quinta-feira, 1 de março de 2018

MÊS DE MARÇO, MÊS DE SÃO JOSÉ




A Igreja dedica todo o mês de março a São José, como também todas as quartas-feiras do ano. Não é por acaso que o grande São José tem o seu mês discretamente imerso e envolto pela quaresma, esse santo grandioso que só faz esconder-se e que só procura a glória de Deus e o bem da sua esposa, Maria Santíssima. Deus respeita e aprecia esse amor de São José pela humildade, pelo escondimento, pelo silêncio, pela penitência e por uma completa e absoluta discrição. Atrevo-me a dizer que São José parece ter um verdadeiro pavor de aparecer e tomar o lugar de Deus e de Nossa Senhora. Ele foge dos louvores, foge das aparências, foge do exibicionismo e de toda falsa piedade. Como todos sabem, o evangelho não nos traz uma única palavra sua.
 
A foto acima é um exemplo eloquente de tudo o que eu disse. Trata-se da fachada da igreja nova do Monastério de São José de Ávila, na Espanha, o primeiro da reforma carmelita, primeira fundação de Santa Teresa de Jesus. Foi tirada no dia 24 de agosto de 2014, portanto, no aniversário da fundação do mosteiro, dia de São Bartolomeu. Tive o privilégio de assistir à missa ali nesse dia.
 
Notem a coincidência providencial: havia um poste na rua, posicionado de tal forma que a sua luz iluminava o menino Jesus, mas mantinha São José na sombra, na penumbra, no apagamento. Esse santo parece realmente ter uma predileção por esconder-se. Só é possível entender São José, compreendendo esse aspecto fundamental da sua personalidade e prodigiosa santidade.
 
Dizem os teólogos que, acima de São José, somente Deus e Nossa Senhora. Ele está acima dos serafins e dos querubins, dos anjos de mais alta hierarquia. A Igreja o venera com o amor de "protodulia" ("proto" quer dizer primeiro), pois, depois de Nossa Senhora, São José é o primeiro e o maior entre todos os santos.
 
Acorramos, pois, neste mês de março, ao glorioso São José! Fortaleçamos nossa devoção a ele! Tributemos-lhe os louvores que lhe são devidos! Imitemos-lhe as incomparáveis virtudes e coloquemo-nos debaixo do seu assombroso poder! E preparemo-nos bem para a sua Solenidade celebrada no dia 19, como também para a Solenidade da Anunciação ou Encarnação do Verbo, no dia 25, recordando que o Verbo Encarnado foi inteiramente confiado aos seus cuidados de pai.
 
Afirma São Pedro Julião Eymard, no seu belíssimo livro devocional "São José, guardião eucarístico": "Josué dominou o sol. José ensinou o criador do sol a caminhar".
 
Neste mês de março, e também em toda nossa vida, repitamos sempre:
 
"São José, meu pai e senhor, intercedei por mim!"
 
 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A DIFAMAÇÃO DO JEJUM


Vejo algumas pessoas, mesmo sacerdotes, desmerecendo o jejum de alimentos na quaresma. Muitos sugerem no lugar o jejum da maledicência. Com a devida vênia, não posso concordar com isso.

Em primeiro lugar, é preciso compreender a razão do jejum, o motivo de a Igreja recomendá-lo.

E a razão é que a nossa natureza, depois do pecado original, dos pecados dos nossos antepassados e dos nossos próprios pecados pessoais, ficou ferida, desordenada, tendendo para o mal, isto é, para os bens fora de sua ordem, fora da ordem estabelecida por Deus, como ensina Santo Agostinho. A rigor, o mal é querer um bem fora de sua ordem, porque o mal não existe como ente. Todas as criaturas são boas em essência, pois foram criadas por Deus. O mal consiste em preferir os bens inferiores aos superiores.

Herdamos uma natureza ferida e corrompida, e a ferimos e corrompemos mais. É o que São Paulo deixa bem claro na sua epístola aos Romanos: "Sabemos que a Lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. [...] Pois o querer o bem está ao meu alcance, não porém o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que ajo, e sim o pecado que habita em mim." (Rom 7, 14-20).

O jejum, pois, deve ser a privação voluntária de um bem lícito, com a finalidade de fortalecer a vontade, que é uma das três potências da alma (as outras são a inteligência e a memória), e orientá-la para bens maiores, sobrenaturais.

