sexta-feira, 29 de julho de 2016

CARTA ENCÍCLICA "LAETITIAE SANCTAE", PAPA LEÃO XIII

CARTA ENCÍCLICA

 LAETITIAE SANCTAE DE SUA SANTIDADE PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA
 

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica

Gratidão do Papa para com Maria 

1. A santa alegria que nos trouxe o feliz transcurso do quinquagésimo aniversário da Nossa sagração episcopal foi intensamente aumentada pelo fato de termos tido como participantes da Nossa alegria os católicos de todo o mundo, estreitados como filhos em torno do Pai, numa esplêndida manifestação de fidelidade e de amor. Nisto, com renovada gratidão, reconhecemos e exaltamos um desígnio da Divina Providência sumamente benévolo para conosco, e, ao mesmo tempo, assaz profícuo para a sua Igreja. Mas o Nosso ânimo sente-se impelido a saudar e louvar também a augusta Mãe de Deus, que deste benefício foi poderosa mediadora junto a Deus. A sua singular bondade, que no longo e mutável período da Nossa vida temos experimentado em vários modos eficaz, brilha cada dia mais manifesta diante dos nossos olhos, e, ferindo-nos suavissimamente o coração, robustece-o com confiança sobrenatural.

Afigura-se-nos ouvir a própria voz da Rainha do Céu, ora benevolamente encorajar-nos no meio das terríveis adversidades da Igreja, ora ajudar-nos, com largueza de inspirações, nas decisões a tomar para o bem comum, ora também advertir-nos a estimular o povo cristão à piedade e ao culto da virtude. já muitas vezes, no passado, fizemos para nós um grato dever de corresponder a estes desejos da Virgem. Ora, entre as utilidades que com a sua bênção recolhemos das Nossas exortações, justo é recordar o extraordinário desenvolvimento da devoção do seu santo Rosário, seja pelo incremento e pela constituição de confrarias sob este título, seja pela divulgação de escritos doutos e oportunos, seja também pela inspiração dada a verdadeiras obras-primas artísticas.

O Rosário e os males do nosso tempo

2. E hoje, como que acolhendo a mesma voz da amorosíssima Mãe, com a qual ela nos repete: "Clama, nunca te canses", apraz-nos tornar a falar-vos, Veneráveis Irmãos, do Rosário mariano, agora que se aproxima o mês de Outubro: mês que quisemos consagrado a esta cara devoção, e que enriquecemos com os tesouros das santas indulgências. A Nossa palavra, todavia, não terá o fim imediato de tributar novos louvores a uma oração já, por si mesma, tão excelente, nem de estimular os fiéis a praticá-la com sempre maior fervor; falaremos, antes, de algumas preciosíssimas vantagens que dela podem derivar, o mais possível correspondentes às condições e às necessidades dos homens e dos tempos presentes. Porque estamos absolutamente convencido de que, se a prática do Rosário for retamente seguida, de modo a poder ostentar toda a eficácia que lhe é intrínseca, não somente aos simples indivíduos, mas também a toda a sociedade, trará a maior utilidade.

3. Sabem todos o quanto Nós, pelo dever do Nosso supremo apostolado, nos temos aplicado a contribuir para o bem da sociedade, e o quarto ainda estamos disposto a fazê-lo, com o auxílio de Deus. Com freqüência temos advertido os governantes a não fazerem e a não aplicarem leis que não sejam conformes à mente divina, norma de suma justiça. E, por outra parte, mais de uma vez temos exortado aqueles cidadãos que, ou por inteligência, ou por méritos, ou por nobreza do sangue, ou por haveres, estão em posição de privilégio em relação aos outros, a defenderem e a promoverem, em união de entendimentos e de forças, os supremos e fundamentais interesses da sociedade.

4. Mas, na estado presente da sociedade civil, sobejas são as causas que debilitam os ligames da ordem pública e desviam os povos da justa honestidade dos costumes. Todavia, os males que mais perigosamente minam o bem comum parecem-nos ser principalmente os três seguintes: "aversão à vida humilde e laboriosa; o horror ao sofrimento; o esquecimento dos bens futuros, objeto das nossas esperanças".

A aversão ao viver moderno

5. Lamentamos - e conosco devem reconhecê-lo e deplorá-lo mesmo aqueles que não admitem outra regra senão a luz da razão, nem outra medida afora a utilidade, - lamentamos que uma chaga verdadeiramente profunda tenha ferido o corpo social desde quando se começou a descurar os deveres e as virtudes que formam o ornamento da vida simples e comum. De fato, daí se segue que, nas relações domésticas, os filhos, intolerantes de toda educação que não seja a da moleza e da volúpia, recusam arrogantemente a obediência que a própria natureza lhes impõe. Por esse mesmo motivo os operários se afastam do seu próprio mister, fogem do labor, e, descontentes com a sua sorte, levantam o olhar a metas demasiado altas, e aspiram a uma inconsiderada repartição dos bens.

