quinta-feira, 29 de maio de 2014

O MENDIGO



As golas das suas camisas não fechavam mais. Devido à espessura do seu pescoço, os botões não mais entravam nas casas. Muitas daquelas estavam desbotadas. Uma ex camisa azul agora era lilás. As mangas de quase todas, não sabia por quê, estavam menores do que os seus braços. Já fazia tempo não usava gravatas. As pernas de algumas calças jeans estavam muito compridas; sem dobras, arrastavam-se no chão. O cinto de couro marrom ameaçava romper-se perto do furo mais usado. Alguns de seus dentes, quase na gengiva, tinham manchas amarronzadas, talvez pelo consumo excessivo de café. Suas roupas de baixo pareciam trapos. Estava acima do peso. O rosto inchado. A barriga em formato de pera.

 

Já há anos não ia ao médico nem ao oculista. Seu dentista, há muito, cobrava a extração dos sisos. Seus óculos apertavam as laterais do rosto formando dois sulcos e, muito provavelmente, o grau das lentes havia sido ultrapassado pela necessidade da vista. Ao aguardar, sentado, o início de uma audiência, deu-se conta de novo de que a sola de seu sapato estava furada. (Mas o incômodo mesmo foi pensar que ali, num lugar solene, estando de pernas cruzadas, poderiam ver-lhe a incômoda ferida. Já se havia acostumado com a chaga aberta do sapato, oculta sob seus pés).

 

Os flertes tornaram-se escassos. A indiferença, o seu pão cotidiano. Os convites, nulos. O desprezo, seu cão de estimação. Descia ladeira abaixo. Rolava. O desgaste era completo. O cansaço, imenso. Dava-se conta disso. Estava plenamente consciente. Só não encontrava forças. Não encontrava ânimo. Estava exausto.

 

Alguma coisa devia estar errada. Fora do lugar. (Não era possível!) Há certas vidas que são morte. Há certas mortes que são vida.

 

De quando em quando lembrava-se da primeira página de “A descoberta do outro”. Gustavo Corção recordava um trecho de Alexandre Herculano: “Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?” Era como ele próprio se sentia. Extenuado de uma longa viagem, de uma viagem de quarenta anos; amarrado ao próprio cadáver. Arrastando-o aonde quer que fosse. Havia dois eus. Um eu morto e um eu vivo. O vivo conformado com a morte do outro. O morto, inerme, impassível, um peso insuportável para o vivo.

 

Sua alma estava em farrapos. Sentia-a surrada, espancada, saqueada. Não sei com base em que chegava a essa conclusão, mas parecia-lhe que a sua parte imaterial havia apanhado a pauladas, tivesse vértebras quebradas. Com forças esvaziadas, nulas, após lutar com um adversário muito maior e mais forte, era como um semimorto deixado em qualquer parte.

 

Havia uma pedra no meio do caminho. Uma pedra enorme. No meio dele, em cima dele, do lado dele, dentro dele. Estava fincado na lama. Não saía do lugar, patinava e cada vez mais se sujava e afundava.

 

Seus olhos, seus sonhos e a sua vida estavam gastos. Sua alma envelhecera. Era preciso trocar de vida. Era preciso trocar de alma.

 

Ele era um mendigo. Mendigo da misericórdia de Deus e da benevolência dos homens. Um esmoler. Vivia de esmolas grandes e pequenas, que às vezes o tornavam rico. Ainda assim porém eram esmolas.

 

O nosso mendigo ia da extrema riqueza à infinita pobreza de um dia para o outro ou, mesmo, de um instante a outro. De possuidor do céu a merecedor do calor do inferno. Sentia mesmo caminhar no céu e, de repente, mergulhar no abismo sob seus pés. Imaginava entender bem a voz de Deus, o seu peculiar dialeto, o seu particularíssimo idioma. Sendo Deus espírito, sabia que a sua forma de comunicar-se era espiritual, diferente da dos homens. Não se tratava de uma sucessão de palavras pronunciadas. Outras vezes, parecia-lhe sentir o hálito de Baal, ser arrastado pelo diabo por becos escuros e caminhos tortuosos, quase sem volta e sem forças para reagir.

 

Do banquete às bolotas dos porcos. Do palácio à sarjeta. O nosso mendigo vivia de extremos: do refinado requinte à miséria completa. Da contemplação de Deus à companhia dos demônios. Do banquete nupcial aos esbarrões com os ratos e aos pisões no esgoto.

 

Que fazer? Que devia fazer? Como deixar a mendicância que parecia mais forte do que ele, que parecia arrastá-lo – como uma correnteza invisível –, para atos e pensamentos soturnos? Como romper as cordas invisíveis que moviam seus braços, que fisgavam suas pernas, que o agitavam como uma marionete, sem força, nem vontade?

 

Ah, o nosso mendigo! Eu ainda o vejo perambulando pelas ruas da cidade, pedindo esmolas em toda parte. Mendigando ali, esmolando aqui, esperando por um milagre. Ah! eu vejo aquele mendigo esperando o céu se abrir e a sua redenção cair de lá de cima como um tijolo. Ah! eu vejo o meu mendigo nos bares, restaurantes, esquinas, mendigando afeto, implorando olhares, de um jeito bastante esquisito. Eu sinto da sua solidão a espessura. Da sua escuridão, a tessitura. Dos seus tombos, a fratura.

