quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A VOLTA PRA CASA


Eis um trecho de um de meus livros prediletos, se não for o predileto:

"Preparar, pelo trabalho, a volta-para-casa, entre todas as coisas do mundo, é a que tem a maior densidade de ventura. Pode o mundo moderno aviltar o trabalho, fazendo do homem uma pura máquina para o serviço de uma babilônia; pode semear obstáculos sem fim entre a mesa do funcionário e aquela soleira de porta onde ele tira do bolso uma chave encantada e toma posse de um reino; podem os pregadores anunciar um regime ideal, em que a casa é um prolongamento da repartição, uma máquina-de-morar cujos objetos pertencem a todos (o que equivale a dizer que não pertencem a ninguém), e onde o próprio gato receberá um nome oficial; podem socializar, burocratizar, centralizar; e minar os alicerces da família; e arrebatar as crianças para chocadeiras técnicas onde se ensina que foi um dentista ou um bacharel que fizeram o mundo; debalde farão tudo isso com o auxílio de todos os demônios: o homem não esquece o paraíso que perdeu. Não esquece que seu primeiro pai foi um rico proprietário rural, que dava ele mesmo os nomes aos seus bichos e usava fartamente, e sem pena, os frutos de sua terra."

(Gustavo Corção, "Três alqueires e uma vaca")


Nenhum comentário:

Postar um comentário