domingo, 16 de agosto de 2026

A SECULARIZAÇÃO DA FESTA

Márcio Luís Chila Freyesleben


A festa sempre diz alguma coisa sobre aquilo que uma sociedade considera digno de memória. Ao escolher certos dias, interromper o trabalho cotidiano e reuni-los em torno de símbolos, ritos e celebrações, uma comunidade revela o que admira, aquilo a que presta homenagem e, em alguma medida, a ordem de valores segundo a qual procura viver. Por isso, a transformação do calendário ocidental não pode ser vista como simples mudança de costumes. Ela acompanha uma alteração na maneira de compreender o homem, o tempo e o próprio sentido da vida.

Na Cristandade, o calendário ordenava o tempo em torno dos mistérios da Redenção. A Encarnação, a Paixão, a Ressurreição, a Ascensão e Pentecostes davam ao ano sua cadência fundamental. Ao redor desse centro encontravam-se as festas da Virgem Maria, dos mártires e dos santos. Mesmo nesses casos, porém, a homenagem não terminava na pessoa celebrada. O santo era venerado pela obra da graça que nele se realizara. Honrá-lo significava reconhecer a ação de Deus em uma vida humana e oferecê-la aos vivos como exemplo de fidelidade.

A antiga celebração dos mártires mostra bem essa maneira de compreender a festa. A comunidade guardava a memória do martírio não apenas para recordar uma personalidade admirável, mas porque via naquela morte o testemunho de uma vida que alcançara seu verdadeiro fim. O aniversário do martírio podia, por isso, ser chamado de nascimento para a vida eterna. A memória do morto alimentava a fé dos vivos.

Havia, pois, uma relação íntima entre calendário e cosmovisão. O tempo não era uma sucessão indiferente de dias, preenchidos conforme a conveniência humana. Possuía uma ordem religiosa. Certos acontecimentos mereciam ser recordados porque remetiam o homem a uma realidade superior à sua própria existência. A festa suspendia o ritmo ordinário da vida para lembrar que o trabalho, a necessidade material e as preocupações imediatas não esgotavam a existência humana.

A secularização alterou pouco a pouco essa compreensão. À medida que a cultura europeia perdeu sua unidade religiosa, o calendário civil ganhou autonomia e começou a organizar a memória coletiva segundo outros critérios. O homem, a nação, o Estado, a revolução, o progresso e, mais tarde, as inúmeras identidades sociais passaram a fornecer novos motivos de celebração. O calendário deixou de remeter  ao transcendente e voltou-se cada vez mais para realidades humanas.

A Revolução Francesa oferece talvez o exemplo mais eloquente dessa transformação. A criação do calendário revolucionário não pretendia apenas modificar os nomes dos meses ou a contagem dos dias. Pretendia modificar a própria memória social. Novas datas, novos símbolos, novos ritos e novas personagens deveriam educar o cidadão de uma sociedade que procurava desvincular sua vida pública da antiga ordem cristã. Não bastava derrubar instituições. Era necessário ensinar o homem a recordar outras coisas e a celebrá-las de outra maneira.

A secularização do calendário, contudo, não nasceu em 1789. A Revolução tornou explícita uma transformação que vinha de longe e que prosseguiria depois dela. O calendário civil converteu-se  em instrumento de educação social. Por meio dele, cada sociedade ensina o que merece ser lembrado, quem merece ser admirado e quais valores devem receber reconhecimento público.


Existe, nesse aspecto, certa semelhança entre a festa de um santo e a comemoração de um herói nacional. Ambas preservam uma memória e apresentam uma vida como exemplo. A diferença está no fundamento da homenagem. O santo não vale como medida última da grandeza humana. Sua grandeza aponta para além dele próprio. O herói secular, ao contrário, pode acabar celebrado por aquilo que realizou segundo os valores estabelecidos pela própria sociedade. Em um caso, a vida exemplar remete a uma ordem transcendente; no outro, a própria comunidade humana tende a estabelecer a medida segundo a qual julga seus grandes homens.

Isso não torna ilegítima toda comemoração cívica. A gratidão pela pátria, a memória dos antepassados e a homenagem àqueles que serviram ao bem comum pertencem naturalmente à vida social. O problema surge quando a nação, o Estado, a revolução ou seus heróis recebem atributos que antes pertenciam ao sagrado. A política adquire então feições de religião civil, com seus mártires, seus ritos, seus símbolos, suas datas solenes e até suas formas próprias de ortodoxia.

A secularização da festa encontrou no comércio um poderoso aliado. Seria erro, contudo, atribuir ao comércio a origem do problema ou considerar incompatíveis a festa e os bens materiais. Comer melhor em um dia festivo, oferecer presentes, ornamentar a casa, comprar flores, preparar alimentos tradicionais ou reunir a família ao redor de uma mesa são práticas antigas e perfeitamente conformes à natureza da celebração. O homem não festeja apenas com o espírito. Festeja também com o corpo, com a comida, com a música, com a beleza e com a companhia dos outros.

A inversão aparece quando essas coisas deixam de servir à festa e passam a lhe fornecer o significado. O presente, que deveria expressar afeição, transforma-se em obrigação de compra. O chocolate deixa de acompanhar a Páscoa e passa a ocupar o lugar da própria Páscoa. O Natal, em vez de anunciar o nascimento de Cristo, converte-se em uma temporada de vendas, ornamentação e confraternização cujo motivo original mal precisa ser mencionado. Conservam-se as luzes, a ceia, os presentes e a árvore, enquanto se torna possível retirar da celebração justamente o acontecimento que lhe deu origem.

Há uma diferença considerável entre comercializar elementos de uma festa e comercializar a própria festa. No primeiro caso, o mercado fornece bens que ajudam a celebrá-la. No segundo, ele passa a fabricar seu conteúdo. A pergunta mais simples talvez seja também a mais esclarecedora: o objeto serve à celebração ou toma o lugar dela?

As comemorações dedicadas aos pais, às mães, aos namorados e a outras relações humanas devem ser examinadas sob o mesmo critério. Paternidade, maternidade, amizade e amor conjugal são bens humanos verdadeiros. Nada impede que recebam homenagem pública. A secularização começa quando essas realidades são separadas da ordem que lhes dá sentido e reduzidas ao sentimento, à homenagem convencional ou ao consumo.

A paternidade pode ser recordada como responsabilidade, proteção, autoridade e transmissão da vida. A maternidade pode ser celebrada como acolhimento, cuidado, sacrifício e serviço à vida. O amor entre homem e mulher pode ser compreendido como doação, fidelidade e preparação para uma comunhão duradoura. Quando esse conteúdo desaparece, resta com facilidade uma data comercial que manda comprar alguma coisa para demonstrar um afeto cuja natureza já não se sabe explicar.

Por essa razão, a recuperação cristã dessas festas não exige necessariamente sua supressão. Pode ocorrer pela restituição de seu conteúdo. Uma comemoração familiar pode tornar-se ocasião de gratidão, oração, reconciliação, convivência, cuidado dos idosos e auxílio aos necessitados. Aquilo que o comércio apresenta como oportunidade de compra pode ser reconduzido àquilo que a festa deveria ser: oportunidade de encontro e gratuidade.

Seria incompleto, entretanto, atribuir toda a secularização a forças exteriores à religião. Uma festa pode conservar o nome cristão, seus símbolos tradicionais e até algumas de suas cerimônias, e ainda assim perder a substância religiosa que lhe deu origem. Uma festa de padroeiro pode reunir procissão, música, barracas, comida e grande participação popular e acabar reduzida a acontecimento social. O Natal pode conservar o presépio como decoração. A festa junina pode guardar o nome dos santos e esquecer inteiramente quem foram eles. A procissão pode sobreviver como folclore depois de desaparecer a disposição interior que lhe dava sentido.

A festa cristã reúne, portanto, três ordens que precisam permanecer unidas. A primeira dirige o homem para Deus e para os mistérios da salvação. A segunda reúne a comunidade, fortalece a família e conserva a memória comum. A terceira acolhe os bens materiais próprios da alegria humana: comida, descanso, música, presentes, beleza e convivência. Nada há de impróprio nessa dimensão material. A desordem começa quando ela se emancipa das outras e pretende bastar a si mesma.

O problema da festa moderna pode ser compreendido, assim, como um problema de ordem. Não foi necessário destruir todas as antigas celebrações. Em muitos casos, bastou conservar suas formas e mudar seu centro. O transcendente cedeu lugar ao humano; a memória religiosa, à memória civil; a gratuidade, ao consumo; a veneração, à admiração; a comunidade de fé, ao público consumidor. A festa continuou existindo, porém passou a ensinar outra coisa.

