quinta-feira, 21 de outubro de 2021

MÊS DO ROSÁRIO

Amigo leitor, como você pode ver, fiquei bastante tempo ausente deste blog. Para minha felicidade, porém, vejo que ele continua sendo visitado, com boa frequência.

Estamos no mês do rosário. É um mês de trinta e três dias, que começa em 1.º de outubro e termina em 2 de novembro, no dia de finados. O mês do rosário foi instituído pelo Papa Leão XIII, o chamado Papa do Rosário, pois a essa esplêndida devoção ele dedicou várias encíclicas, além de outros documentos pontifícios. Salvo engano, tal instituição foi feita na Encíclica "Supremi Apostolatus Officio", originalmente para aquele ano de 1883 e depois estendida para todos os outros. Em São João del-Rei, na Igreja do Rosário, conserva-se a vivência do mês do rosário, tal como instituiu e desejou o Papa Leão XIII, com a récita diária do terço, diante do Santíssimo exposto, seguida da ladainha lauretana, da oração a São José e da bênção do Santíssimo. Sempre que posso vou a Tiradentes durante uma semana em outubro e participo das orações do mês do rosário em São João del-Rei, que é muito próxima e muito fácil de ir. A missa é sempre às 18h, sendo o terço às 18:30h.

No mês do rosário, renovo também minha consagração a Nossa Senhora pelo método de São Luís Maria Grignion de Montfort. Eu a fiz no dia 2 de novembro de 2011, há dez anos, pensando em Nossa Senhora do Rosário e nas almas do purgatório. Mais do que consagrar-me numa festa específica de Nossa Senhora, na festa de Nossa Senhora do Rosário no dia 7, o que me parecia pouco, quis preparar-me, pensar nela e consagrar-me em todos os 33 dias desse mês, como se todos eles fossem o dia 7, da gloriosa Virgem da Vitória da Batalha de Lepanto. O mês do rosário combina muito bem com a consagração. Vejamos.

A primeira parte da consagração é composta de doze dias preliminares, em que se renuncia ao espírito do mundo, pede-se o desapego das criaturas, a contrição e o perdão dos pecados, o conhecimento de si mesmo e a humildade. É estimulante que o décimo segundo dia coincida com a festa de Nossa Senhora Aparecida, como que para bem demarcar o término da primeira etapa.

Os exercícios de São Luís Maria podem ser feitos em 30 dias ou em 33. Após os doze dias preliminares, há três semanas preparatórias, de 6 dias ou de 7 dias. Parece-me mais adequado realizar os exercícios em 33 dias e observar semanas de 7. O objetivo da consagração não é chegar à plenitude da idade de Jesus Cristo? Não é formar outro Cristo em Maria? Não é esse também o objetivo do rosário? Notemos que o mês do rosário contém exatamente 33 dias, correspondendo ao número de anos que se acreditam ser os da vida de Cristo. No rosário, meditamos os mistérios principais da vida de Cristo, para nos conformarmos a ele. É belo que o mês consagrado a tão sublime devoção faça referência aos anos da vida de Cristo, já que no rosário medita-se exatamente a vida do Salvador.

É verdade que abalizados estudiosos entendem que Cristo viveu 36 anos ou um pouco mais, como assinala a Bíblia de Jerusalém nas notas aos primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas. No caso, porém, a precisão histórica não importa. O número 33 acabou tornando-se realmente sagrado, símbolo da vida de Cristo na terra. Mais vale uma verdade ou símbolo espiritual do que a meticulosa precisão histórica.

Quando da minha consagração a Nossa Senhora, optei por não usar correntinhas ou cadeiazinhas, que considero chamativas e indiscretas. Optei pelo escapulário, mais discreto e que é o sacramental mais vivamente recomendado pelos Papas e, mesmo, pela Irmã Lúcia de Fátima, como indissociavelmente ligado ao rosário e à mensagem de Fátima. O escapulário do Carmo é um sinal de consagração à Mãe de Deus.

