terça-feira, 27 de agosto de 2013

SANTA MÔNICA: AMOR DE MÃE



“(...) Minha mãe, forte na piedade, já tinha vindo ao meu encontro, seguindo-me por terra e por mar, com a segurança posta em Vós, no meio de todos os perigos. Era ela que, nos riscos dos mares, incutia coragem aos próprios marinheiros que costumam animar os inexperientes navegadores do abismo, quando se perturbam: prometia-lhes a chegada a salvamento, porque Vós, em visão, lhe havíeis prometido isso.
 
Encontrou-me em grave perigo, na desesperação de buscar a verdade; mas, enfim, descobrindo-lhe que já não era maniqueísta e que também ainda não era católico, não saltou de alegria, como quem ouve qualquer nova imprevista, apesar de já estar sossegada por eu abandonar parte da minha miséria, que a fazia chorar por mim como um morto, que havíeis de ressuscitar. Minha mãe oferecia-me a Vós, no esquife do pensamento, para que dissésseis a este filho de viúva: ‘Jovem, eu te digo, levanta-te’ – e para que ele revivesse, começasse a falar e o entregásseis à mãe!
 
Não foi, portanto, com imoderado júbilo que seu coração estremeceu, ao ouvir que em grande parte me tinha convertido, graça que ela todos os dias Vos pedia com lágrimas. Ainda não havia alcançado a verdade, mas já me tinha arrancado do erro. Tendo a certeza de que Vós, que lhe prometestes a graça total, me daríeis o que faltava, respondeu-me, com grande calma e com o coração cheio de confiança, que esperava em Cristo que, antes de partir desta vida, me havia de ver fiel católico. Foi isto o que me disse. Mas, diante de Vós, ó fonte de misericórdias, aumentava cada vez mais as súplicas e lágrimas, para que apressásseis o Vosso auxílio e iluminásseis as minhas trevas. Por isso corria com mais diligência à igreja, ficando suspensa dos lábios de Ambrósio como ‘de uma fonte de água que jorra para a vida eterna’. Ela amava este homem como um anjo de Deus, porque sabia que fora ele quem me tinha levado a flutuar nesta dúvida. Antevia, com absoluta certeza, que eu ia passar da doença para a saúde, depois de sofrer de permeio um perigo mais grave, o dessa dúvida, que era o paroxismo das enfermidades que os médicos chamam estado crítico.” (Santo Agostinho, “Confissões”)

domingo, 25 de agosto de 2013

TRANSVERBERAÇÃO DE SANTA TERESA DE JESUS

 
 
"13. Quis o Senhor que viesse então algumas vezes esta visão. Via um anjo ao pé de mim, para o lado esquerdo, em forma corporal, o que não costumo ver senão por maravilha. Ainda que muitas vezes se me representam anjos, é sem os ver, senão como na visão passada, que disse antes. Nesta visão quis o Senhor que o visse assim: não era grande mas pequeno, formoso em extremo, o rosto tão incendido, que parecia dos anjos mais sublimes que parecem todos se abrasam. Devem ser os que chamam Querubins, que os nomes não mos dizem, mas bem vejo que no Céu há tanta diferença duns anjos a outros e destes outros a outros, que não o saberia dizer. Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de ferro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar aqueles queixumes e tão excessiva a suavidade que me causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire, nem a alma se contenta com menos de que com Deus. Não é dor corporal mas espiritual, embora o corpo não deixa de ter a sua parte, e até muita. É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus, que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto." (Santa Teresa de Jesus, "Livro da Vida", Capítulo 29, 13. A escultura é o célebre "O Êxtase de Santa Teresa", de Bernini, Igreja Santa Maria da Vitória, em Roma) 


sábado, 17 de agosto de 2013

AOS PÉS DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS


O mês de outubro, caro leitor, inicia-se com a comemoração de grandes santos. Já no dia primeiro, temos Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. Com apenas vinte e quatro anos, ela atingiu tão estupenda santidade que qualquer marmanjo como eu, com seus trinta e sete anos mal vividos de infidelidades no serviço de Deus, ao pensar nela, sente como que uma paulada na cabeça, para usar uma expressão do gosto de Dostoiévski.

Santa Teresinha pode muito bem ser considerada um caso de menina prodígio, pois, falecendo tão jovem, em pouquíssimo tempo, além de subir à honra dos altares, foi proclamada padroeira das Missões, sem nunca ter saído do Carmelo, ao lado de São Francisco Xavier, doutora da Igreja (uma entre as únicas três mulheres, de um total de trinta e três doutores até então) e padroeira secundária da França, atrás apenas de Santa Joana d’ Arc.