 

Lá vai ele, o mendigo! Outra vez. Mais uma vez. Em mais uma noite que o desfez, que o partiu ao meio. Lá vai ele. No seu passo sempre igual...

 

Pensando bem, pode ser que o nosso mendigo não mendigasse afeto. Pode ser que ele, inconscientemente, procurasse outra coisa, que tivesse, sem saber, uma fome de outra natureza. Às vezes penso que ele tinha fome de beleza. A beleza era como que necessária aos seus ossos porosos, à sustentação do seu esqueleto. A beleza, não a convenção, era um feixe de luz para a sua vista, era como que uma pista, uma indicação, algo a iluminar o caminho a seguir.

 

Sem a beleza, ele era o mais pobre de todos os homens. O mais surdo de todos os surdos, o mais mudo de todos os mudos, o mais cego e mais aleijado de todos os nascidos de mulher. Havia nele uma espécie de envenenamento, de intoxicação. A beleza era o antídoto. O seu natural era dotado de uma espécie de retração, de convulsão, de aversão à feiura. A feiura cegava-o. Feria-o. A feiura esmagava-o. Envenenava-o. Quebrava-o. Em uma palavra, a feiura matava-o.

 

Cada vez mais tomava consciência de que a beleza lhe era absolutamente, completamente, urgentemente, necessária. A feiura asfixiava-o, algemava-o, amarrava-o. Havia nele como que uma angustiosa dependência química. Ele precisava respirar oxigênio. Precisava de ar puro. Precisava deixar a beleza entrar suavemente pela janela da sua vida, pelas comportas da sua alma, como o frescor das manhãs, como uma sinfonia de bem-te-vis, exorcizando a feiura.

 

Pensava ele: “a beleza cura”, “a beleza salva, ela me salvará”, “a beleza me erguerá, me satisfará, me saciará”. Acrescentava com os seus botões: “O ‘idiota’ é o mais belo livro já escrito: a beleza, com toda a certeza, sem nenhuma dúvida, sem qualquer dúvida, irresistivelmente, inapelavelmente, salvará o mundo. E, se ela salva o mundo, também me salvará.” Sentia isso o idiota, digo, o nosso amigo.
 

 

* O presente texto foi deliberadamente modificado. Provavelmente, o será novamente e está inconcluso. Trata-se de uma experiência. Aguardem posteriores mudanças e complementos. Espera-se que um dia seja concluído.
 

 

Paul Medeiros Krause

quinta-feira, 22 de maio de 2014

MAIS CITAÇÕES DE "INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO"


Partilho com você, leitor, trechos extraordinários ainda do Prefácio de "Introdução ao Cristianismo":


“Todas as grandes civilizações estão abertas umas para as outras e para a verdade. Todas trazem alguma contribuição para o ‘vestido multicolor’ da noiva, da qual fala o Salmo 44 que os Padres da Igreja aplicavam à Igreja.”
 

“Deus tornou-se totalmente concreto em Cristo, mas isso fez também com que o seu mistério aumentasse ainda mais. Deus é sempre infinitamente maior do que todos os nossos conceitos e todas as nossas imagens e todos os nossos nomes. O fato de nós o professarmos como Deus trino não significa de modo algum que já sabemos tudo a seu respeito, muito pelo contrário: isso nos mostra o quão pouco sabemos dele e quão pouco o entendemos e compreendemos.”


“A partir do prólogo de João está no centro de nossa fé cristã em Deus o conceito do Logos, que significa razão, sentido, mas também palavra – um sentido, portanto, que é palavra, que é relação, que é criador. O Deus que é Logos nos afiança a racionalidade do mundo, a racionalidade do nosso ser, a adequação da razão a Deus e a adequação de Deus à razão, mesmo que a sua razão ultrapasse infinitamente a nossa e nos pareça tantas vezes como escuridão.”

 
“O mundo vem da razão, e essa razão é pessoa, é amor – é isso o que a fé bíblica nos diz a respeito de Deus. A razão pode e deve falar de Deus, do contrário ela se mutila a si mesma. Isso inclui o conceito de criação. O mundo não é apenas ‘maia’, ou seja, aparência que, em última análise, devemos deixar para trás. Ele não é apenas a roda infinita dos sofrimentos, da qual devemos tentar escapar. O mundo é positivo. Ele é bom, apesar de todo mal e todo sofrimento que há nele, e é bom viver nele. O Deus que é criador e que se manifesta em sua criação dá direção e medida também à ação do homem.”