Recuperar seu sentido não exige hostilidade à alegria, ao comércio ou às comemorações civis. Exige recolocar cada coisa em seu lugar. O presente pode servir ao amor, a refeição pode servir à comunhão, a música pode servir à alegria, o descanso pode devolver ao homem a consciência de que sua existência não se reduz ao trabalho. Até uma data nascida do comércio pode receber conteúdo mais elevado quando deixa de ser ocasião para comprar e se torna ocasião para agradecer.

A questão, portanto, não está em saber se há presentes, comida, música ou dinheiro envolvidos em uma celebração. Está em saber o que se celebra e por que se celebra. Uma sociedade revela muito de si pelas festas que conserva e pelas que cria. Quando o calendário se ordena em torno de Deus, o tempo recorda ao homem que sua vida possui origem e fim que o transcendem. Quando o próprio homem passa a ocupar o centro, suas realizações, afetos, identidades e desejos tornam-se matéria suficiente para a celebração. E quando o mercado se apropria desse vazio, a festa corre o risco de chegar ao seu último estágio de secularização: deixa de celebrar algo para transformar-se, ela própria, em mercadoria.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

TRÂNSITO DE SÃO DOMINGOS

Basílica de São Domingos em Bolonha
Basílica de São Domingos em Bolonha

CUMPRE, Ó PAI, O QUE DISSESTE


Em 1221, numa sexta-feira, 6 de agosto, duma cela do convento dominicano de Bolonha voava para o Céu a alma de São Domingos de Gusmão, o homem que, segundo palavras do Eterno Pai a Santa Catarina de Sena, foi o mais parecido com o Filho de Deus encarnado, na sua alma, no seu corpo e nas suas obras.
 
Nasceu em Caleruega, uma pequena aldeia da Província de Burgos e Diocese de Osma, no dia 24 de junho de 1170, dia da festa de São João Batista, a quem tão de perto viria a imitar no seu longo e fecundo apostolado.
 
A sua família era das mais distintas e ilustres do reino. Filho de pais santos, superou, em ciência e santidade, todos os seus familiares. Aos 14 anos ingressou na Universidade de Palência, sendo considerado, entre os estudantes, um autêntico anjo pela pureza do seu coração e penetração da sua inteligência.
 
Cedo começou a revelar o seu amor aos irmãos carentes, física e espiritualmente, e total desprendimento dos bens terrenos. Um dia, ao verificar os horríveis efeitos da fome por que passavam os pobres, consequência duma prolongada seca, para os poder socorrer vende tudo o que possui, até os preciosos códices por onde estudava, dizendo: "Não quero peles mortas, quando vejo morrer as vivas" [os livros eram feitos de peles de animais]. Outra vez, ao ver uma mulher chorar amargamente por um seu irmão cativo dos mouros, e sem meios para o resgatar, oferece-se para ficar no lugar do prisioneiro e, deste modo, o libertar do cativeiro.
 
Concluídos os estudos, Domingos transfere-se para Osma e ali é eleito arcediago da catedral. Em 1203 acompanha o seu bispo numa longa viagem até à Dinamarca, ao serviço do rei Afonso IX de Leão. Nessa viagem, toma contato direto com a heresia albigense. Em Tolouse, na hospedaria em que pernoitam, Domingos passa toda a noite a disputar com o proprietário da hospedaria, herético fanático, e leva-o a abraçar a verdadeira fé. Este acontecimento constitui um marco decisivo na sua vida: na ânsia de salvar almas, da Dinamarca segue para Roma a fim de obter do Papa autorização para se dedicar à evangelização dos cumanos. Inocêncio III, porém, preferiu confiar-lhe a conversão dos albigenses que assolavam sobretudo o sul da França.
 
Aqui começa a ingente e frutuosíssima gesta apostólica de Domingos. Com a sua alegre e doutrinal pregação, rapidamente conquista a simpatia de alguns jovens universitários que aderem ao seu sublime ideal de conquistar almas para Deus. Rodeado de uma plêiade de virtuosos e cultos sacerdotes, ardendo em vivos desejos de participarem em tão santa cruzada, funda a Ordem dos Pregadores, confirmada oficialmente pelo Papa Honório III, com a Bula 'Religiosam Vitam', de 22 de dezembro de 1216.

Domingos e seus filhos "empreenderam viva luta contra os erros e contra os vícios que ao tempo dizimavam o rebanho de Cristo. A vida de São Domingos é de uma operosidade que raia pelo inverossímil: pregando, percorreu, sempre a pé, a Espanha, a França e a Itália; fundou numerosos conventos para homens e mulheres. Deus honrou-o com o dom das profecias e milagres". E, segundo uma tradição imemorial, da Santíssima Virgem, de quem era profundo devoto, numa ermida a ela dedicada, terá recebido a revelação do Rosário; não, é claro, como a praticamos hoje, mas na sua gênese.

São Domingos tinha também uma extraordinária devoção a Jesus Eucarístico. Dificilmente se encontrará um adorador noturno que, como ele, tenha passado tantas horas junto do sacrário, desde o crepúsculo até o amanhecer, orando em variadas e expressivas atitudes: ora de joelhos, ora de pé, com os braços em cruz ou de mãos juntas elevadas para o céu; outras vezes todo prostrado no pavimento da igreja.

Após uma vida tão laboriosa e cheia, Domingos, esgotado pelo trabalho, pelo calor do verão e pela febre, ele, que nunca quis dormir numa cama, nem sequer num simples colchão, viu-se forçado a deitar-se numa pobre enxerga de palha, no convento de Bolonha. Conheceu, então, que chegara a hora de receber o merecido "salário" do seu imenso labor na vinha do Senhor. Com São Paulo, podia dizer confiadamente: "Avizinha-se o tempo da minha libertação. Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora já me aguarda a merecida coroa, que me entregará o Senhor, justo juiz... O Senhor esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse proclamada" (2 Tm 4, 6-8.17).

"Humilde até à ultima hora, fez confissão geral diante dos irmãos presentes", deixando todos edificados, porque nunca perdera a inocência batismal; pediu o sacramento da unção dos enfermos e o santo viático e, de seguida, que os irmãos se preparassem para a encomendação da alma. Todos se ajoelharam para iniciar as ladainhas, mas Domingos pediu-lhes que esperassem um pouco e começou a falar-lhes como Jesus aos seus discípulos na última Ceia: "Amai-vos uns aos outros, sede humildes, pobres e puros. Deixo-vos este testamento e esta herança com a bênção de Deus e a minha".

Chorando, Frei Ventura aproximou-se dele e disse-lhe: "Pai, vede como nos deixais a todos consternados e órfãos. Lembrai-vos de nós quando estiverdes na glória de Deus". São Domingos levantou os olhos para o céu, juntou as mãos, rezou e, voltando-se para os seus filhos angustiados, disse-lhes: "Espero no Senhor que depois de morto vos serei mais útil do que em vida. Não vos esquecerei, levo-vos no coração. No céu ajudar-vos-ei mais do que aqui". E, momentos depois, a sua santa alma voava para Deus. "Ao amortalhá-lho, tiraram a cadeia de ferro que lhe cingia o corpo e com que se disciplinava".

Domingos foi canonizado por Gregório IX a 13 de junho de 1234. A sua festa litúrgica celebra-se a 8 de agosto.

Desde que a trasladação das suas relíquias se fez numa terça-feira (24 de maio de 1232), este dia ficou, na Ordem Dominicana, consagrado ao Santo Patriarca.

Deus de ternura e compaixão, que suscitaste em Domingos o pregador do teu Evangelho de misericórdia, Evangelho da plenitude da justiça, e o levaste a construir uma família que, em obras e palavras, testemunhasse a gratuidade do teu amor, ajuda-nos a encontrar o silêncio donde saia a palavra que alumie de esperança a nossa noite e o gesto que nos traga uma paz ardente.

Faz do Espírito de Jesus Cristo a graça da nossa vida. Amém.


Fonte: Novena a S. Domingos. Editorial Apostolado do Rosário. 2. ed. actualizada. Fátima. 2006.

Distribuidor: Secretariado Nacional do Rosário. Padres Dominicanos.
                    Rua de São Domingos s/n - 2495-431 FÁTIMA
                    E-mail: snrosario@clix.pt
 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

ANTIGAMENTE CALAVAM-SE...

Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: "Meu caro C. me diga uma coisa: a Igreja antigamente era ou não era uma coisa muito inteligente?"

