três horas, no dia da Virgem do Carmo, há a imposição do escapulário para aqueles que se inscreveram previamente na Confraria do Escapulário. Vale lembrar que o uso do escapulário, mediante o necessário rito de imposição pelo sacerdote, é enriquecido com abundantes graças espirituais que testemunham o favor de Nossa Senhora pelos carmelitas.


            Ainda se destaca nos dias da novena a disponibilidade de inúmeros sacerdotes para o atendimento de confissões individuais, artigo raro em dioceses devastadas pela teologia da libertação, mas abundante na bela e conservadora São João. A São João del-Rei dos sinos, referência nos artefatos litúrgicos, efervescente na música, de Dom Lucas Moreira Neves, de Nhá Chica resiste valentemente à crise de identidade católica que destroça vários lugares do Brasil.


            Quero eu persuadir a tantos quantos eu possa, a tantos quantos têm sede de água viva, têm fome de Deus e do belo, que pelo menos uma vez na vida se permitam desfrutar da sétima maravilha escondida do mundo, participando da novena (ainda que por alguns dias) e da festa de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei.




Paul Medeiros Krause

sexta-feira, 27 de junho de 2014

INDULGÊNCIA PLENÁRIA DA FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS



Por ocasião da festa do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja concede indulgência plenária ao fiel que recitar publicamente o seguinte Ato de Reparação:
Dulcíssimo Jesus, cuja infinita caridade para com os homens é por eles tão ingratamente correspondida com esquecimentos, friezas e desprezos, eis-nos aqui prostrados na vossa presença, para vos desagravarmos, com especiais homenagens, da insensibilidade tão insensata e das nefandas injúrias com que é, de toda a parte, alvejado o vosso amaríssimo Coração. 
Reconhecendo, porém, com a mais profunda dor, que também nós, mais de uma vez, cometemos as mesmas indignidades, para nós, em primeiro lugar imploramos a vossa misericórdia, prontos a expiar não só as próprias culpas, senão também as daqueles que, errando longe do caminho da salvação, ou se obstinam na sua infidelidade, não vos querendo como pastor e guia, ou, conculcando as promessas do batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da vossa santa lei.  
De todos estes tão deploráveis crimes, Senhor, queremos nós hoje desagravar-vos, mas, particularmente, da licença dos costumes e modéstias do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência, da violação dos dias santificados, das execrandas blasfêmias contra vós e vossos Santos, dos insultos ao vosso Vigário, e a todo o vosso Clero, do desprezo e das horrendas e sacrílegas profanações do Sacramento do divino amor, e, enfim, dos atentados e rebeldias das nações contra os direitos e o magistério da vossa Igreja.  
Oh! se pudéssemos lavar, com o próprio sangue, tantas iniquidades!  
Entretanto, para reparar a honra divina ultrajada, vos oferecemos, juntamente com os merecimentos da Virgem Mãe, de todos os Santos e almas piedosas, aquela infinita satisfação, que vós oferecestes ao Eterno Pai sobre a cruz, e que não cessais de renovar, todos os dias, sobre nossos altares.  
Ajudai-vos, Senhor, com o auxílio da vossa graça, para que possamos, como é nosso firme propósito, com a vivacidade da fé, com a pureza dos costumes, com a fiel observância da lei e caridade evangélicas, reparar todos os pecados cometidos por nós e por nosso próximo, impedir, por todos os meios, novas injúrias de vossa divina Majestade e atrair ao vosso serviço o maior número de almas possíveis.  
Recebei, ó benigníssimo Jesus, pelas mãos de Maria santíssima reparadora, a espontânea homenagem deste nosso desagravo, e concedei-nos a grande graça de perseverarmos constantes, até a morte, no fiel cumprimento dos nossos deveres e no vosso santo serviço, para que possamos chegar todos à pátria bem-aventurada, onde vós com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
Em outras circunstâncias, a reza deste Ato de Reparação alcança indulgências parciais.
 
É importante lembrar que, para ganhar indulgências, são necessárias: a confissão sacramental, a comunhão eucarística e a oração pelo Sumo Pontífice. Providencialmente, hoje, dia 27 de junho, é o aniversário de sagração episcopal do Santo Padre, o Papa Francisco. Aproveitemos a festa do Sagrado Coração de Jesus para dobrar os nossos joelhos pelo sucessor de São Pedro, a fim de “que o Senhor o conserve, lhe dê vida longa, o faça santo na terra, e não o entregue à vontade de seus inimigos”.
 
