quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

IMACULADA CONCEIÇÃO, DIA SANTO DE GUARDA


No dia 8 de dezembro, após Santo Ambrósio, no dia 7, a Igreja comemora a  Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Em Belo Horizonte, há feriado municipal.

Isso não ocorre em todas as cidades. Contudo, é importante saber que essa festa é dia santo de guarda, dia de missa obrigatória, pelo Código de Direito Canônico e pelo Catecismo da Igreja Católica. Com um detalhe: ao contrário do que acontece com outros dias de preceito no Brasil, como a Solenidade de São Pedro e São Paulo, cuja data precisa é 29 de junho, a festa não é transferida para o domingo seguinte, de modo que é realmente preciso assistir missa no próprio dia, ou na véspera do dia anterior, para cumprir o preceito. Por falta de advertência, já faltei à missa nesse dia quando morava em Brasília, onde não é feriado.

Parece-me importante recordar que a Festa da Imaculada Conceição diz respeito à concepção ou conceição de Nossa Senhora, e não de Cristo. O dogma da Imaculada Conceição, proclamado solenemente pela Igreja em 1854, entre as aparições de Nossa Senhora das Graças em Paris, ocorridas em 1830, e de Nossa Senhora de Lourdes, em 1858, antecipado pela primeira e confirmado pela segunda, significa que a Mãe de Deus foi concebida sem pecado original, isto é, nunca esteve sujeita ao inimigo de seu Filho, Satanás. Isenta da mais leve mancha ou culpa, em previsão dos méritos de Cristo, a Santíssima Virgem foi preparada por Deus para a sua grandiosíssima missão de ser o tabernáculo, a genitora da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Veneremos a grande Mãe de Deus e adoremos o Redentor em tão grande e inefável mistério!

 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A VOLTA PRA CASA


Eis um trecho de um de meus livros prediletos, se não for o predileto:

"Preparar, pelo trabalho, a volta-para-casa, entre todas as coisas do mundo, é a que tem a maior densidade de ventura. Pode o mundo moderno aviltar o trabalho, fazendo do homem uma pura máquina para o serviço de uma babilônia; pode semear obstáculos sem fim entre a mesa do funcionário e aquela soleira de porta onde ele tira do bolso uma chave encantada e toma posse de um reino; podem os pregadores anunciar um regime ideal, em que a casa é um prolongamento da repartição, uma máquina-de-morar cujos objetos pertencem a todos (o que equivale a dizer que não pertencem a ninguém), e onde o próprio gato receberá um nome oficial; podem socializar, burocratizar, centralizar; e minar os alicerces da família; e arrebatar as crianças para chocadeiras técnicas onde se ensina que foi um dentista ou um bacharel que fizeram o mundo; debalde farão tudo isso com o auxílio de todos os demônios: o homem não esquece o paraíso que perdeu. Não esquece que seu primeiro pai foi um rico proprietário rural, que dava ele mesmo os nomes aos seus bichos e usava fartamente, e sem pena, os frutos de sua terra."

(Gustavo Corção, "Três alqueires e uma vaca")


terça-feira, 22 de novembro de 2016

JULGAR O ATO, SIM; JULGAR A PESSOA, NÃO

 
Algumas pessoas, maliciosamente, outras, ingenuamente, costumam criticar aqueles que eles pensam "julgar as pessoas", "colocar-se acima dos que erram". Tal espécie de crítica ou de pensamento, realmente suscitada pelo pai da mentira, no fundo, é profundamente relativista e subjetivista, e não se coaduna com o evangelho. Na verdade, esses falsos caridosos, esses críticos "dos que julgam", parecem ostentar uma tolerância com o erro, uma condescendência com as ofensas feitas a Deus, enquanto não admitem a menor correção fraterna, o ato de profunda caridade daqueles que se levantam, sem respeito humano, sem se preocuparem com as opiniões do mundo e às vezes até com prejuízo pessoal, para dizer que o certo é certo e que o errado é errado.
 
Esses que "julgam os que julgam" é que verdadeiramente pecam, são preconceituosos e críticos. Pois é lícito e até necessário julgar os atos, de um modo objetivo, sem inquirir sobre a responsabilidade subjetiva, sobre o grau de responsabilidade do que o pratica, a menos que se esteja obrigado a tanto e na medida do que se está autorizado, por lei divina ou humana, como os pais, superiores e juízes. Os atos humanos, as ações humanas, ao contrário do que quer fazer crer o pai da mentira e os seus embaixadores tão simpáticos a este mundo, não são neutros. Não existe meio termo. Ou agrada-se a Deus, ou ofende-se a Deus. Um ato ou ação humana ou atende à Justiça Divina (inclusive aqueles em que há total liberdade de escolha, como por exemplo, vestir verde, azul ou bege) ou a contraria. E não há mal algum em condenar um ato que ofende objetivamente a Lei de Deus.
 
Os atos indiferentes à moral atendem à Justiça Divina, pois a regra é a liberdade. As proibições são exceções.
 
A correta compreensão do "não julgar" significa não ajuizar, não formular juízos sobre o grau da culpabilidade ou da responsabilidade de cada pessoa, pois, em última instância, só Deus as conhece. A gravidade de um ato depende do grau de liberdade e de conhecimento daquele que o pratica. Só Deus os conhece. Por outro lado, quanto ao conteúdo de moralidade dos atos humanos, Deus já o revelou aos homens por meio dos seus mandamentos e dele se ocupam os moralistas - estudiosos da moral - e os peritos em teologia moral, ciência de grande valor. Com efeito, os moralistas e os teólogos moralistas prestam um grande serviço, fazem uma grande caridade ao gênero humano.

Com muita tranquilidade pode dizer-se que um homicídio é mau ou que um ato de homossexualidade é intrinsecamente perverso. Agora, a responsabilidade do homicida e do homossexual, com todas as suas agravantes e atenuantes, só Deus conhece, e o julgamento que só compete a Deus, sobre a salvação ou condenação de cada um no dia do Juízo, não foi delegado a ninguém, nem por lei divina, nem por lei humana. O juiz, ao condenar um homicida à pena privativa de liberdade, não deve julgar-se melhor do que o assassino, pois a teologia ensina que, se Deus o abandonar, ele será capaz de cometer o mesmo crime ou outro muito pior. Todo o bem que fazemos e todo o mal que evitamos devem-se à graça de Deus, é mérito de Deus, e não nosso.
 
Dito isso, para concluir, aos que formulam esta espécie de crítica:
 
-- Nossa! Como você julga as pessoas! 
 
Respondo:
 
-- Nossa! Como você julga os que julgam os atos, e tão somente os atos, das pessoas! Se você é tão tolerante com os que erram, por que não é tolerante com o meu "suposto" erro?

Que nossa ignorância não sirva de pretexto, nem nossa malícia de instrumento, para pactuarmos com o mal.

 

sábado, 19 de novembro de 2016

A RAZÃO É O PILAR DA FÉ

"O pilar que sustenta a fé não é, pois, a emoção ou a carência psicológica. É a busca inteligente e clara da verdade, real, objetiva, sólida, externa ao homem".

("Lições de Gustavo Corção", Marta Braga, Quadrante)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O LIVRE-ARBÍTRIO, GRANDE POTÊNCIA DA ALMA

 
Santo Agostinho possui um livro magistral chamado "O Livre-Arbítrio", que eu tive o prazer de ler na minha primeira viagem a Tiradentes. Livro fino, mas denso, verdadeiramente espetacular e de refinadíssimas especulações. Só conheço o da Editora Paulus, não sei se há outra edição no Brasil. Recomendo a leitura, prevenindo-os dos obstáculos que a dificuldade do tema criará por si mesma.
 
Uma das primeiras lições que se aprende em Direito Penal é que o inventor da pólvora não é culpado pelos crimes que depois se realizaram com as armas de fogo. Nem o fabricante de revólveres, pelos delitos cometidos com os produtos do seu engenho ou ofício. Ocorre-me hoje comparar o livre-arbítrio com uma faca, uma chave de fendas ou um automóvel.
 
O fabricante de facas, que em si mesmas são instrumentos extremamente úteis, bem assim o de automóveis, não podem ser responsabilizados por eventuais homicídios ou atropelamentos criminosos cometidos por meio desses instrumentos ou equipamentos. O produtor de uma chave de fendas não pode ser responsabilizado pelo fato de eu, num momento de fúria, resolver enfiá-la no meio do olho de um desafeto.
 
