quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

DEUS AINDA FALA POR PARÁBOLAS


O evangelho de ontem, memória de Santo Tomás de Aquino, foi o do semeador que saiu a semear. São Marcos acrescenta que, após ter terminado de contar a parábola, arrematando com “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, quando Jesus ficou sozinho, os que estavam com Ele, junto com os Doze, perguntaram sobre as parábolas, pois Ele também havia contado outras. Ao que o Senhor respondeu: “A vós, foi dado o mistério do Reino de Deus; para os que estão fora, tudo acontece em parábolas, para que olhem mas não enxerguem, escutem mas não compreendam, para que não se convertam e não sejam perdoados”.

Certamente, não se trata aqui de má vontade de Deus para com os pecadores. Não é que Ele eleja uns predestinados para salvar, e outros para condenar. Se assim fosse, não haveria sentido na advertência: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. O evangelho trata da resistência do coração humano à voz de Deus, que, por sua vez, não atira pérolas aos porcos, exigindo certa docilidade, boa vontade, receptividade dos seus ouvintes. Cuida-se aqui do espantoso fenômeno da resistência do homem aos apelos da graça, do fechamento do coração, da surdez da alma. Quanto mais o homem está aberto à voz de Deus, mais Deus se lhe revela. Ao dizer “quem tem ouvidos, ouça”, Cristo se refere a uma espécie de sentido ou capacidade interior do homem para compreender a Sua palavra. Ele convida, pois, o homem a aguçar o seu ouvido interior, o ouvido da alma, para poder ouvir a Sua voz.

Há outros pontos importantes no evangelho de ontem. Está dito que alguns ficaram com Jesus e os Doze, depois de a multidão ter ido embora. Penso que não seria absurdo imaginar que esses que ficaram com Cristo e com os Doze, em maior intimidade, podem representar aqueles que pertencem efetivamente à Igreja, aqueles que estão em comunhão com Cristo e com a Igreja. Certamente, na plateia mais ampla, no meio da multidão, poderia haver muitos curiosos ou interesseiros, atraídos pelo desejo de ver ou receber um milagre, ou mesmo inimigos, atentos a eventual 'deslize' do Salvador. Não há dúvida de que na grande plateia havia ouvintes mal dispostos, resistentes à graça de Deus.

Tendo presente que a oração nada mais é do que um diálogo com Deus, uma conversa amorosa e sincera com o Criador, pode-se entender também que os que ficaram com Cristo e com os Doze são as pessoas de vida de oração, as pessoas que rezam. Ora, que é a pergunta que dirigiram a Cristo senão uma oração? Que é a oração senão uma conversa com Cristo? Quantas vezes nas nossas orações diárias também não interpelamos a Deus, dizendo: “explica-nos esses acontecimentos, não estou conseguindo entendê-los”, "qual a razão desse sofrimento, dessa tragédia ou dessa pequena contrariedade?"? Quantas vezes não colocamos aos pés do Senhor, diante dos anjos e dos santos, diante dos Doze!, as nossas perplexidades, as nossas dúvidas, a nossa dificuldade de entender a Sua vontade?

Partindo dessas considerações podemos concluir: quem não desenvolve o seu ouvido interior, quem não procura estar em comunhão com Cristo e com a Igreja, quem não tem intimidade com Ele pela oração, quem não O interpela em diálogos amorosos e sinceros, dificilmente ouvirá a voz de Deus. Ou melhor, ouvirá, mas não entenderá.

É bem por isso ser tão comum ouvirmos dizer: “Deus não fala comigo. Ele parece estar mudo ou longe.” Não! Deus não está mudo. Nem está longe. Ele fala a todo tempo. Mas também hoje, e não somente a dois mil anos atrás, Ele caminha em nosso meio, realiza curas, ressuscita mortos, expulsa demônios e fala por meio de parábolas, isto é, de uma forma que não é evidente de per si. Somente os que procuram cultivar a intimidade com Ele serão convidados a atravessar o aparente muro da falta de sentido das Suas palavras. Nem todos são capazes de compreender os acontecimentos da vida, o modo de Deus falar ao homem. Ainda hoje Cristo repete: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.
 

