Blog católico e cultural, eventualmente jurídico, com divulgação de ideias, livros e opiniões.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
SONETO INCENDIÁRIO
Ó, m'a gata sublime, borralheira,
Cândida criança de branca neve,
Por ti se torna minh'alma mais leve
E se arrepia toda a minha cabeleira.
Água límpida, tíbia cachoeira,
A ti, amor, que meu destino leve,
Do peito, o coração, perfume breve,
Da boca uma canção que cante inteira.
Tua beleza como o oceano vasta,
Que oculta frutos, estrelas, cavalos,
De minh'alma destrói tudo o que encarde.
Inflama meu fogão e dá estalos,
Ó chama que consome, mas não arde!,
E da face fria o franzir afasta.
Paul Medeiros Krause, 1992, após ter lido o "Livro de Sonetos" de Vinícius de Moraes.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
"THE SKY IS CRYING"
Por duas vezes, amável leitor, ouvindo um mesmo blues, magnificamente executado por Stevie Ray Vaughan numa performance ao vivo de 4 de outubro de 1984, no Carnegie Hall, Nova York, encostaram o carro ao lado do meu, uma delas no sinal de trânsito, para me perguntar: “Que música excepcional é esta que você está escutando?”
Era “The Sky is Crying”, que, salvo
melhor juízo, não foi composta por aquele brilhante guitarrista, infelizmente
falecido na flor da idade.
Não sou entendido de blues, mas há um
momento em que, no meio daqueles estupendos, grandiosos solos de guitarra,
executados com toda a perfeição e energia possíveis, a música parece agonizar para então
ressurgir com mais e mais força, reservando o seu melhor, o ápice, para os
momentos finais.
Perdoe-me pela pobre analogia. Por
comparar coisas temporais com realidades eternas. Mas devo dizer que este homem
embrutecido pelo deleite das coisas mundanas, toda vez que ouve “The Sky is
Crying”, lembra-se da famosa ladainha lauretana, a mais conhecida e famosa
ladainha de Nossa Senhora.
Avanço na analogia. Esse momento no
blues em que a música parece agonizar, morrer, para ressuscitar com toda a
força, com espantoso ímpeto, deve certamente possuir um nome técnico e não é
algo exclusivo do clássico que mencionei. Esse instante apoteótico, quase
apocalíptico, lembra-me os dizeres finais da ladainha lauretana. Aqueles que
designam a Mãe de Deus como Rainha.
Antes das invocações finais, a ladainha
inclina-se para uma morte e depois reergue-se para uma ressurreição. Há uma
inflexão, quase uma pausa mortal aqui: “Saúde dos enfermos, Refúgio dos
pecadores, Consoladora dos aflitos, Auxílio dos cristãos”.
Imediatamente em seguida porém a
torrente de invocações ressurge com toda a sua força, como se pudéssemos ouvir o coro
invisível e inaudível de todos os anjos e santos, com todas as potestades,
dominações e trombetas celestes, e toda a natureza, com a sua voz surda,
prorrompendo: “Rainha dos anjos, Rainha dos patriarcas, Rainha dos profetas,
Rainha dos apóstolos, Rainha dos mártires, Rainha dos confessores, Rainha das virgens,
Rainha de todos os santos, Rainha concebida sem pecado original, Rainha assunta
ao céu, Rainha do santíssimo rosário, Rainha da família, Rainha da paz”.
E assim terminam as invocações à Mãe de
Deus no seu ápice, com gosto de paraíso, como uma antessala do céu, inundada de
poder, de estrondo e de paz.
Paul Medeiros Krause
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
BURRICE ESPIRITUAL
Amigo leitor, às vezes, com certo
estarrecimento, dou-me conta da existência de um fenômeno que se poderia chamar
de burrice espiritual. Os fatos estão aí, com toda a sua eloquência, são
praticamente esfregados em nossos narizes, mas há pessoas que insistem em
interpretar o óbvio, a deslocar os eixos, a relativizar o principal e a
absolutizar o secundário. Devo dizer, em verdade, que essa burrice espiritual,
na verdade, não é uma burrice ou falta de inteligência. É pior. É mais grave. É
uma falta de sabedoria. É uma resistência claramente oferecida ao Espírito Santo. É uma falta de sensibilidade para as inspirações de Deus. As inspirações que Ele nos dá ou dá aos outros.