Ia responder-lhe com ênfase: "Era!" Mas enquanto vacilei alguns segundos meu amigo desenvolveu a idéia: "Olhe aqui. Eu bem sei que antigamente existiam padres simplórios, freiras tapadíssimas, leigos ainda mais simplórios e tapados. A burrice não é novidade, é antiqüíssima. Garanto-lhe que ao lado do artista genial que pintava touros nas cavernas de Espanha, anunciando há quarenta mil anos a brava raça de toureiros, havia dois ou três idiotas a acharem malfeita a pintura.

 — Mas, calavam-se, disse eu. 

E logo o meu amigo uivou uma exclamação que trazia na composição harmônica de suas vibrações todas as explosões da alma: a alegria, a angústia, a aflição de convencer, a tristeza de um bem perdido e até a cólera...

— Pois é! CALAAAVAM-SE!!! 

Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezenove anos, e meu herói dezessete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu "explicador" de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor.

 Recomeçava eu a explicar certo problema quando ele, numa decisão brusca, me deteve e suplicou:

 — Explica devagar, devagarzinho, porque eu sou burro.

 Na outra ponta do fio meu amigo de hoje explodiu:

 — Que gênio! QUE GÊNIO!!

 Era efetivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui sua trajetória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e portanto intelectual. O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum fator ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes. Já ouvi e li muitas vezes o termo "mutação" surrupiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo "um mundo em mutação".

 Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles. Será genético o fenômeno e por conseguinte transmissível?

 — "Receio muito", gemeu a voz de meu amigo, "você não leu os jornais da semana passada?"

 — O quê? — perguntei com a aflição já engatilhada.

 — A descoberta do capim!

 Não tinha lido tão importante notícia, e o meu amigo explicou-me: um sábio, creio que dinamarquês, chegou à conclusão de que o capim é um dos melhores alimentos do homem. Meu amigo não me explicou se se tratava do 'Homo Sapiens', do 'Everlasting Man', de Chesterton, ou do 'Homo postconciliarius'. Seja como for, dentro de quatro ou cinco anos teremos a humanidade de quatro e espalhada nos pastos.

 * * *

 Estas reflexões amaríssimas, como diria o "agregado" de Machado de Assis, vieram-me hoje ao espírito depois da leitura de "La Documentation Catholique", e principalmente depois da casual leitura de um volume encontrado entre outros livros de vinte anos atrás: "O personalismo", de Emmanuel Mounier.

 Nunca lera nada desse personagem que fundou a revista "Esprit" e que fez escola. Abri à página 42 da tradução editada pela Livraria Duas Cidades e li: "O homem é um ser natural". Detenho-me nesta proposição seguida desta outra: "Será somente um ser natural?" E depois: "Será, inteiramente, um joguete da natureza?" Ora, é fácil de ver que nenhuma dessas proposições tem sentido, e nenhuma conexão se percebe entre elas. Ou então, se o leitor quiser ser mais exato, diremos que todo aquele fraseado joga com a polivalência de termos equívocos pretendendo com essa confusão transmitir ao desavisado adepto do "personalismo" um sentimento de profundidade ou de rara acuidade. O que quer dizer "um ser natural"? Dotado de natureza própria todos os seres o são, desde o átomo de hidrogênio até Deus. Tenho diante dos olhos o dorso de um livro de Garrigou-Lagrange: "Dieu, son existance et sa nature". Logo, Deus é um ser natural. Se por natural se entende tudo o que pertence ao universo criado, todos os seres, exceto o Incriado, serão seres naturais: a água, um gato, São Miguel Arcanjo. Se o termo natural se contrapõe a artificial, todos nós sabemos que um homem não é montado como um rádio de pilha, ou como uma máquina de costura. Logo, é um ser natural. Mas não se entende por que razão foi preciso fundar "Esprit", lançar o progressismo, atirar-se nos braços do comunismo, comprometer Jacques Maritain, excitar tanta gente em torno de tão óbvia proposição.

 Emmanuel Mounier já morreu coberto de glória há mais de dez anos. Podemos tranqüilamente dizer que era 'burro', apesar de tudo o que foi escrito em francês a seu respeito, como já podemos dizer tranqüilamente que Teilhard de Chardin era meio tantã. Dentro de cinqüenta anos ninguém mais saberá em que consistiu o "personalismo" de Mounier, ou o "phenomène humain" de Teilhard de Chardin. Essas obras foram o consolo e a volúpia de muitos leitores que, não entendendo nada do que liam, ao menos se aliviavam com este pensamento balsâmico: todos os livros são escritos para ninguém entender. E assim os idiotas do mundo tiveram um decênio ou dois de júbilo.

 Passarão esses autores, mas se é verdadeira a descoberta das propriedades do capim, muitos novos autores surgirão a perguntar "se o homem é um ser natural". Já se ouve o tropel... Mas — quem sabe — talvez o próprio capim, entre suas virtudes estudadas em Estocolmo ou Copenhague, entre duas pornôs, traga uma espécie de calmante que nos devolva o genial tipo clássico do burro que se conhecia e que não fundava revistas católicas nem rasgava novos horizontes para a Igreja.

 

(Gustavo Corção. "O Globo", 22/08/70. Crônica encontrada também no livro "Conversa em sol menor")


terça-feira, 11 de março de 2025

A IMPORTÂNCIA DA HUMILDADE NO SERVIÇO DE DEUS

Caros amigos, foi-me pedido para falar sobre a importância da humildade no serviço a Deus. Mas sendo a humildade uma virtude tão essencial, tão basilar, peço licença para tratar dela de um modo mais amplo. Acredito que podemos refletir sobre a importância da humildade na vida espiritual de todo o cristão. A observação que eu faria é que os que estão no serviço de Deus, os que são consagrados a Deus de alguma forma, devem ser ainda mais humildes do que os outros, para receberem mais graça, correspondendo à sua missão, porque serão mais tentados.

Não somos pelagianos. O pelagianismo foi uma heresia, combatida por Santo Agostinho, que dizia que podemos progredir moralmente, progredir na vida espiritual, sem o auxílio da graça de Deus, por nosso próprio esforço. Isso é impossível! Na verdade, não há vida espiritual sem humildade. Assim como o orgulho é a raiz, é a origem, é o princípio de todo pecado, causa da queda de Satanás e dos nossos primeiros pais, a humildade, sua virtude contrária, é a base, o fundamento da vida espiritual: é o alicerce de todas as outras virtudes.

A palavra “humildade” vem de “húmus”, que quer dizer terra. Ela significa que devemos nos inclinar para a terra, reconhecendo que somos feitos de pó.

Dizem os autores espirituais que as virtudes são como os dedos das mãos; estão interligadas. Quando uma virtude cresce, todas as outras crescem juntas, como os dedos de uma mão, que ficaria deformada se um dedo crescesse sozinho. Se não crescemos na humildade, não crescemos verdadeiramente nas outras virtudes.

Foi pelo orgulho que Lúcifer, de mais alto dos anjos, tornou-se o pior dos demônios. Foi pelo orgulho dos nossos primeiros pais, querendo tornar-se iguais a Deus, que o pecado, a morte, a dor, as doenças físicas e espirituais entraram no mundo, como também ocorreu para os seres humanos a perda dos dons preternaturais, isto é, que estão acima da natureza humana, como o da ciência infusa e o domínio das paixões, além da imortalidade e impassibilidade já aludidas.

O orgulho é como uma venda posta nos olhos da alma. É uma falsidade que impede de contemplar a Deus. É uma visão distorcida e aumentada das nossas qualidades e dos defeitos dos outros. Lúcifer, sendo mera criatura e, como tal, sendo infinitamente inferior a Deus, encantou-se consigo mesmo, julgou-se infinitamente melhor do que era, quis ser igual a Deus e disse: “não servirei [a Deus]”. O que levou o humilde Miguel a dizer: “Quem é como Deus?” Como o orgulho é uma visão falsa da realidade, Deus não revela os seus segredos aos soberbos, mas aos que se fazem pequeninos, os humildes.

Assim, nós percebemos quanta razão tinha Santa Teresa de Jesus quando fazia, no Caminho de Perfeição, a sua célebre definição: “a humildade é a verdade”. Em outras palavras, a humildade é uma visão correta, verdadeira, da grandeza de Deus e do nosso nada. Devemos nos lembrar sempre de que Deus, que é tudo e é fonte de tudo, nos criou do nada e nos mantém constantemente no ser, na existência. Se não fosse assim, voltaríamos ao nada. Muitos erroneamente pensam que Deus nos criou e depois não faz mais nada. Não é assim. Ele nos conserva continuamente no ser, na existência. Não fosse assim, voltaríamos ao nada de onde viemos. É o que nos ensina Santo Tomás.