Ao mesmo tempo dai se segue o afanar-se de muitos que, depois de abandonarem o torrão natal, buscam o bulício e as numerosas seduções da cidade. Por este motivo ainda, veio a faltar o necessário equilíbrio entre as classes sociais; tudo é flutuante; os ânimos são agitados por invejas e rivalidades; a justiça é abertamente violada; e aqueles que foram iludidos nas suas esperanças procuram perturbar a tranqüilidade pública com sedições, com desordens e com a resistência aos defensores da ordem pública.
As lições do mistérios gozosos
6. Pois bem: contra estes males pensamos que se deve buscar remédio no Rosário de Maria, composto de uma bem ordenada série de orações e da piedosa contemplação de mistérios relativos a Cristo Redentor e a sua Mãe. Expliquem-se de forma exata e popular os mistérios gozosos, apresentando-os aos olhos dos fiéis como outros tantos quadros e vivas figurações das virtudes. E assim cada um verá que fácil e rica mina eles oferecem de ensinamentos aptos para arrastar com maravilhosa suavidade as almas à honestidade da vida.
7. Eis diante do nosso olhar a Casa de Nazaré, onde toda santidade, a humana e a divina, colocou a sua morada. Que exemplo de vida comum! Que perfeito modelo de sociedade! Ali há simplicidade e candura de costumes; perpétua harmonia de almas; nenhuma desordem; respeito mútuo; e, enfim, o amor: mas não o amor falso e mendaz, e sim aquele amor integral, que se alimenta na prática dos próprios deveres, e tal que atrai a admiração de todos.
Ali não falta a solicitude de se proporcionar a si mesmos tudo quanto é necessário à vida, mas com o "suor da fronte", e como convém àqueles que, contentando-se com pouco, se esforçam antes por diminuir a sua pobreza do que por multiplicar os seus haveres. E, sobre tudo isto, reina ali a maior serenidade de ânimo e alegria de espírito: duas coisas que sempre acompanham a consciência do dever cumprido.
8. Ora, estes exemplos de modéstia e de humildade, de tolerância da fadiga, de bondade para com o próximo e de fiel observância dos pequenos deveres da vida quotidiana, e, numa palavra, os exemplos de todas estas virtudes, assim que entram nos corações e nele se imprimem profundamente, certamente produzem nele pouco a pouco a desejada transformação dos pensamentos e dos costumes.
Então os deveres do próprio estado não mais serão nem descurados nem considerados enfadonhos, mas serão, antes, agradáveis e deleitáveis; e a consciência do dever, imbuída de senso de alegria, será sempre mais decidida no obrar o bem.
Por conseqüência, os costumes tornar-se-ão mais brandos sob todos os aspectos; a convivência familiar transcorrerá no amor e na alegria; as relações com os outros serão pautadas por um maior respeito e caridade. E, se estas transformações se estenderem dos indivíduos às famílias, às cidades, aos povos e às suas instituições, é fácil ver que imensas vantagens devam daí derivar para a sociedade inteira.
A aversão ao sacrifício
9. O segundo mal funestíssimo, que Nós nunca deploraremos bastante, porque ele sempre mais difusa e ruinosamente envenena as almas, é a tendência a fugir da dor e a afastar por todos os meios as adversidades.
De feito, a maioria dos homens não consideram mais, como deveriam, a serena liberdade de espírito como um prêmio para quem exercita a virtude e suporta vitoriosamente perigos e trabalhos; mas excogitam uma quimérica perfeição da sociedade, em que, removido todo sacrifício, se deparem todas as comodidades terrenas.
Ora, este agudo e desenfreado desejo de uma vida cômoda debilita fatalmente as almas, que, mesmo quando não se arruínam totalmente, ficam, sem embargo, tão enervados, que primeiro cedem vergonhosamente em face dos males da vida, e depois sucumbem miseravelmente.
As lições dos mistérios dolorosos
10. Pois bem: ainda contra este mal é bem justificado esperar-se do Rosário de Maria um remédio que, pela força do exemplo, pode grandemente contribuir para fortalecer os ânimos. E isto se obterá se os homens, desde a sua primeira infância, e depois constantemente em toda a sua vida, se aplicarem, no recolhimento, à meditação dos mistérios dolorosos.
Através destes mistérios vemos que Jesus, "guia e aperfeiçoados da fé", começou a fazer e a ensinar, a fim de que víssemos n'Ele próprio o exemplo prático dos ensinamentos que Ele daria à nossa humanidade, acerca da tolerância da dor e dos trabalhos; e o exemplo de Jesus chegou a tal ponto, que, voluntariamente e de grande coração, Ele mesmo abraçou tudo o que há de mais duro de suportar.
Com efeito, vemo-lo como um ladrão, julgado por homens iníquos, e feito alvo de ultrajes e de calúnias. Vemo-lo flagelado, coroado de espinhos, crucificado considerado indigno de continuar a viver, e merecedor de morrer entre os clamores de todo um povo.
Consideremos a aflição de sua santíssima Mãe, cuja alma não foi somente roçada, mas verdadeiramente "traspassada" pela "espadácia dor"- de modo que ela mereceu ser chamada, e realmente se tornou, a Mãe das dores.
11. Todo aquele que se não contentar com olhar, porém meditar amiúde exemplos de tão excelsa virtude, oh! como se sentirá impelido a imitá-los! Para esse, ainda que seja "maldita a terra, e faça germinar espinhos e abrolhos", ainda que o espírito seja oprimido pelos sofrimentos, ou o corpo pelas doenças, nunca haverá nenhum mal causado pela perfídia dos homens ou pelo furor dos demônios, nunca haverá calamidade, pública ou privada, que ele não consiga superar com paciência.
É, pois, realmente verdadeiro o dito: "É de cristão fazer e suportar coisas árduas"; porque todo aquele que não quiser ser indigno desse nome não pode deixar de imitar Cristo que sofre. E repare-se em que como resignação não entendemos a vã ostentação de um ânimo endurecido à dor, como o tiveram alguns filósofos antigos; mas sim essa resignação que se funda no exemplo d'Aquele que "em lugar do gozo que tinha diante de si, suportou o suplício da Cruz, desprezando a ignomínia" (Heb 12, 2); essa resignação que, depois de pedir a Ele o necessário auxilio da graça, de modo algum recusa afrontar as adversidades; antes, alegra-se com elas, e considera um lucro qualquer sofrimento, por mais acerbo que seja.
A Igreja Católica sempre teve, e tem ainda agora, insignes campeões de tal doutrina: homens e mulheres, em grande número, em todas as partes do mundo, de todas as condições. Estes, seguindo as pegadas de Cristo, em nome da fé e da virtude suportam contumélias e amarguras de todo gênero, e têm como seu programa, mais com os fatos do que com as palavras, a exortação de S. Tomé: "Vamos também nós, e morramos com Ele" (Jo. 11, 16).
12. Oh! praza ao Céu que exemplos de tão admirável fortaleza se multipliquem sempre mais, a fim de que deles brote segurança para a sociedade, e virtude e glória para a Igreja.
O descaso dos bens eternos
13. O terceiro mal para o qual é preciso achar um remédio é particularmente próprio dos homens dos nossos dias Com efeito, os homens dos tempos passados, mesmo quando com excessiva paixão procuravam as coisas terrenas, contudo não desprezavam totalmente as celestes; antes, os mais sábios entre os próprios pagãos ensinaram que esta nossa vida é um lugar de hospedagem e uma estação de passagem, antes que uma morada fixa e definitiva.