A sabedoria nada tem a ver com a
cultura, com o acúmulo de conhecimento teórico. Uma analfabeta que recita o
rosário pode ser sábia. Um pós-doutor pode não ser. A essa dificuldade de
interpretar os fatos com olhar sobrenatural, a essa falta de discernimento dos
espíritos, a essa incapacidade de distinguir o que é de Deus e o que é
do demônio é que eu chamo de burrice espiritual.
A doutrina católica, com toda a
sua riqueza, sabe muito bem discernir o bem do mal. Mais do que isso: ela sabe
discernir o mal maior do mal menor. Quando o bem é impossível de alcançar,
estamos obrigados a perseguir e a defender o mal menor. Mas há pessoas que não
compreendem isso. Tratam todos os bens e todos os males como se fossem
equivalentes, como se tivessem o mesmo grau, a mesma intensidade. E com isso,
acabam por favorecer o maior mal.
São desse quilate os “católicos”
que equiparam o PSDB ao PT, o Eduardo Cunha à Dilma Rousseff. São dessa estirpe os que condenam o PT, mas votam em Marina Silva, no PSB, no PCdoB e no PV, pois a carência de sabedoria também enxerga graus onde eles não existem, distingue o que é igual. Essa falta de
capacidade de ser pragmático no que é importante, de ser prático para evitar
situações graves ou gravíssimas, é tão ou mais grave que a própria maldade.
Essa falta de intuição ou percepção para distinguir os graus de maldade, os
níveis de podridão, é de todo inconveniente, é absolutamente nociva e
perniciosa. É preciso ter clareza de ideias. É preciso ser eficiente na ação. Nossa consciência não pode estar assim tão adormecida, tão anestesiada, tão entorpecida, que a tudo equipare ou que vislumbre diferença onde há igualdade.
Sempre impressionou-me o
equilíbrio, a isenção, do pensamento católico. O catolicismo não é preguiçoso,
não rejeita teorias ou correntes filosóficas em bloco. É mais cômoda a posição
de aceitação ou rejeição total. Mas os pensadores católicos dão-se ao trabalho
de separar o joio do trigo, em vez de condenar o trigo com o joio. Não rejeitam
um pensador ou uma teoria em bloco. Sabem separar o que é bom e rejeitar o que
é mau. Sabem discernir os graus de bondade e os graus de maldade. Nesse ponto
precisamos exercitar-nos e aprender com os grandes mestres do catolicismo.
Santo Agostinho batizou Platão. Santo Tomás batizou Aristóteles. Por outro lado, eles também não aceitaram o que simplesmente tinha aparência de bem. Não caíram em amardilhas. De longe, identificaram os erros. Souberam rejeitar o mal com aparência de bem.
Há um trecho do evangelho que
diz: “mesmo que um morto ressuscite, não acreditarão”. Não devemos ser
resistentes ao Espírito Santo, não devemos contrariar as Suas inspirações. É necessário
que interpretemos, com sabedoria, os sinais dos tempos, sem exigir coisas
extraordinárias, milagres estupendos, manifestações exuberantes. Aprendamos com
os sábios e com os mestres de outrora e de hoje. Não confiemos em nós mesmos.
Procuremos conhecer a opinião, nos mais variados assuntos, dos homens fiéis à
Igreja, de ontem e de hoje. E não ofereçamos oposição injustificada ao que nos
revela o Espírito Santo.
Paul Medeiros Krause
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
ROMARIA À IGREJA DA CONFRARIA DO ROSÁRIO
O Grupo do Rosário realizou mais uma vez a sua romaria em honra da Excelsa Virgem do Rosário. Pelo quarto ano consecutivo, ele foi à Igreja da Venerável Confraria de Nossa Senhora do Rosário, em São João del-Rei, para participar das celebrações do Mês do Rosário, essa oração predileta dos papas e da Virgem Maria.
Saímos de Belo Horizonte no dia 25 de outubro e retornamos no dia 26. Muitos integrantes do Grupo do Rosário são também irmãos e irmãs da Confraria de Nossa Senhora do Rosário já mencionada, fundada há mais de trezentos anos.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
LADAINHA DO CAMINHO
Nossos antepassados foram tão generosos que
deixaram inscritos no mundo os sinais exteriores da sua piedade, assinalando a Terra com pistas das marcas indeléveis que a devoção esculpira nas paredes dos seus
corações. Dando aos lugares, às coisas e às pessoas nomes de anjos e de santos, permitiram que chegassem até nós tantos afetos das realidades
celestes. Dei-me conta outro dia de que, de minha casa até o meu trabalho, em
vez da tradicional ladainha dos santos, que não sei de cor, eu poderia rezar a
ladainha do caminho.