Um dos escritores de que eu mais gosto é Fiódor Dostoiévski. Ele é famoso por conhecer profundamente a alma humana, a psicologia humana. Ele é um fino psicólogo. Esse grande autor conseguia descrever com muita precisão e coerência os perfis psicológicos de seus personagens. E uma das coisas que eu mais gostei de ler em seus livros é a descrição que ele faz de alguns personagens: “fazia uma ideia exagerada das próprias virtudes e qualidades”. Isso chama-se orgulho. É o oposto da humildade.

A humildade, ao contrário do que muitos pensam, não é uma ideia exagerada dos próprios defeitos, ou diminuída das próprias virtudes. A humildade, como diz a grande Reformadora do Carmelo, é a verdade. Bem por isso, São Paulo pôde dizer, mantendo a humildade: “combati o bom combate. Completei a carreira. Guardei a fé. Sou o último dos apóstolos, nem mereço ser chamado apóstolo, mas trabalhei mais do que todos”. A humildade, repito, é a verdade.

Vejamos a excelência da humildade. Eu diria que é a virtude que mais atrai a Deus. Ele escolheu para serem seus pais as duas pessoas mais humildes da história, Maria e José.

Para resgatar a humanidade, Deus seguiu o caminho inverso do que homem seguiu para pecar. O homem caiu pelo orgulho. Deus nos resgatou, nos elevou pela humildade. E a renovação da obra de Deus é superior à inocência original do homem.

O homem pecou querendo tornar-se igual a Deus. Deus nos salvou fazendo-se homem, rebaixando-se. O rebaixamento de Deus é muito maior do que um homem tornar-se um verme, pois entre Deus e nós há uma distância infinita, que não há entre o homem e um verme.

Um anjo apareceu a Eva convidando-a a desobedecer a Deus e a levar Adão a se tornar como Deus. Um anjo apareceu a Maria, convidando-a a obedecer a Deus, ajudando o Novo Adão, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a rebaixar-se, fazendo-se homem. Ela deu à humanidade o verdadeiro fruto da árvore da Ciência do Bem e do Mal.

Ao encarnar-se, humilhando-se Ele mesmo em primeiro lugar, Deus escolheu os santos mais humildes para serem seus pais: José e Maria. Eles devem ser o nosso modelo. Reparemos como eles não fazem nada para aparecer, para se distinguir, para singularizar-se. Os autores espirituais criticam fortemente a singularidade. Assim devemos ser: discretos, sem chamar a atenção, sem piedades chamativas, preferindo as devoções mais comuns do que as mais chamativas e especiais.

Só Cristo pode dizer de Si mesmo: “aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. Todos os que dizem ser humildes ou que querem ser louvados por sua humildade são orgulhosos refinados, disfarçados, de um orgulho ainda mais perverso. Quando uma pessoa se considera humilde, no mesmo instante perdeu a humildade, e o seu edifício espiritual desaba.

Conta-se que Dom Bosco teve uma visão ou sonho sobrenatural em que ele via os demônios debatendo no inferno sobre como tentariam seus filhos espirituais do Oratório Festivo. Eles examinaram vários pontos, concluindo que por estes fracassariam. Finalmente resolveram tentar os meninos pela soberba. E Dom Bosco despertou assustado...

São Francisco de Sales possui uma máxima muito interessante. Ele diz que não existe pessoa casta que não seja humilde. Esse grande doutor da Igreja entende impossível existir um orgulhoso casto, porque Deus se afasta e permite que o orgulhoso caia nos pecados mais vergonhosos, para abater e corrigir o seu orgulho.

Vejamos como é interessante o que Jesus falou: seu coração é manso e humilde. A humildade e a mansidão são virtudes conexas. Os orgulhosos são impacientes, são violentos. Quantas brigas de trânsito por impaciência, por orgulho, por pequenas bagatelas! Quanta intolerância quanto aos defeitos dos outros! Quanta falta de respeito à dignidade e ao direito dos outros! O orgulhoso não tolera os defeitos dos outros, mas é condescendente com os próprios. A maioria das brigas de trânsito se dá por orgulho: orgulho e violência. Foi por orgulho que Caim, ciumento, matou Abel. O diabo é homicida desde o princípio.

Já tive oportunidade de dizer que as virtudes morais podem ser adquiridas ou infusas. Só possui as virtudes morais infusas quem está em estado de graça. As virtudes morais adquiridas são instáveis e não estão conectadas umas às outras, às virtudes vizinhas. Para ter uma verdadeira humildade, a pessoa precisa estar em estado de graça e possuir a virtude moral infusa da humildade, que é uma subespécie da temperança, assim como a mansidão e a castidade. A temperança está ligada ainda ao dom do Espírito Santo do Temor de Deus. Somente quem está em estado de graça possui os dons do Espírito Santo. Eis as conexões todas da virtude moral da humildade em quem está saudável espiritualmente.

Só é humilde quem ama a humilhação, quem aceita ser humilhado, quem reconhece que, por seus pecados, todo desprezo e humilhação do mundo são pouco. Há indivíduos que gostam de se fazerem de humildes, de falar mal de si mesmos para serem corrigidos ou elogiados, mas não suportam ser criticados pelos outros, só por si mesmos. Também não toleram os defeitos dos outros, são intransigentes com os defeitos alheios. Isso é falta de humildade e refinada soberba.

Para pôr concretamente em prática a humildade eu recomendo o livro do Papa Leão XIII, “A prática da humildade”. Quantas lições preciosas há nesse livro! Uma das medidas que ele mais recomenda é evitar toda singularidade. Devemos procurar sumir na multidão, não chamar atenção para nada, estar mais abertos a aprender do que a ensinar, nunca adotar ares professorais, exalando autoridade. Há muitas outras lições práticas nesse livro, que eu gostaria de recomendar muito!


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

20 DE FEVEREIRO: ANIVERSÁRIO DA ELEIÇÃO DE LEÃO XIII

Gioacchino Pecci, que depois tomou o nome de Leão XIII, foi um dos maiores e mais completos papas da história. Com maestria, preparou a Igreja para o século XX e para os problemas que antevira com genial intuição e precisão. Não é de admirar que um papa tão bem dotado e completo, tão equilibrado em todos os sentidos, tenha atuado em todos os campos possíveis: espiritual, social, político e filosófico. O mesmo papa que ressuscitou Santo Tomás de Aquino, na Encíclica 'Aeterni Patris' (1879), despertando intelectuais do mundo inteiro para o tomismo, seguindo-se uma avalanche de conversões em todas as partes, é chamado o Papa do Rosário, pois escreveu mais de quinze documentos sobre o rosário, sendo quase uma dezena de encíclicas sobre este tema.

Foi o Papa Leão XIII que redigiu as famosas orações a São Miguel Arcanjo e a São José, confiando a eles a proteção da Igreja nos tempos que viriam. Foi ele que fundou a Doutrina Social da Igreja, com a celebérrima encíclica "Rerum Novarum" ('Das coisas novas'), condenando as injustiças da sociedade industrial e do liberalismo, dando origem ao Direito do Trabalho. Não há Manual de Direito do Trabalho que não cite a "Rerum Novarum" como uma das fontes desse ramo do direito.

Muito tempo antes da teologia da libertação, que arrota sua falsa preocupação pelo pobres, o Papa Leão XIII praticamente criou, inaugurou, o Direito do Trabalho.

Quando fora bispo de Perugia, Gioacchino Pecci chegou a fundar um banco para oferecer empréstimos aos pobres com juros irrisórios. Eis, pois, um grandíssimo papa, de cuja grandeza talvez não tenhamos consciência!

Pois esse mesmo sucessor de Pedro quis lançar os fundamentos de tudo, quis começar pelo princípio de tudo, aprofundando-se na indispensável virtude da humildade. Quando bispo em Perugia, Gioacchino Pecci mandou publicar um livro intitulado "A prática da humildade". Deste precioso livro, que se acredita ser de sua autoria, ou pelo menos ter sido por ele coligido e organizado, com base em opúsculo da época, colhem-se preciosas informações sobre a vida do Papa Leão XIII. Cito a preciosa edição da Cultor de Livros, em parceria com a Editora Cléofas.

"O futuro Papa Leão XIII nasceu com o nome de Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci no dia 2 de março de 1810, em Carpineto Romano, município a 60 km de Roma e na época possessão francesa. Foi o sexto de sete filhos, e os seus pais, os condes Ludovico Pecci e Anna Prosperi Buzzi descendiam de uma estirpe nobre com raízes em Siena. Embora não fossem pobres, a casa já havia visto dias mais gloriosos. O catolicismo, no entanto, permanecia vivo no seio da família, e os pais de Gioacchino não tiveram dúvidas em confiar a educação do filho aos jesuítas do colégio de Viterbo e, mais tarde, em Roma.