Eis o que a graça de Deus pode fazer com uma alma! Certamente, nem todas serão grandes como Santa Teresinha, mas ela é um belo exemplo de como uma alma pode se elevar se não resistir aos impulsos e às inspirações de Deus.

Em companhia dos nossos anjos da guarda, passamos pelo dia 2. No dia 3, comemoramos São Francisco Borja. E quando a zonzeira na cabeça parece ir-se embora, vem São Francisco de Assis no dia 4 e dá-nos uma paulada mais certeira ainda, da qual não sabemos se nos recuperamos. Não sei dizer se São Francisco é um homem ou se é um serafim.

Mas, se Deus pode fazer o homem subir tanto, a ausência de Deus também oferece um terrível espetáculo.

Sendo eu um homem de hábitos regulares, vim uma vez mais a Tiradentes, para uma semana de descanso e, além disso, a fim de acompanhar as magníficas celebrações litúrgicas de São João Del-Rei.

Ontem foi dia de São Benedito e achei por bem visitá-lo na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Conta-se aqui, em Tiradentes, a impressionante história segundo a qual os escravos não podiam rezar nas outras igrejas e que tiveram de construir a sua própria igreja, à noite, trazendo ouro escondido entre os dentes, para adornar o altar da Virgem do Rosário.

Tolstói afirmou certa vez que a história de uma aldeia é a história do mundo. Pois bem. Desse dramático relato da edificação da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos pode-se tirar algumas conclusões.

Não há limites para o mal quando o homem, a sociedade ou uma nação se afastam de Deus. Não nos devemos espantar com o que faz uma alma em pecado mortal, mas com o que ela deixa de fazer, dizia Santa Teresa. Sem Deus, qualquer atrocidade pode ter lugar.

No meu texto anterior, indiquei alguns partidos que fazem guerra aberta à Igreja e aos valores cristãos. O Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, esse profeta dos nossos tempos, apresentou lista mais extensa, no excelente texto “Três passos para escolher um candidato” (http://www.providaanapolis.org.br/3passos.htm). O mesmo Pe. Lodi divulgou também um vídeo extraordinário esclarecendo porque um católico não pode votar no Partido dos Trabalhadores (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=2rREUfWwfXw ).

Se não votarmos bem amanhã, não se assuste o leitor-eleitor se, daqui a algum tempo, o Estado proibir-nos de ir à Igreja, pois ele já tem envidado esforços para alijar a nossa fé da vida pública. Nossa liberdade religiosa está em risco, como a dos pobres escravos de séculos atrás. Não vou dizer que já chegamos à situação extrema em que eles se encontravam, mas quero alertar, se preciso for, gritando, que é possível retornar àquela situação brutal e descer ainda mais fundo. Não há limites para o mal, se excluirmos Deus da vida pública. Liberdade alguma escapará da escravidão, e costume algum se desvencilhará da podridão se não perguntarmos a Deus, com insistência, na oração, em quem devemos votar amanhã, e aos seus amigos, bons formadores da nossa consciência, em quem não devemos votar.

Colocar o voto em oração. É preciso levar o nosso voto, tal qual ouro escondido entre nossos dedos, ao altar de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, para render-lhe culto e tributar-lhe glória. Enfim, para que nossa escolha seja louvor agradável a Deus e benfazejo aos irmãos.

 

Paul Medeiros Krause
No dia de São Bruno, fundador dos cartuxos,
6 de outubro de 2012

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O BRASIL É 'GAY'?


Quando da renúncia do Papa Bento XVI, alguns jornalistas espertinhos, com ar de superioridade, aproveitaram a ocasião para menoscabar dogmas católicos, sobretudo o da infalibilidade papal. A incompetência da maior parte deles revelou-se de uma forma tão gritante que eu chamaria até de apocalíptica. Muitos nem se deram ao cuidado de abrir o Código de Direito Canônico ou algum documento oficial da Igreja. Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, em tom de galhofa, chegou a perguntar-se se o Papa Bento XVI continuaria infalível após ter renunciado. Na ocasião, cheguei a escrever ao “Fórum dos Leitores” do Estadão, advertindo o articulista de que a infalibilidade papal só existe quando o pontífice se pronuncia ex cathedra.