Por Equipe Christo Nihi Praeponere
 
 
 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

OS EXTRAODINÁRIOS BENEFÍCIOS DO ESCAPULÁRIO DO CARMO


O QUE É O ESCAPULÁRIO DO CARMO

 

 

Uma das devoções mais difundidas é o escapulário do Carmo. Ele consiste em duas peças retangulares de tecido (de lã, como se diz logo a seguir; as imagens que normalmente trazem não são essenciais), unidas por duas fitas ou cordões levados sobre os ombros (‘scapula’, em latim; daí a origem do nome).

 

O tecido do escapulário do Carmo é de lã marrom (a mais comum) ou preta. O seu valor reside precisamente nesse tecido, com a bênção apropriada, não nas imagens. Pode ser lavado, podem-se mudar os cordões, pode ser revestido de plástico para não sujar, etc.: o importante é que o tecido esteja em boas condições.

 

Há fiéis que preferem usar medalhas-escapulários, que duram mais. Isso foi permitido pelo Papa São Pio X, que em 16 de dezembro de 1910 concedeu que o escapulário – uma vez imposto [notar bem: na imposição deve ser usado o de pano] – pudesse ser substituído por uma medalha que tivesse de um lado uma imagem de Nossa Senhora do Carmo e do outro lado, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus.

 

 

ORIGENS E BENEFÍCOS DO ESCAPULÁRIO DO CARMO

 

 

O costume de usar o escapulário data da Idade Média. Naquela época, era frequente permitir-se aos leigos ingressarem nas ordens religiosas como ‘oblatos’ ou membros associados. Esses ‘oblatos’ participavam das orações e boas obras dos monges, e era-lhes permitido usar o escapulário monástico. O escapulário era então uma longa peça de pano igual à que se enfia pela cabeça do monge, cobrindo-lhe a frente e as costas, sobre a túnica. Para ficarem mais práticos, os escapulários usados pelos membros leigos das ordens terceiras começaram a diminuir de tamanho, até chegarem às pequenas dimensões dos escapulários de hoje.

 

Nos nossos dias, há um total de dezoito tipos de escapulários difundidos entre os católicos, cada um originado numa ordem religiosa diferente. Mas o mais usado é o escapulário marrom da ordem Carmelita, cuja especial padroeira é a Virgem do Carmo. A popularidade do escapulário marrom é devida, em parte, às graças específicas que estão associadas a ele e prometidas pela própria Virgem Maria nas suas aparições a São Simão Stock e ao Papa João XXII: a garantia de que todo aquele que o usar devotamente não morrerá em pecado mortal, e o privilégio sabatino, que se explica adiante.

 

A visão de São Simão Stock e a graça da perseverança final

 

São Simão Stock nasceu na Inglaterra (provavelmente em Aylesford) por volta do ano 1165; aos 12 anos de idade retirou-se para viver em solidão acompanhado de um crucifixo e de uma imagem de Nossa Senhora. Anos mais tarde, acaba por conhecer um grupo de religiosos eremitas, originários do monte Carmelo (na Terra Santa), que foram para na Europa fugindo da perseguição muçulmana; sentindo-se enormemente atraído por essa vocação, decide juntar-se a eles. Após estudar em Oxford e assumir diversos cargos de direção, é nomeado sexto geral (superior) da ordem do Carmelo, no ano de 1245.

 

Já nesse cargo, via as dificuldades e as perseguições intensas a que seus irmãos estavam sendo sujeitos, tendo a Ordem perdido muitos dos seus membros por isso. Decide recorrer à proteção de Nossa Senhora invocando-a com o título de “Flor do Carmelo”.

 

[...]

 

Nossa Senhora atende a sua súplica e aparece-lhe, rodeada de anjos e segurando o escapulário da ordem. Em seguida, faz-lhe uma promessa: “Isto será um privilégio para ti e para todos os Carmelitas. Quem morrer com este escapulário, não experimentará a pena do fogo eternamente, e, se morrer com ele, será salvo”.

 

Embora a data da aparição seja incerta, situa-se dentro do generalato de São Simão (1245-1265) e é anterior ao dia 13 de janeiro de 1252, em que o Papa Inocêncio IV expediu a bula “Ex parte dilectorum”, em que testemunha a veracidade deste privilégio. Tradicionalmente, acredita-se que ocorreu a 16 de julho de 1251 – que ficou sendo a data da festa de Nossa Senhora do Carmo --, estando o santo em Cambridge.