Sem dúvida, foram os jesuítas a despertar no jovem o amor pela lógica e pelas humanidades e a preferência pela teologia de Santo Tomás de Aquino, que já como Leão XIII fizera tanto por restabelecer com sua encíclica 'Aeterni Patris' (1879). Foi ainda durante os seus anos de estudo que Gioacchino sentira a vocação para o sacerdócio. Apesar dos anos de convivência com os jesuítas e do fato de seu próprio irmão, Giuseppe, ser membro da ordem [da companhia], o jovem viu que seu caminho era outro: entrou no seminário de Viterbo e foi ordenado sacerdote diocesano em 1837.

O gênio de Gioacchino permitiu que conciliasse os estudos eclesiásticos com o Direito e a Diplomacia. A fama de seu talento espalhara-se entre os cardeais da Igreja. Depois de um cargo de administrador na diocese de Roma, o jovem sacerdote foi enviado já em 1843 à Bélgica para exercer o cargo de núncio. Lá, fez-se querido pelo povo graças à sua habilidade diplomática, à sua bondade e à sua constante preocupação pelos problemas dos mais necessitados naqueles tempos confusos na Europa.

[...]

No dia 20 de fevereiro do mesmo ano [1878], Leão XIII saiu eleito o 256.o papa da Igreja Católica. Já bem entrado em anos - contava com quase setenta - poucos talvez pudessem prever que lideraria a Igreja de maneira sábia e firme por 24 anos (o terceiro maior pontificado da história; atrás do seu predecessor Pio XI e do Papa João Paulo II)." (Gioacchino Pecci, Leão XIII, "A prática da humildade", trecho sobre o autor)

Louvemos e bendigamos a Deus pelo extraordinário dom que foi e continua sendo para a Igreja e para o mundo o imenso Papa Leão XIII!


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

O NOBRE JOGO DE XADREZ (GUSTAVO CORÇÃO)

Quando despedi-me do Viana senti que carregava um vago sentimento de culpa. Então, enquanto transcorria na Islândia a disputa do campeonato do mundo, entre um americano e um soviético, como podia eu andar pelas ruas ruminando ideias alheias aos reis, damas, cavalheiros e bispos do xadrez? Corri ao jornaleiro, na ânsia de me inserir no momento histórico enxadrístico.

O leitor, apesar do retrato exageradamente desatualizado que publicam, certamente sabe que sou mais velho do que este agonizante e desvairado século; mas talvez não saiba que uma das minhas muitas e ardentes paixões foi o nobre jogo de xadrez. E aqui repito a ênfase do título, em homenagem ao autor do primeiro livro em que estudei, aos treze ou catorze anos, os rudimentos do jogo que François André Danican-Philidor sempre chamava de ‘le noble jeu d’echecs’. Como em geral se começam todas as coisas, comecei em casa vencendo mãe, padrasto, irmãos e agregados. Depois, já na Escola Politécnica, descobri o Clube de Engenharia e conheci os mestres da época: Caldas Viana, Raul de Castro, Barbosa de Oliveira, cujos sestros nos levaram a dizer que ele rocava os olhos, e João Mendes Júnior que me ajudou a galgar os primeiros degraus da carreira. Cheguei a jogar sem partido com a primeira turma, e por volta de 1920, se não me falha a memória, teria sido campeão do Brasil se não tivesse abandonado um torneio em que já tinha quinze vitórias sem nenhuma derrota. Justamente quando já poderia dizer, como Corregio, ‘anch’io sono pittore’, isto é, enxadrista, deixei o xadrez e o clube. Ouvi nestes dias várias histórias das explosões temperamentais de Bob Fischer, que me parecem mais humanas do que a gélida placidez do adversário soviético que, antes de qualquer manifestação de mau humor, tem de consultar Moscou.

O leitor, se não é enxadrista, talvez não saiba que o nobre xadrez é o mais apaixonante e enervante de todos os jogos. Poderíamos encher uma biblioteca com enciclopédias de agastamentos, reclamações e brigas em torno desse jogo aparentemente inventado por e para homens fleumáticos.

E explica-se bem a força de exasperação escondida naquelas figuras imóveis, e naqueles jogadores de fisionomias impenetráveis. O xadrez é o único jogo onde cada um joga numa total solidão, e não pode contar com nenhum fator de sorte, a não ser num eventual e discreto derrame no parceiro. O próprio jogo, em si mesmo, é o menos físico dos jogos, o menos aleatório. Cada jogador é senhor absoluto de suas peças. É uma espécie de deus defrontado por outro deus. E não há, para o homem, situação mais inconfortável. A vida, a larga e espaçosa vida, nos seus piores momentos sempre nos proporciona ao menos esta saída: a de responsabilizar o irmão, a mulher, o sogro, o vizinho e as coisas irracionais, e até as inanimadas, por nossos insucessos. A culpa é de... e por esta fresta descarregamos nossas tensões internas.

O xadrez não permite esse bálsamo. Implacavelmente sou eu mesmo, dentro de todo o universo, o único culpado de ter jogado o lance incorreto C5B em vez de B3C. Não posso culpar ninguém, não posso queixar-me de nada. Não posso sequer insinuar uma perfídia. Nada. Implacavelmente, o tabuleiro de xadrez me acorrenta na solidão total de uma derrota tecida por minhas próprias mãos.

Além disso, como se não bastasse tal peculiaridade, o jogo de xadrez exige do bom jogador uma atitude ainda mas tensa e mais dificilmente tolerável: diante de suas peças arrumadas na posição inicial o jogador deve defender-se de qualquer desejo próximo de ganhar. Ele deverá começar seu jogo: P4D, C3BR etc. etc... sem o menor desejo de ganhar. Que objetivo têm então os lances do jogador? Simplesmente o de potencializar as peças em seu conjunto posicional. Ele joga sempre com esse único e depurado objetivo, até perceber que o adversário, no seu desenvolvimento, produziu um ponto fraco, indicador de todo um plano errôneo, ou isoladamente fraco. Deste momento em diante o jogador deixa de ser um organizador, um capitalizador, e se transforma num lutador, ou num caçador que, com crueldade crescente, persegue a fraqueza, para transformá-la em ruína total do inimigo. Paralelamente, e na mesma proporção que cresce a agressividade do jogador que sente os pontos fracos do adversário, cresce neste a convergência de todos os esforços na neutralização daquela ferida. Um quer matar, o outro quer sobreviver. E, em torno de um tabuleiro com bonequinhos de madeira, dois homens feitos à imagem e semelhança de Deus realizam a máxima concentração de desejo e atenção, como se ali, naquele momento, estivessem em jogo a honra, a saúde, a felicidade e a vida eterna.

O jogo de xadrez é uma experiência que nos permite aquilatar a terrível e maravilhosa capacidade que tem o homem de buscar a perfeição máxima numa coisa evidentemente irrelevante. Será uma loucura o que fazem Fischer e Spassky na Islândia? Não. A seu modo, e em estilo desconcertante, ambos glorificam o homem, e por conseguinte glorificam a Deus.

 

(Gustavo Corção, crônica encontrada no livro "Conversa em sol menor")


terça-feira, 27 de agosto de 2024

SANTA MÔNICA

No dia 27 de agosto, a Igreja comemora a Festa de Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho.

A essa santa mulher, às suas insistentes orações, devemos esse grande dom que foi, para a Igreja e para a humanidade, Santo Agostinho, que influenciou e ainda influencia incrivelmente a Civilização Ocidental.

Sejamos agradecidos à Santa Mônica. E que ela interceda por nós, pela nossa conversão e por todos os psicólogos, no seu dia.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

'LIVE' SOBRE O SÉCULO DO NADA

Caro leitor, tive a honra de ser convidado pelo "Cultura e Fé Católica" para uma 'live' sobre o último livro escrito pelo Corção, por sinal, um livraço!, que analisa com pormenores, erudição e profundidade a crise do mundo e da Igreja nos tempos atuais, atacados por sinistrite aguda. Trata-se do enciclopédico "O século do nada", recentemente reeditado pela Vide Editorial.

Espero que goste. Se gostar, divulgue! Segue-se o link:



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

É DRAMÁTICA A SITUAÇÃO DO BRASIL

Qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensatez, que não esteja completamente alienada, sabe que o Brasil vive momentos dramáticos. Vivemos em plena ditadura de esquerda, inclusive com polícia de Estado, perseguindo opositores. As instituições estão carcomidas, dominadas, possessas. Onde nossos bispos nos meteram, apoiando a esquerda durante décadas, ignorando completamente o Magistério da Igreja? Aonde nos leva a cumplicidade ou covardia dos nossos bispos? Aonde nos leva a militância da CNBB? A função do pastor é defender o rebanho. No Brasil, os pastores jogaram as ovelhas na boca dos lobos.