Causa espécie, então, que o que a imprensa recusa a Roma atribua a si própria, numa escala muito maior. Ela, a imprensa, sem ser especialista no assunto, ao contrário do Papa nas matérias que lhe dizem respeito, pronunciou-se ex cathedra, definindo um novo dogma de fé: “o homossexualismo é bom, é moral, é natural, e quem se opõe a ele viola os direitos humanos”.

Muitos jornalistas ostentam indisfarçável prazer ao dar uma estocada na Igreja no tema Inquisição. Mas não estamos vivendo uma nova inquisição, muitos séculos após o fim da Idade Média, nós que somos tão avançados? Quem não percebe que diversos veículos de comunicação resolveram promover o linchamento moral de Marco Feliciano? Tais veículos ficam esmiuçando a vida do sujeito, a fim de encontrar algum piolho, alguma lêndea, um arroto que o comprometa. Até vigiar o que o pastor anda pregando em cerimônias religiosas estão fazendo. Resolveram fazer o controle de conteúdo do sermão. Entram no templo, espionam e filmam o pregador. É mole?!

Ora, no sermão, o pastor pode apresentar a sua visão espiritual da realidade e não cabe à imprensa dar pitaco. Preocupados com o controle de qualidade das prédicas, os jornais esqueceram-se do controle de qualidade do jornalismo. Deveriam eles olhar para o próprio umbigo. Aos olhos da grande maioria dos jornalistas, excetuados alguns poucos sensatos, Marco Feliciano é um herege, um boca maldita. Merece a fogueira da perda do mandato. Parte-se já de uma pressuposta violação inconcebível de verdade de fé, que, diga-se de passagem, é verdade de fé para eles, jornalistas e artistas “mente aberta”, não para nós. E o pior: o julgamento é sumário, cruel, covarde, por tribunal de exceção (não é realizado pela autoridade competente) e sem direito de defesa.

Jornalistas e artistas arvoraram-se em censores da opinião pública e do próprio Legislativo.

A questão é de fé, meu amigo. Na verdade, ninguém está preocupado com as lêndeas de Marco Feliciano. Afinal, por que os meios de comunicação não pegam no pé de José Genoíno e João Paulo Cunha, condenados no processo do mensalão e membros da Comissão de Constituição e Justiça? São eles impolutos? Não, mas eles não chegaram a violar a fé. A questão é essa, leitor. O problema é que Marco Feliciano, de forma mais ou menos habilidosa, atreveu-se a contestar o dogma. Desestabilizou verdades confortáveis. Ele é um anátema. Uma ameaça ao catecismo dos tabloides. Um herege. Cometeu crime de lesa-majestade ou lesa-verdade das minorias. O problema é de ortodoxia.

Estou preocupado com o assunto porque alguns setores da sociedade estão querendo ganhar no grito, com total vilipêndio das instituições democráticas. Por que motivo um pastor evangélico não pode presidir a Comissão de Direitos Humanos e de Minorias da Câmara? É pecado? É pecado ser contrário ao homossexualismo? E qual é a pena: excomunhão? Ou, ao contrário, não estará o pastor sendo vítima de preconceito, por motivo de crença religiosa? A meu ver, o deputado é que está sendo vítima de crime.

O que grande parte da imprensa e alguns setores da sociedade estão dizendo é que só representantes dos movimentos LGBT podem presidir a citada comissão. Mas, com que fundamento? Com que argumento legal? O que confere aos movimentos gays esse privilégio de detentores do monopólio da verdade, de prefeitos da congregação da doutrina da fé, de paladinos dos direitos humanos (eu sempre havia pensado que direitos humanos são para todos os homens, não para determinados grupos de seres humanos)? Ah!... É que os meios de comunicação e os defensores das minorias pronunciaram-se ex cathedra. É mesmo?! Mas não dizem que o Brasil é um estado laico? Por que eu devo recusar um dogma papal e aceitar um dogma jornalístico? Por que eu devo ceder ao catecismo dos artistas beijoqueiros?

Ninguém é obrigado a acreditar em dogmas propalados por quem quer que seja. Os únicos dogmas a que estamos vinculados são jurídicos, constitucionais: o do respeito às instituições democráticas e o do estado de direito. As comissões da Câmara não são um brinquedinho que crianças birrentas conquistam no grito.