Paul Medeiros Krause

sábado, 24 de janeiro de 2015

PÁGINA DO GUSTAVO CORÇÃO NO FACEBOOK


Prezado amigo seguidor ou visitador ocasional deste blog,

Administro também a página "Gustavo Corção" no Facebook, embora ali eu não poste apenas textos do grande escritor carioca, mas também outras coisas que me parecem estar de acordo com o seu pensamento.

Se lhe parecer bem, acompanhe "Gustavo Corção" no Facebook.

Um abraço,

Paul

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

SOBRE O RESPEITO À EUCARISTIA


Diante de tantos abusos que se têm visto, verdadeiras profanações e sacrilégios, contra o Augustíssimo Sacramento da Eucaristia, resolvi divulgar algumas normas redigidas pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e aprovadas pelo Papa João Paulo II. É insuportável ver pessoas assistirem à Missa e, pior!, comungarem, mascando chicletes, seminuas ou batendo papo como se estivessem sentadas num banco de praça.
 
Disse-me uma vez um confessor meu: "qualquer desrespeito para com a Eucaristia é mais grave do que uma guerra, por causa da dignidade da Pessoa ofendida. Na guerra, ofendem-se homens. No desrespeito à Eucaristia ofende-se diretamente a Deus".
 
Aí vão as normas:
 
"90. 'Convém que os fiéis comunguem de joelhos ou em pé, de acordo com o que foi estabelecido pela Conferência dos Bispos' e confirmado pela Sé Apostólica. 'Quando, porém, comungam em pé, recomenda-se que, antes de receber o sacramento, façam a devida reverência, a ser estabelecida pelas próprias normas'.
 
91. Na distribuição da santa comunhão, recorde-se de que 'os ministros sagrados não podem negar os sacramentos àqueles que os pedirem oportunamente, que estiverem devidamente dispostos e que pelo direito não forem proibidos de recebê-los'. Portanto, todo católico batizado, que não esteja impedido pelo direito [obviamente que se exige encontrar-se em estado de graça, isto é, em comunhão com Deus, sem pecado mortal], deve ser admitido à sagrada comunhão. Assim sendo, não é lícito negar a santa comunhão a um fiel pela simples razão, por exemplo, de que ele queira receber a Eucaristia de joelhos ou em pé.
 
92. Embora todo fiel tenha sempre o direito de receber, à sua escolha, a santa comunhão na boca, nas regiões onde a Conferência dos Bispos, com a confirmação da Sé Apostólica, permitiu, se um comungante quiser receber o sacramento na mão, seja-lhe distribuída a sagrada hóstia. Entretanto, cuide-se, com especial atenção, para que o comungante tome a hóstia logo, diante do ministro, de tal modo que ninguém se afaste levando na mão as espécies eucarísticas. Se houver perigo de profanação, não deve ser distribuída a santa comunhão na mão dos fiéis.
 
93. É preciso que se mantenha o uso da patena para a comunhão dos fiéis, a fim de evitar que a sagrada hóstia ou algum fragmento dela caia.
 
94. Não é permitido aos fiéis 'pegarem por si e muito menos passarem entre eles de mão em mão' a sagrada hóstia ou o cálice sagrado. Além disso, a esse respeito, deve ser abolido o abuso de os esposos, durante a missa nupcial, distribuírem reciprocamente a santa comunhão.
 
95. O fiel leigo 'que já recebeu a santíssima Eucaristia, pode recebê-la novamente no mesmo dia, somente na celebração eucarística em que participa, salvo a prescrição do cân. 921, § 2'.
 
96. Deve ser desaprovado o uso de distribuir, contrariamente às prescrições dos livros litúrgicos, à maneira de comunhão, durante a celebração da santa missa ou antes dela, hóstias não-consagradas ou qualquer outro material comestível ou não. De fato, tal uso não se concilia com a tradição do rito romano e traz consigo o risco de gerar confusão entre os fiéis quanto à doutrina eucarística da Igreja. Se em alguns lugares vigora, por concessão, o costume particular de benzer o pão e distribuí-lo após a missa, convém fazer com grande cuidado uma correta catequese sobre tal gesto. Por outro lado, não devem ser introduzidos costumes semelhantes, nem jamais utilizadas para tal escopo hóstias não-consagradas.
 