A finalidade do jejum é submeter o corpo ao espírito, e o espírito, a Deus, restabelecendo a ordem rompida pelo pecado.

Por isso, não se trata da privação de algo ilícito: abster-se do pecado é obrigação, não é prática ascética, não é um “plus”.

Quando o evangelho nos conta que Jesus jejuou quarenta dias e quarenta noites, terá sido mero jejum de maledicência? Ele que nunca pecou? Ele que estava sozinho no deserto? Maldizer quem para quem?

Mais: quando Jesus é questionado sobre a razão de os seus discípulos não jejuarem, enquanto os de João Batista e os fariseus jejuavam, tal jejum restringia-se a refrear a língua? Não me parece.

Mais ainda: quando Cristo diz que certos demônios só são expulsos pelo jejum e pela oração, tal jejum será apenas o jejum de maledicência? Será ele suficiente para expulsar os espíritos imundos? Não creio. Perguntem aos exorcistas se funciona. O jejum da quaresma existe para expulsar os nossos demônios que não conseguimos expulsar sozinhos.

Não deve ser novidade para ninguém que a teologia da libertação nega a importância de todos os meios ascéticos, reduzindo a ascese à mera luta de classes, à mera defesa dos supostos interesses temporais dos pobres. Para tal teologia, que esvazia todo o sentido espiritual do cristianismo, realmente não faz sentido o jejum como obra espiritual. Mas sabemos que tal corrente teológica é errada, e que na verdade nem sequer é teológica. É materialismo, é marxismo, disfarçado de religião.

Não há dúvida de que um dos males do nosso tempo é justamente a falta de ascese, a falta de mortificação. É conhecida a máxima: "a temperança gera a riqueza, mas a riqueza gera a intemperança". As prestidigitações da ciência, como diria Corção, evitam-nos os mínimos esforços, como levantarmo-nos da cadeira para mudar o canal da televisão. Isso pode ser confortável para o corpo, mas é um perigo para a alma, que deve estar cada vez mais e mais vigilante, recusando-se o excesso de conforto, pois o nosso corpo, como dizem os santos, é um inimigo que deve ser tratado com caridade, mas é um inimigo traiçoeiro. A natureza humana segue sendo a mesma. Os santos do passado praticaram a vida ascética. E os santos do presente também têm de vivê-la. Não há santidade sem penitência, sem mortificação, sem vida ascética. Não podemos soltar as rédeas do nosso corpo, deixando-o como um animal desgovernado.

Como acertadamente vi uma pessoa dizer outro dia: a finalidade do jejum é fortalecer a vontade para evitar o pecado; é justamente tornar mais fácil evitar a maledicência e outros pecados e vícios. O jejum vem fortalecer o nosso homem interior para vencer o nosso homem exterior.

 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

"DA DIREÇÃO ESPIRITUAL": MAGNÍFICA PÁGINA DE RAÏSSA MARITAIN


O que eu disse acima a respeito de nossa docilidade, em tudo, aos conselhos do Padre Clérissac, e da maneira pela qual esses conselhos levaram Jacques a um preconceito favorável à “Action Française”, que ele lamentaria tão vivamente depois, levanta um problema sobre o qual mais tarde Jacques e eu temos pensado muitas vezes.

Houve da parte do nosso guia uma inadvertência – e da nossa parte um erro – porquanto esse elemento de ordem temporal nunca deveria ter sido apresentado por ele no exercício da sua direção espiritual, nem aceito por nós sem esse exame.

Nessa inadvertência num homem de rara retidão de espírito e de caráter se revelam sem dúvida esses inevitáveis “limites do criado” que o Padre melancolicamente nos fazia notar mesmo na ação dos melhores.

Se tomo a liberdade de formular um julgamento que pode parecer presunçoso com relação a um sacerdote admirável, para com o qual a nossa dívida é imensa, não o faço por prazer, e garanto que não é sem me sentir confusa. Se só tratasse de mim, na pobreza dos meus próprios limites, contentar-me-ia silenciosamente com o exame da minha consciência; mas trata-se do que interessa à própria verdade num certo plano prático, e aí nem a nossa pequenez nem a grandeza de um guia poderiam impedir a verificação de um fato. Um preconceito que no Padre Clérissac era acidental à essência da sua própria vida espiritual e de seus conselhos espirituais – unidos à nossa confiança e à nossa inexperiência – teve consequências graves para nós mesmos e para alguns dos que haviam seguido conosco o estímulo recebido.