São tantos bairros, lojas e colégios com
nomes sagrados que, cada dia, com profunda reverência interior, eu poderia
rezar uma ladainha diferente, dependendo dos ônibus, adesivos e placas com que
deparasse no caminho: Dom Bosco, rogai por nós! São José, rogai por nós!
Santo Antônio, rogai por nós!
Quem sabe se esses santos ocasionais, os
santos do meu percurso, não serão os meus protetores do dia? Ou, quem sabe, não
são um símbolo – uma metáfora! –, não traduzam uma realidade maior do percurso
dos meus dias? Não será que os anjos e os santos, como que de improviso,
auxiliam-me, auxiliam-nos, de forma inesperada nas curvas, nos
aclives e declives da existência? Quem saberá dizer quais foram os santos que o
socorreram em todas e em cada uma das suas necessidades? Em relação a algumas delas
até podemos adivinhar, talvez haja indícios, mas que dizer de todas as
necessidades durante o trajeto, durante todo o itinerário da vida?
Pareceu-me uma boa inspiração, uma
razoável ideia, essa ladainha do caminho. Soou para mim de bom tom permitir aos
santos e aos anjos revezarem-se ao acaso, atendendo a providenciais desígnios,
em minha companhia. (Isso sem o menor desprezo pelo meu anjo da guarda,
companheiro inseparável de todas as horas, que desejo contemplar um dia.)
Afinal, é Deus quem nos dá os amigos, deste e do outro mundo, quem os faz aparecer de repente, cada um
com os seus predicados, em tão variados e oportunos momentos.
Se Dom Bosco aparecer três vezes, três vezes direi: “Dom Bosco, rogai por nós!” Ainda mais agora, nas proximidades do 16 de agosto, em que se comemoram duzentos anos do seu nascimento, do seu luminoso aparecimento, na região do Piemonte.
Se Dom Bosco aparecer três vezes, três vezes direi: “Dom Bosco, rogai por nós!” Ainda mais agora, nas proximidades do 16 de agosto, em que se comemoram duzentos anos do seu nascimento, do seu luminoso aparecimento, na região do Piemonte.
Paul Medeiros Krause
terça-feira, 11 de agosto de 2015
PNE E IDEOLOGIA DE GÊNERO
“Democracia
é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.” Millôr
Fernandes, que não prestou as melhores homenagens ao vernáculo nessa frase, bem
se deu conta de como às vezes se compreende erradamente a democracia. O mesmo
ocorre com a ideia de estado laico ou laicidade do Estado. O Estado é laico
enquanto agasalha a minha religião ou ideologia particular, mas é confessional
quando promove a religião ou ideologia particular do outro... Não deve ser
assim. Precisamos ser minimamente objetivos. Na democracia, onde impera o
pluralismo de ideias, não se impõem ideologias, religiões ou formas de pensar.
O Estado não substitui as consciências, o espírito humano. Estado laico é
aquele que não adota qualquer religião ou ideologia oficial.
A ideologia de gênero, fundamentada em
postulados marxistas unidos sobretudo à psicologia de Freud, sustenta que as
diferenças de sexo são convenções. Que os papéis que homem e mulher desempenham
são socialmente construídos, socialmente determinados. Segundo os teóricos da
ideologia de gênero, a primeira opressão, a primeira exploração injusta do
trabalho alheio, foi a do homem em relação à mulher, no patriarcado. Muitos
autores de Direito de Família, que agora, ideologicamente, eles preferem chamar
de “Direito das Famílias”, estão comprometidos com a cosmovisão marxista, com a
interpretação marxista da história, e nem dissimulam isso, citando sem
constrangimentos A origem da família, da
propriedade privada e do estado, de Engels, por exemplo. Já tive a
oportunidade de destacar isso no artigo: A
moral burguesa como fonte dos ‘direitos sexuais’ e do novo conceito de
‘famílias’[1].