[...]
 
104. Não seja permitido que o comungante molhe por si mesmo a hóstia no cálice, nem que receba na mão a hóstia molhada. Que a hóstia para a intinção seja feita de matéria válida e seja consagrada, excluindo-se totalmente o uso de pão não-consagrado ou feito de outra matéria.
 
[...]
 
106. Entretanto, abstenha-se de passar o Sangue de Cristo de um cálice para outro após a consagração, para evitar qualquer coisa que possa ser desrespeitosa a tão grande mistério. Para receber o Sangue do Senhor não se usem em nenhum caso canecas, crateras ou outras vasilhas não integralmente correspondentes às normas estabelecidas.
 
107. Segundo a norma estabelecida pelos cânones, 'quem joga fora as espécies consagradas ou as subtrai ou conserva para fim sacrílego incorre em excomunhão 'latae sententiae' reservada à Sé Apostólica; além disso, o clérigo pode ser punido com outra pena, não excluída a demissão do estado clerical'. Deve ser considerada pertencente a esse caso qualquer ação voluntária e gravemente voltada para desprezar as sagradas espécies. Portanto, se alguém age contra as supracitadas normas, jogando, por exemplo, as sagradas espécies no sacrário num lugar indigno ou no chão, incorre nas penas estabelecidas. Além disso, tenha-se presente, no final da distribuição da santa comunhão durante a celebração da missa, que devem ser observadas as prescrições do Missal Romano e, sobretudo, que aquilo que restar eventualmente do Sangue de Cristo deve ser imediata e inteiramente consumido pelo sacerdote ou, segundo as normas, por outro ministro, enquanto as hóstias consagradas que sobrarem devem ser imediatamente consumidas no altar pelo sacerdote ou levadas a um lugar apropriado, destinado para conservar a Eucaristia."

 (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, "Instrução 'Redemptionis Sacramentum': Sobre alguns aspectos que se deve observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia", 25 de março de 2004)

 

sábado, 20 de dezembro de 2014

HÃ?


Hermengarda era uma mulher muito inteligente. Ela sempre pensava muito pra falar, e mais ainda pra responder. Escrava da opinião alheia, afeita às gargalhadas, era sempre atenta ao que lhe cairia melhor. Servia-se a torto e a direito do indefectível “Hã?”, não por não entender o que o interlocutor lhe perguntava, mas para escolher, como se escolhe um vestido, a resposta que lhe conviria melhor.
 
A esse tipo de escolhas supérfluas tinha-se acostumado nossa heroína. Suas vestimentas estavam sempre destinadas a causar sensação, chamar a atenção para o belo desenho das suas formas, bastante curvilíneas, ainda que fosse uma coroa de quarenta anos, com trejeitos de adolescente mais que segura. Tão cheia de si e tão ciosa dos seus contornos, Hermengarda revelava sua falta de conteúdo. Não havia lugar nem espaço para os outros e para indagações de maior vulto no morno recôncavo da sua mente. Orgulhava-se de saber contar piadas, dramatizava, mas não sabia sorrir. Aliás, seus sorrisos eram de arame, de gesso, de concreto armado, de alguma coisa tensa que enrijecia os músculos da face.
 
Queria invariavelmente ser o centro das atenções, das conversas, ainda que pelas motivações mais pueris, como a sua seminudez física, sintoma, aliás, da sua seminudez espiritual. Ao exibir o corpo, Hermengarda escondia o vazio, a completa nudez da sua alma. Embora soubesse argumentar, divertia-se em mentir. Fingir era sua especialidade. Fazer tipo era o seu principal passatempo. Vestia-se com as ideias e os assuntos da moda.
 