Desde então encontramos muitas vezes erros análogos, em diversos sentidos, e observamos as suas lamentáveis consequências. É, pois, de um modo muito geral que consignamos um certo risco inerente à direção das almas e dele falamos aqui. Quaisquer que sejam as críticas em que eu possa incorrer por isso, escrevo estas linhas sem nenhum receio, e de acordo com o sentimento que tenho do meu dever presente. Em toda vida chega um momento em que se torna natural não temer senão o Deus que se ama e de quem se espera a luz e a salvação.

É claro que não ponho em dúvida um só instante a utilidade geral da direção espiritual. Sentimos nós mesmos quão necessários e benéficos foram para nós os guias espirituais que Deus nos fez a graça de enviar e a nossa gratidão para com eles nunca terá fim. Sei também o que Santa Teresa e outros santos ensinaram sobre esse assunto tão importante. Se o próprio Padre Clérissac caçoava dos diretores que dão conselhos às suas penitentes sobre a cor do seu chapéu, ou que pretendem levá-las para o céu “numa poltrona”, estava contudo persuadido, com a tradição cristã, de que as almas, sobretudo quando se encontram nos caminhos da oração, têm uma grande necessidade dos conselhos de um homem prudente e experimentado, e não poderiam, sem temeridade, fiar-se em si próprias. A palavra “paternidade espiritual” seria talvez até mais apropriada aqui do que direção. A autoridade moral de um pai, a educação que dá, são tão necessárias na ordem espiritual quanto na natural. Como, sem ela, poderia a alma libertar-se das ilusões do amor próprio, não se deixar enganar pelas inclinações que formam um todo com a própria natureza individual, fugir às ciladas e às miragens do caminho, e aprender pouco a pouco a formar o julgamento da sua consciência nessa “paz de Deus que ultrapassa todo sentimento”? A alma cristã sabe o preço incomparável da confiança absoluta e da simplicidade através das quais lhe vêm luzes que nada no mundo poderia substituir.

As observações que quisera fazer aqui são observações à margem dessas grandes verdades. Referem-se ao mesmo tempo à prudência do diretor e à do dirigido. A experiência mostrou-nos até que ponto a direção exige do diretor a mais pura discriminação das coisas que são de Deus e das que são de César. Para que seja verdadeiramente espiritual, ela exige que o próprio diretor tenha distinguido em si mesmo o que pertence à ordem da graça, da fé, da teologia e da perfeição, do que pertence apenas à herança humana; hábitos seculares, preconceitos de família, de raça ou de casta, ou à ordem das inclinações individuais: preferências e gostos. Essa discriminação angélica não existe certamente em toda a sua perfeição: mesmo os santos, desapegados de tudo, vestem algum traje do seu tempo. Quase permanece algo que perturba, por menos que seja, a transparência do olhar do diretor mais escrupuloso, e associa às suas diretivas espirituais conselhos ou indicações de uma outra ordem.

Acontece assim, em virtude de entrelaçamentos psicológicos muito difíceis de evitar, que opiniões inteiramente humanas tomem no espírito do que deve praticar a “arte das artes” quase o mesmo lugar que as certezas que se referem à vida sobrenatural, e sejam apresentadas quase da mesma forma que o exigido para a perfeição da alma.

O problema de que falo não abrange apenas o papel do guia espiritual e o número restrito das pessoas que recorrem a um diretor. Considera também, em condições diferentes e num outro nível, o ministério do sacerdote com relação à massa dos fiéis. Como é difícil aqui a situação do padre! Deve ensinar e guiar. E mesmo quando se trata de coisas da terra, deve ensinar e guiar para o céu, e não para a terra. É lamentável que os fiéis recebam às vezes, com o ensinamento religioso, dogmático e moral, conselhos que transmitem aos princípios eternos, preconceitos e paixões de ordem temporal, social e política. A Igreja como tal, porém, só trata das coisas desse domínio nos seus mais elevados princípios – naqueles que dizem respeito à ordem da moral, e cujas aplicações variam ao longo da história humana, e podem ser sadias de acordo com modos analógicos diversos.