Ao contrário, muitos dos modernos, embora educados na fé cristã, procuram de tal modo os bens transitórios desta terra, que não somente esquecem uma pátria melhor na eternidade bem-aventurada, mas, por excesso de vergonha, chegam a cancelá-la completamente de sua memória, contra a advertência de S. Paulo: "Não temos aqui uma cidade permanente, porém demandamos a futura" (Heb. 13, 14).
Quem quiser examinar as causas desta aberração logo notará que a primeira delas é a convicção de muitos de que o pensamento das coisas eternas extingue o amor da pátria terrena e impede a prosperidade do Estado. Calúnia odiosa e insensata.
E, de fato, os bens que esperamos não são de natureza tal que absorvam os pensamentos do homem até o ponto de o distrair inteiramente do cuidado dos interesses terrenos. O próprio Cristo embora recomendando-nos procurarmos antes de tudo o reino de Deus, com isto nos insinua que não devemos descurar tudo o mais.
E, de fato, se o uso dos bens terrenos e dos gozos honestos que deles derivam servem de estímulo à virtude; se o esplendor e o bem-estar da, cidade terrena - que depois redundam em glória da sociedade humana - são considerados como uma imagem do esplendor e da magnificência da cidade eterna, eles não são nem indignos de homens racionais, nem contrários aos desígnios de Deus.
Porque Deus é ao mesmo tempo autor da natureza e da graça; e por isto não pode ter disposto que uma obste à outra e estejam entre si em luta; mas, ao contrário, que, amigavelmente unidas, nos guiem, por uma trilha mais fácil, àquela eterna felicidade a que, embora mortais, somos destinados.
14. Mas os homens dados ao prazer e egoístas, que de tal modo mergulham e aviltam os seus pensamentos nas coisas caducas a ponto de não saberem elevar-se a mais alto, estes, antes que procurarem os bens eternos através dos bens sensíveis de que gozam, perdem completamente de vista a eternidade, caindo assim numa condição verdadeiramente abjeta. Na verdade, Deus não poderia infligir ao homem punição mais terrível do que abandonando-o por toda a vida às seduções dos vícios, sem ter jamais um olhar para o Céu.
As lições dos mistérios gloriosos
15. A este perigo não estará exposto aquele que, rezando o santo Rosário, meditar com atenção e com freqüência as verdades contidas nos mistérios gloriosos. Desses mistérios, com efeito, brilha na mente dos cristãos uma luz tão viva, que nos faz descobrir aqueles bens que o nosso olho humano nunca poderia perceber, mas que Deus - assim o cremos com fé inabalável - preparou "para aqueles que o amam".
Deles aprendemos, além disto, que a morte não é um esfacelamento que tudo perde e destrói, mas sim uma simples passagem e uma mudança de vida. Aprendemos que o caminho do céu está aberto a todos; e, quando observamos Cristo que volta ao Céu, recordamos a sua bela promessa: "Vou preparar-vos o lugar".
Aprendemos que haverá um tempo em que "Deus enxugará toda lágrima dos nossos olhos; em que não haverá mais nem lutos, nem pranto, nem dor, mas estaremos sempre com o Senhor, semelhantes a Deus, porque o veremos como Ele é, bebendo na torrente das suas delícias, concidadãos dos santos", em feliz união com a grande Mãe e Rainha.
16. Uma alma que se nutra destas verdades deverá necessariamente inflamar-se delas e repetir a frase de um grande. Santo: "Oh! como me parece sórdida a terra quando olho o Céu"; deverá necessariamente alegrar-se ao pensamento de que "um instante de um leve sofrimento nosso produz em nós uma medida eterna de glória".
E, verdadeiramente, só aqui está o segredo de harmonizar o tempo com a eternidade, a cidade terrena com a celeste, e de formar caracteres fortes e generosos. E se estes se tornarem muito numerosos, sem dúvida estará com isso consolidada a dignidade e a grandeza do Estado; e florescerá tudo o que é verdadeiro, tudo o que é bom, tudo o que é belo; florescerá em harmonia com aquela norma que é o sumo princípio e a fonte inexaurível de toda verdade, de toda bondade e de toda beleza.
17. Ora, quem não vê a verdade disso que havemos observado desde o princípio, isto é, de que preciosos bens é fecundo o santo Rosário? O quanto ele é maravilhosamente eficaz em curar os males dos nossos tempos, e em opor um dique aos gravíssimos males da sociedade?
As confrarias do Rosário
18. Mas, como cada um facilmente compreende, de tal eficácia serão mais direta e mais largamente participantes os membros das sacras confrarias do Rosário, porque a ela adquirem um direito particular, quer pela sua união fraterna, quer pela sua devoção especial à Virgem Santíssima.
Tais sodalícios autorizadamente aprovados pelos Romanos Pontífices e por eles enriquecidos de privilégios e de tesouros de indulgências, têm uma forma própria de ordenação e de disciplina. Promovem reuniões em dias determinados, e neles são fornecidos meios mais adequados para florescer na piedade e para prestar úteis serviços à própria sociedade civil. Eles são como que falanges militantes que, guiadas e amparadas pela celeste Rainha, combaterão as batalhas de Cristo, em virtude dos seus santos mistérios.
E em todas as ocasiões, mas especialmente em Lepanto, pôde-se ver como a Virgem se compraz com as orações, as festas e as procissões desses seus devotos.
19. Bem justo é, pois, que não somente os filhos do patriarca S. Domingos - certamente obrigados mais do que os outros, por motivo da sua vocação, - mas também todos aqueles que têm cura de almas -especialmente nas igrejas onde essas confrarias estão canonicamente eretas - se apliquem com todo o seu zelo a multiplicá-las, desenvolvê-las e assisti-las. Antes, ardentemente desejamos que também se dediquem a este trabalho aqueles que empreendem missões, seja para levar a doutrina de Cristo aos infiéis, seja para reforçá-la nos fiéis.
20. Não duvidamos de que, pelas exortações de todos estes, muitos cristãos estarão prontos não só a inscrever-se nessas confrarias, mas também a esforçar-se, por todos os meios, para colher as já indicadas vantagens espirituais que formam como que a razão de ser e, por assim dizer, a substância do santo Rosário. Depois, o exemplo dos membros das confrarias arrastará também os outros fiéis a uma maior estima e devoção ao Rosário; os quais, assim estimulados, porão todo o seu empenho - como Nós vivamente desejamos - em tirar também, na mais larga medida, salutares vantagens desta prática.
21. Eis aí a esperança que nos sorri. É ela que, no meio de tantas calamidades públicas, nos guia e profundamente nos consola. Digne-se Maria, Mãe de Deus e dos homens, inspiradora e mestra do santo Rosário, de realizar plenamente esta esperança, acolhendo as preces comuns.
Nós, ó Veneráveis Irmãos, temos confiança de que, pelo zelo de cada um de vós, os vossos ensinamentos e os Nossos votos produzirão toda espécie de bem, e contribuirão, em particular, para a prosperidade das famílias e para a paz dos povos.
Enquanto isso, em penhor dos favores celestes e em testemunho da Nossa benevolência, no Senhor concedemos a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 8 de Setembro de 1893, décimo sexto ano do Nosso Pontificado.
 