Proponho que todas as cidades do Brasil se empenhem em organizar grupos que rezem o rosário completo, pelo menos uma vez na semana, de preferência aos sábados, dia consagrado a Nossa Senhora. Precisamos criar grupos e mais grupos que rezem o rosário. O rosário é nossa única arma diante dos Golias que nos ameaçam de todos os lados. Imploremos a ajuda Daquela que pode e quer nos salvar!

Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós! São Pedro de Alcântara, padroeiro do Brasil, rogai por nós!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

AS DUAS POBREZAS E AS DUAS FORÇAS

Gustavo Corção Braga

"Sim, meu padrasto. Nesse tempo minha mãe se casara de novo com um personagem fabuloso que os filhos haviam descoberto nas matas do Trapicheiro. Era uma espécie de guarda-florestal que vivia numa caverna e usava barbas terríveis, atrás de cuja sombra brilhavam olhos de mel e escondia-se o melhor coração das redondezas. Para nós ele era uma espécie de meio-termo de entre o Capitão Nemo e Miguel Strogoff. E tanto insistimos que mamãe quis conhecer o prodígio pelo qual seus filhos estavam apaixonados, e apaixonou-se por ele também. Casaram-se com simplicidade, casando as duas pobrezas, mas também as duas forças." 

Gustavo Corção Braga nasceu em 17 de dezembro de 1896, no Rocha, Rio de Janeiro. Nas proximidades do seu aniversário natalício, com esse belo trecho, essa bela citação da crônica "Dia das Mães", que pode ser encontrada no livro "Conversa em sol menor", gostaria de pedir ao leitor as suas orações pela alma desse nosso heroi da fé e exímio escritor, polemista e apologeta católico, como também, em sinal de reconhecimento pelo bem que ele nos fez e ao Brasil, com seus escritos, exemplos e ensinamentos, pelas almas de seus pais, Francisco Braga e Gracietta Corção, de seu padrasto, seu Castanheira, de sua primeira esposa, Diva Corção, por sua segunda esposa, Hebe Corção, por seus filhos e netos.


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA MULA SEM CABEÇA

Confundido com o burro, o jegue e o jumento, o asno é tido como um animal dado a asneiras. Sei, porém, de um asno que, rebelando-se contra seu passado de jumentices, adquiriu saber e ciência, bem como o respeito de toda a bicharada.

Erasmo era o nome do asno.

Eis a iluminação, o pensamento libertador do pobre quadrúpede: "Renego a tradição de meus ancestrais! Não vou carregar esse fardo de burrices! Aliás, sou asno, e não burro. Burro é o burro!"

Até então, ao longo dos séculos, aberta a sucessão testamentária de um asno, percebia-se que o monte compunha-se apenas de ignorância e curteza de espírito.

Erasmo pastou muito até chegar à universidade. Mas, é preciso dizer que, não obstante sua condição animalesca, era um aluno privilegiado. Em primeiro lugar, porque ele era sua própria condução: ia trotando feliz para o campus. Nunca tivera de enfrentar o Circular 05. Em segundo lugar, porque havia bastante capim no campus e, assim, economizava também o dinheiro do bandejão. O nosso asno era, pois, econômico e chamava a atenção de todos os seus colegas universitários, que acabaram acostumando-se com o seu cheiro.

Aliás, seus colegas prognosticavam: "Esse burro vai longe!" "Esse jumento ainda vai ser juiz!"

Nem gostaria de comentar as agruras por que passou esse primo de jegue por ocasião de sua colação de grau! Todo o reino animal alvoroçara-se, pretendendo ser convidado para a solenidade. Baldada a agitação... A onipotente Comissão de Formatura estabelecera que apenas os pais e irmãos de Erasmo poderiam comparecer à solenidade.

Colado o grau, Erasmo foi coroado o rei da floresta. Sua erudição tornou-se proverbial, ficando internacionalmente conhecida. Era o Salomão da caatinga, do cerrado e da estepe! Todos os animais comentam o progresso da selva sob o governo do douto imperador. O leão foi enxotado com o rabo entre as patas, como um intransigente ignorante.

***

Mulata era uma mula. Uma mula espetacular, diria até, estupefaciente. Foi o único outro caso de animal estudando na universidade. Como Erasmo, ao contrário de todos os outros animais, por algum estranho prodígio, também foi dotada de alma racional. Apaixonou-se por Erasmo durante os estudos, foram colegas. Derrubava livros no chão de propósito de forma dissimulada para que o nosso distraído herói, de passagem, gentilmente os pegasse.

Mas, meus amigos, nem tudo é alegre nessa vida e, particularmente, nessa história. Embora fosse a mula mais bonita do sistema planetário, mais bonita que a lua e as estrelas, superando até suas colegas que andavam sobre duas patas, digo, pernas, Mulata não era correspondida. Desolada, começou a embriagar-se devido ao insucesso do seu amor platônico. Toda a floresta começou a dizer a seu respeito: "Está um caco! Foi-lhe embora o juízo, perdeu a cabeça...".

E essa, meus amigos, acreditem ou não - já adivinho o espanto do leitor! -, é a verdadeira história, a incontestável origem, da mula sem cabeça.


quinta-feira, 26 de outubro de 2023

HALLOWEEN

O próprio bom senso deveria levar as pessoas a abominar o Halloween, uma festa em que se exalta o feio, o mórbido, o macabro, a morte, o ocultismo e os crimes. Que há de belo no Halloween? Que valor humano é enaltecido ou estimulado? Qual é a mensagem positiva que ele passa? Nenhuma. Pelo contrário, a mensagem é claramente sombria e negativa.

É de lamentar-se o espírito de manada que parece governar boa parte dos brasileiros, dos pais de família, que se deliciam com uma festa importada sem menor aviso, festa aliás que nada tem a ver com nossa cultura e nossos valores civilizacionais cristãos. Até pouco tempo atrás, o Halloween era apenas um modismo tolo de escolinhas de inglês. Depois, propagou-se com a velocidade do som e invadiu nossas cidades e nossos condomínios. Onde está nosso bom senso? Onde está nossa sensibilidade espiritual, nossa inclinação para o bem e aversão para o mal?

Como não basta o bom senso, que deveria ser suficiente, consultem-se os especialistas, como o exorcista português Antônio Duarte Lara, que em diversos vídeos do Youtube menciona o entusiasmo com que os satanistas celebram essa data, que inaugura o ano novo satânico, às três horas da manhã (por inversão da hora da misericórdia, do triunfo de Cristo na Cruz), inclusive com sacrifícios humanos de fetos concebidos sete meses antes.

Não, meus amigos! Isso não é brincadeira. Não podemos participar disso.


quarta-feira, 18 de outubro de 2023

SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA, PADROEIRO DO BRASIL



São Pedro de Alcântara



 "São Pedro de Alcântara, Padroeiro do Brasil


Poucos brasileiros se lembrarão de seu grande e poderoso patrono, que acompanha todo o desenvolvimento do Brasil desde os primeiros anos da independência. A festa litúrgica, no dia 19 de outubro, festejada com grandes pompas pela Corte Imperial, e ano por ano rememorada pela Liturgia, não se popularizou. Esperaríamos que o glorioso Patrono tivesse, ao menos, a fama que entre nós goza seu confrade Santo Antônio. Mas não. Talvez pelos traços rígidos de seu rosto magro. Talvez pela grande cruz que o acompanha em todas as gravuras, e com razão, já que a cruz foi a síntese de toda a sua piedade. Mas não é o Brasil a Terra de Santa Cruz?

Cremos que o grande Patrono do Brasil se apresenta aos brasileiros de hoje cheio de lições e exemplos. No surto prodigioso em que nos encontramos, e no momento histórico tão indeciso e tão sério que vivemos, São Pedro de Alcântara, rico e pobre ao mesmo tempo, sábio e simples, camponês e universitário a uma só vez, reformador de costumes e guia numa época turbulenta e confusa, homem de árdua penitência pessoal e todo compreensão e amor para com o próximo, é o condutor por excelência do Brasil de nossos dias."

(Stéphane Joseph Piat, "São Pedro de Alcântara: patrono do Brasil")



A partir do ano que vem, com o novo missal, sua memória será obrigatória no Brasil.



sexta-feira, 10 de março de 2023

A PROVIDÊNCIA E A CARIDADE PARA COM O PRÓXIMO

 CAPÍTULO IV

A Providência e a Caridade para com o próximo


Como vimos no capítulo precedente, um dos principais meios pelos quais se exerce a Providência é a caridade para com o próximo, que deve unir todos os homens para que se ajudem mutuamente a caminhar para o mesmo fim: a vida eterna.