Quando a necessidade de uma tal discriminação não é claramente reconhecida, a influência do padre, que deveria ser puramente espiritual e moral, se estende às regiões da contingência política e nos encontramos assim diante do caso em que personalidades eclesiásticas se servem da boa-fé da sua autoridade para levar o povo fiel aos caminhos efêmeros e decepcionantes da política de um país ou de um dia. E isso, às vezes, como vimos na questão da “Action Française”, apesar das diretrizes e ordens do próprio Papa, e sem temer arrastar a uma desobediência formal almas religiosas que sem essa funesta confusão teriam reconhecido a legitimidade da obediência. É assim que se dão os cismas – muito mais em geral por questões de ordem temporal do que por questões de ordem religiosa e teologal.

Quanto ao dirigido, para voltar às nossas primeiras considerações, é claro que o seu próprio bom-senso e sua prudência, e, portanto, a sua responsabilidade, estão em jogo nesse caso. Evitaria certamente erros grosseiros se soubesse claramente desde o começo que por mais grosseira e pobre em virtudes que seja a sua consciência, é a ela no entanto que cabe, afinal, depois de esclarecida por conselhos prudentes, fazer sozinha diante de Deus o julgamento de que depende a moralidade do ato livre: pois a direção espiritual tem por fim ensinar-nos a formar bem, e não a iludir o julgamento de nossa consciência. Perdura, no entanto, o perigo acidental que assinalei, tanto maior para o dirigido quanto, por outro lado, mais segura for a direção que aceitou: a autoridade do pai espiritual admirado e venerado transborda então, quase inevitavelmente, sobre todos os conselhos que dá a uma alma que já tende naturalmente para a docilidade filial.

Essas almas fazem duras aprendizagens. Felizes aquelas em que, à custa de experiências, de erros, de sofrimentos e purificações divinas, se opera a discriminação que não encontraram no espírito de seu diretor. O seu caminho espiritual se simplifica então na medida em que tiver sido purificada, e ela tende a se conformar cada dia mais ao simples caminho da caridade, do amor de Deus e do próximo – em que consistem a Lei e os Profetas. Simplicidade verdadeiramente evangélica, a mais difícil das simplicidades que se possa atingir, cujo nome é sinônimo de perfeição. São essas almas que, pela virtude do Cristo, compensam as nossas faltas e nossos erros no seio da Igreja.


(Raïssa Maritain, “As grandes amizades: (memórias)”)


NOTA: Achei magníficas e sábias essas belas considerações de Raïssa Maritain sobre a direção espiritual. Se as tivermos presentes, evitaremos graves equívocos. Ser prudente, ponderado e equilibrado é sempre necessário.

“A POSIÇÃO DO CORPO” (GUSTAVO CORÇÃO)


Em todos os vários jogos e ofícios que andei aprendendo e ensinando ao longo da vida observei sempre a mesma regra primeira, sem a qual o aprendiz aprende mal ou não aprende. Tomemos como primeiro exemplo o jogo da esgrima: antes de aprender os gestos de prima, segunda, terça e quarta, antes das lições do ataque ou da defesa, o espadachim tem de aprender a fundamental posição do corpo bem plantado em cima das pernas flexíveis e arqueadas, tem de dispor o busto, a cabeça, a cintura e o braço esquerdo, tudo pronto para assumir a mais rica variedade possível de novas posições para o ímpeto ou para a esquivança, para a defesa ou para o ataque. Mas na base de todo esse calidoscópio de gestos vivos e prontos o bom esgrimista há de possuir uma primeira e essencial posição do corpo. E logo se vê, pela especial beleza da especial elegância de cada jogo, quem será esgrimista acima do comum. Observem no jogo do bilhar (refiro-me ao verdadeiro e nobre bilhar francês), e logo verão quem joga e quem não joga pelo simples jeito de pegar no taco e de acavalar os dedos da mão espalmada sobre a lousa. Não há posição do corpo mais ridícula do que a do principiante no bilhar ou na esgrima. Um professor de piano que conheci no grupo d’O Pinguim, com certo exagero de espanhol costumava dizer que os homens têm uma tendência natural de “hacer las cosas mal hechas”. As primeiras lições de piano são silenciosas e mais esculturais do que musicais: são a busca do corpo, o preparo da mão, o retoque do busto; as semifusas virão a tempo, quando o corpo do pianista já estiver amansado. Tenho experiência de vários aprendizados frustrados, e por isso posso gabar-me do oblíquo proveito de tantos fracassos. Anos de má pintura e péssima escultura, dois ou três de um invencível piano, esgrima, e até ano e meio de um violino que só serviu para me inculcar uma ilimitada admiração pelos que conseguem fazer gemer tão absurdo instrumento. Lembro-me das tumultuosas lições de violino de minha irmã ainda hoje caçula de 73 anos com o professor Ronchini, italiano extremamente irascível que se sentia ofendido, ferido em sua honra, quando a menina de sete anos lá nos confins de minha saudade abraçava mal o instrumento e empunhava mal o arco. Mais de uma vez, estando eu na varanda à espera da irmã, vi passar pela janela o arco, como no I ato do Parsifal.