Quando se lê jornal ou se vê televisão, a impressão que se tem é que todo o Brasil é gay. Parece que o homossexualismo é o supervalor fundante da nação. Alguns artistas estão emburrados. Que dó! Mas, deixe-me dizer-lhes, leitor: o Brasil não é gay, meus senhores! O Brasil é cristão, queiram ou não, e os cristãos merecem respeito. Eu me sinto representado por Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. A maior parte da população sente-se representada por ele, não por Daniela Mercury. Os artistas e a imprensa não têm de nos ensinar o que fazer. Eles têm de baixar a bola. Ficar na miúda, como se diz. Não somos incapazes, interditados, menores impúberes. A imprensa não manda no Brasil. Não controla o Legislativo; quem o controla é o povo! Não precisamos da tutela dos artistas. Temos nossa própria opinião. Evangélico também tem direitos políticos.

Para terminar, quero dizer uma coisa, quase como se fosse um sussurro ao pé do ouvido. Posso estar mal informado ou sendo muito exigente, mas gostaria de ter ouvido alguma palavra da CNBB sobre esse assunto. Além disso, será que alguns de nós não estamos sendo omissos, vendo cristãos serem alijados da vida pública? Seremos coniventes com essa caça às bruxas, com uma congregação para a doutrina da fé LGBT na Câmara? Espero que o cristianismo não seja expulso do Congresso. Senhores artistas, não por acaso, Cristo foi traído com um beijo.
 

Paul Medeiros Krause

TERESA E OS PAIS ENVERGONHADOS


Conheci um jovem que, no seu último dia de aula na oitava série, lá pelos fins dos anos 80, tomou o ônibus 8001, rumo ao BH Shopping, com vários colegas de turma que resolveram celebrar a amizade. Naquela época, este era o único shopping da capital mineira, pelo menos, o único importante.

No meio das conversas e risos, já entremeados de saudades, o rapaz, com alguns amigos, entrou na não mais existente “Hi-Fi”, que havia ali, perto da antiga praça de alimentação. A loja de discos, de aspecto muito moderno e refinado, possuía umas cabines extraordinárias em que se podia ouvir sozinho algum “LP” previamente escolhido.

Havia uma música que deixava aquele rapaz quase que em transe toda vez que a ouvia. Ele não tinha lá muito dinheiro, de modo que não lhe seria possível comprar o disco tão desejado. Apesar disso, estava consciente de que se apresentava diante dele uma oportunidade singular: a de poder ouvir algumas vezes os solos de Fender Stratocaster que quase o tiravam de si.

Então acorreu ele decidido a uma das estantes, tomou o disco “Dire Straits”, que leva o mesmo nome da banda, e resoluto entrou em uma daquelas cabines. A faixa escolhida era “Sultans of Swing”. Basta dizer que o moço escutou essa música um número tão grande de vezes que algum diligente empregado da “Hi-Fi” viu-se obrigado a desligar a energia da cabine. Constrangido, o nosso amigo teve de deixar a loja e o disco, fingindo que nada lhe acontecera.

Faço esta introdução, para relatar outra espécie de transe, uma espécie de microêxtase. Por causa dele, matei algumas aulas no secundário. Trazia comigo escritos de uma mulher apaixonada, de uma inteligência pouco comum, cheia de vida, de bom humor e de um extraordinário entusiasmo. Tais escritos, que sempre falavam de amor (ainda que da espécie mais rara), revezavam-se. Por vezes, eram “O Castelo Interior ou Moradas”, outras, “O Livro da Vida”, outras ainda, o “Caminho de Perfeição”. Esses livros punham-me em contato com um outro mundo, com um universo até então desconhecido.
 
Se há uma coisa que sempre me atraiu é uma espécie de intemperança no amor, um certo descomedimento ou expansão, como se um sentimento metódico, burocrático, meramente protocolar, fosse exatamente a antítese do amor verdadeiro.

Exatamente por isso, apaixonei-me por Santa Teresa de Jesus, ou de Ávila, logo na primeira página. Há nela um amor transbordante, espontâneo, aberto, despido de neuras e de escrúpulos. É um gênio, mas é simplesmente ela mesma. Apresenta-se tal como é. Suas palavras, como a de um número seleto de escritores, exalam fogo, parecem escritas com sangue. Não há como não se sentir inflamado.

De Santa Teresa pode-se dizer que como poucos soube unir o rigor do conteúdo à perfeição da forma, a profundidade e a clareza, a sutileza das figuras e a beleza dos exemplos. Que dizer, por exemplo, de como ela designa a imaginação: “a louca da casa”? Ou da metáfora do “bicho da seda”?