Segundo a ideologia de gênero, deve ser
construída uma sociedade polimorficamente
perversa, em que os indivíduos, ao arrepio da sua sexualidade biológica,
podem e devem construir a sexualidade que quiserem. Fico a perguntar-me se os
órgãos sexuais masculino e feminino, se a diferença existente entre os gametas,
também são uma construção social, artificialmente criada por uma sociedade
capitalista opressora... Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco vão obrigar
– por lei, decreto ou portaria – dois óvulos a gerarem uma criança ou dois
espermatozoides a se fundirem...
Nem vou descer a detalhes sobre o
absurdo que representa, sobre a violência que significa, expor crianças de
tenra idade a essa patologia ideológica nas escolas, apresentada como se fosse
algo neutro, acima do bem e do mal. Não vou deter-me aqui no abuso, no
constrangimento moral, na confusão psicológica que representa a supressão dos
banheiros femininos e masculinos nas escolas infantis. Não vou comentar o fato
de crianças de oito a dez anos manusearem pênis de borracha em salas de aula. Há
tantos críticos, e com toda razão!, do abuso sexual de crianças. Mas será que o
abuso só se dá fisicamente, não pode ocorrer apenas na consciência, naquele
núcleo mais íntimo da pessoa, sendo abusador o próprio Estado?
Não podemos esquecer-nos da força
descomunal do Estado, a que um indivíduo jamais poderá resistir sozinho.
Justamente em razão da desproporção de forças que há entre o Estado e o
indivíduo, não pode aquele beneficiar uma ideologia particular, tornando-a
obrigatória, colocando o súdito refém de uma peculiar visão de mundo,
violando-lhe as convicções e a consciência, a liberdade de consciência e de
crença, mormente quando se encontre na vulnerável condição de educando. A
Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença (art. 5.º, VI).
Ora, nossa Constituição não albergou,
como ideologia oficial, o materialismo histórico. Pelo contrário, um dos
fundamentos da República Federativa do Brasil é o pluralismo político (art.
1.º, V). Nós não somos camundongos, não somos ratos de laboratório sujeitos a
experimentos sociológicos. Nossas crianças não são cobaias das invencionices dos
cientistas sociais.
Dispõe o art. 22, XXIV, da Constituição da
República: “Compete privativamente à
União legislar sobre: XXIV – diretrizes e bases da educação nacional”. O
art. 24, IX, da Constituição complementa: “Compete
à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: IX
– educação, cultura, ensino, desporto, ciência, tecnologia, pesquisa,
desenvolvimento e inovação”. Acrescenta o § 1.º do art. 24: “No âmbito da legislação concorrente, a competência
da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais.”
O art. 214 da Lei Maior, com a redação
que lhe foi dada pela Emenda Constitucional n.º 59, de 11 de novembro de 2009,
prescreve: “A lei [leia-se: lei
federal, ou melhor, lei nacional] estabelecerá
o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o
sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes,
objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e
desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por
meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas
federativas que conduzam a: I – erradicação do analfabetismo; II –
universalização do atendimento escolar; III – melhoria da qualidade do ensino;
IV – formação para o trabalho; V – promoção humanística, científica e
tecnológica do País; VI – estabelecimento de meta de aplicação de recursos
públicos em educação como proporção do produto interno bruto.”
Diz o art. 3.º da Constituição: “Constituem objetivos fundamentais da
República Federativa do Brasil: IV – promover o bem de todos, sem preconceitos
de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer formas de discriminação.”
Acrescenta o art. 5.º da Constituição: “Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I – homens e
mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.
Diz mais o art. 226 da Constituição: “A família, base da sociedade, tem especial
proteção do Estado. § 1.º O casamento é civil e gratuita a celebração. § 2.º O
casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. § 3.º Para efeito da
proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como
entidade familiar, devendo a lei facilitar a sua conversão em casamento. § 4.º
Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer
dos pais e seus descendentes. § 5.º Os direitos e deveres referentes à
sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher.”
Pergunta-se: em que momento a
Constituição menciona gênero? Igualdade entre gêneros? Identidade de gênero? Só
há menção a sexo, igualdade entre os sexos e entre homem e mulher. Não há nem
sequer o reconhecimento da união estável entre pessoas de mesmo sexo.
Observe-se que o art. 226, § 3.º, é original na Constituição, oriundo do Poder
Constituinte Originário, não do Derivado, portanto, não pode ser considerado
inconstitucional.