 

É preciso entender corretamente o conteúdo dessa promessa feita pela Virgem: a perseverança final – isto é, a salvação – para quem morrer usando o escapulário. A graça que Nossa Senhora concede aos que usam o escapulário e morrem com ele é a de se arrependerem de todos os pecados cometidos em vida, já que é uma verdade de fé que só se pode salvar quem estiver em estado de graça na hora da morte.

 

Em suma, para alcançar o privilégio da perseverança final é preciso:

 

1) Usar o escapulário do Carmo, imposto e abençoado devidamente pelo sacerdote.

 

2) Usá-lo piedosamente, ou seja, esforçando-se por cumprir os deveres cristãos.

 

3) Levá-lo posto na hora da morte.

 

A visão de São Simão Stock é uma tradição piedosa e não matéria de fé; não é algo em que devamos crer necessariamente, embora haja bastante evidência histórica apontando para a sua veracidade. Por exemplo, o relato aparece já desde o século XIV em documentos internos da Ordem Carmelitana aprovados pelos papas da época.

 

Além disso, devemos ter presente que muitos papas fomentaram o uso do escapulário do Carmo e lhe concederam indulgências, como devoção grata a Santa Maria que é: ao usá-lo, ficamos sob o seu amparo maternal; e aqueles a quem foi imposto pelo sacerdote participam das missas, orações e boas obras da ordem Carmelitana. Como já dissemos acima, o Papa Inocêncio IV (1243-1254) publicou uma bula em que fala do tema. E um pouco mais tarde, há a bula ‘Sacratissimo ut culmine’ (março de 1322), do Papa João XXII, em que o Pontífice não apenas recomenda vivamente o escapulário como relata uma aparição da Virgem para si.

 

 

O Papa João XXII e o privilégio sabatino

 

 

Conta-se que o Papa João XXII teve uma visão de Nossa Senhora a 3 de março de 1322. Nela, Nossa Senhora teria prometido a libertação do purgatório, no primeiro sábado após a morte, a todo aquele que cumprir as seguintes condições:

 

1) Usar o escapulário do Carmo, imposto e abençoado devidamente pelo sacerdote;

 

2) Usá-lo piedosamente, ou seja, esforçar-se por cumprir os deveres cristãos;

 

3) Levá-lo posto na hora da morte;

 

4) Observar o sexto e o nono mandamentos de acordo com o seu estado de vida, isto é, não pecar contra a castidade e não cometer adultério;

 

5) Recitar o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, ou, se iletrado, jejuar quando manda a Igreja e também abster-se de carne nas quartas-feiras e nos sábados. A recitação do Pequeno Ofício pode ser comutada por um padre que tenha faculdade para tal; geralmente é substituída pela recitação de uma parte do santo rosário diariamente. Aqueles – sacerdotes em sua maioria – que já recitam o Ofício Comum de Nossa Senhora também satisfazem a condição.

 

 

Indulgências plenárias associadas ao uso do escapulário

 

 

Além dos dois privilégios especialíssimos do escapulário, a Igreja concede indulgência plenária nas datas que se indicam a seguir àqueles fiéis que cumprirem as condições habituais para tanto (Confissão Sacramental, Comunhão Eucarística e a oração em intenção do Sumo Pontífice em dias próximos a essas datas):

 

1. No dia da imposição do escapulário;

2. Na solenidade de Nossa Senhora do Carmo (16 de julho);

3. Na festa de São Simão Stock (16 de maio);

4. Na festa de Santo Elias, profeta (20 de julho);

5. Na festa de Santa Teresa de Jesus (15 de outubro);

6. Na festa de São João da Cruz (14 de dezembro);

7. Na festa de Santa Teresa do Menino Jesus (1 de outubro);

8. Na festa de todos os santos da ordem do Carmo (14 de novembro).

 

 

 

(“O escapulário do Carmo”. Cultor de Livros)

O CORAÇÃO DE JESUS E A SEGUNDA MORADA


 

            Há dois ou três anos, fiz a confissão mais tocante da minha vida. Creio que jamais a esquecerei. Aproximei-me do sacerdote profundamente humilhado, envergado, esmagado pelo peso das minhas culpas. Não tinha quase coragem de olhá-lo nos olhos. Estava preparado para apanhar a pauladas e ser escorraçado do confessionário aos pontapés. Eu esperava severas, duríssimas, acérrimas admoestações da parte do ministro de Deus. Mas, para minha surpresa, ele tratou-me com uma brandura e delicadeza tão inesperadas, tão suaves, aliviou-me de tantos pesos e dúvidas, que eu desabei.