 

(Joseph Ratzinger, Prefácio à reedição de 2010 de “Introdução ao Cristianismo”)

 

 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO", A OBRA-PRIMA DE JOSEPH RATZINGER (TRECHO)

"Prefácio à reedição de 2000


'Introdução ao Cristianismo' -- ontem, hoje e sempre


Desde a redação desta obra passaram-se mais de trinta anos em que a história universal continuou avançando em ritmo acelerado. São dois os anos que, na retrospectiva, marcaram de modo especial as últimas décadas do milênio recém-concluído: 1968 e 1989. O ano de 1968 assinala a rebelião de uma nova geração que não só julgou insuficiente, cheia de injustiças, de egoísmo e de avareza a obra de reconstrução do pós-guerra, como reputou errado e fracassado todo o percurso da história a partir da vitória do cristianismo. Ela começaria a fazer tudo melhor, edificando, finalmente, o mundo da liberdade, da igualdade e da justiça; além disso estava convencida de ter encontrado na grande corrente do pensamento marxista o caminho que levaria a essa meta. O ano de 1989 trouxe a derrocada inesperada dos regimes socialistas na Europa que deixaram atrás de si a herança triste de uma terra arrasada e de almas destruídas. Quem esperava, então, ter chegado a nova hora da mensagem cristã viu-se frustrado. Apesar de não ser pequeno o número de fiéis cristãos no mundo todo, o cristianismo não conseguiu apresentar-se como alternativa memorável nesse momento histórico. No fundo, a doutrina marxista da salvação, se bem que dividida em variantes diversas de instrumentalização, era vista como o único roteiro para o futuro, baseado em motivação ética e, ao mesmo tempo, em conformidade com a visão científica do mundo. Por isso não chegou a desaparecer simplesmente após o choque de 1989. Basta lembrar a pouca repercussão que tiveram os relatos dos horrores dos gulags comunistas e o esquecimento em que logo caiu a voz de Soljenitsin: são coisas de que não se fala. Existe uma espécie de vergonha que o proíbe; até mesmo o regime assassino de Pol Pot só parece merecer rápidas menções casuais. Mesmo assim sobrou uma sensação de decepção e uma profunda perplexidade. Já não se confia em grandes promessas morais, afinal, o próprio marxismo se tinha considerado uma delas. A meta era: justiça para todos, paz, abolição de formas de governo injustas etc. Para alcançar objetivos tão nobres, viram-se obrigados a cancelar no percurso os fundamentos éticos, podendo inclusive recorrer ao terror como meio para alcançar o bem. Depois de terem vindo à luz, pelo menos durante uns momentos, os escombros do humanitarismo que resultaram desse pensamento, opta-se agora por um recuo ao pragmatismo, quando não se confessa abertamente uma atitude de desprezo pelo elemento ético. Um exemplo trágico pode ser observado na Colômbia onde se começou, inicialmente sob auspícios marxistas, uma luta pela libertação dos pequenos agricultores pisados pelos grandes capitalistas. Com o tempo formou-se de fato uma república de rebeldes que, constituída hoje à margem do poder do Estado, explora abertamente o tráfico de drogas e nem procura mais nenhuma justificativa moral, ainda quando é sabido que está satisfazendo uma demanda que vem dos países ricos e que está dando emprego e pão a muitas pessoas que dificilmente encontrariam um lugar na ordem econômica vigente. Numa situação de tal perplexidade, o cristianismo não deveria reencontrar a sua voz, 'introduzindo' o novo milênio na sua mensagem e tornando-a compreensível, para que possa servir de roteiro em direção ao futuro?
 
Onde estava a voz da fé cristã em todo esse tempo? Em 1967, quando este livro foi escrito, estava em pleno andamento a efervescência que caracterizou os primeiros anos depois do Concílio. Exatamente esse tinha sido o propósito do Vaticano II: conferir ao cristianismo novamente a força de fazer história."

 

terça-feira, 20 de maio de 2014

SÃO BERNARDINO DE SENA



Curvo-me, hoje, com reverência perante o grande pregador São Bernardino de Sena. Curiosamente, São Bernardo de Claraval, doutor da Igreja, cujo nome é parecido com o seu, é comemorado também no dia 20, só que de agosto. Os dois são grandes apóstolos, filhos prediletos, da Virgem Maria.

Embora São Bernardino de Sena não seja doutor da Igreja, impressionam-me a sabedoria, a beleza, a força e a precisão das suas palavras. Sua doutrina parece ter a mesma estatura da dos santos doutores. Muitas citações dele são encontradas no célebre "Glórias de Maria", de Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igreja.
 
 
 
 

sábado, 17 de maio de 2014

ROSÁRIO NA PRAÇA DO PAPA, DOMINGO, 18/5, ÀS 9 HORAS


Prezado amigo, prezada amiga,
 
 
Amanhã rezaremos o santo rosário completo na Praça do Papa, no bairro Mangabeiras, às 9 horas da manhã, encontrando-nos em frente à cruz. No dia 18 de maio comemora-se o aniversário de nascimento do grande Papa São João Paulo II, que pisou nessa mesma praça e lhe deu o nome ou apelido. Será também uma nossa homenagem a Nossa Senhora no seu mês, maio.
 
Peço-lhe que pense desde já em suas intenções, compareça e leve quem você quiser. Caso você não possa ir, reze por nós. Nós rezaremos pelas suas intenções.
 
Após a recitação de alguns mistérios na Praça do Papa, faremos um pequena caminhada pelas ruas do bairro Mangabeiras, continuando a recitação pública do santo rosário, dando testemunho humilde da nossa fé.
 