Este que lhe escreve, caro leitor, é um rapazinho de uniforme, que quer lhe falar dos seus gostos, da sua façanha na “Hi-Fi”, do seu amor por Teresa. Como não amar Teresa?

Lembro-me de que em seu programa diário, da sua tribuna radiofônica, o saudoso Dom João Resende Costa gostava de mencionar o livro de um autor protestante, René Füllop-Müller, intitulado “Os santos que abalaram o mundo”. Teresa está lá, neste livro, ao lado de Santo Antão, Santo Agostinho, São Francisco e Santo Inácio de Loyola. Ela é a única mulher. É a santa da transverberação, “a santa do êxtase”, também magistralmente retratada por Bernini. É a mulher do coração atravessado por uma seta do amor divino.

Teresa, doutora da Igreja, mestra de vida espiritual, tem muito a falar e a ensinar ao homem de hoje. Ao homem inquieto que se entope de barulho por todos os lados. Ao homem que teme o silêncio e liga a televisão já no café da manhã para não ter de enfrentar a si mesmo. Ao jovem que conhece os recursos do iPhone e do iPad mas nunca ouviu falar das potencialidades da alma.

O homem de hoje percorre o mundo inteiro. Vai à China, ao Japão, ao Himalaia. Gaba-se de verter umas Guinness na Irlanda (o que de fato deve ser uma experiência emocionante, não nego), de visitar a Torre Eiffel, de assistir ao show do Paul McCartney na Praça Vermelha. Tudo bem. Não há nisso qualquer problema. Mas o que mais importa é saber abrir as portas de um castelo (“a porta do castelo”– da alma – “é a oração”). Explorar um mundo escondido, mais belo, mais rico, interior. Invisível mas palpável. Conhecer belezas insuspeitadas e sublimes. Experimentar delícias de outra ordem. Conhecer-se a si mesmo. Travar amizade com um Rei. Eis do que o homem-exterior não é capaz.

Não haverá salvação para o mundo se o homem não passar pelas primeiras moradas, que são as do autoconhecimento. Conta-se que o Santo Cura d’ Ars recebeu este dom em grau tão elevado que recomendava não o pedíssemos a Deus com a mesma intensidade, tal a confusão e desespero que inspira. Com efeito, o homem moderno não se dá conta da sua real miséria, de que toda a sua força é emprestada.

Gustavo Corção, ao começar suas Confissões, que possuem, a meu ver, uma das mais belas páginas inaugurais da língua portuguesa (em que se lê a citação: “Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?”), fala das prestidigitações da técnica e do seu efeito inebriante. Em algum outro lugar, ele mesmo menciona uma máxima, se não menciona, agasalha a ideia: “a temperança gera riqueza; mas, a riqueza gera intemperança”.
 
E eis, desvendado, o outro mal do homem moderno: a intemperança, o aburguesamento. Esse mal afligira o mundo e a Igreja ao tempo da reforma protestante. Contra ele soube lutar a sábia Teresa, iniciando outra reforma e devolvendo ao Carmelo o espírito de pobreza e a sua primitiva austeridade. Ela que já havia padecido de semelhante peste, a tibieza, chegando mesmo a enxergar, por uma visão, o seu lugar no inferno.

Sim, o coração dilatado de Teresa nos é necessário. Como uma mãe, ensina-nos a rezar. É mestra em assuntos de oração. Fala-nos da fealdade e do deplorável espetáculo de uma alma afastada de Deus. Teresa sacode-nos. Quer ela devolver-nos o espírito de modéstia, da santa pobreza, inspirar-nos o rigor primitivo. E, por que não dizer, quer ela devolver-nos o sentido de uma autêntica feminilidade, apresentando-se sempre como modelo de uma obediência perfeita a Deus e aos seus superiores.

O mundo de hoje está excessivamente sentimental, feminino. Perdeu muito do senso prático e da noção de autoridade que emanam do caráter masculino. Em razão de abusos havidos no passado, descambou a civilização ocidental para o extremo oposto, quando o ideal seria um meio-termo, o equilíbrio, a harmonia dos contrários.