Outra lembrança que me inunda de saudades é a da mão do Sr. Castanheira, meu padrasto: era grande, vigorosa e aristocrática. Via-se nela, no simples jeito de pegar uma ferramenta, e de dominar a matéria trabalhada, toda uma condensação de habilidades disponíveis. Há mãos assim que nos dão a impressão de serem capazes de pensar antes de trabalhar.

Escreveria mais extensamente sobre este transcendente assunto, a posição do corpo, e teria gosto de desenvolvê-lo em outros níveis se o leitor prometesse não se enfadar. No que sairia perdendo porque estou convencido de estar hoje trazendo a mensagem mais proveitosa do que tantas outras que debalde tentei transmitir.

Para cativar o leitor exageremos: tudo na vida depende da posição do corpo. O Evandro Pequeno ou o Ovalle, ambos inesquecíveis personagens d’O Pinguim, um deles, qual?, uma tarde perguntou-nos: “Vocês já repararam que a gente, quando vai pedir dinheiro, fica torto?” E a mímica que acompanhava a tese demonstrava-a cabalmente. Donde concluímos, parodiando o Eclesiastes, que há uma posição para pedir e uma posição para dar, outra posição para tocar piano e outra para a harpa, uma para produzir temor e outra para infundir piedade. Tudo da vida, em suma, é posição do corpo. Sendo verdade, como dizia o Teruz, que todos temos tendência natural de fazer as coisas malfeitas, concluiremos que seria mais proveitoso desentortar os corpos mal crescidos do que lhes estimular, como é moda, uma imprudentíssima criatividade.

Ou então concluiremos, à vista do espetáculo que se nos oferece, que houve um abalo cósmico profundo e imenso e que é o próprio mundo que anda torto em sua posição básica, e grotescos serão os frutos desse aleijão universal.

Sim, é nas coisas básicas e primeiras, e não nas últimas e difíceis, que são hoje cometidos os erros mais ridículos e mais funestos. Como também são as matérias mais gratuitas e abundantes que começam a faltar. Não me refiro ao petróleo do Oriente Médio; refiro-me antes ao AR. Vivemos um arquejante fim de civilização. Temos falta de ar. Ouvi há dias uma conferência sobre a poluição do ar, sobre a poluição da água e sobre a poluição sonora. De todos esses disparates eu me escandalizo muito mais com a ONU do que com as guerras, porque as situações internacionais que levam às guerras ainda guardam coerência com a lei natural que compele o homem à defesa de seus bens, pelos quais sempre houve uma normal disposição de lutar até o sangue. O que me parece muito afastado do normal é o himalaia de imposturas que foram inventadas com o pretexto de evitar os horrores das guerras, e que produziram esse horror de paz em que se polui o ar, a água, e sobretudo se poluem as almas. E diante da monstruosa apologia da monstruosidade, diante da insensibilidade universal produzida nos lugares instituídos para apuro do homem, diante de tal amontoado de coisas malfeitas, sou forçado a concluir que o mundo inteiro deu uma reviravolta, um mau jeito do corpo, e ficou torto.

Teremos de começar pelo princípio. E se não insistirmos na ortopedia mundial e na doutrina que exige previamente a posição certa para o corpo, receio muito a grande explosão que será produzida pela massa pavorosa de asneiras concentradas. Ouvi dizer, entres outras hipóteses, que as estrelas novae surgem por condensação da poeira espacial. A hipótese que transforma a fuligem em estrela tem sua beleza. Receio que nosso mundo, na direção que tomou, conseguirá o prodígio maior de transformar em alguma Aldebarã o pó e o cacarejar das academias e dos institutos de Justiça e Paz.