 
Um abraço e até amanhã,
 
 
Paul

O QUE PENSAVA CERTA MÃE




"Permita-me, meu irmão, que lhe venha trazer uma reminiscência de minha infância. Em minha casa paterna, no escritório de meu pai, em cima de sua mesa de trabalho, havia um quadro. Entre as lembranças que sempre me acompanham na vida, há esta que está bem viva; parece que, ainda hoje, estou vendo este quadro, com toda a nitidez.
 
Atrás dum vidro grosso, havia uma estampa, que uma armação de metal mantinha erguida, bem visível a todos os que se aproximassem. Apresentava a figura duma mulher com um menino ao lado, os dois ricamente vestidos. Ela era Branca de Castela, rainha de França; ele, o príncipe Luís, mais tarde Luís IX, o grande São Luís, rei de França, cuja festa celebramos no dia 25 de agosto. Em baixo da gravura, havia esta frase: 'Meu filho, você sabe bem quanto eu o amo, mas prefiro vê-lo morto a saber que cometeu um pecado mortal.'
 
Estas palavras exprimiam bem a fé e a fortaleza dessa mulher extraordinária, assim não estranhamos que tenha dado à igreja um grande cristão, um santo canonizado.

Mas não deveria ser este o propósito de cada um de nós, a disposição constante de nossa vida? Olhemos as legiões de mártires da Igreja. Por que foram sacrificados? Simplesmente para não cometerem um pecado mortal, renegando Cristo.
 
Que é o pecado mortal? Uma transgressão grave da lei divina, com pleno conhecimento e inteira liberdade. Uma injúria séria a Deus. O homem prefere um prazer momentâneo à amizade com Deus. Diz ao Altíssimo que este deleite lhe é mais valioso do que o próprio Senhor; se não afirma isto por palavras, ele o faz por ato.
 
São estas as consequências dum único pecado mortal:

1) perda da graça divina, assim este pecado é chamado mortal, pois de algum modo traz a morte à alma, privando-a da vida de Deus;

2) o homem deixa de ser templo de Deus, o Espírito Santo retira-se de sua alma;

3) são cancelados seus méritos espirituais, é como se perdesse tudo de bom que fez na vida;

4) arrisca-se à condenação eterna. Se morrer neste estado, ficará perpetuamente no inferno. Poderá haver desgraça maior?
 
Paremos um pouco e meditemos nestas verdades. Terminemos nossa reflexão com uma conversa com o Senhor, digamos a Cristo que preferimos morrer a perder a vida divina - a graça - em nosso coração."
 
 
(Dom Cristiano Frederico Portela de Araújo Pena, 1.º bispo de Divinópolis, falecido em 2 de agosto de 2000 em odor de santidade, ordenado bispo em 17 de maio de 1959, há exatos 55 anos. Pai espiritual e um dos maiores responsáveis pela formação cristã do autor deste blog).
 
 
* Aí do céu, Dom Cristiano, dê-nos a sua bênção!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

SÃO SIMÃO STOCK


Comemoramos hoje São Simão Stock, monge carmelita do século XIII, que recebeu das mãos de Nossa Senhora do Carmo o escapulário, que se tornou um objeto de devoção mariana universal, cujo uso foi estimulado por inúmeros Papas.

TRECHO DE "DOIS AMORES -- DUAS CIDADES", DO CORÇÃO


"A moderna psicologia profunda, principalmente na doutrina freudiana do 'super-ego', trouxe ao mundo um reforço de desconfiança em relação ao que recebemos de nosso pai, que passou a ser o mais suspeito dos personagens. Tudo o que vem do pai, do mestre, da tradição, de Deus, é visto como coação, como pressão, como imperialismo psicológico. Para cortar esse vínculo, atiramo-nos para o lado da mãe escura que devora os seus filhos.

Terá acontecido alguma coisa assim na origem de nossa história. Não temos a pretensão de esboçar aqui uma psicanálise de nossos primeiros pais; mas temos a convicção de que é impossível tratar do problema e do mistério do amor próprio sem o socorro da teologia. No caso, sem lembrar o pecado original. Marca, estigma, ferida deixada pelo pecado original, mesmo depois de sua total extinção pelo batismo, o amor-próprio será o que os teólogos chamam 'fomes peccati'.
E àquele que vai procurando algo que seja seu, absolutamente seu, sem sombra de alienação, sem sociedade dos homens e de Deus, podemos responder com toda a tradição católica que só temos de nosso, puramente nosso, a miséria de nossos pecados e de nosso amor-próprio."
 

 (Corção, "Dois amores -- duas cidades")




quinta-feira, 15 de maio de 2014

CARTA AO DESESPERO

 

Se há uma espécie de pessoas de quem eu tenho compaixão é a dos que estão em desespero. Não há nada mais aflitivo do que sentir-se encurralado, não enxergar uma saída, não ver sentido na vida, encontrar-se em um labirinto. Parece que um turbilhão de pensamentos passa pela cabeça do desesperado, que ele não consegue impor domínio e pôr ordem em seus raciocínios e sentimentos. Há uma tal velocidade na sucessão de ideias, que é quase impossível agarrar-se a alguma delas. Em outras palavras: o desespero é a antessala do inferno, uma espécie de anarquia ou revolta dos sentimentos, o caos em forma de fenômeno psíquico. No portal do inferno de Dante há a advertência: “deixai toda a esperança, ó vós que entrais!”.