Este é sempre um tema de grande interesse, e é importante voltar sempre a ele, sobretudo em nossa época em que a caridade para com o próximo é negada pelo individualismo sob todas as suas formas, e completamente falsificada pelo humanitarismo dos comunistas e dos internacionalistas.

O individualismo não se eleva, por assim dizer, acima da busca do útil e do agradável para o indivíduo, ou no máximo para o grupo relativamente restrito ao qual pertence o indivíduo. Daí a aspereza da luta, às vezes entre os membros de uma mesma família, mas sobretudo entre as classes e os povos. Daí o ciúme, a inveja, a discórdia, o ódio, as divisões mais profundas. É o não reconhecimento do bem comum em graus diversos, e a afirmação quase exclusiva dos direitos individuais ou particulares.

Em oposição a isso, o humanitarismo dos comunistas e dos internacionalistas afirma a tal ponto os direitos da humanidade em geral, mais ou menos identificada de um modo panteísta com Deus, que os direitos dos indivíduos, das famílias, dos povos, desaparecem, e, sob o pretexto da unidade, da harmonia e da paz, provoca-se a pior das confusões e a maior desordem, como a que se vê na Rússia desde a revolução. Querer que, em um organismo, todas as partes tenham a perfeição da cabeça, ou suprimir a cabeça por ser mais perfeita que os membros, é destruir o organismo vivo inteiro.

É totalmente evidente que a verdade se encontra entre esses dois erros extremos e acima deles. A igual distância do individualismo e do comunismo, ela afirma os direitos dos indivíduos, das famílias e dos povos, e também as exigências do bem comum, superior a qualquer bem particular. Assim, uma justa concepção das coisas vela pelo bem individual por meio da justiça comutativa, que regula as trocas entre particulares, da justiça distributiva ou distribuição proporcional dos bens de utilidade comum e dos encargos, e vela também pelo bem comum por meio da justiça legal, segundo a qual devem ser elaboradas leis jutas, e pela equidade, que está atenta ao espírito da lei nas circunstâncias excepcionais em que a letra da lei não pode ser aplicada.

Esses quatro tipos de justiça, admiravelmente distinguidos por Aristóteles, e muito bem explicados por São Tomás em seu tratado de Justitia*, bastam em certo sentido para manter o justo meio-termo acima dos erros contrários do individualismo e do comunismo humanitário. A doutrina de São Tomás sobre este ponto não é ainda suficientemente conhecida; ela poderia ser o tema de trabalhos muito interessantes e muito úteis.

Mas estes quatro tipos de justiça: justiça comutativa, justiça distributiva, justiça legal ou social e equidade, por mais perfeitas que possam tornar-se, e mesmo iluminadas pela fé cristã, não poderiam atingir a perfeição da caridade em relação a Deus e ao próximo, que tem um objeto formal incomparavelmente superior.

Recordemos qual é o objeto primário da caridade e qual é o o seu objeto secundário. Veremos em seguida como praticar essa caridade em relação ao próximo, e como se realiza, por meio dela, o plano da Providência.


* II - II, q. 58, 61,120.


(Reginald Garrigou-Lagrange, no livro "A Providência e a confiança em Deus", Cultor de Livros, págs. 345 a 347).


terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

CHEGOU O NATAL!

Caro leitor, estamos às portas do Natal. Talvez o seu caminho, o meu caminho, percorrido até aqui não tenha sido fácil. Talvez tenha ocorrido a molesta sensação do desânimo, o impertinente, o inconveniente cansaço da alma. Será que não nos perdemos e muitas vezes andamos em círculos, mais ou menos regulares, de maior ou menor diâmetro, como o Padre Donissan num trecho de "Sob o sol de Satã"? Quem sabe se em alguns momentos não terá se insinuado, como um demônio mudo, a labiríntica sensação de desespero? Ou quem sabe uma acabrunhante sensação de impotência absoluta?
 
É possível que os dias desse ano tenham sido iguais em demasia, que a sua monotonia tenha sido superior à aceitável. Pode ser que as semanas desse moribundo que grita e agoniza tenham tido três ou quatro segundas-feiras, raramente domingos. Parece verdade que os seus erros, que os meus erros, tenham sido demais, tenham se multiplicado e propagado com a velocidade do som. Pode ser que tenhamos arrastado atrás de nós o nosso próprio cadáver, que tenhamos sido devorados pelo tédio.

O esgotamento do corpo é de simples remédio, mas que fazer com o envelhecimento da alma, com as rugas nas dobras do espírito, com as artrites e artroses do eu que nos habita? É relativamente fácil recompor as forças do corpo, mas como refazer, devolver, insuflar forças à alma esgotada?

Uma espécie parecida de esgotamento, de cansaço, está magistralmente descrita n'"O Diário de um Pároco de Aldeia":

"Minha paróquia é uma paróquia como as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. [...]

Minha paróquia é devorada pelo tédio, eis a palavra. Como tantas outras paróquias! O tédio as devora sob nossa vista e nada podemos fazer. Um dia, talvez, o contágio tomará conta de nós, descobriremos em nós esse câncer. Pode-se viver muito tempo com isso.

[...]

Dizia a mim mesmo que o mundo é devorado pelo tédio. Naturalmente, é preciso refletir um pouco para dar-se conta disso; não é fato que se apreenda assim, de relance. É uma espécie de pó. A gente vai e volta sem o ver, respira-o, come-o, bebe-o; é tão tênue, tão fino, que nem ao menos range sob os dentes. Mas se a gente para um segundo, ei-lo que cobre nosso rosto, nossa mão. Temos de nos sacudir, sem cessar, para libertar-nos dessa chuva de cinza. Daí por que o mundo tanto se agita.

Dir-se-á talvez que, há muito, o mundo se familiarizou com o tédio, que o tédio é a verdadeira condição do homem. É possível que a semente espalhada por toda a parte germinasse, aqui e ali, em terreno favorável. Pergunto, porém, se os homens conheceram algum dia esse contágio do tédio, essa lepra! Um desespero malogrado, uma forma torpe do desespero que é, sem dúvida, como que a fermentação de um cristianismo desfigurado."

Interessante a observação do autor. A agitação do nosso tempo teria como causa o nosso tédio, o nosso desespero malogrado, uma forma torpe do desespero, a fermentação de um cristianismo desfigurado.

Esse trecho primoroso d'"O Diário de um Pároco de Aldeia" soa para mim da mesma forma que "No meio do caminho", de Carlos Drummond de Andrade. Os dois textos tratam do cansaço da alma:

"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra."

Não pense o leitor que eu pretenda oferecer soluções fáceis para problemas difíceis. A rigor, nem sequer sei se sou capaz de oferecer uma solução. Contudo, o problema não parece ser a paróquia. Nem o caminho. Não parece ser a repetição em si mesma, a sucessão de atos que se repetem e não parecem atingir fim algum. O problema real é não fazer a exumação, a radiografia do ato, não esquadrinhá-lo, não compreendê-lo em sua inteireza e interioridade.

Enxergar cada momento como uma oportunidade única e irrepetível, ainda que eventualmente assemelhada a outras, como um dom a ser explorado, como uma página a ser escrita, como uma poesia a ser feita, como um jarro vazio a ser preenchido com o vinho novo da alegria. Não são os atos que cansam. É a sua falta de razão. Gosto de pensar em que, no princípio, era o Logos. Logos pode ser traduzido, dizem os exegetas, como Palavra, como Verbo, mas também como Razão, como Sentido. Gosto de pensar em que no princípio, era o Sentido, estava o Sentido, estava a Razão. Estava Aquele que é e dá Sentido e Razão a todas as coisas. Esta mesma Razão, este mesmo Sentido, quer descer aos nossos mínimos atos, como desceu em nossa singela humanidade no tão pouco razoável, no insólito e absurdo estábulo de Belém.

Antes de Jesus Cristo muitas crianças nasceram. Houve uma estranha e monótona repetição de nascimentos. Todos os nascimentos anteriores anunciavam, de alguma forma gritavam aos quatro cantos, profetizavam, a sua vinda, como uma espécie de introdução, de preparação, de prelúdio.

Lá do céu Deus Pai deve ter visto o nosso cansaço, o nosso desânimo, o nosso tédio infinito. Esse câncer, esse pó que nós comíamos sem ver. Deve ter visto a fermentação da antiga aliança desfigurada. E quando a humanidade já não aguentava mais, arrastava-se no meio do caminho, fez seu Filho pousar em nossa humanidade e enchê-la de razão e de sentido. Não poderia ter sido de forma mais bela. Mais doce, mais calma.