Além disso, tanto o terço, oração indulgenciada, como o escapulário, ao qual se atribuem os privilégios da perseverança final e o sabatino, estão ligados às almas do purgatório, com o que me parece providencial que o mês do rosário se conclua no dia de finados, já que o terço costuma terminar com as orações pelo Santo Padre, para lucrarem-se as indulgências, mencionadas, aliás, desde o oferecimento da oração. Costuma-se dizer ainda que é Nossa Senhora do Carmo quem retira as almas do purgatório, consumada a expiação. Tanto isso é verdade que nossa Igreja do Carmo de Belo Horizonte possui um belíssimo vitral, na entrada que dá para a avenida, em que a Virgem do Carmo retira as almas das chamas do purgatório.

Que me perdoem os santos e os doutos, como o próprio São Luís Maria e o Pe. Luiz Carlos Lodi! Não gosto da denominação: "o escravo de Jesus em Maria", que considero longa e escrupulosa. Prefiro a designação mais simples e direta: "escravo de Maria". Deixemos os escrúpulos para os escrupulosos!

Se se trata de questão de gosto pessoal, prefiro também, por razões de estilo, o nome que escolheu Teresa de Cepeda y Ahumada, "Teresa de Jesus", a "Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face".

Vivesse eu bem a minha consagração, diria, pura e simplesmente: "Paul, escravo de Maria".

Viva o mês do rosário!


Paul Medeiros Krause

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

MEMÓRIA DE SANTO AMBRÓSIO

Santo Ambrósio


 Às portas da Imaculada Conceição, a Igreja faz memória de Santo Ambrósio, o grande bispo de Milão, doutor da Igreja, que colaborou na conversão e batizou Santo Agostinho e seu filho Adeodato, numa Vigília Pascal.

"Olha para os sepulcros dos homens e vê o que restará de ti, senão cinza e ossos, isto é, de teu corpo; olha, repito, e diz para mim quem aí é o rico e o pobre. Separa os pobres dos ricos. Todos nós nascemos nus e nus morremos. Não há nenhuma diferença entre os cadáveres dos mortos, a não ser talvez que os corpos dos ricos fedem mais, inchados pela comilança." (Santo Ambrósio, "Examerão").


terça-feira, 24 de março de 2020

REFLEXÃO SOBRE O CORONAVÍRUS

Outro dia uma pessoa me perguntou como eu estava encarando a pandemia do coronavírus, se eu estava com medo ou preocupado. Para o caso de ser útil a alguém, reproduzo aqui mais ou menos o que eu disse, talvez com algum acréscimo.
 
É preciso enxergar a pandemia com o olhar da fé, com visão sobrenatural. Posso dizer que a pandemia me traz à memória o pensamento de três grandes santos.
 
O primeiro pensamento que me ocorre é de Santo Agostinho. Diz Santo Agostinho que só acontecem dois tipos de coisas, só existem dois tipos de acontecimentos: os que Deus manda e os que Deus permite. Deus só manda coisas boas, mas pode permitir coisas ruins, acontecimentos maus. Quando Ele permite um mal, é para trazer um bem maior. Deus não permitiria o mal se não pudesse extrair dele um bem maior. Dos males Deus tira bens, dos grandes males, grandes bens.

Dou um exemplo: Deus permitiu o pecado original de Adão para depois conceder algo bem maior, a Encarnação do Verbo. Onde abundou o pecado, superabundou a graça.
 
Pois bem. A pandemia de coronavírus é um mal (mais à frente falarei dos relativistas...). Deus a permitiu, não a mandou, mas tem em vista um bem maior.
 
Parece-me lícito perguntar: o que será que Deus quer de mim com essa epidemia? O que Ele quer me dizer? Qual mensagem Ele me manda com isso? Que lição ou que lições eu posso tirar disso?
 
Creio que uma primeira lição é que é preciso estar sempre preparado para a morte. Nós não somos deste mundo. Estamos neste mundo, que é provisório, mas não somos deste mundo. É preciso viver sempre em estado de graça, na amizade com Deus. De nada adianta ter pavor da morte. É preciso preparar-nos para ela. Um dia ela virá, não se sabe quando.
 