 

Talvez alguém se surpreenda ao ler este pequeno texto justamente agora que está em pânico. Não há razão para surpresa, porém. Escrevi para você mesmo, e a Providência incumbiu-se de romper a distância que há entre mim e você. Em primeiro lugar, é preciso convencer-se de que há uma saída, procurá-la, mesmo que não seja possível vê-la imediatamente. É preciso deixar entrar um sopro de luz em sua alma, como o luar banhando os ombros de Cristo no Monte das Oliveiras. É necessário abrir as janelas do espírito para uma brisa nova, um novo frescor, para uma claridade tranquila.

 

Agrada-me tanto a cena da troca de olhares entre Cristo e São Pedro, após a prisão Daquele. Tenho para mim que aquele olhar pacífico foi decisivo e salvou Pedro. Mas, se Pedro não estivesse ali, não estivesse olhando o Senhor nos olhos, não experimentaria aquela claridade humilde entrando em sua alma.

 

Em “Crime e castigo”, há uma troca de olhares em tudo semelhante àquela, que se dá entre Sônia e Raskólnikov, após este fazer uma reverência aos homens e pedir perdão à terra por ter cometido duplo assassinato. Menciona-se até mesmo que Sônia acompanhava discretamente Raskólnikov em seu calvário.

 

"Eis que se lembrou das palavras de Sônia: 'Vai a um cruzamento, faz uma reverência ao povo, beija a terra, porque pecaste também perante ela, e diz a todo mundo em voz alta: 'Eu sou um assassino!'. Tremeu todo ao se lembrar disso. E já estava tão oprimido pela desesperadora melancolia e pela inquietação de todo esse tempo, mas especialmente das últimas horas, que acabou se precipitando para a possibilidade dessa sensação inteira, nova, completa. Ela chegou de súbito como uma espécie de acesso: começou a lhe arder na alma como uma fagulha e de repente se apossou de tudo como fogo. Tudo nele amoleceu, e as lágrimas jorraram. Do jeito que estava caiu no chão...

 

Ajoelhou-se no meio da praça, inclinou-se até o chão e beijou essa terra suja, com êxtase e felicidade. Levantou-se e tornou a inclinar-se."

 

Cristo também passou pelo desespero, atravessou-o. Não há miséria humana que Ele não tenha tocado, apalpado com as próprias mãos, experimentado.

 

Olhemos para Ele no Monte das Oliveiras. Um trecho, menor do que um versículo, chama-me muito a atenção no Evangelho de São Lucas: “Erguendo-se após a oração”. (Notemos que Raskólnikov também se ergue). Deus estava prostrado – que mistério estupendo! –, deitado no solo, com o rosto por terra. Ele havia se retirado para um lugar deserto, tranquilo, no qual estava acostumado a rezar. Pediu ajuda, a solidariedade, dos que Lhe eram mais íntimos: Pedro, Tiago e João. Não Se confiou a todos os discípulos nem a todos os apóstolos – pois eles podiam escandalizar-se e talvez não O pudessem ajudar. Confiou-Se apenas àqueles que Lhe eram mais próximos. É bem verdade que os seus não O ajudaram muito – em alguma coisa sim, pois permaneceram ali –, mas em contrapartida os anjos do Céu vieram confortá-Lo.

 

O Evangelho parece oferecer-nos um bom roteiro: no momento do desespero, procurar um lugar ou ambiente tranquilo. Talvez esse “lugar” possa ser entendido como um “momento” de tranquilidade, de solidão, de estar a sós consigo, com Deus e com os mais íntimos. Recorrer com intensidade à oração e recomendar-se às preces e aos cuidados dos mais íntimos, mesmo com insistência. Cristo pediu a ajuda daqueles mais próximos por três vezes. Se, por um desígnio da Providência, os amigos não nos ajudarem, Deus mandará os seus anjos confortar-nos. Não há oração que fique sem resposta. Deus não fica em silêncio. Ele não tem prazer com o nosso sofrimento. Ele entende e se compadece do nosso sofrimento.

 

Falando concretamente, esse olhar o Senhor nos olhos, esse recorrer à oração, esse deixar o luar banhar-nos as costas na cena da agonia, pode significar ligar o rádio ou a TV em algum programa religioso, por exemplo, na Canção Nova. Esses bons programas podem ser os verdadeiros anjos que vêm do Céu para consolar-nos. Quem sabe pode significar também ouvir um CD de oração ou assistir a um DVD com alguma boa pregação? Quem sabe visitar Deus no sacrário de alguma Igreja tranquila e rasgar-lhe o coração como rasgou-se em dois o véu do templo? O doce olhar de Cristo espera-nos em algum lugar, para nos dar a paz. Deixemo-nos olhar.

