terça-feira, 8 de agosto de 2017

MEMÓRIA DE SÃO DOMINGOS DE GUSMÃO




8/8: Memória de São Domingos de Gusmão, presbítero. Fundador da Ordem dos Pregadores (O.P.) ou dominicanos. Exterminador das heresias. Apóstolo do Santo Rosário e seu principal propagador. Primeiro inquisidor, ou, pelo menos, o primeiro a ser designado com esse título. Maior santo do século XIII, ao lado de São Francisco. Em revelação a Santa Catarina de Sena, sua filha espiritual, doutora da Igreja, da Ordem Terceira Dominicana, no seu famoso "Diálogo", é chamado por Deus Pai de coluna da Igreja, ao lado de São Francisco. Coluna pelo carisma da ciência, enquanto São Francisco o foi pela pobreza. Pai de uma legião de sábios e de santos, inclusive, o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, e Santo Alberto Magno, o doutor universal, padroeiro dos cientistas e mestre de Tomás.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O ALCÁZAR DE TOLEDO, POR GUSTAVO CORÇÃO


Nos dias de abril e maio que andei pelo Velho Mundo, vi muita coisa que me encheu os olhos e a alma de admiração. Não discorda Platão das Sagradas Escrituras, quando diz que a admiração é o princípio da sabedoria, porque o temor filial, segundo São Gregório e Santo Tomás, é um estremecimento da alma agradecida que permanece e resplandece no céu. Torno a dizer: vi muita coisa que me encheu os pulmões da alma de gratidão e admiração. Deus é grande e todo-poderoso, e o homem, esse quase-nada, espécie de mofo nascido nos desvãos de um planeta, quando se ergue para louvar a Deus torna-se gigantesco e admirável, e é capaz de gravar nas pedras o sorriso dos anjos, e de construir catedrais, rosáceas, vitrais que nos enchem de estupefação. "Passou por aqui uma raça de gigantes...", dizia eu com meus botões na Sainte-Chapelle ou no Alcobaça.

Era sempre diante de um passado mais lendário do que histórico, e por isso mais verdadeiro, porque as lendas cuidam das coisas essenciais que escapam aos historiadores perdidos na imensa feira de superfluidades. "Passou por aqui uma raça de gigantes..." "Passou..."

Mas num lugar do Velho Mundo pude ver o prodígio da permanência e da sobrevivência da raça de gigantes, até os dias deste século, até ontem. Refiro-me ao Toledo.

Toledo é uma cidade, hoje pequena, regada pelo Tejo, o mesmo Tejo de Camões e o mesmo rio de minha aldeia de Fernando Pessoa. A sudoeste de Madri, distante uma hora. Toledo é um prodígio sem igual. Sua preciosidade começa por sua imemorial antiguidade. Já dois séculos antes de Cristo, Toledo foi colônia cartaginesa e depois colônia romana. E logo nos primeiros dias do cristianismo Toledo se torna centro de irradiação, foco de difusão e núcleo de estudo e de doutrinação. Desde o primeiro século até o oitavo da era cristã reuniram-se em Toledo 18, sim, dezoito concílios, sendo os mais importantes os de 396, 400 e 589 com o triunfo da Igreja Católica na Espanha contra a heresia ariana.

Além disso convém lembrar que foi em Toledo que durante toda a Idade Média se forjaram as melhores espadas com que a Cristandade defendia seu território como defendera a sua doutrina. Saltando por cima dos visigodos e dos mouros, temos em Toledo a capital da Espanha até Filipe II. No século XVI temos em Toledo o pintor El Greco, cuja maravilhosa casa até hoje exibe o ainda mais maravilhoso 'Enterro do Conde de Orgaz'.

Tudo isto se inscreve no patrimônio de grandezas deixadas pela raça de gigantes que passara pelas terras de Cristandade; mas o que me deixou sufocado na visita que fiz a Toledo foi uma cripta do Alcázar restaurada, e nesta cripta com um altar o que me fascinou foi a dupla lápide, aos pés do altar, com os seguintes nomes:

José Moscardó Ituarte
Luis Moscardó

Eu não sabia que ia ali encontrar seus túmulos e seus nomes, e por isso fui tomado por uma surpresa que me prostrou de joelhos. O mundo inteiro, digo mal, o mundo inteiro que não fechou os olhos à evidência e não se recusou à admiração dos feitos admiráveis, sabe o que foi a resistência do Alcázar, em 1936. Sitiado voluntário na fortaleza de Toledo, com 1.000 combatentes - e mais mil mulheres, crianças, velhos - Moscardó organizou-se para resistir e para sustentar seus dois mil habitantes. De início teve de entregar seu filho. A história é conhecida. Estão lá ainda a mesa de trabalho e o telefone que naquele dia tocou. Era o Chefe de Milícias dos 'Rojos' que chamava Moscardó para intimá-lo a render-se em 10 minutos, sem o que mandaria fuzilar seu filho Luis, em poder dos 12.000 milicianos que cercavam o Alcázar. A resposta de Moscardó foi seca e instantânea:

- Você não sabe o que é a honra de um soldado, e por isso me faz essa proposta.