Uma segunda lição é a da fragilidade deste mundo, que tanto confia em si mesmo, mas que, de uma hora para outra, vira as pernas para o ar. A pandemia atinge ricos e pobres. É certo que uns mais, outros menos, mas, de uma certa forma, ficou demonstrada a fragilidade de todos.
 
Uma terceira lição poderia ser a de como são estapafúrdias certas correntes de pensamento assentadas no relativismo. Alguns dizem: não existe verdade, a verdade é relativa. Contudo, não adianta muito filosofar nestes termos agora, porque, reconhecendo ou não a existência e a realidade do coronavírus, mesmo o mais relativista dos homens pode contraí-lo e sentir os seus efeitos, nada bons. O relativismo só é bonito na teoria; na prática, é desastroso.
 
São uma infinidade as lições que podemos tirar desse episódio, e cada um pode tirar suas próprias lições e conclusões. O acontecimento fala em vários níveis: fala ao mundo, fala às nações, fala aos Estados, às cidades, aos governos, às empresas, às famílias e a cada pessoa em particular.
 
Até aqui desenvolvi, ou tentei desenvolver, apenas o primeiro pensamento, de Santo Agostinho. Passemos à segunda ideia.
 
A segunda reflexão que me ocorre vem de São Francisco de Sales. Diz o grande doutor da Igreja: depois do pecado, nada pode acontecer de pior a uma pessoa do que a inquietação e a perturbação, que são fontes de inúmeras tentações.

E São Francisco de Sales define a essência do que é a inquietação ou perturbação: é o desejo desordenado de um bem ou o desejo desordenado de fugir de um mal. Não se trata de querer um bem segundo a ordem desejada por Deus, mas com amor desordenado. Nem se trata de fugir de um mal como Deus quer que fujamos, mas com uma aversão desordenada, precipitada e inquieta, agitada.

Mesmo a fuga de um mal deve ser pacífica, calma e ordenada, o que não significa negligente. Devem-se empregar todos os meios lícitos e empregá-los de forma ordenada. Mas não podemos temer o mal mais do que seria razoável, nem devemos fugir dele com precipitação, agitação ou afobamento. Uma fuga precipitada pode causar um mal maior.

Dou um exemplo. É mais fácil fugir de um ladrão mantendo a calma do que com precipitação. Com precipitação, agitação e inquietação, é mais fácil tomar um tiro do que escapar. Às vezes, não é possível escapar do assalto, mas sim evitar um tiro.

Portanto, para evitar a contaminação pelo coronavírus ou os efeitos da pandemia, é preciso manter a calma, empregar diligente e ordenadamente os meios, sem precipitação, sem afobação e sem agitação. Mais ainda: sem um temor exagerado da morte, pois o pior mal é ofender a Deus, não a morte. Quem sabe se Deus não quer convidar o mundo a parar de ofendê-Lo agora? Abortos legalizados, casamento gay, inversão de valores e tantas aberrações haveriam de durar para sempre? Creio que não. É impossível que tanta iniquidade perdure para sempre ou que perdure muito tempo.

Finalmente, o terceiro pensamento é de Santo Inácio de Loyola. Ensinava ele: reze como se tudo dependesse de Deus, porque de fato tudo depende Dele, mas aja como se tudo dependesse de você, porque Ele não quer que sejamos omissos ou negligentes.