Empreendamos, pois, a nossa cruzada pelas coisas bem-feitas, a começar pelo reaprendizado da posição do corpo, se na verdade quisermos prolongar um pouco a lenda do homem neste nobre planeta que viu sua casca vibrar com tantos golpes de heroísmo e tantos passos da santidade. Se não, se já estão fartos, é só deixar tudo correr como lá vai e como se lê nas folhas.


(Gustavo Corção, “Conversa em sol menor: memórias recolhidas”)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

MERVAL PEREIRA

Todas as vezes que vejo o Merval Pereira na televisão, normalmente no Jornal das 10, acontece-me uma coisa estranha, aparentemente um estalo do inconsciente: dá-me vontade de me mudar, com a cara e a coragem, e talvez com alguma irresponsabilidade, para a cidade do Rio de Janeiro.

Considero-me um bom observador e passei a buscar as razões ocultas desse desejo instintivo, e por que não dizer, intuitivo, bem pouco racional. Não me foi tão difícil a descoberta. Merval Pereira pertence à Academia Brasileira de Letras, lembra-me um grande escritor, que não se curvava às pompas e glórias do mundo, sabedor de que são vãs. Trata-se de um verdadeiro imortal, bem mais imorredouro do que os da Academia, muitos deles dotados de uma imortalidade de convenção.

Sem que eu faça força, ou sem que tenha tempo de defender-me, Merval Pereira recorda-me Gustavo Corção Braga e o palco das suas lutas, o ambiente sagrado das suas incríveis, árduas e sublimes batalhas, também das suas amargas humilhações: a cidade do Rio de Janeiro.

As humilhações continuam a persegui-lo, pois, além de não se encontrar no lugar reservado aos imortais e proporcionado aos seus méritos, o modesto túmulo de Corção, que já tive a oportunidade de visitar e venerar, é ridícula e infinitamente menos conhecido e visitado que o de Cazuza e de sei lá mais quem. É um verdadeiro e austero sepulcro de oblato beneditino, autêntico servo de Jesus Cristo. De um servo de Jesus Cristo que o acompanhou até o calvário, sem medo das cusparadas ou de maiores consequências, como o apóstolo São João.

Por aí se vê em que trágico e deplorável estado de coisas se encontra o país de Gilmar Mendes, que só não é mais cômico e mais trágico porque atingiu a degradação infinita.

Sem dúvida, Gustavo Corção Braga é o brasileiro que mais admiro, pela exuberância da inteligência, pelo refinamento da escrita, pela lógica e beleza dos argumentos, pela perfeição do estilo, pela agudeza das percepções, pela vastidão da cultura, pelo desprezo das falsas pompas deste mundo. É um Agostinho nacional, esse que para mim é o mais honesto e sincero dos escritores. Nós lemos e bebemos a alma de Corção nos seus textos.

Salve a gloriosa cidade do Rio de Janeiro, adornada pela beleza natural, pela beleza arquitetônica e pelos méritos desse grande escritor e herói da fé, que em 17 de dezembro fez mais um aniversário!


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

TILLY


Permanecendo em Viena, tive também a oportunidade de conhecer no hospital minha primeira mulher, Tilly Grosser. Ela era enfermeira na seção do professor Donath. Tilly logo me chamou a atenção porque, na minha opinião à época, ela se parecia com uma dançarina espanhola. Na verdade, acabamos ficando juntos porque Tilly queria que eu me apaixonasse por ela a fim de vingar sua melhor amiga, com quem eu havia começado algo que não foi em frente. Descobri o motivo rapidamente e não escondi isso a ela. Ela ficou bastante impressionada.
 
Seria preciso dizer, porém, que o ponto mais significativo de nosso relacionamento não foi aquele que costumamos imaginar; pois eu não me casei com ela por sua beleza, e ela não se casou comigo por minha "inteligência" – e nos orgulhávamos disso, por esses não terem sido o motivo do nosso casamento.
 