- Você fala assim porque pensa que estou blefando. Venha cá, Moscardó. Fale com teu pai.

Luis: - Oiga, ?papá?

José Ituarte: - ?Que hay, hijo mio?

Luis: - Nada de particular, papá. Dicen que me van a fusilar si no te rindes. ?Que debo hacer?

José Ituarte: - Tu sabes como pienso; tu padre no se rinde. Si es certo que te van a fusilar, encomienda tu alma a Dios y muere como espanol: da un Viva Espana! y Viva Cristo Rey!

Luis: - Es muy facil, papá. Haré las dos cosas... Un beso muy fuerte, papá.

José Ituarte: - Adios, hijo mio. Um beso muy fuerte.

E foi depois desse começo que José Ituarte desenvolveu uma sobre-humana energia para organizar a defesa, com um mínimo de armas, e organizar a subsistência de seus dois mil filhos adotivos. O que realmente espanta nessa epopeia de nossos dias não é a bravura, é sobretudo a força de paciência com que se transformou o forte bombardeado dia e noite, por muito mais bocas de fogo do que 'The Light Parade' de Tennyson, porque sobre o Alcázar, além das quatro rosas do vento, chovia fogo do céu. Aviões despejavam bombas, e José Ituarte ocupava-se com a moenda das reservas de trigo, com um motor de automóvel, e a organização de um circo para divertir as crianças...

Não cabe aqui a centésima parte da epopeia do Alcázar de Toledo. Cabe ainda um reparo. Estas coisas aconteceram neste século de tantas degradações. Eu vivia, respirava, comia, dormia e trabalhava nos meus esquemas eletrônicos, enquanto a Espanha, Toledo, o Alcázar, Moscardó defendiam o cristianismo, a civilização, a honra, e tudo o mais que dá à vida o valor de ser vivida. Por um conjunto de bloqueios e conjurações, em que este século é fértil, passou-me despercebido o feito no momento mesmo em que eu poderia ter respirado em sincronismo com os heróis do Alcázar. Estupidamente perdi essa oportunidade de ser contemporâneo de uma raça de gigantes. Convertido à Fé católica, ainda mais estupidamente perdi a oportunidade de agradecer a Deus tanta grandeza humana. Por um triz tive a sorte de sobreviver, e de ainda poder admirar, e de ainda poder agradecer. Parte dessa história  está no meu livro 'O Século do Nada'.



Gustavo Corção, no livro "Conversa em sol menor".

sábado, 22 de julho de 2017

MARIA MADALENA, POR SÃO JOÃO DA CRUZ


"6. Por isso Maria Madalena, sendo tão estimada em sua pessoa, como antes o era, não se importou com a turba de homens, consideráveis ou não, que assistiam como convidados ao banquete; nem reparou que não lhe ficava bem ir chorar e derramar lágrimas entre essas pessoas; tudo isto fez, a troco de poder chegar junto daquele por quem sua alma estava ferida e inflamada. É ainda a embriaguez e ousadia própria do amor: saber que seu Amado estava encerrado no sepulcro com uma grande pedra selada, cercado de soldados guardando-o para seus discípulos não o furtarem (Jo 20,1), e, todavia, não ponderar qualquer destes obstáculos, mas ir, antes do romper do dia, com unguentos a fim de ungi-lo.

7. E, finalmente, essa embriaguez e ânsia de amor fez com que ela perguntasse àquele que lhe parecia ser o hortelão, se havia furtado o corpo do sepulcro. Pediu-lhe ainda, se tal fosse o caso, que dissesse onde o havia posto, para ela ir buscá-lo (Jo 20,15). Não reparou que tal pergunta, em livre juízo e razão, era disparate; pois, é claro, se o homem o havia furtado, não havia de confessar, e, menos ainda, de o deixar tomar. Tal é a condição do amor em sua força e veemência: tudo lhe parece possível, e imagina que todos andam ocupados naquilo mesmo que o ocupa. Não admite que haja outra coisa em que pessoa alguma possa cuidar, ou procurar, senão o objeto a quem ele ama e procura."