LEÃO XIII PAPA

"O ESCAPULÁRIO E SEUS PRIVILÉGIOS", DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT

 
O Escapulário e seus Privilégios
“Como se explicam as promessas anexas ao escapulário do Carmo? A Justiça Divina poderia, simplesmente em atenção a essa insígnia, permitir que um pecador endurecido não seja condenado?”
 
Dividiremos a resposta em três etapas : 1) origem do escapulário como tal; 2) privilégios anexos ao escapulário do Carmo; 3) valor histórico e significado religioso dos mesmos.
 
1. Origem do escapulário
 
O escapulário (do latim scapulo, espádua) é uma longa peça de pano que das espáduas desce sobre o peito e as costas de quem a traja, recobrindo a respectiva túnica. Inicialmente servia de avental durante o trabalho manual. Muito usado entre os monges, tornou-se uma das insígnias características das ordens monásticas e religiosas em geral.
 
Na Idade Média as Ordens Religiosas propriamente ditas foram criando em torno de si o que se chama «as Ordens Terceiras» (ou as famílias de «Oblatos» e «Oblatas»), compostas de pessoas seculares desejosas de viver em contato assíduo com os mosteiros e conventos (a «Ordem Segunda» era o ramo feminino, enclausurado, de uma Ordem masculina dita «Primeira»). Os Terciários e Oblatos receberam, como distintivo de seu estado, o escapulário. Aos poucos, este foi sendo adotado até pelas Confrarias, associações remotamente vinculadas a determinada Ordem. Então, para facilitar o uso da insígnia, os superiores religiosos resolveram admitir, ao lado do escapulário grande, o escapulário pequeno, que consta de dois retângulos de pano de lã ligados entre si por duas fitas, de sorte a poder ser trazidos pelos irmãos dia e noite sobre o peito e as costas. É esta a forma hoje em dia mais comumente adotada pelos fiéis que vivem no mundo.
 
Distinguem-se atualmente vários tipos de escapulários segundo as diversas Ordens Religiosas e as modalidades da piedade cristã; o mais famoso é o escapulário marrom ou negro da Ordem do Carmo, ao lado do qual se podem citar: o escapulário branco, da SS, Trindade, propagado a partir de 1200; o escapulário negro, das Sete Dores de Maria, devido aos Servitas, a partir de 1255; o escapulário azul, da Imaculada Conceição, concedido em 1691 e 1710 aos Teatinos; o escapulário vermelho, dedicado à Paixão do Senhor, difundido pelos Lazaristas e aprovado em 1847.
 
O uso do escapulário não visa apenas ornamentar o respectivo portador. Ao contrário, tem valor religioso digno de nota: significando a filiação a uma Ordem ou Confraria, implica, em quem o traz, o desejo sincero de praticar os conselhos evangélicos (cf. Mt 19,21), na medida em que são aplicáveis à vida no século. Além disto, significa participação nos bens espirituais de que goza a respectiva família religiosa; costuma ser bento e entregue aos fiéis segundo determinado ritual, tornando-se assim um sacramental, ou seja, objeto que comunica a graça em quem o usa com fé e caridade. Vê-se, por conseguinte, que, embora sejam múltiplos os tipos de escapulário, têm todos a mesma finalidade: significar e, ao mesmo tempo, fomentar o serviço aprimorado de Deus, que é a grande devoção de todos os cristãos.
 
2. Os privilégios anexos ao escapulário do Carmo
 
Dentre os favores espirituais outorgados ao uso do escapulário, sobressaem os que se prendem ao da Ordem do Carmo. Quais são precisamente?
Enunciam-se dois : a) o privilégio de uma boa morte; b) a pronta libertação do purgatório.
a) A graça da boa morte teria sido prometida pela SS. Virgem numa aparição a S. Simão Stock, sexto Superior Geral dos Carmelitas (1242-1265), em Cambridge, aos 16 de julho de 1251. Trazendo em mão o hábito da Ordem, teria dito a excelsa Senhora : «Eis o privilégio que dou a ti e a todos os filhos do Carmelo: todo aquele que morrer, revestido por este hábito, será salvo».
b) O privilégio «sabatino» afirma que a Virgem SS. liberta do purgatório os irmãos filiados à Ordem do Carmelo no primeiro sábado após a morte de cada um. Este favor, dizem, foi revelado pela própria Mãe de Deus ao Papa João XXII, provavelmente na véspera de sua eleição. O mesmo Pontífice terá anunciado aos fiéis tal graça e várias outras concedidas à Ordem do Carmo mediante a bula «Sacratissimo uti culmine» de 3 de março de 1317.
 
 
a) Os documentos sobre os quais se baseia a afirmação dos dois privilégios têm despertado a atenção dos estudiosos, levando-os a perguntar se são fontes históricas de todo fidedignas.
Examinemos o que consta.
 
O primeiro documento que refere a aparição da Bem-aventurada Virgem a S. Simão Stock data do ano de 1430 aproximadamente; é chamado «Viridarium» do Prior Geral Carmelita João Grossi (cf. Daniel a S. Virg. Maria, Speculum Carmelitarum I. Antverpia 1680,131). Entre o ano em que se terá dado a visão (1251) e a data acima, a história não apresenta documento algum que relate o caso.
 
No ano de 1642 apareceu pela primeira vez em público, por iniciativa do Pe. Provincial João Chéron O. C., uma carta circular de Simão Stock aos religiosos de sua Ordem, carta em que o Prior Geral referia a aparição e as palavras de Maria. Este documento teria sido ditado pelo Santo a seu secretário, Pe. Swanyngton. Denegam fé a esse instrumento os historiadores modernos, inclusive os Carmelitas (cf. Annales Ord. Carm. 1927 e 1929).
 
Quanto ao privilégio «sabatino», desde o séc. XVII contesta-se a autenticidade da bula de João XXII que o anuncia ao mundo cristão. Entre a data que este documento traz (1317) e o ano de 1461 não há menção da bula na tradição. O primeiro autor que a deu a conhecer foi o Carmelita Balduíno Laersius (+1483). Hoje em dia não há quem afirme a autenticidade de tal documento. O próprio Pe. Zimmermann na sua coleção de documentos referentes à Ordem do Carmo (Monumenta histórica Carmelitana I 356-363) renunciou a defendê-la. — No texto mesmo da bula paira dúvida sobre uma das passagens principais: lê-se no original latino que a Virgem SS. libertará do purgatório subito (em breve, sem demora) ou, conforme outros códigos, sabbato, no sábado seguinte à morte, as almas dos seus fiéis.
 