Hermengarda era simpática – na verdade, bem menos do que imaginava –, mas daquela simpatia artificial e demagógica que ofende as pessoas de bem. Falava pelos cotovelos e parecia mesmo ter sido criada ao léu da sorte, como um cavalo sem rédeas e sem disciplina. Gênio indomável, era capaz de usar os outros e a sua bela aparência para atingir seus objetivos, por mais insignificantes que fossem. A dissimulação era a sua grande arma, o seu grande trunfo, de que poucos se apercebiam. Tão acostumada a mentir aos outros, passou a mentir a si própria...
Hermengarda era infeliz. Tão infeliz, mas tão infeliz, que sequer se dava conta da sua infelicidade. A pirotecnia das frivolidades, o festival das aparências, as exterioridades, as extravagâncias de que este mundo está cheio, as luzes de Natal, embriagavam-na, entorpeciam-na, cegavam-na, e, cega, bêbada, cambaleante, trôpega, tudo lhe parecia bem. Suas risadas eram gargalhadas de bêbado. Seus comentários sobre os outros não atravessavam a epiderme, a superfície, a zona cutânea. Tinha aversão, ainda que inconsciente, a toda espécie de honestidade e autenticidade. A sinceridade parecia-lhe um muro, um murro, um golpe. A verdade soava-lhe dura, áspera, implacável. Seu mundo era o de holofotes imaginários que a acompanhavam por toda parte. Ela não andava; desfilava.

Mas um dia a coisa começou a mudar...

(continuarei em breve)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A EXTREMA-UNÇÃO



Uma simpática amiga, cujo esposo também é meu amigo, pediu-me certa vez que eu escrevesse sobre a unção dos enfermos, este sacramento terrível outrora chamado de extrema-unção. (Foi o Concílio Vaticano II, nos números 73-75 da Constituição 'Sacrosanctum Concilium', que ordenou a troca do nome). Parece-me que o momento é oportuno para falar dele, pois o mês de novembro, o último do ano litúrgico, além de mês dos mortos, dos finados, é dedicado à meditação dos novíssimos, isto é, dos últimos acontecimentos da vida do homem: morte, juízo, céu, inferno e purgatório. Comecei a redigir este texto em novembro.

Toda vez que eu saibo de alguém das minhas relações que fica gravemente enfermo, a primeira coisa que me ocorre é indagar se tal pessoa recebeu a unção dos enfermos. Pode ser que às vezes eu cometa uma indiscrição. Em algumas ocasiões, os parentes próximos do enfermo assustam-se, como se tal indagação equivalesse a uma sentença de morte para o doente. É como se eu dissesse: “Coitado, esse aí vai vestir o paletó de madeira!”, “Esse aí já era!”, “Vai bater a cachuleta!”, “Finou-se!”.

Ainda não fui capaz de vencer a falta de habilidade com as palavras e com as pessoas, mas tenho pelo menos dois argumentos em minha defesa, que, se não me absolvem, pelo menos me atenuam a culpa: o primeiro é que a unção dos enfermos não se destina apenas aos que vão morrer, mas tem finalidade curativa, destina-se a curar, ainda que precipuamente a alma. Diz São Tiago no final da sua epístola (Tg 5,14-15): “Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o aliviará; e, se tiver cometido pecados, estes lhe serão perdoados.” (Pois bem. Embora o católico não viva apenas da Bíblia, mas da Bíblia, da Tradição e do Magistério, o sacramento de que nos ocupamos tem base bíblica, embora não exclusivamente. A Tradição e o Magistério também o consagram). O segundo é este: com a salvação eterna não se brinca; não podemos deixar que uma pessoa se perca por respeito humano.

O Código de Direito Canônico também vem em meu socorro. No cânon 1001 ele diz: "Cân. 1001. Cuidem os pastores de almas e os parentes dos enfermos que estes sejam confortados em tempo oportuno com esse sacramento".