(São João da Cruz, "Noite escura", Livro II, Capítulo XIII)

 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SÃO JOÃO DA CRUZ É UM MESTRE


São João da Cruz é um grande mestre. Estou longe de ser um entendido. Registro apenas as minhas impressões. São João da Cruz descreve bem o itinerário da vida mística, da vida contemplativa. É mais prático, mais metódico, mais sintético e objetivo do que Santa Teresa de Jesus.

Chamaram-me muito a atenção a "Subida do Monte Carmelo" e a "Noite escura". O doutor místico fala das imperfeições dos principiantes e dos adiantados, incluídas a gula espiritual, a ira espiritual e a luxúria espiritual. Fiquei impressionado com o espírito prático e com a fina sensibilidade do grande mestre espanhol.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS




Amanhã: Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Uma das poucas sextas-feiras do ano em que a Igreja suspende a abstinência de carne.

"Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, porque meu jugo é suave e meu fardo é leve." (Mt 11, 28-30)


sexta-feira, 16 de junho de 2017

O CIENTIFICISMO

 
O que a Ciência não nos pode dar.
 
1. Vale a pena dedicar um capítulo a alguns fenômenos produzidos pela radioatividade nominalista. Comecemos aqui pelo Cientificismo. Como atrás já dissemos, esse termo não designa o maior incremento de pesquisas, o maior ardor de estudo nos domínios das ciências naturais. Tudo isto, em si, é bom. O que não é bom é o estado de espírito que coloca a Ciência da natureza na presidência de uma civilização, depois da abdicação da Sabedoria. Uma vez que a inteligência não alcança as coisas superiores, apliquemo-la nesse trabalho de apalpar os fenômenos para deles tirar uma nova confiança em nós mesmos, e para ordenhar a nosso gosto essa imensa mãe telúrica, brutal, que às vezes, no seu sono pesado, mata os próprios filhos.
 
Esse estado de espírito, nos primeiros tempos, produzirá uma grande euforia. A humanidade, depois de descobrir a pólvora, o movimento dos astros, a força do vapor, o poder mágico da eletricidade, terá, como teve no Século XVIII e XIX, momentos de exultação.
 
A cândida ideia que ocorrerá a muitos espíritos é a seguinte: na continuação dos tempos, a Ciência polirá todas as arestas do Velho Homem, iluminará todas as trevas, resolverá todas as dificuldades. Ora, essa ideia, comicamente falsa, extravagantemente falsa, foi difundida e tornou-se o ar que respiramos e a água que bebemos; e isto só aconteceu porque a Civilização Ocidental Moderna já não tinha à sua presidência os dados da antiga sabedoria. Se a tivesse, ouviria a censura clara e irrefutável: a ciência dos elementos exteriores aumenta o domínio do homem sobre eles, mas não acrescenta nada ao domínio do homem sobre si mesmo. Conhecer a natureza inferior é bom; conhecê-la em detrimento do conhecimento da alma e de Deus não é bom. Uma civilização, uma cultura, uma sociedade não podem ser presididas pela Ciência, que é cega, surda e muda para os problemas mais comuns e mais profundos de nossa humanidade.  Como já tivemos ocasião de salientar, a Ciência pode nos dizer que nossos pulmões estão anormais e devem ser tratados desta ou daquela maneira; mas é inteiramente incapaz de nos sugerir o que podemos nós fazer com pulmões normais. A Ciência pode proporcionar-nos veículos aperfeiçoados para nossos deslocamentos; mas é incompetente, destituída de qualquer recurso, para nos aconselhar aonde devemos ir, e aonde não convém irmos. A respeito das coisas mais triviais, o amor, a felicidade dos filhos, a alegria de ter amigos, a Ciência embatuca, ou então, irritada, trata essas coisas com desprezo; em compensação torna-se loquaz e abundante se a consultarmos sobre logaritmos, temperatura do sol, propriedades das elipses, e outras coisas desse jaez.
 
Não estamos criticando nem ridicularizando a Ciência. Ponham-na em seu lugar próprio, e seremos os primeiros a admirá-la, e até a agradecer-lhe o favor de inspirar os médicos e farmacêuticos que asseguram a sobrevivência que nos permite escrever estas linhas. Ponham-na, porém, no altar, ou nas abóbodas das idades: reclamaremos e gritaremos que nesta posição ela se transformará em calamidade.
 
O bem-estar conquistado pela ciência não causa elevação humana no sentido próprio do termo; mas condiciona-a favoravelmente. Ainda mesmo nos problemas técnicos, onde parece soberana a ciência, no seu duplo aspecto teórico e prático, quem traz a última decisão é a filosofia. Tomemos por exemplo o problema dos telefones no Rio de Janeiro. Estamos há quase vinte anos sem poder instalar os telefones pedidos. Será técnico o problema? Será econômico? Será físico, químico, astronômico? Não. O problema é filosófico e religioso: não temos telefones por causa da atuação de uma seita bárbara que professa uma filosofia ou uma religião chamada "nacionalismo". Eles dizem que nos defendem, e o resultado é que não temos o aparelho inventado há 100 anos e profusamente distribuído na face da terra.
 