 

            O sacerdote era tão humilde! Falava-me como se ele próprio pudesse cometer aqueles mesmos pecados – ou até piores! –, não fosse uma especial proteção de Deus. Suas palavras pareciam tocar alguma mola ou algum tipo de sentido interior da minha alma, produzindo o assustador efeito de uma convulsão de soluços e um jorrar de lágrimas totalmente imprevistos. A cada palavra sua era como se, um a um, pesos inconcebíveis fossem retirados de cima das minhas costas, ou de dentro do meu peito, ou de cima da minha alma, pesos que me esmagavam, que me trituravam, que me repartiam.

 

            Era uma sexta-feira. Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Só me dei conta disso depois, talvez na tarde do mesmo dia. Confessei-me aproximadamente às onze horas da manhã.

 

            Desde aquele dia de luz solar prateada e céu azul com poucas nuvens, tenho uma especial devoção pela Solenidade do Sagrado Coração, pois acredito que Jesus Cristo emprestou misteriosamente seu coração ao sacerdote naquela sexta-feira. Até que me provem o contrário, estou convencido de que o Divino Coração tenha, nos seus desígnios solares, desejado que eu tivesse uma profunda experiência da sua misericórdia na data da sua solenidade.

 

            “Vinde a mim, vós todos que estais cansados e sobrecarregados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque eu sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” (Mateus 11, 28-30)

 

            Esses versículos da escritura encarnaram-se naquele dia luminoso e ameno. O próprio Jesus Cristo, com sua mansidão e suavidade, numa espécie de esconde-esconde, parecia estar oculto naquele homem de batina preta. Aquele dia foi para mim a experiência profunda do alívio, do repouso, do descanso, da mansidão.

 

            Quando eu leio o “Castelo interior ou Moradas” de Santa Teresa de Ávila, tenho sempre a impressão de que me encontro nas segundas moradas. Eu sinto os tiros de canhão, o barulho do arsenal da artilharia infernal, a luta encarniçada das hostes inimigas, a me rasgarem por dentro, ensurdecendo-me com os seus estampidos. Sinto os meus sentidos revoltosos, confusos, magoados por terem sido usados contra o seu criador. Eu não acreditaria na descrição que Santa Teresa faz das segundas moradas se eu não sentisse com tal realismo a precisão dos seus conceitos e a exatidão das suas figuras. Se eu não apalpasse com as minhas próprias mãos a duríssima realidade da sua descrição, creio que teria dificuldades de levar a sério as suas palavras.

 

            Sim, meus amigos, parece que me encontro ali, nas segundas moradas de minha alma, fazendo a contínua experiência da misericórdia de Deus, após as mordidas das víboras e o inchaço consequente. Sentindo o ardor do veneno e sorvendo a doçura do antídoto. Aguardando que o Coração de Jesus Cristo me visite e me convide para aposentos mais íntimos.

 

 

 

Paul Medeiros Krause

terça-feira, 24 de junho de 2014

O ESCAPULÁRIO DO CARMO

Aproxima-se a festa de Nossa Senhora do Carmo. É importante aproveitar essa data, 16 de julho, para receber a imposição solene do escapulário em alguma igreja carmelita, sem a qual o uso do escapulário não confere os grandes privilégios espirituais assegurados pelos Papas, dentre os quais se destaca a promessa da salvação eterna para quem morrer usando-o como bom cristão e o privilégio sabatino, a saída do purgatório no sábado seguinte à morte, atendidos os requisitos próprios.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O PRIMOGÊNITO


 

            Há um pequeno trecho do evangelho de São Lucas que costuma escandalizar algumas pessoas pouco afeitas à interpretação das sagradas escrituras. Parece mesmo que o Divino Espírito Santo gosta de chocar e confundir alguns espíritos mais suscetíveis e sempre prontos a arrancar os cabelos diante de qualquer dificuldade interpretativa. É o seguinte: “e ela deu à luz seu filho primogênito” (Lc 2, 7).

 

            A Bíblia de Jerusalém traz a seguinte nota ao trecho citado: “No grego bíblico, o termo não implica necessariamente a existência de irmãos mais novos, mas sublinha a dignidade e os direitos da criança”.

 

Certamente, muitos lembram-se da passagem de Esaú e Jacó, em que o primeiro, por um prato de lentilhas – figura do pecado, em que trocamos a graça de Deus por qualquer bagatela criada --, cede ao segundo o seu direito de primogenitura. Recordamo-nos, também, do episódio em que Jacó se disfarça de Esaú, com a cumplicidade de sua mãe, para receber a bênção paterna, destinada ao filho primogênito.