O mesmo se dá com o livre-arbítrio: Deus nos deu a liberdade para amá-Lo, para adquirir méritos, e não deméritos. Deu-nos a liberdade como um meio ou instrumento útil e necessário para amá-Lo; não para odiá-Lo. Portanto, Ele não pode ser responsabilizado pelo mau uso que fazemos dessa maravilhosa potência da nossa alma, empregada em nossas ações, que é a liberdade.
 
Se fôssemos meros robôs, que praticassem o bem sem liberdade, não teríamos méritos nem amor, que pressupõe a liberdade como elemento essencial.
 
Deus não é o autor do mal.
 
Contudo, a experiência demonstra, e a inteligência comprova, que do mal Deus tira o bem. Diz-se: "dos males Deus tira bens; dos grandes males, grandes bens". É bem por isso que na Vigília Pascal a Igreja canta, inebriada, com Santo Agostinho, referindo-se ao pecado original: "Ó culpa feliz que nos mereceu tão grande Salvador!"

 

domingo, 13 de novembro de 2016

TODOS OS SANTOS CARMELITAS


14 de novembro: festa de todos os santos carmelitas. Dia de indulgência plenária para quem usa o escapulário devidamente imposto, desde que cumpra as condições habituais: confissão, comunhão e orações pelo Papa.


sábado, 12 de novembro de 2016

ORAÇÃO DE SANTO AGOSTINHO, UTILIZADA POR MONTFORT


No aniversário de Aurélio Agostinho, Santo Agostinho, nascido na Argélia em 13 de novembro de 354, rezemos a sua belíssima oração tão recomendada no "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem", por São Luís Maria Grignion de Montfort:
 
"Vós sois, ó Jesus, o Cristo, meu Pai santo, meu Deus misericordioso, meu Rei infinitamente grande; sois meu bom pastor, meu único mestre, meu auxílio cheio de bondade, meu bem-amado de uma beleza maravilhosa, meu pão vivo, meu sacerdote eterno, meu guia para a pátria, minha verdadeira luz, minha santa doçura, meu reto caminho, sapiência minha preclara, minha pura simplicidade, minha paz e concórdia; sois, enfim, toda a minha salvaguarda, minha herança preciosa, minha eterna salvação...
 
Ó Jesus Cristo, amável Senhor, por que, em toda a minha vida, amei, por que desejei outra coisa senão vós? Onde estava eu quando não pensava em vós? Ah! que, pelo menos, a partir deste momento meu coração só deseje a vós e só por vós se abrase, Senhor Jesus! Desejos de minha alma, correi, que já bastante tardastes; apressai-vos para o fim a que aspirais; procurai em verdade aquele que procurais. Ó Jesus, anátema seja quem não vos ama. Aquele que não vos ama seja repleto de amarguras. Ó doce Jesus, sede o amor, as delícias, a admiração de todo coração dignamente consagrado à vossa glória. Deus de meu coração e minha partilha, Jesus Cristo, que em vós meu coração desfaleça, e sede vós mesmo a minha vida. Acenda-se em minha alma a brasa ardente de vosso amor e se converta num incêndio todo divino, a arder para sempre no altar de meu coração; que inflame o íntimo do meu ser, e abrase o âmago de minha alma; para que no dia de minha morte eu apareça diante de vós inteiramente consumido em vosso amor... Amém."
 
 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

SEMANA DOS MORTOS

 
Começa hoje a Semana dos Mortos, em que se podem lucrar indulgências plenárias pelos falecidos, observando as seguintes condições:

- visita ao cemitério rezando lá pelo menos um Credo e um Pai-Nosso; no dia de finados, a visita pode ser a igreja paroquial em vez de cemitério;

- do dia 1.o a 8 de novembro;

- só vale para os mortos;

- estado de graça;

- confissão individual em dia próximo, no máximo 20 dias antes ou depois, alguns dizem 8 dias antes ou depois;

- comunhão;

- Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória ao Pai nas intenções do Papa;

- desapego de todo pecado, inclusive venial.
 

domingo, 30 de outubro de 2016

"OS OFÍCIOS ALHEIOS E O MEU", GUSTAVO CORÇÃO


A título de descanso, ou de desintoxicação, prometi aos leitores reflexões sobre os vários ofícios do homem e, se não me falha a memória, prometi para hoje histórias de barbeiro. Devo de início confessar que, na minha vida maior que a do século, embora seja eu fiel e constante por natureza, fui inconstante em barbeiros, ao sabor das inconstâncias da vida. Recuando até os tempos em que fui engenheiro da Radiobrás, surge-me na memória o João Saraiva, português, sentencioso e profundo.
 
Devo, aliás, fazer uma reparação à injustiça com que costumamos contar histórias de português, como se eles fossem mais parvos do que nossos parvos. Descobri há algum tempo que a insensatez lusitana tem algo de estapafúrdio e não-euclidiano, mas nesse mesmo absurdo com que se adorna, ela roça pelo gênio. Há, por exemplo, no melhor Fernando Pessoas, coisas que são autênticas histórias de português.
 
Ultimamente saio pouco, e cada vez mais diminuo o raio de meu pequeno mundo, como se diminuísse com ele minha 'peau de chagrin', por isso tive de remexer papéis velhos para encontrar alguma crônica amarelada. O João Saraiva ficará para outra oportunidade porque a história que achei nos meus papéis velhos é de 1957 e podia intitular-se 'A barba clandestina'.
 
Descobri um lugar onde posso achar quem me faça a barba nas manhãs de segunda-feira, coisa que é proibida, não sei se pelo Ministério do Trabalho, pelo governo municipal, ou pelo Ministro da Guerra, e que por diversos motivos, a começar por essa proibição, me assegurará doravante uma pequena e estimulante alegria nos umbrais das hebdomadárias aflições. Não digo onde é, perdoe-me o leitor esse egoísmo, porque pode acontecer que pela primeira vez, em vinte anos de jornalismo, as autoridades deem alguma atenção ao que escrevo. Calo o número e a rua, mas sou forçado, por imperativos de meu ofício, a descrever, convenientemente camuflado, o cenário onde sinto o gosto da barba feita em atmosfera de contravenção.
 
É num fundo de loja. Você atravessa o salão deserto com passo cauteloso, dobra à direita, depois à esquerda, e chega a um pátio onde já se acham diversos oficiais e os fregueses iniciados no arcano. Há sorrisos de conivência e cicios de conspiração; há até quem leve o gosto da irregularidade até o corte de cabelo. A gente tem a impressão de estar tramando a volta de um rei, ou cumprindo o rito de um culto perseguido. Mas a catacumba dos barbeiros é alegre. Dá para um cortiço onde há mulheres batendo roupa no tanque e passarinhos chilreando em gaiolas de bambu. O oficial explicou-me o motivo daquela inconfidência de navalhas: a semana inglesa dos barbeiros tem a pausa da lei nas segundas-feiras em vez de tê-la aos sábados como a inglesa dos outros ofícios. Será uma semana portuguesa, disse ele piscando o olho e apontando para o patrão.
 
Perguntei-lhe se eram obrigados a trabalhar às segundas-feiras. Não. Não eram. Vinham por gosto e por interesse próprio. O patrão concorda porque também tem lucro nessas horas extraordinárias. Os fregueses também gostam.
 
-- Mas então, perguntei eu, por que existe tal proibição se todos querem barbear e ser barbeados?
 
O oficial respondeu com um sorriso triste de cidadão que já desistiu de decifrar o enigma das leis e das posturas. Indaguei a respeito da multa e do perigo de ter minha barba interrompida num hemisfério do rosto. O oficial tranquilizou-me com um sorriso de outra espécie, e explicou-me que o fiscal também está interessado nas barbas clandestinas.
 
-- Mas então, tornei eu, por que esse esconderijo? Por que não fazer a barba no salão com mais conforto?
 
O oficial esboçou um terceiro sorriso, mais fino que os anteriores, e parecendo penalizado com minha ingenuidade dignou-se ensinar-me que havia as aparências a resguardar.
 
Uma luz inundou-me o intelecto e revelou-me as coisas que o barbeiro sabia e outras que talvez ignore. E um hino de louvor brotou-me no coração. Sábias leis! Sábios e profundos decretos são esses, raríssimos no gênero e na espécie, que conseguem contentar todo mundo, e que, contentando, lá deixam nos passes da cerimônia um frêmito de aventura.
 