 

Quanto ao mais, continuemos a procurar com paz e decisão a saída, a entender que solicitação a vida nos faz, podendo lançar mão dos ensinamentos do grande Viktor Frankl: a pergunta que se deve fazer não é o que a vida ainda tem a oferecer-me, mas o que eu ainda tenho a oferecer à vida, que será que ela me pede diante dessa situação concreta? Por que será que eu ainda estou no mundo? A respeito de que esse desespero me interpela?

 

 

 

Paul Medeiros Krause

quarta-feira, 14 de maio de 2014

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA", DE SANTO AGOSTINHO (EXCERTO)


"A poucos é concedido que a alma veja a si mesma (nesta vida atual), mas ela pode fazer isso com a inteligência.

Somente à inteligência é concedido perceber que nada existe maior e superior às coisas. E superior às coisas que existem com uma certa 'inchação'; pois não é absurdo chamar de inchação à extensão do corpo ('tumor'), ou alargamento. Se isto fosse o melhor de nós, os elefantes seriam mais sábios que os homens. E se algum parente destes animais disser que os elefantes são sábios -- já me admirei vendo que alguns homens têm dúvidas a respeito --, concordará certamente que a operosa abelha mostra saber mais que um asno, e comparar os tamanhos destes animais é uma asneira."

(Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA", DE SANTO AGOSTINHO (EXCERTO)


"Alguns animais enxergam muito melhor que nós pela visão natural, e nos dizemos superiores aos animais pelo uso da razão, e, sendo assim, seria intolerável dizer que, nesta superioridade, a visão da inteligência não é nada. Afirmar que a visão da mente é o mesmo que a visão dos olhos é uma coisa indigna de se afirmar."

 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA" (EXCERTO)


"E seria vergonhoso para o homem duvidar do argumento de razão, quando lhe foi concedida a potência racional. Duvidaria menos de tais argumentos que das coisas vistas com os olhos do corpo, órgãos que, frequentemente, vivem em luta com os humores que produzem."
 

 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA" (EXCERTO)


"A razão nos demonstra que não há corpo algum sem longitude, latitude e altura, e nenhuma de tais noções é suficiente, se faltam as outras duas. A alma, porém, com certa visão interior, da inteligência, pode perceber até a simples linha.

[...]

Já definimos a linha como superior às demais dimensões, por ser menos divisível. E as outras são mais divisíveis porque ocupam maior extensão. A linha não ocupa mais que a longitude, retirada a qual não sobraria nada. Portanto, o que é superior à linha não pode ter extensão."

 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

"SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA", DE SANTO AGOSTINHO (EXCERTO)



"Vejamos agora o motivo de sua dúvida: Se a alma tem quantidade, ou se, para usar a expressão, localiza-se de algum modo no espaço do corpo.

Certamente ela não é corpórea, ou não podia ver e entender o incorpóreo, como já demonstrado. Nem se limita no espaço como os corpos. Por isso, não podemos admitir como correto, nem imaginar ou supor uma alma quantitativa, seja na localização, seja na corporeidade."

 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

SOBRE A POTENCIALIDADE DA ALMA (EXCERTO)

 

"A alma, criada por Deus, tem substância própria que não é a de nenhum dos quatro elementos. [...] E se quer uma definição da alma, e saber o que ela é, respondo facilmente: É substância dotada de razão, apta a reger um corpo ('substantia quaedam rationis particeps, regendo corpori acommodata')."


 (Santo Agostinho, "Sobre a potencialidade da alma")

terça-feira, 13 de maio de 2014

HOMILIA DE BENTO XVI EM FÁTIMA, 13.5.2010


"Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: «Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gn 4, 9). O homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo… Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?» (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162).

Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, veio do Céu a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima ."


http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2010/documents/hf_ben-xvi_hom_20100513_fatima_po.html

EVENTO SATÂNICO É CANCELADO EM HARVARD


Bendito seja Deus, que ouviu as nossas preces!


http://blog.opovo.com.br/ancoradouro/evento-satanico-foi-cancelado-em-harvard-catolicos-foram-ruas-em-oracao/

sábado, 10 de maio de 2014

"CRIME E CASTIGO", DE DOSTOIÉVSKI (EXCERTO)

 
"Eis que se lembrou das palavras de Sônia: 'Vai a um cruzamento, faz uma reverência ao povo, beija a terra, porque pecaste também perante ela, e diz a todo mundo em voz alta: 'Eu sou um assassino!'. Tremeu todo ao se lembrar disso. E já estava tão oprimido pela desesperadora melancolia e pela inquietação de todo esse tempo, mas especialmente das últimas horas, que acabou se precipitando para a possibilidade dessa sensação inteira, nova, completa. Ela chegou de súbito como uma espécie de acesso: começou a lhe arder na alma como uma fagulha e de repente se apossou de tudo como fogo. Tudo nele amoleceu, e as lágrimas jorraram. Do jeito que estava caiu no chão...
 
Ajoelhou-se no meio da praça, inclinou-se até o chão e beijou essa terra suja, com êxtase e felicidade. Levantou-se e tornou a inclinar-se."