Portanto, o Plano Nacional da Educação
(PNE), aprovado pela Lei n.º 13.005, de 25 de junho de 2014, já não poderia
trazer nada a respeito da ideologia de gênero. A Constituição fala de sexo, não
de gênero. O sexo biológico é um dado objetivo. Não foi inventado por nenhum
teórico das ciências sociais. O PNE seria inconstitucional se agasalhasse a
ideologia de gênero, pois a Constituição não permite ao Estado brasileiro
comprometer-se com uma peculiar visão de mundo, utilizando-se de sua descomunal
força para torná-la obrigatória, submetendo os brasileiros a um estupro
intelectual, ao estupro das suas consciências. A família goza de especial
proteção do Estado. O direito dos pais de educarem seus filhos em conformidade
com as suas consciências e crenças não pode ser violado pelo Estado.
A citação seguinte deve levar-nos a
refletir:
“Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que
inventaram as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram sendo
preparadas nos escritórios e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas,
entre os quais se contavam e contam alguns pensadores anglo-saxônicos laureados
com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto
acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja
eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem mais uns quantos povos
inferiores. Tudo isto não é senão raciocínio lógico e consequente.”[2]
Da mesma forma que o nazismo não nasceu
nos ministérios de Berlim, mas em gabinetes de cientistas e filósofos, a
ideologia de gênero não é invenção do Ministério da Educação (MEC). Não podemos
permitir que as salas de aula das crianças brasileiras se tornem alvo de
experiências sociológicas, de invencionices criativas, como se nossas crianças
fossem cobaias dos teóricos da ideologia de gênero.
A distinção entre os sexos é um dado
objetivo. É necessária inclusive para a conservação e perpetuação da espécie
humana. Mas não é só isso. Ela é um dado da tradição. Aprendemo-la com os
nossos pais e avós. E a verdadeira democracia dá ouvidos aos antepassados:
“A
tradição pode ser definida como uma extensão dos direitos civis. Tradição
significa dar votos à mais obscura de todas as classes, os nossos antepassados.
É a democracia dos mortos. A tradição se recusa a submeter-se à pequena e
arrogante oligarquia dos que simplesmente por acaso estão andando por aí. Todos
os democratas objetam a desqualificação pelo acidente do nascimento; a tradição
objeta a desqualificação pelo acidente da morte. A democracia nos pede para não
ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso criado; a tradição
nos pede para não ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso
pai.
Eu,
de qualquer modo, não consigo separar as duas ideias da democracia e da
tradição; parece-me evidente que são a mesma ideia. Teremos os mortos nos
nossos conselhos. Os antigos gregos votavam com pedras tumulares. É tudo muito
regular e oficial, pois a maioria das pedras tumulares, como a maioria das
cédulas de votação, é marcada com uma cruz.”[3]
Não podemos comportar-nos como
adolescentes que acreditam nos colegas de rua e desprezam a opinião dos pais.
Os teóricos da modernidade não podem simplesmente passar por cima das grandes
tradições ocidentais.
Ilustrativo é o seguinte trecho de A descoberta do outro, do autor carioca
Gustavo Corção:
“A
opinião é uma atitude que o sujeito toma diante do objeto sem que o objeto
importe. Não se mede pelo objeto, não tem proporção com ele. [...] Ter razão importa sem que o objeto importe.
[...]
[...]
[...] O mecanismo da opinião pode ser descrito como uma interposição da
vontade entre a inteligência e o objeto. A justa proporção com o objeto fica
prejudicada, só podendo existir quando a inteligência está em livre confronto
com o objeto, isto é, na contemplação.
Gostaria
de tornar bem clara a imensa gravidade desse problema e a importância vital do
restabelecimento, na estrutura de nossa pessoa, desse respeito pelo objeto,
dessa abertura para fora pela qual tanto a inteligência como a vontade, a boa
vontade, aspiram à suma objetividade. O grande desvio do pensamento moderno tem
origem nessa inversão interior, pela qual a vontade se arroga um direito de
conquista onde somente à inteligência cabe o primado. Todos nós, mais ou menos
europeus, estamos impregnados de idealismo filosófico até a medula dos ossos,
estamos convencidos que nossa dignidade mais alta reside nesse subjetivismo
obstinado que tenta reduzir todas as coisas do céu e da terra a meia dúzia de
opiniões. Muita gente pensa que isso é grandeza e marca de caráter e que a
personalidade humana se define por esse fechamento diante dos objetos e se
engrandece por essa deformação interior. Diante dos objetos mais simples o
homem liberal, que agasalha suas opiniões, que desconfia de tudo que não seja o
morno recôncavo de sua interioridade, cai em guarda numa posição crispada; a
vontade mete-se de permeio entre a porta dos sentidos e a inteligência, e como
o seu caminho é mais curto, ou porque seja ela mais ágil, sua sugestão chega
antes do conceito e gera o preconceito. A inteligência perde a liberdade e a
vontade então convence o sujeito de que ele é um livre-pensador.