Ou seja, em primeiro lugar, em primeiríssimo lugar, rezar, pedir a Deus a solução para o problema da pandemia. Em segundo lugar, muito em segundo lugar, mas sem omissões, sem negligências nem retardamentos, empregar todos os meios humanos para debelar a doença e suas consequências, obedecendo às autoridades civis e sanitárias e fazendo cada qual a sua parte, os cientistas pesquisando, os médicos atendendo, as pessoas em geral se cuidando e assim por diante.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

OS TRÊS DEGRAUS DAS BOAS OBRAS E DOS PECADOS

São Francisco de Sales


Poucos de nós nos damos conta disto, mas tanto as boas obras como os pecados possuem três degraus, estágios ou fases. Só existe a boa obra e só há o pecado quando superadas, reunidas ou preenchidas as três fases ou estágios. O prazer produzido pela tentação, o chamado deleite, só se converte em pecado no momento em que há consentimento. De igual forma, só existe a boa ação quando ocorre o consentimento, a aquiescência, à inspiração dada por Deus. É o que ensina o grande mestre São Francisco de Sales. Tal lição é importante para quem padece de escrúpulos. Ei-la:

"Assim, Deus, quando quer operar em nós, por nós e conosco alguma coisa para sua glória, primeiro no-la propõe por suas inspirações; nós a recebemos com uma suave complacência e damos o consentimento. Pois, como há três degraus pelos quais se cai no pecado - a tentação, o deleite e o consentimento - assim também há três degraus pelos quais nos elevamos à prática das virtudes: a inspiração, que é contrária à tentação; a complacência na inspiração, que é oposta ao deleite da tentação; e o consentimento à inspiração, que se opõe ao que se dá à tentação."


("Filoteia ou Introdução à Vida Devota")

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

MEMÓRIA DE SÃO FRANCISCO DE SALES

São Francisco de Sales


Para honrar a memória de São Francisco de Sales, doutor da Igreja, bispo e príncipe de Genebra, fundador da Ordem da Visitação, celebrada no dia 24 de janeiro, disponibilizo, torno mais acessível, o link com alguns de seus preciosos pensamentos. É raro um santo com tanta sabedoria, tanto espírito prático e tanto equilíbrio. Ele é sem dúvida uma das minhas maiores devoções, reinando acima inclusive do seu xará São Francisco de Assis:


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

GUSTAVO CORÇÃO: BREVES APONTAMENTOS BIOGRÁFICOS E CRONOLOGIA

Gustavo Corção Braga


BIOGRAFIA

Gustavo Corção Braga nasceu em 17 de dezembro de 1896, no Rocha, subúrbio do Rio de Janeiro. Nasceu no período chamado "Rio Antigo", em que a cidade vivia num ritmo completamente diverso do de hoje e era a capital administrativa e cultural do país. Aliás, era também a capital cultural da América Latina.

Foi o segundo filho de Gracietta Corção e de Francisco Braga. Sua mãe ficou viúva aos vinte e seis anos e teve de trabalhar arduamente para sustentar os cinco filhos, inclusive como costureira, apesar de ter tido uma educação refinada, tocar piano e falar francês. Corção relata em uma de suas crônicas, trazida no "Conversa em sol menor", que sua mãe trabalhava então das cinco horas da manhã até altas horas da noite.

Enquanto precisou dedicar-se à costura, Gracietta reuniu recursos e tomou aulas para poder alugar uma casa e abrir um colégio interno chamado “Colégio Corção”. Morou nele com os filhos e os alunos, mais dois portugueses que alugavam quartos na casa. Devemos dar graças a Deus por essa circunstância providencial: Corção, dotado de inteligência excepcional, morava em um colégio. Sua casa era um colégio. Ele começou aprendendo, mas logo passou a ser professor. Animal professor, como gostava de dizer.

Gustavo tinha uma inteligência prodigiosa. Normalmente, mesmo os gênios são bons, muito bons ou excelentes em uma coisa ou outra, em duas ou três. Corção era completo; tinha uma inteligência prodigiosamente diversificada. Sobressaía em quase tudo que fazia.

Aos sete anos construiu sua própria luneta com umas lentes que arranjou. Aos dez anos já dava aulas de aritmética por dez mil réis. Na adolescência ganhou um concurso de saltos. Praticou esgrima. Fez aulas de piano e violino. Passou no vestibular e entrou no curso de Engenharia com dezesseis anos. Praticou xadrez e quase foi o campeão nacional. Só não o foi porque abandonou a competição. Tinha já quinze vitórias consecutivas. Estudou astronomia e fez um concurso para ter acesso ao Observatório Nacional, em que foi prejudicado. Recordando o fato, trouxe para as páginas dos jornais um belíssimo pensamento: "Para o razoável equilíbrio do mundo é bom que os moços encontrem algumas resistências em todos os seus amores."