Ademais notam os historiadores que até o séc. XV os membros da Ordem do Carmo não atribuíam maior importância ao uso do escapulário do que os filhos de outras Ordens.
 
Eis o que, do ponto de vista historiográfico, se poderia dizer sobre as promessas anexas ao escapulário do Carmo.
 
b) Pergunta-se agora : que resulta disso tudo para a piedade dos fiéis?
 
Deve-se reconhecer que uma série de Papas, a partir do séc. XVI, tem favorecido o uso do escapulário do Carmo, enriquecendo-o com novas indulgências e permitindo sejam anunciadas aos fiéis as duas promessas acima. Ao fazer isso, porém, nenhum Pontífice intencionou dar definição dogmática sobre o assunto; os Papas apenas quiseram fazer da piedosa crença vigente um estímulo para a piedade dos fiéis. As promessas anexas ao escapulário do Carmo, por conseguinte, ficam pertencendo ao setor das revelações particulares, que cada cristão é livre de admitir ou não, seguindo os critérios que lhe pareçam mais fidedignos.
 
Observe-se, porém, que o privilegio da boa morte (a primeira das duas promessas) jamais poderá ser entendido em sentido mecânico, como se o uso mesmo do escapulário, independentemente do teor de vida moral do cristão, fosse suficiente para garantir a salvação eterna. Não; o portador do escapulário deverá cultivar as virtudes cristãs para que a dita insígnia lhe possa valer como penhor de especial tutela de Maria SS. na hora da morte. Foi o que o Papa Leão XIII quis inculcar, quando, ao aprovar o Ofício de S. Simão Stock para os católicos ingleses, mandou inserir no texto respectivo uma palavrinha que não se achava no original apresentado a S. Santidade: «Todo aquele que morrer piedosamente trajando esse hábito, não sofrerá as chamas do inferno». Consequentemente comenta J.-B. Terrien:
 
«Certamente os antigos consideravam o escapulário como penhor de predestinação, mas não chegavam, como penso, ao ponto de dizer que não restem dúvidas justificadas a respeito da salvação de um pecador que na hora da morte rejeite o amparo da religião, embora tenha trazido até o último suspiro a veste sagrada de Maria» (La Mère de Dieu et Ia Mère des hommes IV 304).
 
As boas disposições espirituais são também exigidas por um comentário do privilégio, comentário atribuído a S. Simão Stock:
 
«Conservando, meus irmãos, esta palavra em vossos corações, esforçai-vos por assegurar vossa eleição mediante boas obras e por jamais desfalecer; vigiai em ação de graças por tão grande benefício; orai incessantemente a fim de que a promessa a mim comunicada se cumpra para a glória da SS. Trindade,e da Virgem sempre bendita» (cf. Bento XIV, De festis B. V. c. VI § § 7-8).
 
No tocante ao segundo privilégio, devem-se observar os termos precisos segundo os quais a Santa Sé se tem referido a ele. Um decreto do S. Oficio datado de 15 de fevereiro de 1615 (sob o Papa Paulo V) e renovado pela S. Congregação das Indulgências a 1o de dezembro de 1885 assinala a atitude definitiva do magistério da Igreja sobre o assunto: sem proferir palavra acerca da autenticidade da controvertida bula de João XXII, admite que a Virgem Maria recobrirá com a sua proteção materna, principalmente no sábado (fórmula devida à ambiguidade do texto acima referido: súbito,. sabbato...?), dia consagrado ao seu culto, as almas daqueles que na terra tiverem sido seus fiéis servos.
 
Aos 4 de julho de 1908, a S. Congregação aprovou uma Súmula de indulgências e privilégios concedidos à Confraria do Escapulário do Carmo, em que se lê verbalmente o seguinte:
 
«O privilégio comumente chamado sabatino, de João XXII, aprovado e confirmado por Clemente VII, Ex clementis, aos 12 de aposto de 1530, por Pio V, Superna dispositione, aos 18 do fevereiro de 1566, por Gregório XIII, Ut Laudes, aos 18 de setembro de 1577, e por outros, assim como pelo decreto da S. Inquisição Romana sob Paulo V, aos 20 de janeiro de 1613, declara: ‘É permitido aos Padres Carmelitas pregar que os fiéis podem admitir a piedosa crença no auxilio concedido após a morte aos Religiosos e confrades da Associação de Nossa Senhora do Monte Carmelo’. Com efeito, é permitido crer que a SS. Virgem socorra às almas dos Religiosos e confrades falecidos em estado de graça, contanto que tenham trazido durante a vida o escapulário, tenham guardado a castidade do seu estado e recitado o Oficio Parvo da Virgem ou, se não sabem ler, tenham observado os jejuns da Igreja e praticado a abstinência de carne às quartas e sábados, a menos que a festa de Natal caia num desses dias. As orações contínuas de Maria, seus piedosos sufrágios, seus méritos e sua especial proteção lhes são assegurados após a morte, principalmente no sábado, que è o dia consagrado pela Igreja à SS. Virgem».
 
Neste documento chama a nossa atenção, de um lado, o fato de não serem mencionadas nem a aparição da SS. Virgem nem a bula de João XXII «Sacratissimo uti culmine»; de outro lado, verifica-se que, independentemente desses tópicos, a Santa Sé aprecia a fidelidade ao escapulário do Carmo, mencionando especial proteção de Maria para os verdadeiros devotos do mesmo (o que certamente exclui o porte meramente mecânico de tal insígnia); o documento, porém, não fala de libertação do purgatório no primeiro sábado após a morte, preferindo a fórmula mais geral; «especial proteção». — Como quer que seja, a idéia de sábado no purgatório teria que ser entendida em sentido largo ou translato, visto que a sucessão de dias da semana só pode ser critério na terra, onde o tempo é medido pelo movimento dos corpos; no purgatório há apenas almas separadas de seus corpos.
 
As considerações e conclusões acima talvez causem surpresa em um ou outro dos nossos leitores. Foram contudo ditadas pela objetividade dos documentos e fatos. Não acarretam, de modo algum, detrimento para a piedade. Muito ao contrário; esta tanto mais forte e frutuosa é quanto mais alicerçada sobre a verdade e o «sentire cum Ecclesia», sobre as normas e declarações da Esposa de Cristo. A cada cristão fica a liberdade de se santificar dando fé às promessas anexas ao escapulário do Carmo. A finalidade destas linhas era apenas a de remover qualquer concepção teologicamente errônea a respeito da tradicional devoção.
 