Instalei-me na cadeira proibida e assegurada. Distendi os nervos, deixando uns poucos deles esticados para os 'pizzicati' das surpresas. Dividi-me entre os ruídos municipais que pela direita traziam-me o arquejar da rua cheia de veículos e fiscais, e o chilrear dos pássaros que, pela esquerda, me davam a impressão de estar fazendo abluções num despertar de floresta. Fechei os olhos e fui inteiramente feliz. Feliz por estar na rotina e ao mesmo tempo fora dela; por ter uma espécie de sábado mais fresco na segunda-feira, por sentir fiscais à direita e canários à esquerda. Não pode haver felicidade sem paz, mas também, ao menos neste mundo sublunar, sem algum receio de perdê-la. Fui feliz por todos esses motivos que explico e publico, e por tanto outros que estavam presos e que, libertados, me inundaram de sossego e de romance. Não digo quais são por não saber eu mesmo e por medo de perdê-los. Os sonhos não têm vida fora do sonhador.
 
Na hora de pagar o moço explicou-me que era mais cinco cruzeiros por ser segunda-feira. Mais fosse, amigo, mais fosse! Quem não pagaria cinco cruzeiros por barba escanhoada entre os murmúrios de uma floresta wagneriana, ou no silêncio de uma catacumba romana? Além disso, sejamos justos, há o fiscal. E também -- sejamos sinceros -- há o saldo do que me pagam por estas linhas, que não seriam tão fáceis sem a segunda-feira, sem os passarinhos e sem a contravenção.
 
 
(Gustavo Corção, "Os ofícios alheios e o meu", em "Conversa em sol menor", Agir)
 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"AS GRANDES AMIZADES", RAÏSSA MARITAIN


 


É possível adquirir esta pérola, esta jóia do pensamento católico, no site da Cultor de Livros. Trata-se de um clone de livro editado pela AGIR.

Livro belíssimo, semelhante às "Confissões" de Santo Agostinho e à "Descoberta do outro" de Corção, relata a conversão intelectual de Jacques Maritain, maior entre os filósofos neotomistas, e de sua esposa, russa, Raïssa Maritain ao catolicismo. Ainda estou na página 98, mas já vi referências preciosas à amizade do casal com grandes nomes como Charles Péguy, Henri Bergson e o grande Léon Bloy.

Leitura absolutamente obrigatória para todo intelectual católico que se preze.
 

SOBRE O RESPEITO AO TEMPLO


Parece-me ter lido no livro "O Segredo de Fátima", excelente por sinal, uma recriminação que o Anjo de Portugal fez ao ato de se cruzarem as pernas dentro da Igreja. Segundo ele, tal posição seria desrespeitosa para com a dignidade do templo e para com Jesus Eucarístico. Tentarei localizar o trecho e verificar se minha memória está realmente boa!
 
Infelizmente, tantos de nós entramos na Casa de Deus com qualquer roupa, com vestes de academia, shorts, bermudas, chinelo, mascando chicletes, mesmo para participar do Santo Sacrifício da Missa. Quantos não se assentam e batem papo, atendem o celular, como se estivessem sentados num banco de Praça!
 
É um espetáculo lamentável!
 

domingo, 9 de outubro de 2016

ANGATU


Um pequeno grande restaurante em Tiradentes: Angatu. O Arroz de pato é excepcional, o melhor que eu conheço, e o vinho Hécula, espanhol, uva Monastrell, de que eu nunca ouvira falar, meia garrafa, excelente!, combina muito bem com o prato. Para sobremesa, a rabanada é muito boa, mas o sorvete com leite queimado é extraordinário.

Os quadros do artista Sérgio Ramos, que já expôs no Louvre, são um charme à parte.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

MÊS DO ROSÁRIO


Em 2 de novembro de 2011, há quase cinco anos atrás, fiz minha consagração a Nossa Senhora pelo método de São Luís Grignion de Montfort. Quis fazer toda a preparação ao longo do mês dedicado a Nossa Senhora do Rosário, que, por determinação do Papa Leão XIII, autor de numerosas encíclicas sobre o rosário, chamado de "Papa do Rosário", possui 33 dias, começando no dia 1.º de outubro e terminando no dia de finados. Coincidentemente, o mês do rosário possui, em dias, o mesmo número de anos que Jesus Cristo viveu, segundo a tradição - alguns estudiosos divergem quanto a isso -, provavelmente a demonstrar a vinculação estreita dessa devoção mariana com a contemplação da vida terrena do nosso Salvador.

Infelizmente, a data mesma da minha consagração não coincidiu com uma data mariana. A festa de Nossa Senhora do Rosário é logo no começo do mês, no dia 7. Contudo, embora o dia mesmo da consagração não coincida com tal festa, eu a fiz com os olhos e com o coração postos nesse belíssimo título da Mãe de Deus, sentindo-me acompanhado por Ela, não somente no final da preparação, mas durante todos os 33 dias.

Amanhã, se Deus quiser, reinicio aquele mesmo itinerário, aqueles mesmos deliciosos exercícios espirituais do Tratado da Verdadeira Devoção.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

SUGESTÃO DE CANDIDATOS


Minha sugestão de candidatos para as próximas eleições:

45 - João Leite, Prefeito

70012 - Adrian Paz, Vereador

Os amigos devem ter visto que o candidato Eros Biondini mostrou a que veio e que de católico não tem nada. Quer subir a qualquer preço. No MGTV da última sexta-feira, 23/9, por volta de 5'20'' de entrevista, ele disse que nomearia um transexual para a sua secretaria LGBT. É triste ver o ponto a que chega um pretenso candidato católico, a que tipo de alianças se presta, para fazer carreira política! Lamentável e triste episódio! Torço para que o candidato volte a si, porque terá de prestar contas, não somente aos eleitores, mas diante do Tribunal de Deus pelas alianças que faz, pelas políticas públicas que adota, pelo uso oportunista de grupos de oração, de movimentos e programas de televisão católicos e pelo mau exemplo que dá ao povo de Deus.
 
Rezemos por ele para que caia em si.
 
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

PRECISAMOS FALAR SOBRE O TRÂNSITO DE BELO HORIZONTE


Senhores candidatos a prefeito e vereador em Belo Horizonte,


Precisamos falar sobre o trânsito de Belo Horizonte. As intervenções da BHTRANS no trânsito da cidade são totalmente desastradas, amadorísticas, improvisadas. Em lugar de se alargarem as pistas de rolamento, elas são afuniladas, com a criação de ciclovias totalmente inadequadas e que ninguém usa, com o alargamento dos passeios e com a concentração do fluxo em determinadas vias. As pistas de rolamento são para os automóveis, não para pedestres e ciclistas! Não há trânsito que aguente tanto improviso, tanta preocupação politicamente correta com pedestres e ciclistas! Ao invés de capilarizar o fluxo, ele é concentrado em determinadas vias! Sejamos mais modernos! Para que tanta mão e contramão? Sejamos mais lógicos!

O trânsito de Belo Horizonte é completamente neurótico, dá voltas e mais voltas pelos mesmos lugares. É absolutamente irracional e ilógico. Nada previsível e nada intuitivo. Não é tratado com rigor técnico.
 
 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

ALIENAÇÕES COLETIVAS


Tenho observado que o espantoso fenômeno da alienação é uma doença comum, uma espécie de cegueira da alma. Há alguns comportamentos, algumas reações, tão descompassados, tão desconectados da realidade, que só podem explicar-se por uma espécie de doença do espírito, que normalmente ocorre no meio de grupos.

Existe o louco, o alienado individual. Mas parece mais comum o alienado coletivo, que possui as mesmas taras e alienações do seu grupinho, às vezes não tão pequeno. Um cidadão que esbraveje "golpe!" contra o impeachment só pode ser um perturbado, um alienado moral, um demente, um esquizofrênico. É alguém que não habita no Brasil, que não tem os pés no planeta terra.

Eu poderia aqui trazer números, mencionar a grande coleção de indústrias e estabelecimentos comerciais fechados, o aumento da taxa de suicídio, causado pela indevida e desarrazoada intromissão do Estado nas economias domésticas, mas de nada adiantaria. Sem a cura da cegueira, sem boa vontade, sem simpatia pela verdade, é impossível uma discussão saudável. O alienado é o cego do espírito, o cego pela vontade. É o macaco de imitação que copia o seu grupinho. É o indivíduo incapaz de ver-se criticamente e de ver, numa crítica saudável, sincera, verdadeira, os círculos à sua volta.

Creio que o caso exija muita oração e vida ascética porque deve haver alguma participação do espírito das trevas, do pai da mentira, nessas alienações, nessas alucinações coletivas.


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O PT E DOSTOIÉVSKI


Dostoiévski parece ser o escritor preferido dos membros do Partido dos Trabalhadores. Pelo menos, muitos deles parecem inspirar-se em Raskólnikov, o assassino de "Crime e castigo". Cometem crimes, mas se julgam seres humanos de uma categoria superior,  autorizados a cometê-los em prol de uma causa, em favor dos outros (dos inferiores, que não sabem conduzir a si mesmos).