É possível que nosso Pai diga ao sol todos os dias: "Vamos de novo!", como pensou Chesterton, pois nosso Pai é mais jovem do que nós, que envelhecemos.

Que o Verbo, depois de pousar em nós, em nossa humanidade, pouse em nossos atos e os encha de sentido. Que nossos atos sejam enxertados na videira. Que Ele derrame o vinho novo, aquele de melhor sabor, no pequeno jarro de cada uma de nossas ações, até nas mais banais e enfadonhas. Que Deus Pai nos diga, diga aos nossos atos, todos os dias, como diz ao sol: "Vamos de novo, ação por ação, encher de sentido o mundo".


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

O DEVER DO MOMENTO E A GRAÇA ATUAL

O ensinamento católico faz uma distinção entre duas espécies de graças, a graça habitual e a graça atual.

A graça habitual é o mesmo que graça santificante, estado de graça, participação na vida divina, participação na vida íntima da Santíssima Trindade. Embora não o sintamos claramente e não se realize perfeitamente nessa vida, consiste em ver a Deus como Ele mesmo se vê e amá-Lo como Ele mesmo se ama. Pela graça santificante, Deus em nós se vê e se ama, e leva-nos a participar disso, das relações íntimas da Santíssima Trindade. É a graça mais importante para nossas vidas, pois é a vida eterna começada, é a comunhão com Deus, é a amizade com Deus, é a participação na vida íntima de Deus, que se realizará com perfeição no céu. Sem ela, sem a graça habitual, sem a graça santificante, somos inimigos de Deus, ainda que examinando-nos a nós mesmos nos pareça que não. Mesmo que os nossos sentimentos traiam-nos, afirmando que somos amigos de Deus, se estamos em pecado mortal, se não estamos na graça santificante, somos inimigos de Deus. E, se morrermos nesse estado - Deus nos livre de tão grande mal, ainda que seja no último momento -, seremos condenados ao inferno.

A graça atual é a que Deus concede a cada momento para o cumprimento do dever. Se somos fiéis a ela, a nossa vida ativa se eleva pouco a pouco, participando da vida contemplativa. Correspondendo às graças atuais, nossa vida ativa tornar-se cada vez mais penetrada pela vida contemplativa, pela presença de Deus. Recebemos a graça atual mesmo se estamos em pecado mortal: é justamente uma graça atual, uma força e inspiração de Deus, que nos leva a rezar e nos leva a nos confessar para nos reconciliarmos com Ele. A graça atual é uma luz e uma força para o cumprimento do dever de cada momento. Se estamos na graça santificante, a graça atual nos leva e nos ajuda a crescer naquela, a progredir na amizade com Deus. Se estamos em pecado mortal, a graça atual é que nos dá força, nos impele, nos ajuda a aproximarmo-nos de Deus novamente. É a graça atual que converte o pecador, pois, quando ele estava no pecado, não possuía a graça santificante.

Pois bem. Gostaria de recomendar a leitura de um livro magnífico, do célebre teólogo dominicano Reginald Garrigou-Lagrange. Estou finalizando a leitura de "A Providência e a confiança em Deus", lançamento da editora Cultor de Livros, que se dedica a uma obra ou missão importantíssima: traduzir para o português grandes obras da literatura cristã não encontradas em nossa língua. Foi o caso d'"As três idades da vida interior", do mesmo escritor, da biografia de São Pedro de Alcântara, patrono do Brasil, e de tantos outros livros editados pela Cultor.

Garrigou-Lagrange levou-me a compreender melhor a imensa graça do cumprimento do dever de cada momento, de cada instante. Recordou-me inclusive algo da logoterapia, que afirma que as nossas escolhas de cada momento na vida, podem ter sentido ou não. Importa fazer escolhas com sentido. É bom, é necessário, é indispensável, em cada instante, em cada momento, em cada atividade, penosa ou prazerosa, fazer a vontade de Deus, para o que Ele nos concede, também a cada momento, a cada instante, a graça atual, a força, o auxílio necessário para cumpri-lo. E, correspondendo a cada graça habitual, mais graças nos são concedidas, e vamos crescendo em santidade.

Ensina Garrigou-Lagrange, com sua habitual simplicidade e clareza:

"Qual a conclusão prática? É que, fazendo o possível para cumprir nossos deveres cotidianos, devemos abandonar-nos quanto ao restante à divina Providência, com a mais filial confiança. E se procurarmos realmente ser fiéis nas pequenas coisas, na prática da humildade, da mansidão, da paciência, nas coisas do dia a dia, o Senhor nos dará a graça de ser fiéis nas coisas grandes e difíceis, caso nos peça para enfrentá-las; e então, nas circunstâncias extremas, ele concederá graças extremas àqueles que o buscam.

[...]

Já vimos por que devemos confiar-nos e abandonar-nos à Providência: devido à sua sabedoria e à sua bondade; e em que devemos confiar-nos a ela: em todas as coisas, quanto à alma e ao corpo, com a condição de cumprir os nossos deveres cotidianos, e lembrando que, se formos fiéis nas pequenas coisas, obteremos a graça de o ser também nas grandes.

[...]


O dever do momento presente tal como o compreenderam os santos, e a luz que ele contém


O dever de cada instante, sob aparências muitas vezes modestas, contém a expressão da vontade de Deus para nós, para nossa vida individual. A Virgem Maria viveu, assim, na união divina cumprindo no dia a dia a vontade de Deus no dever cotidiano de sua vida muito simples, muito comum exteriormente, como a de todas as pessoas de sua condição. Assim viveram todos os santos, fazendo a vontade de Deus tal como se manifestava de hora em hora, sem se deixar perturbar pelas contrariedades imprevistas. Seu segredo estava em tornar-se, a cada momento, aquilo que a ação divina queria fazer deles. Nessa ação, eles viram tudo o que tinham a fazer e a sofrer, todos os seus deveres e todas as suas cruzes. Estavam convencidos de que o acontecimento atual é um sinal de uma vontade ou de uma permissão de Deus para o bem daqueles que o buscam. [...] Os santos veem, assim, na sequência dos acontecimentos, como que um ensinamento providencial, e acreditam que, acima da sucessão dos fatos exteriores de nossa vida, há como que uma série paralela de graças atuais, que nos são incessantemente oferecidas para fazer-nos tirar, desses acontecimentos agradáveis ou desagradáveis, o melhor proveito espiritual.

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Os santos, em circunstâncias semelhantes e mesmo em outras muito piores, dizem: Fazer a cada momento a vontade de Deus é, no fundo, a única coisa necessária. O Senhor nunca ordena o impossível, mas há um dever que, a cada momento, ele torna realmente possível para cada um de nós, e para cujo cumprimento solicita o nosso amor e nossa generosidade.

[...]

O dever que precisamos cumprir a cada hora é, como dizíamos, um sinal da vontade de Deus para nós em particular, hic et nunc [aqui e agora], e contém assim uma luz prática muito santificadora, que é a do Evangelho aplicado às diversas circunstâncias de nossa vida; são realmente as lições de coisas de Deus.

Se, a exemplo dos santos, soubéssemos considerar assim cada momento, veríamos que cada um deles contém não somente um dever a cumprir, mas também uma graça para que sejamos fiéis a esse dever.

[...]

'O momento presente é sempre cheio de tesouros infinitos; seu conteúdo ultrapassa a vossa capacidade. A fé é a medida: nele encontrareis tanto quanto credes. Também o amor é a medida: quanto mais o vosso coração ama, mais ele deseja, e quanto mais deseja, mais encontra. A vontade de Deus se apresenta, a cada instante, com um mar imenso que o vosso coração não pode abarcar. Ele recebe dela segundo a medida em que é expandido pela fé, pela confiança e pelo amor; todo o restante da criação não pode preencher o vosso coração, que tem mais capacidade do que tudo aquilo que não é Deus. As montanhas que impressionam os olhos não passam de átomos no coração. A divina vontade é um abismo, cuja abertura é o momento presente: mergulhai nesse abismo, e o encontrareis sempre maior do que os vossos desejos.'"

Insisto, portanto, na recomendação da leitura do livro e em especial nessa abertura ao infinito, que é o cumprimento do dever do momento do presente, pequeno ou grande, agradável ou difícil, na fidelidade à graça atual oferecida. Concluo com o grande autor espiritual:

"Sejamos assim santamente atentos à graça atual que, de minuto a minuto, nos é oferecida para o cumprimento do dever presente. Veremos, assim, cada vez melhor, o que deve ser a nossa fidelidade nas pequenas coisas como nas grandes."