Inventou um método novo e superior ao então em uso de determinação das latitudes.

Participou das primeiras transmissões transoceânicas de rádio da América Latina. Da primeira iluminação do Cristo Redentor.

Abandonou a Engenharia e trabalhou em astronomia de campo no Mato Grosso. Pegou malária e voltou para o Rio de Janeiro transformado, adulto. Trabalhou ainda um pouco com astronomia de campo no Rio, com força e luz e eletricidade industrial, no interior do Rio e do Espírito Santo (Cachoeiro do Itapemirim). Passou a dedicar-se e a ensinar eletrônica aplicada às telecomunicações na Escola Técnica do Exército (Instituto Militar de Engenharia), na Radiobrás, na Companhia Telefônica Brasileira e na Escola de Engenharia da UFRJ. Foi conselheiro do Conselho Federal de Cultura.

Perdeu a fé e se associou a um grupo de amigos anticlericais, revolucionários, marxistas e nietzschistas que frequentava a sua casa. Quando esteve prestes a entrar em uma célula comunista e a passar da conversa fiada para as ações perigosas - não por estar convencido do marxismo, mas por pragmatismo -, sua mulher, Diva Corção, morreu, o que lhe causou uma profunda crise espiritual. Com a morte da mulher, Corção percebeu que sua fase revolucionária foi uma gafe.

Cerca de três anos após a morte da mulher, fortemente influenciado pela leitura de Chesterton e de Jacques Maritain, igualmente pelo contato com o mosteiro de São Bento, volta a fé do seu batismo, com toda a convicção, com todo o coração e com todo o vigor da sua inteligência. Ele viria a ser, talvez, a figura mais destacada do Centro Dom Vital e do laicato brasileiro nas décadas seguintes.

Corção foi chamado de segundo Machado de Assis. Único escritor modernista límpido machadiano, com um humor à inglesa.

Possui uma prosa poética, ritmada, quase uma métrica. Escolhe minuciosamente as palavras. Ostenta uma suprema elegância e revela uma incrível sinceridade.

Suas principais obras constam de ensaios e de crônicas. Também artigos em revistas especializadas no Brasil e no exterior.

Corção foi um grande colaborador da Revista "A Ordem" e diz-se que escrevia primorosamente também em francês.

Foi oblato beneditino: tomou o nome de Paulo.

Dom Marcos Barbosa, seu confessor, imortal da Academia Brasileira de Letras, traduziu “O pequeno príncipe” para o português. Foi ideia de Corção o uso do verbo 'cativar' na seguinte frase: "Tu és eternamente responsável por aquele que cativas".

Faleceu em 6 de julho de 1978.

Sua obra começou a ser republicada pela Vide Editorial, selo da Editora Ecclesiae mais dedicado à filosofia e à política, em 2018, quarenta anos após a sua morte.


CRONOLOGIA


- 17 de dezembro de 1896: nascimento.

- 1919: Jackson de Figueiredo funda o Centro Dom Vital.

- 1928: morre Jackson de Figueiredo, e Alceu Amoroso Lima assume a presidência do Centro Dom Vital.

- 1936: morte da mulher, Diva.

- 1939: converte-se ao catolicismo, com 42 anos.

- 1944: escreve “A descoberta do outro”, suas "Confissões".

A primeira edição de "A descoberta do outro", o primeiro livro da celebérrima Editora Agir, fundada por Alceu Amoroso Lima, esgotou-se em menos de duas semanas. A segunda, em menos de um mês. A terceira, em menos de dois meses.

Alceu Amoroso Lima afirmou que Corção arrombou com dedo de anjo – e não com pé-de-cabra – as portas da literatura brasileira. O mesmo Alceu viria a dizer que Corção era o maior escritor brasileiro vivo.