Mas, se apreciam Dostoiévski, têm de apreciá-lo por inteiro. Têm de imitar Raskólnikov até o fim. Beijar a terra e pedir perdão a todos os homens. Em primeiro lugar, parar de mentir aos outros e a si mesmos.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

"AQUELA QUE CHORA", LÉON BLOY



Confesso ao leitor minha total ignorância sobre as aparições de Nossa Senhora da Salette em 19 de setembro de 1846, na França. Encontrei "Aquela que chora", de Léon Bloy, um dos maiores escritores franceses modernos, providencialmente outro dia na Livraria Saraiva. Recomendo muito a leitura. É muito atual a mensagem de Nossa Senhora da Salette.

Léon Bloy é um grande escritor católico, com aquele estilo cáustico que parece ser característico dos franceses e que muito me agrada, como em Georges Bernanos. Bloy teve papel decisivo, ao que me consta, na conversão de Jacques e Raïsa Maritain, dois filósofos seus compatriotas, ao catolicismo.

Boa leitura!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

IMPEACHMENT

 
O impeachment foi uma grande, uma extraordinária, graça de Deus concedida ao povo brasileiro, talvez até em preparação ao ano jubilar pelos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida, que será no ano que vem.
 
Nossa Senhora veio libertar o povo brasileiro. Deus age por meio dos homens, atua pelas causas segundas. Não nos percamos apenas nas causas próximas dos fenômenos, dos acontecimentos, mas avancemos em direção às causas últimas ou primeiras. Procuremos intuir a ação providencial de Deus por trás das realidades temporais.
 
O ano de 2017 será certamente de abundantes graças espirituais para o Brasil, para a América Latina e para o mundo.
 
Além do Jubileu de Nossa Senhora Aparecida, haverá o jubileu de 400 anos de falecimento de Santa Rosa de Lima, terceira dominicana, padroeira da América Latina, no Peru. Isso sem falar no grande jubileu de 100 anos das aparições de Nossa Senhora de Fátima. Será um ano triplamente jubilar!
 
Vamos aproveitar bem essas grandes graças! Vigiemos e nos preparemos porque talvez haja dias sombrios no mundo, com o avanço cada vez maior do secularismo na Europa e em outras partes do mundo, com crescente hostilidade à fé católica, cristã e também muçulmana.
 
Infelizmente, haverá também o aniversário de 500 anos da Reforma Protestante, talvez a maior tragédia que se abateu sobre o mundo desde o nascimento do cristianismo. Outro triste aniversário será o de 100 anos da Revolução Comunista, também em outubro de 2017, assim como o da Reforma Protestante. Coincidentemente, no mês do rosário. Da Reforma Protestante o mundo não parece ter se recuperado. Todos os males do mundo moderno parecem decorrer direta ou indiretamente do relativismo, subjetivismo e espírito de revolta de Lutero. O mundo moderno tem o espírito de Lutero.
 
 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

"ATUALIDADE DE SANTO TOMÁS", NA BH NEWS TV

 
Guilherme Ferreira, bacharel em História e mestre em Filosofia, e eu, estaremos no Programa "Faz Bem", da BH News TV, canal 9 da NET, amanhã, quarta-feira, 24/8, às 22h30, falando sobre a "Atualidade (do Pensamento) de Santo Tomás". A entrevista também pode ser vista pelo site: http://www.bhnews.tv.br/ .
 
O programa terá várias reexibições e é apresentado pela jornalista Mitsi Coutinho, a quem agradecemos o gentil convite.
 
A quem puder assistir e comentar agradeço as críticas e comentários. Podem descascar!
 
Eis o horário das reapresentações:
 
Quinta (25/8) - 07:30 e 21:00h
 
Sexta (26/8) - 03:00, 10:00, 15:00 e 19:00h
 
Sábado (27/8) - 06:30 e 19:30h
 
Domingo (28/8) - 02:00, 12:00 e 22:30h
 
Segunda (29/8) - 19:00h
 
Terça (30/8) - 11:00 e 23:00h
 
 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O MUNDO MODERNO

 
O mundo moderno resultou de um divórcio: o divórcio, o afastamento, da filosofia em relação a Santo Tomás. O nominalismo, uma filosofia burguesa, uma ideologia prostituída, rompeu com Santo Tomás. O mundo divorciou-se de Santo Tomás. E, como em quase todo divórcio, os filhos da modernidade (nem todos!) ficaram neuróticos, lidam mal com a realidade e acreditam em fantasmas. Uns filhos da modernidade, os que conseguiram defender-se, sóbria e acertadamente tomaram as dores do pai (Tomás); outros, mais apaixonados, mais sentimentais, mais sensíveis, tomaram as dores da mãe (a filosofia decaída, com as suas paixões). No caso, o pai tinha razão (em sentido amplo e estrito).

Depois de divorciar-se de Tomás, isto é, a fé divorciar-se da razão, e a razão divorciar-se da realidade, o mundo divorciou-se da Igreja, na Reforma. Depois, divorciou-se de Cristo, nos ataques que a teologia liberal Lhe fez. Mais tarde, divorciou-se de Deus, no ateísmo prático ou militante. Por último, para não perder o costume, divorciou-se do homem. São os dias que correm.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SALVE, SÃO DOMINGOS!

 


8 de agosto: Memória de São Domingos de Gusmão, fundador e pai da Ordem dos Pregadores ou Dominicanos, O.P., e das Confrarias do Rosário, criador e apóstolo do Santo Rosário, terror dos hereges albigenses!

"Caminhemos como se fôssemos um só, e não haverá força infernal que nos desbarate." (São Domingos de Gusmão a São Francisco de Assis)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

VISÃO DE SÃO DOMINGOS, POR SANTA CATARINA DE SENA


 
Ao terminar este mês de Abril dedicado de modo particular a Santa Catarina de Sena, quero apresentar uma visão que Santa Catarina teve e que como dominicano não pode deixar de me impressionar e de colocar algumas questões. Esta visão é relatada na “Legenda” que o Beato Raimundo de Cápua escreveu sobre a vida de Santa Catarina e é da edição francesa do final do século XIX que a retiramos.

“São Domingos chamou-me miraculosamente a entrar na sua Ordem. Reconheço que não era digno, mas seria um filho ingrato se passasse em silêncio a glória do nosso Bem-Aventurado Pai. Devo portanto contar a revelação que Catarina teve sobre ele. O irmão Bartolomeu, que está agora comigo, é que me contou, tal como ela lhe tinha contado a ele.

Catarina assegurava que tinha visto o Pai Todo-Poderoso produzir da sua boca o Filho, que é co-eterno, tal como Ele era quando tomou a natureza humana. E enquanto o contemplava ela viu o Bem-Aventurado Patriarca Domingos sair também do peito do Pai, resplendente de luz. Ouviu então uma voz que dizia: Minha filha, muito amada, gerei estes dois filhos, um por natureza e o outro por uma doce e terna adopção.

Como Catarina se surpreendeu com uma comparação tão elevada, que igualava um santo a Jesus Cristo, Aquele que lhe tinha dito aquelas palavras explicou-lhe: O meu Filho, gerado por natureza desde a eternidade, quando se revestiu da natureza humana obedeceu-me em tudo perfeitamente até à morte. Domingos, o meu filho por adopção, desde o seu nascimento até aos últimos instantes da sua vida, seguiu em todas as coisas a minha vontade. Jamais transgrediu algum dos meus mandamentos, nunca violou a virgindade da sua alma e do seu corpo, sempre conservou a graça do baptismo que o tinha regenerado.

O meu Filho por natureza, que é o Verbo eterno da minha boca, anunciou ao mundo o que lhe tinha encarregado de dizer, e deu testemunho da Verdade, como disse a Pilatos. O meu filho adoptivo, Domingos, pregou também ao mundo a verdade das minhas palavras, ele falou aos heréticos e aos católicos, não só ele mas também por intermédio daqueles que o seguiram. A sua pregação continuou nos seus sucessores, ele prega ainda e pregará sempre.

O meu Filho por natureza enviou os seus discípulos, o meu filho por adopção enviou os seus religiosos, o meu Filho por natureza é o meu Verbo, o meu filho por adopção é o seu arauto, o ministro do meu Verbo. Também eu dei de modo particular a ele e aos seus religiosos a inteligência das minhas palavras e a fidelidade de as seguir.

O meu Filho por natureza tudo fez pelos seus ensinamentos e pelos seus exemplos para procurar a salvação das almas, Domingos meu filho por adopção fez todos os esforços para arrancar as almas dos vícios e do erro. A salvação do próximo foi o seu principal objectivo quando estabeleceu e desenvolveu a sua Ordem.