Bibliografia
A. Michel, Scapulaire, em «Dictionnaire de Théologie Catholique* XIV 1, Paris 1939, 1254 9).
K. Bihilmeyer, Skapulier, em Lexikon für Theologie und Kirche IX 617.
N. Paulus, Geschichte des Ablasses im Mittelalter II. 1923.
Berlinger-Steinen, Les indulgences. Paris 1925.
 

"HISTÓRIA E SIGNIFICADO DO ROSÁRIO", POR DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT, OSB

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO
NUNES (Rio de Janeiro): «Qual a origem do Rosário? E como se poderia justificar tal forma de oração, em que a rotina e o mecanicismo tanto tendem a prevalecer?»
 
Por «Rosário» entende-se aqui a modalidade de oração que consiste em recitar quinze dezenas de «Ave Maria», precedida cada qual por um «Pai Nosso» e seguida de um «Glória ao Pai»; a cada dezena está associada a contemplação de um mistério, ou seja, de um dos principais acontecimentos da vida de Cristo ou de sua Mãe Santíssima.
 
Tendo em vista as questões acima apresentadas, dividiremos nossa resposta em duas partes, propondo primeiramente o histórico da devoção ao Rosário; a seguir, analisaremos o seu significado na vida de piedade.
 
 
1. O costume de rezar breves fórmulas de oração consecutivas e numeradas mediante um artifício qualquer (contagem dos dedos, de seixos, de ossinhos, de grãos...) constitui uma das expressões espontâneas da religiosidade humana, independentemente do credo que alguém professe (veremos no § 2 o «porquê» dessa espontaneidade).
 
Entre os cristãos, tal hábito já estava em uso entre os eremitas e monges do deserto (séc. IV/V): ávidos de manter sempre o espírito unido a Deus em estado de oração, diziam centenas de breves preces controladas por um sistema de calcular; sendo insuficiente para isso o uso dos dedos das mãos, começaram a recorrer a seixos.
 
Paládio, historiador cristão do séc. V, refere que um eremita do séc. IV, chamado Paulo, fez o propósito de recitar diariamente 300 orações dispostas em determinada ordem; desejoso de não omitir alguma por descuido, recolhia então 300 pedregulhos que ele guardava em seu regaço e ia lançando fora, um por um, cada vez que rezava uma prece (Hist. Lausiaca 20). O mesmo historiador menciona dois outros ascetas, dos quais um recitava 700 orações e o outro 100 por dia — o que faz crer que o costume do eremita Paulo não devia ser caso isolado. Contudo o sistema dos pedregulhos, por mais útil que fosse, não podia ser adotado em quaisquer circunstâncias: seria impraticável, por exemplo, por parte de monges que quisessem rezar coletivamente na igreja. Daí o recurso a novo artifício: passou-se um fio ou cordel através dos grãos previamente perfurados, fabricando-se assim pequenas correntes ou colares.
 
Este uso, que é, como se vê, muito antigo na Igreja, tomou incremento especial no Ocidente: no fim do séc. X havia-se implantado entre os fiéis o costume de rezar a oração do Senhor, o «Pai Nosso», certo número de vezes consecutivas. Tal praxe teve origem provavelmente nos mosteiros, onde muitos cristãos professavam a vida monástica, sem, porém, possuir grande capacidade para o estudo; não estavam, por conseguinte, habilitados a seguir a oração comum e oficial da Igreja, que compreendia a recitação dos salmos. Em consequência, para esses irmãos ditos «conversos» ou «leigos», os Superiores religiosos estipularam a recitação de certo número de «Pai Nosso» em substituição do Oficio Divino celebrado solenemente no coro.
 
Ao se tratar de sufrágios por defuntos do mosteiro, enquanto os monges mais capacitados rezavam 150, 100 ou 50 salmos, os conversos diziam 150, 100 ou 50 vezes a oração do Senhor («P. N.»). Nas Ordens militares da Alta Idade Média, cujos membros eram leigos, a praxe se tornou mais e mais comum: assim os Templários, para sufragar um irmão defunto, estavam obrigados a recitar 100 «P. N.» por dia durante uma semana inteira.
 
Para favorecer esse exercício de piedade, foi-se aprimorando a confecção das correntes que serviam à contagem das preces: cada um desses cordéis de grãos se dividia geralmente em cinco décadas; cada décimo grão era mais grosso do que os outros a fim de facilitar o cálculo (portanto, ainda não se usavam, como hoje, séries de dez grãos pequenos separados por um grão maior, pois só se dizia o «P. N.»). Tais instrumentos eram chamados «Paternoster» tanto na França como na Alemanha, na Inglaterra, na Itália, ou, menos frequentemente, «numeralia, fila, computum, preculae»; os seus fabricantes constituíam prósperas corporações, ditas dos «Patenotriers» ou dos «Paternosterer».
 
Ao lado de tal praxe, ia-se desenvolvendo entre os fiéis outro importante exercício de piedade, ou seja, o costume de saudar em tom filial e alegre a Virgem Santíssima; fazendo isto, os fiéis intencionavam evocar principalmente as alegrias de Maria aqui na terra, em particular a alegria da anunciação. Com este fim, repetiam a saudação do anjo a Maria («Ave, cheia de graça...», Lc 1,28) acompanhada das palavras de Elisabete («bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de tuas entranhas»; Lc 1,42. A invocação subsequente «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós...» ainda não estava em uso na Idade Média).
 
Em consequência, por volta do ano 1150 ou pouco antes (época em que a saudação angélica já era muito usual), os fiéis conceberam a idéia de dirigir a Maria 150, 100 ou 50 saudações consecutivas, à semelhança do que faziam repetindo a oração do Senhor: cada «Ave Maria» era acompanhada de uma «venia» ou de um gesto de reverência, que ao mesmo tempo dava caráter penitencial ao piedoso exercício. Cada uma das séries de saudações (às quais cá e lá se acrescentava o «Pai Nosso») devia, segundo a intenção dos fiéis, constituir uma coroa de rosas ofertada à Virgem Ssma.; daí os nomes de «rosário» e «coroa» (em francês, «chapelet», isto é, ornamento da cabeça) que se foram atribuindo a tal prática; a mesma era outrossim chamada «Saltério da Virgem Santíssima», pois imitava as séries de 150, 100 ou 50 «Pai Nosso», que faziam as vezes de saltério dos irmãos conversos nos mosteiros. Destarte se vê que os «Paternoster» e posteriormente os «rosários» entraram na vida de piedade dos fiéis à guisa de Breviário dos leigos, com o fito de entreter nos fiéis a estima para com os salmos e a oração oficial da Igreja; o Rosário tem assim o seu cunho de mentalidade e de inspiração bíblicas.
 