A Ciência e a Técnica cuidam de coisas utilíssimas, e por isso mesmo lhes escapam as coisas que transcendem o útil, e que são as que mais importam. Dão-nos cem, duzentas, mil, um milhão de coisas úteis e boas; mas um milhão de coisas úteis e boas não conseguem integrar-se num bem de outra ordem, a que aspira a alma humana. Um milhão de maravilhas da ciência não consolam o namorado infeliz; não detêm as lágrimas do pai que perdeu o mais belo dos meninos; não interessam ao santo que procura maior amor de Deus.
 
E ainda é pouco dizer somente a incapacidade da Ciência. Posta em lugar que não lhe pertence, ela se torna foco da corrupção e do aviltamento. De onde nos vem o mal de não perceberem todos isto que aqui escrevemos? Vem deste fato: a Ciência, muito mais do que a Filosofia e a Teologia, ao menos aparentemente, é imediatamente remuneradora, é facilmente transmissível, e é progressiva de um modo que salta aos olhos e desafia quaisquer contestações. O período da história que temos diante de nós – imaginamos estar às portas da Renascença e de costas para a Idade Média – caracterizou-se especialmente por gloriosas conquistas da Ciência e pelo correlato enorme prestígio da Ciência, em detrimento da Metafísica e da Religião. O homem encontrava na Ciência a prova de sua maturidade, de sua autonomia e do seu senhorio sobre os reinos da Natureza.
 
 
* Extraído de: Gustavo Corção, "Dois amores – duas cidades". Rio de Janeiro: Agir, 1967.


SÃO DOMINGOS E SUA ORDEM

 
Segundo a vontade de S. Domingos, e conforme a aprovação da Igreja, o Frade Pregador se consagra ao ministério apostólico. Sua vida se dedica, por amor de Deus, à salvação das almas. Sendo, entretanto, necessário escolher entre as inúmeras obras de caridade espiritual, adota ele, como objeto especial de sua vocação – a salvação das almas pela pregação da doutrina.
 
O Frade Pregador procura, antes de mais nada, transmitir aos homens a verdade divina: aos fiéis, expondo-lhes as riquezas da fé; aos transviados, esforçando-se por esclarecê-los e reconduzi-los ao bom caminho; e até, por meio de longínquas missões, aos infelizes habitantes dos países não civilizados, adormecidos ainda na noite do paganismo. O Frade Pregador é, pois, essencialmente, um apóstolo.
 
No dizer de Sto. Tomás de Aquino, esta é a mais perfeita das obras de caridade: "Ocupar-se da salvação espiritual do próximo, diz ele, é muito mais útil do que prover às suas necessidade corporais. É uma obra que sobreleva a qualquer outra, do mesmo modo que a alma ao corpo. Mais eficazmente que as outras, ela alcança a glória de Deus, a quem nada é mais agradável do que o zelo pelas almas".
 
A Ordem Dominicana é, essencialmente, apostólica. Mas é preciso bem compreender esse termo apostólico e conservar-lhe o sentido que que lhe atribui a tradição. É neste caso que ele designa o caráter específico da Ordem Dominicana.
 
Os teólogos dividem as diversas sociedades religiosas em três grupos: os institutos de vida ativa, que se incumbem dos enfermos, do ensino, e da pregação; os de vida contemplativa, que se consagram totalmente à contemplação das coisas divinas; enfim, os de vida mista, cuja finalidade é a contemplação frutificando pelo apostolado. A estes últimos, os doutores reservam o título de apostólicos quando distinguem as ordens religiosas.
 
Segundo a doutrina comum, precisada por Sto. Tomás com a sua maestria habitual, devem-se colocar acima das Congregações ativas as contemplativas, pois a contemplação é superior às obras exteriores. Mas, ainda mais elevados são os institutos de vida mista ou apostólicos. De fato, acrescenta o Doutor Angélico, é "melhor distribuir aos outros os frutos de sua contemplação do que viver a contemplar simplesmente, assim como há mais perfeição em arder e iluminar ao mesmo tempo, do que em somente arder". A vida mista ou apostólica é mais perfeita que a vida exclusivamente contemplativa. Ela encerra a perfeição da vida ativa e da contemplativa.
 
 
* Extraído do livro: "São Domingos e sua ordem", Frei M. Vicente Bernadot, O.P., 2.ª edição, Gráfica Olímpica Editora, Rio de Janeiro.