Também Eu o comparo ao meu Filho por natureza, de quem ele imitou a vida e por isso tu vês que o seu corpo se assemelha ao corpo sagrado do meu divino Filho
”.[1]

Hoje continuamos a ser indignos servos, como se reconhece Raimundo, mas devíamos interrogar-nos sobre o que fizemos com a fidelidade e a inteligência da Palavra.

[1] BEATO RAIMUNDO DE CÁPUA – Vie de Sainte Catherine de Sienne. Paris, Librairie Poussielgue Frères, 1877, 189-190.

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Fonte: http://vitaefratrumordinispraedicatorum.blogspot.com.br/2009/04/visao-de-sao-domingos-por-santa.html
 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O PRAZO DA CONFISSÃO PARA A OBTENÇÃO DE INDULGÊNCIAS

 
Há algum tempo venho tentando descobrir qual é o prazo preciso exigido para que uma confissão individual permita a obtenção de uma indulgência plenária. Já li em algum lugar (creio que em alguns documentos pontifícios mais antigos) que seria de 8 (oito) dias antes a 8 (oito) dias depois da realização da obra indulgenciada (visita a um lugar santo, recitação do terço etc.). Até onde pude apurar, tudo leva a crer que o prazo seja de cerca de 20 (vinte) dias antes ou depois da realização de tal obra. É o que consta do documento abaixo, obtido do site do Vaticano, do órgão incumbido do assunto, a Penitenciaria Apostólica.
 
O documento abaixo, intitulado "O dom da indulgência", é datado de 29 de janeiro de 2000. Por meio dele, a Penitenciaria Apostólica quis recordar aos fiéis as normas aplicáveis à disciplina das indulgências, por ocasião do ano jubilar de 2000.
 
 

"O DOM DA INDULGÊNCIA", PENITENCIARIA APOSTÓLICA

O  dom  da  indulgência  manifesta  a plenitude  da  misericórdia  de  Deus, que  é  expressa  em  primeiro  lugar no sacramento  da  Penitência  e  da  Reconciliação.
Esta antiga prática, acerca da qual não  faltaram  incompreensões  históricas,  deve  ser  bem  compreendida  e acolhida.
A reconciliação com Deus, embora seja dom da Sua misericórdia, implica um processo em que o homem está envolvido no seu empenho pessoal, e a Igreja, na sua missão sacramental. O caminho de reconciliação tem o seu centro no sacramento da Penitência, mas também depois do perdão do pecado, obtido mediante esse sacramento, o ser humano permanece marcado por aqueles "resíduos" que não o tornam totalmente aberto à graça, e precisa de purificação e daquela renovação total do homem em virtude da graça de Cristo, para cuja obtenção o dom da indulgência lhe é de grande ajuda.
Entende-se por indulgência a "remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel devidamente disposto obtém em certas e determinadas condições pela acção da Igreja que, enquanto dispensadora da redenção, distribui e aplica, por sua autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos" (Enchiridion indulgentiarum, Normae de indulgentiis, Libreria Editrice Vaticana 1999, pág. 21; Catecismo da Igreja Católica, n. 1471).
A seguinte nota da Penitenciaria Apostólica recorda as disposições necessárias para obter com fruto a indulgência jubilar.
As celebrações do Ano jubilar não são só ocasião singular para aproveitar o grande dom que o Senhor nos faz das Indulgências mediante a Igreja, mas também são felizes oportunidades para evocar à consideração dos fiéis a catequese sobre as Indulgências. Por isso a Penitenciaria Apostólica publica, em benefício de quantos realizam as visitas jubilares, este aviso sagrado: 
Apelos de índole geral sobre as Indulgências
1. A Indulgência é assim definida no Código de Direito Canónico (cf. cân. 992) e no Catecismo da Igreja Católica (n. 1471):  "A indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel devidamente disposto obtém em certas e determinadas condições pela acção da Igreja que, enquanto dispensadora da redenção, distribui e aplica, por sua autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos".
2. Em geral, a obtenção das Indulgências exige determinadas condições (ver abaixo nn. 3-4) e o cumprimento de certas obras (ver nn. 8-10, onde se indicam as que são próprias do Ano Santo).
3. Para obter as Indulgências, tanto plenárias como parciais, é preciso que, pelo menos antes de cumprir as últimas disposições da obra indulgenciada, o fiel esteja em estado de graça.
4. A Indulgência plenária só pode ser obtida uma vez por dia. Mas para a conseguir, além do estado de graça, é necessário que o fiel:
tenha a disposição interior do completo afastamento do pecado, mesmo só venial;
se confesse sacramentalmente dos seus pecados;
receba a Santíssima Eucaristia (certamente é melhor recebê-la participando na Santa Missa:  mas para a Indulgência só é necessária a sagrada Comunhão);
ore segundo as intenções do Sumo Pontífice.
5. É conveniente, mas não é necessário que a Confissão sacramental, e em especial a sagrada Comunhão e a oração pelas intenções do Papa sejam feitas no mesmo dia em que se cumpre a obra indulgenciada, mas é suficiente que estes ritos sagrados e orações se cumpram dentro de alguns dias (cerca de 20), antes ou depois do acto indulgenciado. A oração segundo a intenção do Papa é deixada à escolha do fiel, mas sugere-se um "Pai Nosso" e uma "Ave Maria". Para diversas Indulgências plenárias, é suficiente uma Confissão sacramental, mas requerem-se uma distinta  sagrada  Comunhão  e  uma distinta  prece,  segundo  a  intenção  do Santo  Padre,  para  cada  Indulgência plenária.
6. Os confessores podem comutar, em favor daqueles que estão legitimamente impedidos, quer a obra prescrita quer as condições requeridas (excepto, obviamente, a separação do pecado, mesmo venial).
7. As Indulgências são sempre aplicáveis a si próprio ou às almas dos defuntos, mas não a outras pessoas vivas sobre a terra.
Aspectos próprios do Ano jubilar
Tendo em vista as necessárias condições, de que se fala nos números 3-4, os  fiéis  podem  obter  a  indulgência jubilar  cumprindo  uma  das  seguintes obras,  expressas  a  seguir  em  três categorias.
8. Obra de piedade ou religião: 
fazer uma piedosa peregrinação a um Santuário ou Lugar jubilar (em Roma:  uma das 4 Basílicas patriarcais - São Pedro, São João de Latrão, Santa Maria Maior, São Paulo fora dos Muros - ou a Basílica da Santa Cruz de Jerusalém, a Basílica de São Lourenço "al Verano", o Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor ou uma das Catacumbas cristãs), participando ali na Santa Missa, noutra celebração litúrgica (Laudes ou Vésperas) ou num exercício de piedade (Via-Sacra, Rosário, recitação do hino Akathistos, etc.);
ou fazer uma visita piedosa, em grupo ou singularmente, a um dos próprios lugares jubilares, fazendo ali a adoração eucarística e piedosas meditações, concluindo-as com o "Pai Nosso", o "Credo" e uma invocação à Virgem Maria.
9. Obra de misericórdia ou caridade: 
visitar, durante um tempo adequado, irmãos em necessidade ou em dificuldade (doentes, prisioneiros, anciãos sozinhos, deficientes, etc.), como que realizando uma peregrinação a Cristo presente neles;
ou sustentar com um significativo contributo obras de carácter religioso ou social (a favor da infância abandonada, da juventude em dificuldade, dos anciãos necessitados, dos estrangeiros nos vários países, em busca de melhores condições de vida);
ou então dedicar uma certa parte do próprio tempo livre a actividades úteis para a comunidade ou outras formas semelhantes de sacrifício pessoal.
10. Obra de penitência: 
pelo menos por um dia: 
abster-se de consumos supérfluos (fumo, bebidas alcoólicas, etc.) ou jejuar;
ou fazer abstinência de carne
(ou de outro alimento, segundo as especificações dos Episcopados), oferecendo uma proporcionada quantia aos pobres.
Dado em Roma, na sede da Penitenciaria Apostólica, 29 de Janeiro de 2000.
 