- Corção passa a ser cronista dos mais importantes jornais do país, com duas crônicas semanais: "Diário de Notícias" e "O Globo", do Rio, "O Estado de São Paulo", "O Correio do Povo", de Porto Alegre, "A Gazeta do Povo", de Curitiba, "A Tarde", de Salvador.

- Torna-se Vice-Presidente do Centro Dom Vital, e redator-chefe da Revista "A Ordem", prestigiosa revista do Centro, com larga influência no clero e assinantes no exterior.

- 1946: lança seu segundo livro, “Três alqueires e uma vaca”, um ensaio sobre a obra de Chesterton.

A obra começa com a descrição do que são um livro e o leitor dos sonhos de qualquer escritor.

Corção disserta sobre o distributismo, com críticas duras ao capitalismo e ao socialismo e com o elogio e a defesa da propriedade privada. Tece os mais valorosos elogios à doutrina social da Igreja.

A obra está dividida em três partes: "para não ser doido", "para não ser escravo" e "para não ser bárbaro".

Para não ser doido, o homem deve estar aberto ao mistério e não pretender submeter tudo ao juízo da razão. Há clara oposição ao racionalismo.

Para não ser escravo, o homem precisa ter sua própria propriedade, ainda que esta consista em três alqueires e uma vaca. O ser humano precisa ser rei, ser senhor absoluto pelo menos dentro dos estreitos domínios da sua própria casa.

Para não ser bárbaro, o homem precisa ser fiel à palavra dada, aos compromissos e à tradição. A tradição é a democracia dos mortos. O divórcio é um ato de bárbaro.

- 1950: lança “Lições de abismo”, sua única obra de ficção, seu único romance.

Talvez o livro retrate sua própria conversão em forma de romance, ficcional. O protagonista do livro, José Maria, descobre que possui uma doença terminal, que lhe restam poucos meses de vida. A partir dessa descoberta, ele repensa toda a sua existência.

Sente-se um paralelo com “A morte de Ivan Ilitch”, a esplendorosa e perfeitíssima novela de Tolstói, obra-prima da literatura russa, expressamente mencionada.

A obra contém aguda e fina crítica social. Contém uma original e sensível descrição do natal dos nossos dias, com seu materialismo, verdadeiro insulto ao pobre.

O livro ganhou dois prêmios, um deles da Unesco.

Segundo o escritor Menoti del Pichia, "Lições de Abismo" foi o maior romance já escrito no Brasil.

A obra foi traduzida em seis línguas.

- Década de 50: Corção torna-se Presidente do Centro Dom Vital, enquanto Alceu reside nos EUA.

- 1954: escreve “As fronteiras da técnica”.

O livro é uma colcha de retalhos, contendo vários ensaios sobre temas diversos, sobressaindo a defesa da ciência e a crítica ao cientificismo.

- 1956: “Dez anos”.

Trata-se de uma reunião de crônicas do Corção, publicadas ao longo de dez anos nos jornais em que escrevia, arrumadas em "desordem cronológica".

- 1958: publica “Claro Escuro”.

Cuida-se de um ensaio fabuloso sobre sexo, casamento, divórcio e amor.

Contém nova crítica ao cientificismo e à posição de certos psicólogos modernos segundo os quais o adultério não teria nenhuma conotação moral, seria uma mera doença: “o adultério é um mero resfriado”.

Corção procura argumentar sem invocar fundamentação religiosa. Ele traz fundamentos da razão natural, não da fé católica.

Há uma interessante análise sobre "os inocentes castigados" pelo divórcio, de quem ninguém fala. Para os filhos, que não presenciaram o tempo de namoro, nem de noivado dos pais, a sua progressiva aproximação, mas já nasceram no lar constituído, o divórcio é um absurdo, é uma hecatombe, "é um desastre cósmico”.

- 1965: publica “O desconcerto do mundo”.

Trata-se de ensaios sobre Camões, Eça de Queiroz, Machado de Assis (mencionando-se suas duas fases) e sobre estética (arte).