(Dostoiévski, "Crime e castigo")

"O DUPLO", DE DOSTOIÉVSKI (EXCERTO)

 
"'Meu Deus! Meu Deus! -- pensou nosso herói voltando um pouco a si, reprimindo no peito um pranto surdo --, dá-me firmeza de espírito na profundidade sem fim de minhas desgraças! De que estou aniquilado, totalmente perdido, não há mais nenhuma dúvida, e tudo isto está na ordem das coisas porque não pode ser de nenhum outro modo."

 (Dostoiévski, "O duplo")

ABRIR-SE, CONSERVANDO A IDENTIDADE


A minha impressão é a de que o belorizontino tem potencial, mas tem de deixar de ser capiau. Precisa de um choque de cultura, de civilização, sair um pouco do seu mundinho estreito e... parar de copiar os cariocas.

"O DUPLO", DE DOSTOIÉVSKI (CITAÇÃO)


"O senhor Golyádkin quis gritar, mas não pôde, quis protestar de algum modo, mas não teve forças. Ficou de cabelos arrepiados e sentou-se, desfalecido de pavor. Aliás, havia razão para isso. O senhor Golyádkin reconhecera por completo seu amigo noturno. O amigo noturno não era senão ele mesmo -- o próprio senhor Golyádkin, outro senhor Golyádkin, mas absolutamente igual a ele --, era, em suma, aquilo que se chama o seu duplo, em todos os sentidos..."


(Dostoiévski, "O duplo")

terça-feira, 6 de maio de 2014

"CAMINHO DE PERFEIÇÃO", SANTA TERESA DE JESUS (CITAÇÃO)


"O fato de Ele ser bom não justifica, no entanto, que sejamos irreverentes."


(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

"CAMINHO DE PERFEIÇÃO", SANTA TERESA DE JESUS (CITAÇÃO)


"Quem poderá afirmar que é ruim, se começarmos a rezar as Horas ou o rosário, que iniciemos pensando Naquele com quem vamos falar e em quem é que fala para saber de que modo O havemos de tratar? Pois eu vos digo, irmãs, se o muito que é preciso fazer para compreender essas duas coisas fosse bem feito, antes de começardes a oração vocal que ides fazer, teríeis dedicado bastante tempo à oração mental. Sim; não vamos falar a um príncipe com o descuido com que falamos a um lavrador ou a uma pobre como nós, para quem qualquer tratamento é adequado."


(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

"CAMINHO DE PERFEIÇÃO", SANTA TERESA DE JESUS (CITAÇÃO)


"Mas, se quereis tratar com tão grande Senhor da maneira cabível, é bom que encareis Aquele com quem falais, bem como quem sois vós, ao menos para usar de cortesia. Porque como podeis chamar o rei de Alteza ou conhecer as cerimônias que se empregam para falar com uma grande personagem se não conheceis bem a Sua e a vossa condição social? Porque é de acordo com a dignidade, e conforme o uso comum, que se prestam as honras, sendo vital que também saibais disso se não quiserdes ser despedidas como simplórias, sem nada conseguir."


(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

QUE É A ORAÇÃO MENTAL, SANTA TERESA DE JESUS


"CAPÍTULO 22
Declara o que é oração mental.

 
1. Sabei, filhas, que a diferença entre a oração mental e não-mental não está em ter a boca fechada ou aberta; se, falando, entendo perfeitamente e percebo que falo com Deus, concentrando-me mais nisso do que nas palavras que digo, estão juntas aqui a oração mental e a vocal. Isso assim é, a menos que vos aconselhem a falar com Deus, rezando o pai-nosso, ao mesmo tempo que pensam no mundo; nesse caso, calo-me."
 
 
(Santa Teresa de Jesus, "Caminho de perfeição")

sábado, 3 de maio de 2014

RECORDANDO DOM BOSCO


Jesus, eu só preciso da graça santificante na minha alma. Desde que eu a tenha, tira-me todo o resto.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O BOM LADRÃO


                        Em um texto recente, eu afirmei que todo murmurador é como o mau ladrão do evangelho. E que, na verdade, todos nós somos injustos, ladrões da glória de Deus. Não há justiça ou honestidade oponíveis a Deus. Diante de Deus, ninguém reclama com justiça. Toda reclamação ou murmúrio dirigidos a Deus são injustos.

 

                        Gostaria de avançar um pouco nessa meditação. Tenho para mim que todos nós estamos representados na paixão e morte do Senhor. A humanidade divide-se entre os dois ladrões, pois, repito, diante da inconcebível pureza de Deus, não há quem possa alegar inocência. (Se soubéssemos do que vamos prestar contas após a nossa morte, certamente surpreender-nos-íamos com o nível de exigência, lembra Santa Faustina. No Juízo Final, só teremos roubos a apresentar a Deus, pois até as nossas boas ações foi Ele quem fez em nós.) A única diferença é que uns têm consciência de que sofrem justamente – “para nós é justo. Ele, porém, não fez mal algum”, diz o bom ladrão –, outros, não. Ainda hoje diz o mau ladrão: “Se és o filho de Deus, salva-te a ti mesmo e a nós”. Quem sabe se ele não quer dizer: “salva a tua Igreja e a nós dos males deste mundo”?