WILLIAM WAKEFIELD Card. BAUMPenitenciário-Mor

 LUIGI DE MAGISTRISRegente

sexta-feira, 29 de julho de 2016

CARTA ENCÍCLICA "SUPREMI APOSTOLATUS OFFÍCIO", DE LEÃO XIII

 
CARTA ENCÍCLICA
   SUPREMI APOSTOLATUS OFFICIO DE SUA SANTIDADE PAPA LEÃO XIII
  A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA
 
Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica
.
O auxílio de Maria nos males presentes da Igreja 
1. O ofício do Sumo Pontificado, que Nós exercemos, e a dificílima condição dos tempos presentes, cada dia mais nos induzem e como que nos impelem a prover com tanto maior solicitude à tutela e à incolumidade da Igreja, quanto mais graves são as suas provações. Por isto, enquanto, com todas as forças, nos aplicamos a salvaguardar por todos os modos os direitos da Igreja, e a prevenir e afastar os perigos que ou estão iminentes ou já a rondam, sem trégua nos aplicamos a invocar os celestes auxílios, persuadidos de que só com estes a Nossa obra è as Nossas solicitudes poderão conseguir o êxito desejado.
2. Para este fim, nada consideramos mais eficaz e mais poderoso do que tornar-nos propícia, pela devoção e pela piedade, a grande Mãe de Deus, a Virgem Maria. De fato, mediadora, junto a Deus, da nossa paz, e dispensadora das graças celestes, ela está sentada no Céu no mais alto trono de poder e de glória, para conceder o auxílio do seu patrocínio aos homens, que, entre tantas penas e tantas lutas, fadigosamente caminham para a eterna pátria.
Portanto, estando já agora próxima a anual solenidade destinada a receber os inúmeros e assinalados benefícios concedidos ao povo cristão por meio do santo Rosário de Maria, queremos que, este ano, todo o orbe católico com particular devoção dirija à Virgem Maria a mesma piedosa oração, a fim de que, pela sua intercessão, possamos ter a alegria de ver seu Filho aplacado e movido a compaixão das nossas misérias.
Por tal motivo, julgamos bem, ó Veneráveis Irmãos, dirigir-vos esta Carta, para que, conhecidas as Nossas intenções, possais, com a vossa autoridade e com o vosso zelo, estimular a piedade dos fiéis a corresponder-vos diligentemente.
Poder e bondade de Maria 
3. Nos momentos de apreensão e de incerteza, foi sempre o primeiro e sagrado pensamento dos católicos o de recorrerem a Maria, e de se refugiarem na sua maternal bondade. E isto demonstra a firmíssima esperança, antes a plena confiança, que a Igreja Católica com toda razão sempre depositou na Mãe de Deus. De fato, a Virgem Imaculada, escolhida para ser Mãe de Deus, e por isto mesmo feita Co-Redentora do gênero humano, goza junto a seu Filho de um poder e de uma graça tão grande, que nenhuma criatura, nem humana nem angélica, jamais pôde nem jamais poderá atingir uma maior. E, visto como a alegria mais grata para ela é a de ajudar e consolar todo fiel em particular que invoque o seu socorro, não pode haver dúvida de que ela muito mais prazeirosamente deseje acolher, antes, que exulte em acolher, os votos da Igreja toda.
Intervenções de Maria na história de Igreja
4. Mas esta ardente e confiante piedade para com a augusta Rainha do Céu foi posta em mais clara luz quando a violência dos erros largamente difundidos, ou a transbordante corrupção dos costumes, ou o assalto de inimigos poderosos, pareceram pôr em perigo a Igreja militante de Deus.
5. As memórias antigas e modernas e os sagrados fastos da Igreja relembram, de uma parte, as súplicas públicas e particulares e os votos elevados à divina Mãe, e, de outra parte, os auxílios por meio dela obtidos, e a tranqüilidade e a paz pelo Céu concedidas. Daí tiveram origem esses títulos insignes com que os povos católicos a saudaram: Auxiliadora dos cristãos, Socorredora e Consoladora, Dominadora das guerras, Senhora das vitórias, Pacificadora. Entre os quais é principalmente digno de menção o titulo, tão solene, do Rosário, que consagra à imortalidade os seus assinalados benefícios em favor da inteira Família cristã.
6. Nenhum de vós, ó Veneráveis Irmãos, ignora quantas dores e quantas lágrimas, no fim do século XII, proporcionaram à santa Igreja de Deus os hereges Albigenses, que, nascidos da seita dos últimos Maniqueus, haviam infectado de perniciosos erros a França meridional e outras regiões do mundo latino. Espalhando em torno de si o terror das armas, eles tramavam estender o seu domínio pelos morticínios e pelas ruínas. Contra esses péssimos inimigos Deus misericordioso suscitou, como vos é bem conhecido, um homem virtuosíssimo: o ínclito padre fundador da Ordem dominicana. Insigne pela integridade da doutrina, por exemplos de virtude e pelos seus labores apostólicos, ele se preparou com intrépida coragem para travar as batalhas da Igreja Católica, confiando não na força das armas, mas sobretudo na daquela oração que ele, por primeiro, introduziu sob o nome do santo Rosário, e que, ou diretamente ou por meio dos seus discípulos, depois divulgou por toda parte.
Visto como, por inspiração ou por impulso divino, ele bem sabia que, com o auxílio desta oração, poderoso instrumento de guerra, os fiéis poderiam vencer e desbaratar os inimigos, e forçá-los a cessar a sua ímpia e estulta audácia. E é sabido que os acontecimentos deram razão à previsão. De feito, desde quando tal forma de oração ensinada por S. Domingos, foi abraçada e devidamente praticada pelo povo cristão, de um lado começaram a revigorar-se a piedade, a fé e a concórdia, e, de outro, foram por toda parte quebradas as manobras e as insídias dos hereges. Além disto, muitíssimos errantes foram reconduzidos à trilha da salvação, e a loucura dos ímpios foi esmagada por aquelas armas que os católicos haviam empunhado para reprimir a violência.
7. A eficácia e o poder da mesma oração foi, depois experimentada também no século XVI, quando as imponentes forças dos Turcos ameaçavam impor a quase toda a Europa o jugo da superstição da barbárie. Nessa circunstância, o Pontífice S. Pio V, depois de estimular os soberanos cristãos à defesa de uma causa que era a causa de todos, dirigiu todo o seu zelo a obter que a poderosíssima Mãe de Deus, invocada por meio do santo Rosário, viesse em auxílio do povo cristão. E a resposta foi o maravilhoso espetáculo então oferecido ao Céu e à terra; espetáculo que empolgou as mentes e os corações de todos!
Com efeito, de um lado os fiéis, prontos a dar a vida e a derramar o sangue pela incolumidade da religião e da pátria, junto ao golfo de Corinto esperavam impávidos o inimigo; de outro lado, homens inermes, com piedosa e suplicante falange, invocavam Maria, e com a fórmula do santo Rosário repetidamente a saudavam, a fim de que assistisse os combatentes até à vitória. E Nossa Senhora, movida por aquelas preces, os assistiu: porquanto, havendo a frota dos cristãos travado batalha perto de Lepanto, sem graves perdas dos seus desbaratou e matou os inimigos, e alcançou uma esplêndida vitória. Por este motivo o santo Pontífice, para perpetuar a lembrança da graça obtida, decretou que o dia aniversário daquela grande batalha fosse considerado festivo com honra da Virgem das Vitórias; festa que depois Gregório XIII consagrou sob o título do Rosário.
8. Igualmente são conhecidas as vitórias alcançadas sobre as forças dos Turcos, durante o século passado, primeiramente perto de Timisoara, na Rumania, depois perto da ilha de Corfu: com dois dias dedicados à grande Virgem, e após muitas preces a ela elevadas sob a forma do Rosário. Esta foi a razão que levou o Nosso Predecessor Clemente XI a estabelecer que, com prova de gratidão, a Igreja toda celebrasse cada ano a solenidade do santo Rosário.
Louvores do Rosário
9. Portanto, visto que os fatos demonstram o quanto esta oração é agradável à Virgem, e o quanto é eficaz na defesa da Igreja e do povo cristão, em alcançar os divinos favores para os simples indivíduos e para a sociedade inteira, não há-de causar nenhuma admiração que também outros Nossos Predecessores, com palavras de fervoroso encômio, se hajam aplicado a incrementá-la.
Assim Urbano IV afirmou que "cada dia o povo cristão recebe novas graças por meio do Rosário"; Sixto IV proclamou que esta forma de oração "é oportuna, não só para promover a honra de Deus e da Virgem, mas também para afastar os perigos que o mundo nos prepara"; Leão X disse-a "instituída contra os heresiarcas e contra o serpear das heresias"; e Júlio III chamou-lhe "ornamento da Igreja de Roma". Igualmente Pio V, falando desta oração, disse que, "ao difundir-se ela, os fiéis, inflamados por aquelas meditações e afervorados por aquelas preces, começaram de repente a transformar-se com outros homens; as trevas das heresias começaram dissipar-se, e mais clara começou a manifestar-se a luz da fé católica". Finalmente, Gregório XIII declarou que "o Rosário foi instituído por S. Domingos para aplacar a ira de Deus e para obter a intercessão da bem-aventurada Virgem".
O Rosário e os males dos tempos presentes
10. Movido por estas considerações e pelos exemplos dos Nossos Predecessores, julgamos assaz oportuno, nas presentes circunstâncias, ordenar solenes preces a fim de que a Virgem augusta, invocada por meio do santo Rosário, nos impetre de Jesus Cristo, seu Filho, auxílios iguais às necessidades.
11. Bem vedes, ó Veneráveis Irmãos, as incessantes e graves lutas que trabalham a Igreja. Vedes que a moralidade pública e a própria fé - o maior dos bens e o fundamento de todas as outras virtudes estão expostas a perigos sempre mais graves. Assim também vós não só conheceis a Nossa difícil situação e as Nossas múltiplas angústias, mas, pela caridade que a Nós tão estreitamente vos une, as sofreis juntamente conosco.
Porém o fato mais doloroso e mais triste de todos é que tantas almas, remidas pelo sangue de Cristo, como que arrebatadas pelo turbilhão desta época transviada, vão-se precipitando numa conduta sempre mais depravada, e se abismam na eterna ruína; por isto a necessidade do divino auxílio certamente não é menor hoje do que a que era sentida quando o grande Domingos, para curar as feridas da sociedade, introduziu a prática do Rosário mariano. Iluminado do alto, ele viu claramente que para os males do seu tempo não havia remédio mais eficaz do que reconduzir os homens a Cristo, que é "caminho, verdade e vida", mediante a freqüente meditação da Redenção por Ele operada; e interpor junto a Deus a intercessão dessa Virgem a quem foi concedido "aniquilar todas as heresias".
Por este motivo ele dispôs a prática do Rosário de modo que fossem sucessivamente recordados os mistérios da nossa salvação, e a este dever da meditação se entremeasse como que uma mística coroa de saudações angélicas, intercaladas pela oração a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós, pois, que andamos procurando um igual remédio para não diversos males, não duvidamos de que a mesma oração, pelo santo Patriarca introduzida com tão notável vantagem para o mundo católico, tornar-se-á eficacíssima para aliviar também as calamidades dos nossos tempos.
12. Portanto, em consideração destas razões, não somente exortamos calorosamente todos os cristãos a praticarem, sem se cansar, o piedoso exercício do Rosário, publicamente, ou em particular, nas suas casas e famílias, mas também queremos que todo o mês de Outubro do ano em curso seja consagrado e dedicado à celeste Rainha do Rosário.
Prescrições e privilégios para o mês de outubro
13. Estabelecemos, pois, e ordenamos que, em todo o mundo católico, a solenidade de Nossa Senhora do Rosário seja este ano celebrada com particular devoção e com esplendor de culto. Ordenamos, além disso, que, do dia primeiro de Outubro ao dia dois do seguinte mês de Novembro, em todas as igrejas paroquiais, e, se os Ordinários o julgarem vantajoso e conveniente, também nas outras igrejas e nas capelas dedicadas à Mãe de Deus, se recitem devotamente ao menos cinco dezenas do Rosário, com o acréscimo das Ladainhas Lauretanas. Depois, desejamos que, quando o povo se reunir para tais orações, ou se ofereça o santo Sacrifício da Missa, ou se exponha solenemente o SS. Sacramento, e no fim se dê aos presentes a Bênção com a Hóstia sacrossanta.
14. Vivamente aprovamos que as Confrarias do Rosário, seguindo uma antiga tradição, façam solenes procissões pelas ruas da cidade, em pública demonstração da sua fé. Mas onde, pela adversidade dos tempos, isto não for possível, não duvidamos de que tudo quanto por este lado for subtraído ao culto público será compensado por uma concorrência mais numerosa nas igrejas; e que o fervor da piedade se manifestará por uma prática mais diligente das virtudes cristãs. Em favor, pois, daqueles que executarem tudo quanto mais acima dispusemos, abrimos de bom grado os celestes tesouros da Igreja, a fim de que achem neles o estímulo e ao mesmo tempo o prêmio da devoção.
Por isto, àqueles que, dentro do tempo estabelecido, participarem da pública recitação do Rosário com as Ladainhas, e orarem segundo a Nossa intenção, concedemos, para cada vez, a Indulgência de sete anos e de sete quarentenas: Queremos, igualmente, que de tal benefício possam fruir aqueles que, impedidos por legítima causa de praticar em público o piedoso exercício, o praticarem em particular, e orarem também segundo a Nossa intenção.
15. Depois, àqueles que, dentro do sobredito tempo, ao menos por dez vezes cumprirem a mesma prática, ou em público nas igrejas ou, por justos motivos, nas suas casas, concedemos a Indulgência plenária, desde que à piedosa prática juntem a Confissão e a Comunhão.
16. Esta Indulgência plenária das suas culpas concedemo-la também a todos os que, na mesma solenidade da bem-aventurada Virgem do Rosário ou num dos oito dias seguintes, igualmente se aproximarem do tribunal da Penitência e da Mesa do Senhor, e em alguma igreja rezarem, segundo a Nossa intenção, pelas necessidades da santa Igreja.
Esperanças do Sumo Pontífice
17. Eia, pois, Veneráveis Irmãos: pelo zelo que tendes da honra de Maria e da salvação da sociedade humana, esforçai-vos por alimentar a devoção e por aumentar a confiança do povo para com a grande Virgem. Nós pensamos seja de atribuir-se a divino favor o fato de, mesmo em momentos tão procelosos para a Igreja como estes, haver-se mantido sólida e florescente, na maior parte do povo cristão, a antiga veneração e piedade para com a Virgem augusta. Mas agora esperamos que, incitados por estas Nossas exortações e inflamados pelas vossas palavras, os fiéis se hão de colocar com sempre mais ardente entusiasmo sob a proteção e assistência de Maria, e continuarão a amar com crescente fervor a prática do Rosário, que nossos pais costumavam considerar não só como um poderoso auxílio nas calamidades, mas também como um distintivo honorifico da piedade cristã. A celeste Padroeira do gênero humano acolherá benigna as humildes e unânimes preces que lhe dirigirmos, e, complacente, obter-nos-á que os bons se revigorem na prática da virtude; que os desviados caiam em si e se emendem; e que Deus, justo vingador das culpas, dobrando a misericordiosa clemência, afaste os perigos, e restitua ao povo cristão e à sociedade a tão desejada tranqüilidade.
18. Confortados por esta esperança, com os mais ardentes votos do Nosso coração rogamos vivamente a Deus, pela intercessão d'Aquela em quem Ele depositou a plenitude de todos os bens, que vos conceda a vós, Veneráveis Irmãos, as mais escolhidas e mais abundantes graças celestes, das quais é auspício e penhor a Bênção Apostólica, que de coração concedemos a vós, ao vosso clero e aos povos confiados aos vossos cuidados.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, a 1 de Setembro de 1883, sexto ano do Nosso Pontificado.
 