Já falei disso uma outra vez: a estranha capacidade do homem de nossos dias de esquecer o mais importante, de relegar o essencial ao segundo plano, deixa-me perplexo. A hora da morte não é para brincadeiras. Ninguém vai se preocupar com sujar ou estragar um terno, atrapalhar o penteado, perder a pose ou a compostura, se o que estiver em jogo for uma vida humana, se uma pessoa estiver morrendo na sua frente e um ato seu puder salvá-la. Ocorre que aqui estamos diante de algo muito mais grave do que a mera morte física ou biológica: a morte espiritual, o inferno eterno, sofrimentos insuportáveis a que nenhuma outra morte porá fim.

A ideia que faço do inferno é a seguinte: é a de um desespero insuportável, de uma dor talvez até mais moral, espiritual, do que física, pior que a de um suicida, com o agravante de que não há morte que possa interrompê-la, não há remédio para esse mal. Digo isso porque o desespero de um suicida é o pior sofrimento que eu consigo imaginar sobre a face da terra.

Um padre sábio uma vez me disse ter notícia de muitos casos de moribundos que parecem estar justamente esperando a unção dos enfermos para morrer. Eles sobrevivem miraculosamente, ou quase isso, até a chegada do sacerdote. Recebida a unção, eles entregam a alma a Deus. Observemos que a unção dos enfermos, como atesta São Tiago, perdoa os pecados. Além disso, conforta e revigora a alma, fortalece-a no combate da doença e das tentações. Talvez esses moribundos não se salvassem se não tivessem recebido o sacramento.

Santa Faustina, em seu "Diário", demonstra-nos que a hora da agonia é uma hora tremenda, é uma hora grave e decisiva, em que os demônios tentam-nos com especial força. Não deve ser por qualquer motivo ocioso que nas Ave-Marias pedimos a intercessão de Nossa Senhora para a hora da nossa morte. Santa Faustina tinha muita compaixão pelos agonizantes.

Estabelece, a respeito da unção, o Código de Direito Canônico:

"Cân. 1004 - § 1. A unção dos enfermos pode ser administrada ao fiel que, tendo atingido o uso da razão, começa a estar em perigo por motivo de doença ou velhice.

§ 2. Pode-se repetir este sacramento se o doente, depois de ter convalescido, recair em doença grave, ou durante a mesma enfermidade, se o perigo se agravar.

Cân. 1005 - Na dúvida se o doente já atingiu o uso da razão [normalmente se considera a idade de sete anos], se está perigosamente doente, ou se já está morto, administre-se o sacramento.

Cân. 1006 - Administre-se este sacramento aos doentes que ao menos implicitamente o pediram quando estavam no uso de suas faculdades.

Cân. 1007 - Não se administre a unção dos enfermos aos que perseverarem obstinadamente em pecado grave manifesto."

O Papa Paulo VI, na sua Constituição Apostólica sobre o Sacramento da Unção dos Enfermos, de 30 de novembro de 1972, esclarece que a referida unção é atestada na tradição da Igreja, sobretudo em sua liturgia, pelos mais antigos testemunhos, tanto no Oriente como no Ocidente.

O mesmo Paulo VI aprovou o Rito da Unção dos Enfermos e sua Assistência Pastoral, promulgado por Decreto da Sagrada Congregação para o Culto Divino de 7 de dezembro de 1972.

É importante frisar que antes de uma operação cirúrgica pode ser dada ao enfermo a unção sagrada sempre que uma doença grave seja a causa da intervenção. A velhice também, desde que comece a oferecer perigo de morte, é motivo para a unção dos enfermos. O tempo oportuno do sacramento, pois, é o momento em que começa o perigo de morte. Não é necessário que esta seja iminente, que o enfermo esteja à beira da morte. Basta a probabilidade, não se exigindo que seja mais provável que morra do que sobreviva.

Do referido ritual de 7 de dezembro de 1972, extrai-se:

"Para atender mais facilmente aos casos particulares, em que os fiéis, por doença repentina ou qualquer outro motivo, se vejam de repente em perigo de morte, recorra-se ao Rito Contínuo, pelo qual o enfermo recebe sucessivamente os sacramentos da Penitência, da Unção e da Eucaristia sob forma de viático.