Manuel Bandeira diz: deveria ser traduzido em todas as línguas, para que todos saibam que merecemos o Prêmio Nobel.

- 1967: publicação de “Dois amores – duas cidades”, obra magna de Gustavo Corção.

Partindo da "doutrina dos dois amores" de Santo Agostinho, o autor divide as duas grandes eras civilizacionais em "civilização do homem interior", tratada na primeira parte e que abrange a civilização antiga e a medieval, e "a civilização do homem-exterior", que começa com o nominalismo, com a Reforma Protestante e com o Renascimento, perdurando até os nossos dias.

Trata-se de uma obra de filosofia da história, de um trabalho enciclopédico, de grande erudição.

São abordados os seguintes temas: o nominalismo; a escolástica decadente; Lutero, o protótipo do homem moderno, subjetivista, relativista, irracionalista, rebelde; "as filosofias da inimizade" ou do ressentimento: o comunismo e o nazismo".

- 1973: vem a lume “O século do nada”.

À semelhança de Santo Agostinho, Corção escreve suas "Retratações", que na verdade são retratações feitas para Jacques Maritain, críticas à sua obra, à mudança de pensamento do filósofo francês ao longo do tempo.

Criticam-se “O Camponês do Garona”, "Humanismo Integral" e outras obras de Jacques Maritain, em que não se via mais a sua oposição vital primeira ao comunismo e ao socialismo.

Trata-se do comunismo como ópio do clero, da sua ascensão na França dos anos 30 e 40 e da sua vinda ao Brasil, trazido inicialmente por frades dominicanos.

A longa e preciosa introdução do livro, trata do desligamento de Corção do Centro Dom Vital e do seu afastamento de Alceu Amoroso Lima.

Na mesma introdução, é mencionada a criação do "Permanência" e da Revista "Permanência".

A obra contém severas e justas críticas à teologia da libertação.

Cuida-se de mais um livro premiado do autor.

- 6 de julho de 1978: falecimento de Corção no Rio de Janeiro, com grande repercussão na imprensa.

- 1980: publicação de “Conversa em sol menor”, obra póstuma.

Esplêndida autobiografia com crônicas recolhidas e reunidas em ordem cronológica pelos organizadores.

O belíssimo prefácio é bastante inspirado em Garrigou-Lagrange, uma das grandes referências teológicas do Corção.

O título da obra faz menção à obra de Mozart preferida por Corção: o quarteto de cordas em sol menor.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

A INQUIETAÇÃO, SÃO FRANCISCO DE SALES

São Francisco de Sales

DO LIVRO: "FILOTEIA OU INTRODUÇÃO À VIDA DEVOTA"
De São Francisco de Sales, bispo de Genebra, doutor da Igreja


Parte IV
Capítulo XI
 
 
A inquietação não é simplesmente uma tentação, mas uma fonte de muitas tentações; por isso é necessário que diga algumas palavras sobre este assunto.
 
A tristeza não é mais do que o pesar que sentimos de algum mal de que somos vítima, seja ele exterior, como a pobreza, doenças, o desprezo; ou então interior, como a ignorância, securas espirituais, repugnâncias ao bem, tentações.
 
A alma, pois, ao sentir-se em vista de algum mal, sente desgosto nisso e eis aí a tristeza. O desejo de livrar-se desse mal e de ter os meios necessários para isso a segue imediatamente; até aqui é razoável o nosso procedimento, porque todos fogem, por natureza, do mal e desejam o bem.
 
Se é pelo amor de Deus que a alma procura os meios de livrar-se de seus males, os procurará de certo com paciência e doçura, com humildade e tranquilidade, esperando este favor muito mais da amabilíssima providência de Deus do que de sua indústria, meios e trabalhos. Ao contrário, se é o amor-próprio que a leva a procurar alívio, ele se revelará numa grande inquietação e desassossego, como se este bem dependesse mais dele do que de Deus. Não digo que o amor-próprio pense assim; mas age como se pensasse assim.
 