LEÃO PP. XIII

CARTA ENCÍCLICA "LAETITIAE SANCTAE", PAPA LEÃO XIII

CARTA ENCÍCLICA

 LAETITIAE SANCTAE DE SUA SANTIDADE PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA
 

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica

Gratidão do Papa para com Maria 

1. A santa alegria que nos trouxe o feliz transcurso do quinquagésimo aniversário da Nossa sagração episcopal foi intensamente aumentada pelo fato de termos tido como participantes da Nossa alegria os católicos de todo o mundo, estreitados como filhos em torno do Pai, numa esplêndida manifestação de fidelidade e de amor. Nisto, com renovada gratidão, reconhecemos e exaltamos um desígnio da Divina Providência sumamente benévolo para conosco, e, ao mesmo tempo, assaz profícuo para a sua Igreja. Mas o Nosso ânimo sente-se impelido a saudar e louvar também a augusta Mãe de Deus, que deste benefício foi poderosa mediadora junto a Deus. A sua singular bondade, que no longo e mutável período da Nossa vida temos experimentado em vários modos eficaz, brilha cada dia mais manifesta diante dos nossos olhos, e, ferindo-nos suavissimamente o coração, robustece-o com confiança sobrenatural.

Afigura-se-nos ouvir a própria voz da Rainha do Céu, ora benevolamente encorajar-nos no meio das terríveis adversidades da Igreja, ora ajudar-nos, com largueza de inspirações, nas decisões a tomar para o bem comum, ora também advertir-nos a estimular o povo cristão à piedade e ao culto da virtude. já muitas vezes, no passado, fizemos para nós um grato dever de corresponder a estes desejos da Virgem. Ora, entre as utilidades que com a sua bênção recolhemos das Nossas exortações, justo é recordar o extraordinário desenvolvimento da devoção do seu santo Rosário, seja pelo incremento e pela constituição de confrarias sob este título, seja pela divulgação de escritos doutos e oportunos, seja também pela inspiração dada a verdadeiras obras-primas artísticas.