Porém, se há perigo de morte iminente e não houver tempo para ministrar todos os sacramentos do modo que foi estabelecido, dê-se primeiro ao doente a oportunidade de uma confissão sacramental, ainda que realizada genericamente em caso de necessidade; em seguida seja-lhe dado o viático, que todos os fiéis em perigo de morte têm a obrigação de receber. Finalmente, se ainda houver tempo, seja-lhe ministrada a Sagrada Unção.

Se, por motivo de enfermidade, não puder receber a sagrada comunhão, seja-lhe conferida a Unção dos Enfermos."

Recorde-se que a unção dos enfermos perdoa os pecados, se o enfermo não estiver em condições de obter tal perdão pelo sacramento da Penitência, como esclarece o Catecismo da Igreja Católica. Se o enfermo estiver lúcido e em condições de confessar-se, deve fazê-lo, dispondo-se bem para receber a unção, sobretudo se estiver em pecado mortal. Como esclarece o Padre Paulo Ricardo, o perdão dos pecados na unção dos enfermos é efeito secundário. Ele é efeito primário de outro sacramento: a confissão.

Acrescente-se, ainda, que o sacerdote, ao administrar os sacramentos ao fiel em perigo de morte (se possível, a confissão, a unção e a Eucaristia ou "viático"), pode conceder-lhe a bênção apostólica com a indulgência plenária (em artigo de morte), mesmo que tal fiel já tenha recebido outra indulgência plenária no mesmo dia. Trata-se de uma exceção.

Sobre isso, a norma 18 da Constituição Apostólica sobre a Doutrina das Indulgências do Papa Paulo VI, de 1.º de janeiro de 1967, complementa:

"N. 18. No caso da impossibilidade de haver um padre para administrar a um fiel em perigo de morte os sacramentos e a bênção apostólica com a indulgência plenária a ela ligada, de que se trata no cân. 468, parágrafo 2, do CDC [trata-se do Código de Direito Canônico anterior], concede benignamente nossa piedosa Mãe Igreja a esse fiel bem disposto a indulgência plenária a lucrar em artigo de morte, com a condição de ter ele durante a vida habitualmente recitado algumas orações. Para aquisição dessa indulgência é louvável empregar um crucifixo ou uma cruz. Essa mesma indulgência plenária em artigo de morte pode ser ganha por um fiel, ainda que ele já tenha no mesmo dia ganho outra indulgência plenária."

Por tudo isso, meus amigos, não negligenciemos o tesouro espiritual que a Igreja, Mãe solícita e mestra, põe em nossas mãos.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ERASMO, O ASNO


Erasmo de Roterdã (sim! Trata-se de um caso de homonímia!) era um ser de uma espécie superior. Na verdade, para dizer melhor, era um ser superior da sua espécie. Asno de nascimento e por um implacável decreto da natureza, possuía uma inteligência maior que a de muitos seres humanos, tanto que fora admitido – apesar do seu mau cheiro de animal e dos hábitos alimentares pouco ortodoxos – aos estudos, aprovado no vestibular e encontrava-se cursando o último período de direito, em uma honrada instituição universitária.

Aquela criatura peluda, que precisava sentar-se nas últimas carteiras para não atrapalhar a visão dos colegas, era um dos melhores alunos da classe, possuía boas notas e deixava pasmos todos os que assistiam às suas incríveis intervenções em sala de aula, saborosamente perspicazes. Tudo indicava seria ele o orador da turma – apesar dos relinchos que às vezes inadvertidamente soltava –, pois além de ter boa voz, escrevia bem, ousando até a publicar artigos no jornal dos estudantes. Todos criam que ele ganharia o prêmio conferido ao melhor aluno da turma.

No princípio do curso, Erasmo chegou a interessar-se por algumas colegas, mas era um pouco tímido e reservado – quase um criado-mudo! –, devido à terrível fama de seus ancestrais de dedicar-se diuturnamente a asneiras. Um certo complexo de inferioridade assaltava-o, dificultava-lhe as relações, além do seu temperamento assertivo e um tanto quanto renitente. De quando em quando, alguns colegas montavam nele, expondo-o à zombaria coletiva, mas havia também os companheiros leais e inseparáveis, que o defendiam, animavam e admiravam.