É
nessa questão nevrálgica da liberdade que a vontade mais se excita, e, no
diálogo interior, clama que lhe pertence exclusivamente a decisão nessa
matéria. Como na vida exterior vive sendo ofendida, esbarrando, chocando-se,
atritando-se, a vontade procura se desforrar e volta-se para dentro. Volta-se
contra o próprio sujeito, enrola-se no cerne nobre da pessoa e morde a
inteligência. A liberdade psicológica e voluntariosa, nascida no conflito com
as objetividades, substitui a liberdade ontológica que tem raiz na adequação
entre a inteligência e o ser. O primado da inteligência é usurpado, e então, em
vez do reto juízo, nasce a opinião.
[...]
O
senso da objetividade, a que já me referi nos capítulos anteriores, é aquele
pelo qual a inteligência tende para o objeto e tem consciência de sua
responsabilidade primeira no juízo. A diminuição desse senso gera o
subjetivismo, a reivindicação do direito de opinião, o liberalismo, o
voluntarismo, e todas as correntes filosóficas idealistas que buscam no objeto
uma ressonância apenas do sujeito.
[...]
E
isso acontece porque a vontade interfere, mete-se entre o objeto e a
inteligência, e procura se adequar à mobilidade, que é uma categoria
proporcionada à sua essência. A atividade impera sobre a contemplação, o
apetite domina o juízo, a opinião substitui a verdade.”[4]
Para concluir, os planos estaduais e
municipais da educação, como visto, já não podem, como não poderia o plano
nacional, albergar a ideologia de gênero, sob pena de inconstitucionalidade e
deslavado autoritarismo. Acertadamente o Congresso Nacional, notadamente o
Senado, extirpou sobredita ideologia do plano nacional. Espanta-me, pois, que o
MEC, desrespeitando a Constituição e deliberação do Congresso Nacional, pressione
de modo mais ou menos sutil estados e municípios a inseri-la em seus planos. No
caso de estados e municípios, a inconstitucionalidade é ainda mais gritante: a
União, no exercício da competência legislativa concorrente, edita normas
gerais, de âmbito nacional. Não podem estados e municípios, ao editarem as
normas suplementares, contrariar as normas nacionais baixadas pela União.
Paul Medeiros Krause
Procurador do Banco Central em Belo
Horizonte[1] KRAUSE, Paul Medeiros. A moral burguesa como fonte dos ‘direitos sexuais’ e do novo conceito de ‘famílias’. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 18, n. 3613, 23 maio 2013. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/24515>. Aceso em: 30 jul. 2015.
[2] FRANKL, Viktor E. Sede de sentido. Introdução, tradução e
notas de Henrique Elfes. 3. Ed. São Paulo: Quadrante, 2003. p. 45.
[3]
CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. Traduzido por Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão,
2008. p. 80-1.
[4] CORÇÃO, Gustavo. A descoberta do outro. 2. ed. Rio de
Janeiro: Agir, 1945. p. 80-1, 110-1.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
11 DE AGOSTO: GRUPO DO ROSÁRIO NA BOA VIAGEM (NOVENA)
Prezado amigo,
A convite do pároco, Pe. Marcelo, o nosso Grupo do Rosário será o responsável pela recitação do terço, na Catedral da Boa Viagem, no próximo dia 11 de agosto, às 17:30 horas. Se você puder, gostaríamos que fosse e, de preferência, com a nossa camiseta vermelha.
Essa recitação do terço é especial. Cada grupo é responsável por um dia e ela faz parte das preparações para a festa da padroeira de Belo Horizonte, Nossa Senhora da Boa Viagem. Será o sexto dia da novena em honra da Mãe de Deus. Ficamos surpresos e honrados com o convite do pároco. Não esperávamos!
A programação da novena é a seguinte:
17h30: Oração das Vésperas Solenes
18h: Recitação do Terço Meditado
19h: Celebração Eucarística Solene
Contamos com sua presença e a dos seus parentes e amigos.
Grande abraço,
Paul
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