 

                        O bom ladrão também pede o auxílio divino. Ele não é autossuficiente. Ele é consciente de que não tem boas obras em que se apoiar para reivindicar alguma coisa. Mas os seus olhos estão postos no reino vindouro, em realidades transcendentes, mais altas: “Lembra-te de mim quando vieres em teu reino”. O mau ladrão é imediatista. Primeiro, ele questiona, põe em dúvida, o poder de Cristo. Em seguida, ele pede alívio instantâneo, temporal, mundano: “salva-te a ti mesmo e a nós” [da cruz, da morte, do sofrimento neste mundo]. O mau ladrão não enfrenta o sofrimento com ânimo de reparação. O bom ladrão, sim. Aliás, completamente nu na cruz, preso pelas mãos e pelos pés, a única coisa que o bom ladrão poderia oferecer a Deus era a reparação, a aceitação da dor. Por isso mesmo, ele entrou no paraíso naquele mesmo dia. Mais do que isso: ele é um dos santos da Igreja, São Dimas.

 

                        Queixamo-nos de Deus pela desordem em que o mundo anda. Mas, quem violou a ordem querida por Deus foi o homem, não o próprio Deus, que não pode contradizer-se. É curioso o modo de o homem encarar o próprio pecado: “Ai, meu Deus! Eu não queria esse efeito, essa consequência do pecado que eu não tinha previsto!” Estranho esse comportamento, não?! Nós trazemos o pecado ao mundo, com suas consequências de múltiplas ordens, e nos queixamos de Deus por não impedir certas consequências dos nossos pecados. “Eu não queria que a minha desordem fosse tão desordenada!!”, “Eu não queria que a minha desobediência tivesse efeitos tão desastrosos!!”, pensamos. Ora, quando Deus proibiu o pecado, Ele o fez sabendo de todas as suas múltiplas consequências, inclusive aquela de atingir pessoas inocentes. Deus não é culpado de o bêbado atropelar e matar uma velhinha indefesa. Ou era obrigação do anjo da guarda da velhinha desviar o carro com as próprias mãos?

 

                        Os efeitos danosos do pecado são uma espécie de ação livre na causa. Ao cometermos o erro, somos responsáveis também pelos seus efeitos. Não é incumbência divina ficar tolhendo os efeitos de nossos atos de desobediência. Creio até que Deus o faça inúmeras vezes, por liberalidade, mas não há um direito nosso, oponível a Ele, a respeito disso.

 

                        O pecado é uma espécie de estelionato. O diabo, quando nos propõe uma ação má, o faz como o golpista que quer vender-nos o falso bilhete premiado da loteria. Ele promete uma realidade mundana ilusória, uma vantagem próxima falsa, contando também com uma certa malícia nossa, cupidez, propensão para o mal. O fruto da árvore da ciência do bem e do mal possuía bom aspecto. Comprado o bilhete falso, a ilusória alegria prometida, o pecador iludido não só deixa de lucrar o prêmio, como tem diminuído o seu verdadeiro patrimônio, a graça de Deus em sua alma. Saboreado o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, Adão e Eva não só não se tornaram deuses, como ficaram nus, pois antes a graça de Deus os vestia.

 

                        Nem sempre nos damos conta disto: o demônio cobra, e caro!, de quem quer trabalhar para ele. Ao invés de retribuir, ele cobra, ele engana, ele rouba. Ele arromba as portas da nossa alma, roubando-nos tudo o que ali temos de mais precioso, e não deixa nada. Os dois ladrões estão nus.

 

                        Deus ao contrário, que já nos deu tudo, recompensa-nos por trabalhar para Ele. 10, 20, 30, 100 por um!

 

                        O direito contempla a hipótese de deserdação por ingratidão. No plano espiritual acontece algo semelhante: toda vez que pecamos usamos os bens que nos foram doados por Deus contra o próprio doador. Toda pecado é uma ingratidão, uma ofensa ao Doador de todos os dons. Nada mais justo seria que fôssemos deserdados.

 

                        Até para pecar nada usamos de próprio. Tudo o que usamos no pecado nos foi doado por Deus: o corpo, a memória, a vontade, os bens. Todos os dons nos foram doados para o louvor da glória de Deus, mas nós os empregamos para o nosso próprio deleite. Somos ou não usurpadores? Somos ou não somos ladrões?

 

                        Mas eu não digo essas palavras para desanimar ninguém. E não as digo como quem se encontra em melhor situação espiritual. Ao contrário, faço-o como doutor honoris causa em pecado. Digo-o apenas para lembrá-los e, ao lembrá-los, lembrar-me de que até o último momento podemos tornar-nos o bom ladrão. Não seremos felizes buscando a nossa própria glória, buscando-nos a nós mesmos, pois isso não é amor. Seremos felizes buscando um Outro, a glória de Outro, para que todos nós e tudo quanto existe está pré-ordenado. Deus, que é o próprio amor em Três Pessoas que se amam, estabeleceu que nos salvemos pelo amor.

 

 

Paul Medeiros Krause