 

            Deus põe à prova a nossa confiança. Ele não aprecia espíritos excessivamente desconfiados, inseguros. Pouco ou nada adiantaria o Espírito Santo ter inspirado a redação da Bíblia se Ele também não suscitasse uma espécie de “Suprema Corte Constitucional” que nos fornecesse uma “interpretação conforme à Constituição” do texto sagrado. Essa “Suprema Corte Constitucional”, que nos interpreta a Bíblia conforme à revelação de Deus, conforme Deus, é a Igreja Católica.

 

Os teólogos da libertação dizem que o verdadeiro intérprete da Bíblia é o povo, oprimido pela hierarquia católica. Mas eles, os teólogos da libertação, possuem também duas imagens representativas no evangelho: Judas, ladrão dos direitos divinos, que quis roubar o dinheiro do perfume que ungiu Jesus, sob pretexto de ajudar os pobres, e Jesus Barrabás (“Bar-Abbas”, filho do pai. “Bar” significa filho; Bartimeu é o filho de Timeu. Segundo muitos manuscritos antigos, Barrabás chamava-se Jesus), o Jesus agitador, assassino, revolucionário, que pega em armas para promover justiça social. Os teólogos da libertação são os que agitam o povo para escolher o Jesus mundano, revolucionário, o Jesus “Che Guevara”, em lugar de Jesus Cristo que veio salvar o povo dos seus pecados.

 

            Ora, diz-nos o evangelho, toda autoridade vem de Deus. (Quem entregou Jesus a Pilatos tem pecado maior). Autoridade, não autoritarismo. Cristo deu as chaves do reino dos céus a Pedro e constituiu apóstolos. É, pois, a hierarquia católica sim que detém condições, lançando mão de todos os meios próprios, históricos, linguísticos, espirituais, para fixar a correta interpretação do texto bíblico.

 

            “Não vos deixarei órfãos”, disse Jesus. Nem mesmo em questões interpretativas. A Igreja que é nossa mãe e mestra toma-nos pelas mãos e nos explica carinhosamente a palavra do Pai.

 

            Pois bem, meus amigos. Feita essa digressão, convém recordar que na Bíblia não há palavras ociosas. Às vezes, um mesmo trecho bíblico possui infinitos sentidos lícitos possíveis, que não contrariam o ensinamento da Igreja. Sempre há sentidos espirituais muito profundos ocultos em cada uma das palavras do texto sagrado.

 

            Se aquele pequeno trecho de São Lucas realça a dignidade do recém-nascido, também chamado depois por São Paulo de “primogênito da criação”, “o novo Adão”, há também outros sentidos possíveis de ser encontrados nele.

 

            De fato, Jesus Cristo foi o filho primogênito de Maria. O princípio do evangelho de São Lucas já indica o que a Igreja com tanta sabedoria intuiu: que Maria é nossa mãe. No Evangelho de São João não está dito: “Mulher, eis teu filho!” e “Eis tua mãe” (Jo 19, 26-27)?

 

            Diz São Luís Maria Grignion de Montfort, no “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”:

 

“Conforme a explicação de alguns Santos Padres o primeiro homem nascido em Maria é o homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um homem puro, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, que são membros deste chefe, devem também nascer nela, por uma consequência necessária. Não há mãe que dê à luz a cabeça sem os membros ou os membros sem a cabeça; seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem da mesma mãe, e, se um membro do corpo místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de outra mãe que Maria, que produziu a cabeça, não seria um predestinado, nem membro de Jesus Cristo, e sim um monstro na ordem da graça.”

 

            Acrescenta São Luís Maria:

 

“Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, há, na geração sobrenatural, um pai que é Deus e uma mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e os predestinados têm Deus por pai, e Maria por mãe; e quem não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai.”

 

            Por isso, meus irmãos, meditemos sempre com profunda veneração nessas palavras de São Lucas: “e ela deu à luz seu filho primogênito”. Não nos perturbemos ante a sua abundância de sentido. Nós somos os outros filhos de Maria.

 

 

 

Paul Medeiros Krause

sábado, 14 de junho de 2014

HOMENAGEM AO ANIVERSÁRIO DE FALECIMENTO DE CHESTERTON



Chesterton, a grande inspiração de Gustavo Corção, recebendo uma flor de uma criança.

Que chegue a bom termo e seja logo concluído seu processo de beatificação e canonização!

Lembre-se de nós que aqui ainda estamos, Gilbert!