Caso não se encontre imediatamente o que se deseja, torna-se irrequieto e impaciente; e, como essas inquietações, longe de aliviar o mal, o aumentam ainda por cima, a alma é dominada por grande tristeza, que, perdendo ao mesmo tempo a coragem e a força, faz com que os males cresçam sem remédio.
 
Estás vendo, pois, que a tristeza, por mais justa que seja ao princípio, produz inquietações, e estas, por sua vez, tanto podem aumentar a tristeza que ela se torne extremamente perigosa.
 
A inquietação é o maior mal da alma, com exceção do pecado; assim, pois, como as sedições e as revoluções civis dum Estado o desolam inteiramente e o impedem de resistir aos inimigos exteriores, também o espírito inquieto e perturbado não tem força bastante nem para conservar as virtudes adquiridas nem para resistir as tentações do inimigo, que envida então todos os seus esforços para pescar, como se diz, em águas turvas.
 
Provém o desassossego dum desejo desregrado de se livrar de um mal que se se sente ou de adquirir um bem que se não possui; e no entanto nada há que mais aumente o mal e dificulte a aquisição do bem que exatamente a inquietação e a precipitação; assim como acontece aos passarinhos que, caindo numa armadilha, tanto mais se emaranham quanto mais se mexem.
 
Ao sentires, portanto, o desejo de te subtraíres a algum mal ou de alcançar algum bem, antes de tudo procura acalmar-te, tranquiliza o teu espírito e teu coração e só então segue o movimento do teu desejo, empregando calmamente e com ordem os meios conducentes ao teu intento. Dizendo, porém, calmamente, não entendo com isso negligentemente, mas sem precipitação e desassossego; doutra forma, longe de adquirir os teus intentos, perderias o tempo, só conseguindo te embaraçar mais e mais.
 
Minha alma, Senhor, está sempre em minhas mãos e não tenho esquecido vossa lei, dizia Davi. Examina, Filoteia, mais de uma vez ao dia, principalmente pela manhã e a noite, se tens, como ele, a alma entre as mãos ou se alguma paixão ou desassossego ta arrebatou. Considera se o teu coração ainda se submete sempre ao teu domínio ou se ele se tem escapulido de tuas mãos para se entregar a amores desregrados, à raiva, à inveja, à avareza, ao temor, à tristeza, à alegria; e se ele tem escapado, vai logo em sua procura e reconduze-o brandamente à presença de Deus, submetendo todos os teus afetos e todos os teus desejos à obediência e beneplácito de Sua divina vontade. À semelhança daqueles que, temendo perder alguma coisa que lhes é muito preciosa, a guardam sempre em suas mãos, também nós, imitando o profeta-rei, devemos dizer continuamente: "Ó, meu Deus, minha alma está em perigo de perder-se; por isso eu a trago sempre em minhas mãos e isso me impede de esquecer-me de Vossa santa lei".
 
Jamais te deixes inquietar por teus desejos, por poucos e insignificantes que sejam; porque aos pequenos seguirão os grandes, que acharão o teu coração bem disposto à tristeza e ao desregramento. Sentindo-te, pois, inquieta, recomenda-te a Deus e toma a resolução de nada fazer daquilo que o desejo pede, se é que se possa adiar, enquanto não passar todo o desassossego; se a demora, porém, for prejudicial, então esforça-te suavemente para reprimir ou moderar o teu desejo e faze então o que pensas que a razão e não o que o desejo exige de ti.
 
Se te é possível descobrir o teu desassossego ao teu confessor ou ao menos a um amigo confidente ou devoto, acharás imediatamente a calma, porque esta expansão de um coração agitado e inflamado o alivia tanto como uma sangria atenua a violência da febre de um doente; este é o melhor remédio para o coração. Sim, diz o rei São Luís a seu filho, tendo alguma coisa que te pese no coração, confia-a imediatamente ao teu confessor ou a alguma pessoa devota, porque a consolação que receberes te ajudará a suportar mais suavemente os teus trabalhos.