Quanto ao nome «rosário», em particular, foi muito fomentado por uma historieta popular do séc. XIII: narrava-se então que um monge cisterciense se comprazia em recitar frequentemente 50 «Ave Maria», as quais emanavam de seus lábios como rosas que se iam depositar na cabeça da Virgem Ssma.!
 
Um passo ulterior no desenvolvimento do Rosário se deve ao monge cartuxo Henrique de Egher ou de Calcar (+1408). Este redigiu um poema intitulado «Psalterium Beatae Mariae», no qual estimulava a recitação de um «Pai Nosso» antes de cada dezena de «Ave Maria»; ora este uso, de mera devoção, foi encontrando espontânea aceitação por parte dos fiéis e veio a tornar-se comum.
 
Outra etapa importante foi a associação de meditação à recitação vocal das «Ave Maria». No séc. XIV tal praxe estava em vigor nos mosteiros das monjas dominicanas de Tõss e Katharinental. Contudo a difusão e a paulatina generalização desse costume devem-se a um cartuxo, Domingos Ruteno, que viveu no inicio do séc. XV; Domingos propunha a recitação de 50 «Ave Maria», cada qual com seu ponto de reflexão (ou seu mistério) próprio. Outros sistemas de meditação entraram aos poucos em vigor: houve quem se aplicasse a 150,165, 200.. . pontos ou mistérios. O dominicano Alano da Rocha (+1475) sugeria a recitação de 15 «Pai Nosso», 150 «Ave Maria», associados à contemplação de 150 mistérios, que percorriam os principais aspectos da obra da Redenção desde o anúncio do anjo a Maria até a morte da Virgem Ssma. e o juízo final.
 
Mais uma faceta da evolução do Rosário, já insinuada pelos precedentes, foi a inclusão dos mistérios dolorosos da Paixão do Senhor entre os temas de meditação. Isto se explica pelo caráter sombrio e tristonho que por vezes tomou a piedade popular no fim da Idade Média: o grande cisma do Ocidente (1378-1417), a guerra dos Cem Anos, o flagelo de pestes, os temores do fim do mundo muito chamaram a atenção dos fiéis para as tristezas da vida, em particular para as dores de Cristo e de Maria; muitos então, além das sete alegrias de Maria, focalizavam devotamente as suas sete dores...
 
A consideração destes tópicos de história mostra claramente que durante séculos a maneira de celebrar o «Saltério de Maria» variou muito, ficando ao arbítrio da devoção dos fiéis a forma precisa de honrar a Virgem por essa via. Papel de relevo na orientação geral da prática do Rosário coube, sem dúvida, à benemérita Ordem de S. Domingos, à qual foi sempre muito caro esse exercício de piedade: através de Irmandades do Rosário, assim como por meio de pregações, escritos, devocionários, etc., os dominicanos difundiram largamente a devoção.
 
De passagem diga-se: vê-se destarte quanto é vão afirmar, como faz um folhetinho espalhado em nosso público, que o Rosário é inovação introduzida no Cristianismo em 1090. Quem o lê. colhe a impressão errônea de que o Rosário se originou a toque de decreto da suprema autoridade da Igreja!
 
Foi finalmente um Papa dominicano, São Pio V (1566-1572), quem deu ao Rosário a sua forma atual, determinando tanto o número de «Pai Nosso» e «Ave Maria» como o teor dos mistérios que o devem integrar. O Santo Pontífice atribuiu à eficácia dessa prece a vitória naval de Lepanto, que aos 7 de outubro de 1571 salvou de grande perigo a Cristandade ocidental; em consequência, introduziu no calendário litúrgico da Ordem de S. Domingos a festa do Rosário sob o nome de festa «de Nossa Senhora da Vitória». A solenidade foi em 1716 estendida à Igreja universal, tomando mais tarde o nome de festa «de Nossa Senhora do Rosário». A devoção foi de então por diante mais e mais favorecida pelos Pontífices Romanos, merecendo especial relevo o Papa Leão XIII, que determinou fosse o mês inteiro de outubro dedicado em todas as paróquias à recitação do Rosário.
 
2. Independentemente de quanto acaba de ser dito aqui, está difundida uma narrativa que visa explicar a origem do Rosário em termos diferentes: haveria sido diretamente entregue, em visão, pela Virgem Santíssima ao glorioso S. Domingos quando este no séc. XII, em sua árdua missão contra a heresia albigense, pedia o auxilio da Mãe de Deus, no mosteiro de Prouille (onde S. Domingos instituirá um centro de pregação e o primeiro cenóbio dominicano feminino).
 
Abalizados críticos católicos não reconhecem a autenticidade dessa narrativa. Uma das mais fortes razões por eles evocadas é o silêncio das fontes históricas: nenhuma das peças antigas do arquivo de Prouille, nem os sete primeiros biógrafas de S. Domingos, nem algum outro documento dos séc. XIII/XIV refere algo da apregoada visão.
 
O primeiro a mencionar a aparição da Ssma. Virgem a S. Domingos é o religioso dominicano Alano da Rocha (f 1475), o qual, após referir a visão, celebra S. Domingos como restaurador e arauto da prece do Rosário, prece já usual nos tempos dos Apóstolos! O testemunho desse autor, além de tardio, é por si pouco fidedigno; Alano julgava ter sido ele mesmo agraciado por visões que lhe haveriam mostrado toda a vida de S. Domingos!...
 