Claro que eu estava impressionado com sua beleza, mas fui conquistado por sua essência – como posso dizer? –, por sua compreensão da natureza, pela cadência do seu coração. Quero dar um exemplo: a mãe de Tilly estava prestes a perder sua garantia contra a deportação, à qual tinha direito por Tilly ser enfermeira. É que certo dia se decidiu que essa garantia contra a deportação não valia mais para dependentes. Um pouco antes da meia-noite, quando ela caducaria, a campainha tocou. Tilly e eu estávamos visitando a mãe dela. Mas ninguém ousou abrir a porta, tratava-se da intimação à deportação. Finalmente, um de nós foi atender à campainha – e quem estava diante da porta? Um mensageiro da comunidade cultural, convocando-a para assumir na manhã seguinte seu posto como recém-nomeada ajudante da arrumação dos móveis das casas dos judeus recém-deportados. Ao mesmo tempo, ele entregou à mãe de Tilly um certificado que lhe restituía automaticamente sua garantia contra a deportação.
 
O mensageiro deixou a casa, nós três voltamos a nos sentar, e nos entreolhamos, sorrimos uns para os outros. A primeira pessoa que conseguiu encontrar uma palavra foi Tilly. E o que ela disse?
 
– Ora, Deus não é maravilhoso?
 
Essa foi a teologia mais bonita e, especialmente, a mais breve summa theologiae, para falar como os tomistas, que eu já ouvi!
 
O que me levou a casar com Tilly? Certo dia ela estava preparando a comida na minha casa, ou melhor, na casa de meus pais, na Czerningasse, quando o telefone tocou. O Hospital Rothschild me chamava com urgência: um clínico tinha acabado de avisar de um caso de envenenamento por soníferos, perguntando-me se eu não poderia empregar minhas artes de neurocirurgia. Não deixei nem que me fizessem um café, coloquei apenas alguns grãos de café na boca e mastiguei enquanto corria para um táxi.
 
Duas horas depois, eu estava de volta, o almoço em família estava arruinado. Claro que eu supunha que os outros já tinham comido, o que meus pais realmente haviam feito. Mas Tilly havia esperado e sua primeira reação não foi: "Puxa vida, finalmente você voltou, fiquei esperando com a comida".
 
– Como foi a operação, como está o paciente? – foi o que ela disse.
 
Nesse instante, decidi-me a fazer dessa moça minha mulher, não porque ela era isso ou aquilo para mim, mas porque ela era ela.
 
Já estávamos no campo de concentração quando lhe dei uma lembrancinha que consegui arranjar para o seu 23.º aniversário (creio), e escrevi: "Para seu dia, desejo – para mim – que você se mantenha fiel a você". Ou seja, um paradoxo duplo: era o aniversário dela e eu estava desejando algo para mim e não para ela, e isso consistia em ela se manter fiel a ela mesma e não a mim.
 
 
Trecho extraído de: Viktor Emil Frankl. O que não está escrito nos meus livros. Memórias. Tradução de Cláudia Abeling. São Paulo: É Realizações, 2010. pp. 101-2.
 
 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

DUAS POBREZAS E DUAS FORÇAS


“Sim, meu padrasto. Nesse tempo minha mãe se casara de novo com um personagem fabuloso que os filhos haviam descoberto nas matas do Trapicheiro. Era uma espécie de guarda-florestal que vivia numa caverna e usava barbas terríveis, atrás de cuja sombra brilhavam olhos de mel e escondia-se o melhor coração das redondezas. Para nós ele era uma espécie de meio-termo entre o Capitão Nemo e Miguel Strogoff. E tanto insistimos que mamãe quis conhecer o prodígio pelo qual seus filhos estavam apaixonados, e apaixonou-se por ele também. Casaram-se com simplicidade, casando as duas pobrezas, mas também as duas forças.” (Gustavo Corção. “Dia das Mães”, in “Conversa em sol menor”, Agir)

No dia de hoje, 14 de dezembro, a Igreja celebra a memória de São João da Cruz, doutor da Igreja, pai e reformador do Carmelo. Por coincidência, tive a felicidade, nesta manhã, de meditar num trecho do “Cântico Espiritual” do doutor místico, justamente aquele em que ele começa a falar sobre o matrimônio místico, o mais alto estado espiritual a que uma pessoa pode chegar nesta vida. É um estado de completa união com Deus, de união transformante, em que a alma é necessária e previamente confirmada na graça santificante. Trata-se da Canção XXII.