Alguns diziam:

– Esse burro vai longe!

Outros prognosticavam:

– Esse asno vai acabar sendo juiz!

Outros criticavam-no por às vezes pastar alguma grama da redondeza, ao que ele, espirituosamente, retrucava:

– Vocês comem o bandejão e estão falando de mim?!

Erasmo era um espantoso caso de animal com alma racional. Muitas vezes fora expulso da faculdade pelos vigias, açoitado por alunos de outras turmas, que imaginavam tratar-se de um quadrúpede estúpido qualquer e o enxotavam como se faz a um cachorro que entra numa igreja. Contudo, logo vinha alguém que conhecia os seus peculiares predicados, a sua inusitada condição de aluno quadrúpede, de animal dotado de razão, mais do que isso, de aguda razão. Alguns acabavam recordando-se de tê-lo visto uma ou outra vez falando no orelhão.

Mesmo andando sobre quatro patas, algumas coisas estupefaziam-no. Ele tinha a impressão de que muitos de seus colegas ruminavam, só que com a silenciosa docilidade dos cordeirinhos. Ele via uma estranha linearidade no comportamento do rebanho, equivalente à dos de sua espécie que sempre fazem a mesma coisa, sem maiores reflexões, desde que o mundo é mundo. Percebia, com estarrecimento, que alguns de seus amigos eram tão dóceis aos mestres quanto seus irmãos aos capatazes. Novamente, com uma diferença: seus irmãos sabiam dar coices!

Mas, voltemos ao último semestre. Erasmo estava concentrado nos estudos. Vivia como um asceta. Não bebia, não fumava, não ia pras baladas. Nem sabia quem estava pegando quem. Ele nem se dava conta da existência de uma sua colega, mula, que partilhava algo de sua índole. Só por isso não a mencionei ainda. Também ela era um ser superior. Superior às outras mulas. Ademais, era belíssima, meiguíssima, finíssima, humílima e vários outros íssimas. Não se sabe como, mas era mais bela que todas as outras alunas reunidas e elevadas à décima potência. O sonho de consumo de qualquer animal menos distraído. Também ela passara pelos dissabores de possuir uma alma racional em corpo de animal. Apenas seu nome soava um pouco estranho: Suplícia, mas tinha algo que ver com a sua sorte. Suplícia apaixonou-se por Erasmo.

Lançando mão de recursos mais ou menos sutis, de expedientes mais ou menos criativos, Suplícia tentava a todo custo chamar a atenção de Lutero, digo, de Erasmo, que, absorto em suas meditações, absolutamente não a notava. Deixava ela às vezes cair os livros no chão para que ele pegasse, o que este fazia de bom grado, mas sem distinguir o dolo específico contido na ação da estupenda, extraordinária, magnífica e fenomenal colega.

Depois de muita persistência de Suplícia, caíram as escamas dos olhos de Erasmo e ele viu. Viu que ela o amava. Começaram a namorar... Só que o namoro não demorou muito, pois Erasmo era um asceta, um místico, um ser esquisito, que só pensava em estudar.

Suplícia não se conformou com o rompimento, que lhe partiu o coração. Caiu em depressão profunda, começou a embriagar-se e a usar drogas. Sua aparência tornou-se horrível. Parecia não dormir. Alguns diziam:

– Vejam o seu estado deplorável! Está apaixonada! Não se valoriza!

Outros comentavam:

– Não suportou o baque. Ficou louca. Perdeu a cabeça.

Suplícia tentava preencher o vazio que havia em si, o vazio deixado por Erasmo. Mas trocava os pés pelas mãos, digo, as patas traseiras pelas dianteiras. Rolava ladeira abaixo, na ladeira da existência. Perdeu o juízo.

E essa, meus amigos, acreditem ou não, é a verdadeira história, é a verdadeira origem da mula-sem-cabeça.

Paul Medeiros Krause
 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

EM BREVE


Prezados amigos, em breve teremos:

-- "Extrema unção";

-- "Erasmo, o asno"; e,

-- "Hã?".