Não é sentimental o discurso ambientalista? Que dizer então do discurso abortista? Há bases lógicas consistentes para o que defendem? E na causa de emancipação dos homossexuais? Não há sempre a síndrome do coitadinho, um passar de mãos na cabeça, no âmago dessas teorias? Não há nessas ideologias algo daninho de mãe superprotetora que ao invés de corrigir aumenta os vícios dos filhos?

Os pais pós-revolução sexual são pais envergonhados. Quase pedem desculpas por ser pais. Sentem-se constrangidos ao exercer autoridade e exigir responsabilidade dos filhos. Temos muitas mães, mas onde estão os pais? Pois o verdadeiro pai não amolece diante das lamúrias dos filhos. Ele sabe que um certo rigor é amor.

Santa Teresa tirou São José das sombras do esquecimento e exibiu ao mundo sua colossal grandeza, sua incomensurável força. Ele, José, o humilde carpinteiro, que ensinou o autor do sol a andar. Talvez Teresa queira hoje tirar os pais da penumbra, devolver-lhes a dignidade, restituir-lhes ânimo. A doutora de Ávila, que é mãe de muitos filhos, quer revelar aos pais e aos homens sua real importância, que o mundo precisa deles, pois está muito feminino. Hoje ela quer restaurar a correta compreensão do que seja o sereno exercício e o devido respeito à autoridade.

 

Paul Medeiros Krause

 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SÃO MAXIMILIANO KOLBE E A MILÍCIA DA IMACULADA

 
No ano de 1917, a maçonaria mundial celebrava o segundo centenário de sua fundação, mediante comemorações principalmente em Roma. Grupos de exaltados carbonários desfilavam pelas ruas da Cidade Eterna, empunhando bandeiras negras com a figura de satanás em atitude de esmagar São Miguel Arcanjo. Isso provocou a mais profunda indignação em Frei Maximiliano que, em contrapartida, fundou com seis de seus condiscípulos uma associação, a Milícia da Imaculada, com o fim de “converter pecadores, hereges e cismáticos, particularmente franco-maçons, e trazer todos os homens ao amor de Maria Imaculada”.
 
 
 
 
 

IR À FONTE


No texto anterior, eu comentava sobre a importância de o católico instruir-se, compreender com profundidade o mundo à sua volta, servindo-se dos olhos de homens que Deus suscitou exatamente para curar a nossa cegueira intelectual. Mencionei, em especial, dois grandes nomes: Gustavo Corção e Gilbert Keith Chesterton.

Hoje eu gostaria de insistir no tema, pedindo ao caro leitor que seja ousado, que caminhe um pouco mais, seguindo o mandamento evangélico de andar duas milhas se alguém lhe pedir para andar uma. Certamente, é útil e necessário ler Corção e Chesterton; mas é também imprescindível, tanto quanto se possa, ler o que eles leram, beber da água que eles beberam.

Refiro-me, principal mas não exclusivamente, a Santo Agostinho e a Santo Tomás de Aquino. Para se ter uma ideia do quanto esses santos doutores influenciaram os dois outros autores citados, basta dizer que A descoberta do outro são as Confissões de Gustavo Corção, enquanto Dois amôres – duas cidades é a sua A cidade de Deus. Parece-me oportuno frisar que Confissões é leitura obrigatória. (Já venci alguns debates por causa desse livro. Você pode fazer o mesmo.) Também creio que o seja O livre-arbítrio. De A cidade de Deus é recomendável ter pelo menos uma noção geral.

Mas não para por aí a influência dos dois santos nas obras do inglês e do brasileiro. Chesterton e Corção, corrijam-me se eu estiver errado, podem ser considerados tomistas; seu pensamento está geneticamente associado à filosofia do doutor angélico. O vigor com que eles defendem a valorização do senso comum – que, aliás, é bastante democrático –, do senso de objetividade, o seu realismo, a insistência com que propugnam que todo conhecimento nos chega pela porta dos sentidos, isso tudo é Santo Tomás! Para eles, conhecimento é a adequação da inteligência ao objeto.

Não é demais recordar que Chesterton possui uma das melhores biografias de Santo Tomás que já foram escritas, recebendo louvores incontidos do próprio Étienne Gilson, expert no assunto.

Um católico que conhece bem Santo Agostinho e Santo Tomás é como um soldado armado até os dentes. Mais do que isso: é alguém que sabe manejar as armas. À medida que se lê o bispo de Hipona e o boi mudo, absorve-se um pouco do seu modo de raciocinar, da sua habilidade em esgrimir múltiplos argumentos com uma lógica irrefutável.