São João da Cruz faz uma bela comparação, que espero ter compreendido. Diz ele que, assim como na consumação do matrimônio, homem e mulher tornam-se uma só carne, na consumação do matrimônio místico ou espiritual, a alma e o Filho de Deus tornam-se uma só coisa: Deus. A alma torna-se Deus por participação. As propriedades e virtudes de Deus comunicam-se à alma. A alma fica toda consumida, absorvida e incendiada pelo grande sol que é Deus. A alma é toda de Deus, e Deus, por assim dizer, é todo da alma.

Santa Teresa leva sobre São João da Cruz a vantagem de escrever de forma mais solta, espontânea, bela e original. Por outro lado, São João da Cruz leva sobre Santa Teresa a vantagem de ser mais metódico, mais sistemático e mais claro. Além de deter maior rigor teológico – ele que estudou em Salamanca – e, por que não dizer, filosófico. São perceptíveis as influências do tomismo em sua obra.

Recomendo, pois, a leitura de São João da Cruz, especialmente a do “Cântico Espiritual”, que fornece-nos uma noção luminosa, um itinerário seguro a seguir em nossa vida espiritual. Fica clara a meta. Ficam evidentes os meios e o caminho.

Contudo, feita essa longa digressão, queria retomar o assunto do primeiro parágrafo. É que neste mesmo dia me veio às vagas da memória a descrição que Corção faz sobre o casamento da sua mãe viúva com o seu amável padrasto, seu Castanheira. Veio-me imprecisamente a frase: “Uniram as duas pobrezas e as duas forças”, mas depois fui beber na fonte, fui consultar o trecho, e a citação correta é: “Casaram-se com simplicidade, casando as duas pobrezas, mas também as duas forças”.

Não sei se eu sou, se nós somos capazes de avaliar a beleza dessa frase, a poesia desse pensamento. Ele é de uma verdade, de uma humanidade e luminosidade infinitas. Há alguma grandeza insuspeitada oculta nesse trecho. Uma espécie de segredo velado, de grande verdade universal. No final das contas, penso, todo casamento é assim: a união de duas pobrezas, totalmente dependentes de Deus, e de duas forças. Forças que Deus pôs nas duas pobrezas pela natureza, como dons naturais, e que quer infundir nelas mediante a graça, como dons sobrenaturais. Como é bonita, generosa, sólida, fecunda, durável, estável e admirável essa união de pobrezas e de forças! É uma poesia maior do que o céu!

Espantou-me muito que o doutor místico, padre, frade, asceta, celibatário, carmelita, não tenha encontrado figura mais perfeita para o mais alto grau da vida contemplativa que o casamento. E mais: que tenha comparado a consumação do matrimônio místico com a consumação do matrimônio humano. Isso deve significar que o casamento, que o matrimônio, realmente seja algo tão grande que não saibamos avaliar bem, compreender em toda a sua altura, largura e extensão. Deve ser realmente um oculto segredo, um incompreensível mistério. Porém, no matrimônio espiritual, ao contrário do matrimônio humano, há o encontro de uma total pobreza com uma total riqueza. De um absoluto nada e fraqueza com um total tudo e fortaleza.

Trago, então, para fechar com chave de ouro, mais uma simples e esplendorosa descrição do amor de Castanheira e Gracietta Corção:

“Conheceram-se, amaram-se, casaram-se. Com o desenvolvimento desses três verbos eu escreveria um belíssimo romance se para tanto tivera engenho e arte, e se a Luta me concedesse férias amplas e repousadas (Os telefones, dez ou vinte vezes por dia, querem saber o que penso da reunião da CNBB em Itaici.)

Ao menos três ou quatro linhas escrevo entre os dois últimos verbos. Foi mansamente fulgurante a passagem do conhecimento para o amor, em longas conversas, e silêncios mais longos nos bancos de pedra do Trapicheiro. E depois as visitas noturnas de seu Castanheira. A criançada ia às oito e tanto para a cama, e eles dois prolongavam a conversa na sala sob a teórica vigilância da Zezé, ex escrava e ama-seca da Mamãe, que esteve sempre com ela, na fartura e na pobreza. Outro salto infinito. Uma curta digressão: é impossível, sem uma espécie de sumária guilhotina, contar a mais simples das histórias, povoada de meia-dúzia ou dúzia e meia de infinitos.” (“Os dois portugueses”, in “Conversa em sol menor”)