3. O costume antigo de repetir orações à guisa de coroa espiritual não se concretizou apenas no Rosário de Nossa Senhora. Além deste, estão em uso entre os fiéis outras coroas espirituais representadas por um colar de contas correspondente. Assim:
a)      a coroa dos Crucíferos: tem a mesma forma que o Rosário mariano, e recita-se do mesmo modo, sem obrigação, porém, de meditar os mistérios; é apanágio da Ordem dos Cônegos da Santa Cruz ou Crucíferos;
b)     a coroa do Senhor: consta de 33 «Pai Nosso» em memória dos 33 presumidos anos da vida terrestre de Cristo, 5 «Ave Maria» em memória das cinco chagas do Redentor, e um Credo em honra dos SS. Apóstolos. Teve origem na Ordem dos monges camaldulenses;
c)     a coroa das Sete Dores de Maria: compõe-se de sete séries de 1 «Pai Nosso» e 7 «Ave Maria»; acrescentam-se 3 «Ave Maria» em honra das lágrimas da Virgem Dolorosa; durante a recitação meditam-se as sete Dores de Maria. É devoção muito cara à Ordem dos Servos 'lc Maria;
d)     a coroa das Sete Alegrias de Maria: divide-se em sete décadas, cada qual constando de 1 «Pai Nosso» e 10 «Ave Maria». Acrescentam-se mais duas «A. M.», a fim de perfazer o número de 72 saudações angélicas; dizem-se, por fim, 1 «P. N.», l «A. M.» e 1 «Glória» segundo as intenções do Sumo Pontífice. Esta coroa se prende especialmente à história das famílias religiosas franciscanas;
e)     a coroa angélica, em honra de S. Miguel Arcanjo e dos nove coros angélicos. Constitui-se de nove séries de 1 «P. N.» (grão maior) e 3 «A. M.» (grãos menores), às quais se seguem 4 «P. N.» (grãos maiores); além disto, compreende invocações aos coros angélicos;
f)      a coroa de Sta. Brígida: constava, a principio, de 6 dezenas (cada qual de 1 «P. N.», 10 «A. M.» e 1 Credo), seguidas de 1 «P. N.» e 3 «A- M.» (63 «Ave Maria» corresponderiam aos 63 presumidos anos de vida da Virgem Ssma. sobre a terra). Foi posteriormente reduzida a cinco dezenas. Esta devoção, ainda usual em nossos dias, teve surto na antiga Ordem de Sta. Brígida, hoje não mais existente.
 
2. O significado do Rosário como forma de oração
 
O Rosário tem provocado reservas e objeções baseadas na índole aparentemente mecânica desse tipo de oração: muitos o têm na conta de exercício fadado ao automatismo e à rotina, apto a esterilizar a vida de união com Deus mais do que a estimulá-la.
 
Não obstante, verifica-se que tanto os santos como grandes sábios cristãos muito estimaram o Rosário. — Pergunta-se então: como entender o valor atribuído a essa devoção?
 
Não se poderia formular um juízo adequado sobre tal prática, caso se levasse em conta apenas a sua face externa. A repetição de preces vocais pode realmente dar a impressão de que se mecaniza e materializa a oração (a qual é essencialmente elevação da alma a Deus); pode destarte parecer incorrer na condenação que Jesus proferiu no Evangelho: «Quando orardes, não multiplicareis as palavras, como fazem os pagãos, os quais julgam que serão atendidos em vista da multidão de suas palavras» (Mt 6,7). Neste texto, não há duvida, o Senhor reprova a concepção que faz coincidir oração com repetição dc vocábulos, como se o homem pudesse influir sobre a Divindade pelo aparato de sua verbosidade.
 
Não é, porém, por efeito dessa mentalidade que se repetem as «Ave Maria» na recitação do Rosário. Não; estas têm valor totalmente subordinado; visam apenas criar uma atmosfera, um clima, dentro do qual o espírito mais compassadamente se possa elevar a Deus; é a contemplação interior, acompanhada de atos de amor, que constitui a finalidade da repetição de fórmulas no Rosário. A oração vocal, no caso, pode se.r comparada ao corpo, ao passo que a contemplação faz as vezes da alma do Rosário. Ora, assim como a alma humana, em condições normais neste mundo, precisa da colaboração do corpo até mesmo para exercer as suas funções mais sublimes, assim também a elevação da alma a Deus na oração precisa de um esteio sensível, que, no caso do Rosário, vem a ser a recitação das «Ave Maria»; esta cria como que um «espaço» espiritual dentro do qual a meditação e o afeto se devem desenvolver; a monotonia das fórmulas é quebrada pelo ritmo progressivo da meditação ou da contemplação. Destarte o Rosário põe em ação todas as potencialidades do homem, tanto as espirituais como as corporais, para promover a união com Deus.
 
À luz do que dissemos, o Rosário há de ser tido como expressão característica da natureza humana colocada na presença de Deus. É mesmo expressão tão autêntica ou natural que ela tem seus paralelos fora da piedade ocidental. Assim entre os cristãos orientais está muito em uso, tanto na liturgia comum como na devoção particular, o chamado “hino acatisto”: consta de um proêmio poético e de 24 estrofes, cada qual iniciada por uma letra do alfabeto grego, celebrando o anúncio do anjo a Maria (cf. Lc 1,26-36). Nesse hino 156 aclamações à Virgem Ssma., precedidas cada qual da mesma saudação, correspondem de certo modo às 150 «Ave Maria» do Rosário. Como atestam os viajantes, não há cristão oriental que não saiba de cor o hino acatisto.
 
Mesmo nas principais religiões da Ásia e no Islamismo é costume rezar mediante a repetição da mesma fórmula. Ora o fato de que tal praxe esteja difundida entre homens de civilizações e temperamentos tão diversos significa que ela bem corresponde às disposições mais espontâneas da natureza humana.
 
Estas considerações concorrem para que se entenda a posição que o S. Padre o Papa Pio XI tomou frente ao Rosário, declarando:
«Quanto estão longe do caminho da verdade aqueles que rejeitam esse método de oração (o Rosário) qual fórmula fastidiosa e cantilena monótona, conveniente apenas a crianças e mulheres simples!... A piedade se comporta à semelhança do amor: mesmo que repita sempre as mesmas palavras, estas não exprimem sempre a mesma coisa; mas algo de novo por elas se traduz, algo de novo inspirado por novos e novos afetos do amor» (enc. «Ingravescentibus malis» de 25 de set. de 1937; A. A. S. XXIX [1937] 376).
 
O Pe. Lacordaire (+1861), por sua vez, escrevia:
«O racionalista sorri, vendo desfilarem multidões a repetir sempre a mesma palavra. Aquele, porém, que é iluminado por melhor luz, compreende que o amor só tem uma palavra e que, ao proferi-la continuamente, o amor jamais a repete» (Vie de Saint Dominique c. VI).
 
À guisa de conclusão, ainda se impõe breve observação sugerida pela sinceridade e a honestidade: apesar dos vários títulos que recomendam a recitação do Rosário, verifica-se que na prática não é fácil rezá-lo como ele deve ser rezado. São Luís-Maria Grignion de Montfort (+1716), certamente grande amigo das devoções marianas, julgava que o Rosário é, ao mesmo tempo, «o método mais fácil de meditação» e «a mais difícil das orações vocais».
 
Por isto, se um cristão, por mais fiel que seja à graça de Deus, não consegue familiarizar-se com esta forma de devoção, será preciso respeitar a ação do Espírito Santo em sua alma e não lhe impor como obrigação de consciência tal modalidade de oração (a menos que lhe seja prescrita por Regra ou por voto); cada justo tem sua personalidade própria, que a graça de Deus costuma não destruir, mas antes desenvolver e aperfeiçoar.