Convém, pois, que nos esforcemos por entender um pouco de tomismo, de apreender um pouco do seu vocabulário e dos seus conceitos. Algum contato com a Suma Teológica é necessário. É indispensável conhecer as antológicas cinco vias da prova filosófica da existência de Deus. Ademais, as lições de Santo Tomás sobre direito natural são magníficas, estupendas, talvez insuperáveis. Não é à-toa que sejam tão elogiadas e tenham influenciado tão fortemente autores como Michel Villey, Edgar de Godói da Mata-Machado e André Franco Montoro.

Nenhum católico cometa o tresloucado ato de, ao dialogar com o mundo não-católico ou não-cristão, condenar o aborto ou o casamento gay simplesmente porque são pecados. Decerto, faltar à Missa aos domingos, sem justo motivo, também é pecado, mas nem por isso se vai pretender que a lei do Estado obrigue as pessoas a ir à Missa. O nosso argumento perante o mundo exterior, argumento verdadeiro, argumento útil, argumento científico, é o de que o aborto e o casamento gay são injurídicos, violam o direito natural, atentam contra a dignidade humana. E é esse direito, essa lei natural, que constitui a verdadeira fonte, a origem do direito positivo, das leis do Estado.

A propósito, vale lembrar a distinção que Santo Tomás estabelece entre ilícitos contra a razão e ilícitos contra a natureza. Esses últimos revestem-se de maior gravidade. É o caso dos atos de homossexualidade.

Hans Kelsen afirmava: a lei positiva deve obedecer à Constituição. Forjou ele uma estranha e abstrata norma hipotética fundamental: “devemos obedecer ao pai da Constituição”. Nós, com Tomás, dizemos: a Constituição deve obediência à lei natural, pois é esta lei que diz o que é o homem. É dele a célebre advertência: “Toda lei humanamente imposta tem tanto de razão de lei quanto deriva da lei da natureza. Se, contudo, em algo discorda da lei natural, já não será lei, mas corrupção de lei” (Suma Teológica. Vol. IV. I Seção da II Parte, questão 95, artigo 2).

O justo e o injusto não dependem de um critério procedimental, formal: que o Parlamento aprove, seguindo determinado rito, um texto constitucional. Constituições também podem trazer aberrações. É a lei natural que fornece o verdadeiro critério de justiça material à Constituição e às leis positivas. A virtude da justiça não depende do consenso da maioria ou do confronto de forças antagônicas dentro do Parlamento. Existe a justiça real, válida para todos os homens, e não creio ser possível compreendê-la realmente sem a explicação de Santo Tomás.

O jusnaturalismo clássico, objetivo, realista, não se confunde com o jusnaturalismo abstrato, racionalista, dos iluministas, que tratam do homem em um estado ideal – artificial, abstrato, fictício –, denominado estado de natureza. Com efeito, o progresso do homem também integra a sua natureza. Não é menos natural o homem com iPad do que o homem com tacape. Um dos aspectos pelos quais o homem é imagem de Deus é justamente a sua autotranscendência: o ser humano nunca está satisfeito, tem sede de infinito, sempre quer superar-se, não se acomoda no tempo e no espaço. Obviamente, no debate com um não-cristão, não vamos invocar a semelhança do homem com Deus. Contudo, a autotranscendência humana é de per si evidente, objetivamente demonstrável, independendo de argumentação teológica.

Não há por que pensar que o direito natural só existia para o homem das cavernas, até porque o homem das cavernas não conhecia a distinção entre direito e sentimento religioso. Nos primórdios da humanidade, normas jurídicas foram tomadas como normas religiosas. Hoje compreende-se que direito e religião possuem campos próprios, autônomos, embora não necessariamente se contraponham e eventualmente possam interpenetrar-se (o homicídio é pecado, mas também é crime).

Em suma: quando se discute direito, os argumentos devem ser jurídicos. Não devemos esquecer os conselhos de nossos pais, mais sábios e experimentados do que nós: demos ouvidos a Agostinho e Tomás. Invoquemo-os, também, pedindo a sua intercessão. É certo que nós nos assemelhamos àqueles com quem convivemos. Quanto mais intimidade tivermos com essas duas muralhas da fé pela leitura e pela oração, mais nos enriqueceremos com as suas virtudes. Um pouco daquela torrente de graças, daquela superabundância do Espírito que foi derramada neles chegará até nós.

 

Paul Medeiros Krause