O Rosário e os males do nosso tempo

2. E hoje, como que acolhendo a mesma voz da amorosíssima Mãe, com a qual ela nos repete: "Clama, nunca te canses", apraz-nos tornar a falar-vos, Veneráveis Irmãos, do Rosário mariano, agora que se aproxima o mês de Outubro: mês que quisemos consagrado a esta cara devoção, e que enriquecemos com os tesouros das santas indulgências. A Nossa palavra, todavia, não terá o fim imediato de tributar novos louvores a uma oração já, por si mesma, tão excelente, nem de estimular os fiéis a praticá-la com sempre maior fervor; falaremos, antes, de algumas preciosíssimas vantagens que dela podem derivar, o mais possível correspondentes às condições e às necessidades dos homens e dos tempos presentes. Porque estamos absolutamente convencido de que, se a prática do Rosário for retamente seguida, de modo a poder ostentar toda a eficácia que lhe é intrínseca, não somente aos simples indivíduos, mas também a toda a sociedade, trará a maior utilidade.

3. Sabem todos o quanto Nós, pelo dever do Nosso supremo apostolado, nos temos aplicado a contribuir para o bem da sociedade, e o quarto ainda estamos disposto a fazê-lo, com o auxílio de Deus. Com freqüência temos advertido os governantes a não fazerem e a não aplicarem leis que não sejam conformes à mente divina, norma de suma justiça. E, por outra parte, mais de uma vez temos exortado aqueles cidadãos que, ou por inteligência, ou por méritos, ou por nobreza do sangue, ou por haveres, estão em posição de privilégio em relação aos outros, a defenderem e a promoverem, em união de entendimentos e de forças, os supremos e fundamentais interesses da sociedade.

4. Mas, na estado presente da sociedade civil, sobejas são as causas que debilitam os ligames da ordem pública e desviam os povos da justa honestidade dos costumes. Todavia, os males que mais perigosamente minam o bem comum parecem-nos ser principalmente os três seguintes: "aversão à vida humilde e laboriosa; o horror ao sofrimento; o esquecimento dos bens futuros, objeto das nossas esperanças".

A aversão ao viver moderno

5. Lamentamos - e conosco devem reconhecê-lo e deplorá-lo mesmo aqueles que não admitem outra regra senão a luz da razão, nem outra medida afora a utilidade, - lamentamos que uma chaga verdadeiramente profunda tenha ferido o corpo social desde quando se começou a descurar os deveres e as virtudes que formam o ornamento da vida simples e comum. De fato, daí se segue que, nas relações domésticas, os filhos, intolerantes de toda educação que não seja a da moleza e da volúpia, recusam arrogantemente a obediência que a própria natureza lhes impõe. Por esse mesmo motivo os operários se afastam do seu próprio mister, fogem do labor, e, descontentes com a sua sorte, levantam o olhar a metas demasiado altas, e aspiram a uma inconsiderada repartição dos bens.

Ao mesmo tempo dai se segue o afanar-se de muitos que, depois de abandonarem o torrão natal, buscam o bulício e as numerosas seduções da cidade. Por este motivo ainda, veio a faltar o necessário equilíbrio entre as classes sociais; tudo é flutuante; os ânimos são agitados por invejas e rivalidades; a justiça é abertamente violada; e aqueles que foram iludidos nas suas esperanças procuram perturbar a tranqüilidade pública com sedições, com desordens e com a resistência aos defensores da ordem pública.
As lições do mistérios gozosos
6. Pois bem: contra estes males pensamos que se deve buscar remédio no Rosário de Maria, composto de uma bem ordenada série de orações e da piedosa contemplação de mistérios relativos a Cristo Redentor e a sua Mãe. Expliquem-se de forma exata e popular os mistérios gozosos, apresentando-os aos olhos dos fiéis como outros tantos quadros e vivas figurações das virtudes. E assim cada um verá que fácil e rica mina eles oferecem de ensinamentos aptos para arrastar com maravilhosa suavidade as almas à honestidade da vida.
7. Eis diante do nosso olhar a Casa de Nazaré, onde toda santidade, a humana e a divina, colocou a sua morada. Que exemplo de vida comum! Que perfeito modelo de sociedade! Ali há simplicidade e candura de costumes; perpétua harmonia de almas; nenhuma desordem; respeito mútuo; e, enfim, o amor: mas não o amor falso e mendaz, e sim aquele amor integral, que se alimenta na prática dos próprios deveres, e tal que atrai a admiração de todos.
Ali não falta a solicitude de se proporcionar a si mesmos tudo quanto é necessário à vida, mas com o "suor da fronte", e como convém àqueles que, contentando-se com pouco, se esforçam antes por diminuir a sua pobreza do que por multiplicar os seus haveres. E, sobre tudo isto, reina ali a maior serenidade de ânimo e alegria de espírito: duas coisas que sempre acompanham a consciência do dever cumprido.
8. Ora, estes exemplos de modéstia e de humildade, de tolerância da fadiga, de bondade para com o próximo e de fiel observância dos pequenos deveres da vida quotidiana, e, numa palavra, os exemplos de todas estas virtudes, assim que entram nos corações e nele se imprimem profundamente, certamente produzem nele pouco a pouco a desejada transformação dos pensamentos e dos costumes.
Então os deveres do próprio estado não mais serão nem descurados nem considerados enfadonhos, mas serão, antes, agradáveis e deleitáveis; e a consciência do dever, imbuída de senso de alegria, será sempre mais decidida no obrar o bem.
Por conseqüência, os costumes tornar-se-ão mais brandos sob todos os aspectos; a convivência familiar transcorrerá no amor e na alegria; as relações com os outros serão pautadas por um maior respeito e caridade. E, se estas transformações se estenderem dos indivíduos às famílias, às cidades, aos povos e às suas instituições, é fácil ver que imensas vantagens devam daí derivar para a sociedade inteira.
A aversão ao sacrifício
9. O segundo mal funestíssimo, que Nós nunca deploraremos bastante, porque ele sempre mais difusa e ruinosamente envenena as almas, é a tendência a fugir da dor e a afastar por todos os meios as adversidades.
De feito, a maioria dos homens não consideram mais, como deveriam, a serena liberdade de espírito como um prêmio para quem exercita a virtude e suporta vitoriosamente perigos e trabalhos; mas excogitam uma quimérica perfeição da sociedade, em que, removido todo sacrifício, se deparem todas as comodidades terrenas.
Ora, este agudo e desenfreado desejo de uma vida cômoda debilita fatalmente as almas, que, mesmo quando não se arruínam totalmente, ficam, sem embargo, tão enervados, que primeiro cedem vergonhosamente em face dos males da vida, e depois sucumbem miseravelmente.
As lições dos mistérios dolorosos
10. Pois bem: ainda contra este mal é bem justificado esperar-se do Rosário de Maria um remédio que, pela força do exemplo, pode grandemente contribuir para fortalecer os ânimos. E isto se obterá se os homens, desde a sua primeira infância, e depois constantemente em toda a sua vida, se aplicarem, no recolhimento, à meditação dos mistérios dolorosos.
Através destes mistérios vemos que Jesus, "guia e aperfeiçoados da fé", começou a fazer e a ensinar, a fim de que víssemos n'Ele próprio o exemplo prático dos ensinamentos que Ele daria à nossa humanidade, acerca da tolerância da dor e dos trabalhos; e o exemplo de Jesus chegou a tal ponto, que, voluntariamente e de grande coração, Ele mesmo abraçou tudo o que há de mais duro de suportar.
Com efeito, vemo-lo como um ladrão, julgado por homens iníquos, e feito alvo de ultrajes e de calúnias. Vemo-lo flagelado, coroado de espinhos, crucificado considerado indigno de continuar a viver, e merecedor de morrer entre os clamores de todo um povo.
Consideremos a aflição de sua santíssima Mãe, cuja alma não foi somente roçada, mas verdadeiramente "traspassada" pela "espadácia dor"- de modo que ela mereceu ser chamada, e realmente se tornou, a Mãe das dores.
11. Todo aquele que se não contentar com olhar, porém meditar amiúde exemplos de tão excelsa virtude, oh! como se sentirá impelido a imitá-los! Para esse, ainda que seja "maldita a terra, e faça germinar espinhos e abrolhos", ainda que o espírito seja oprimido pelos sofrimentos, ou o corpo pelas doenças, nunca haverá nenhum mal causado pela perfídia dos homens ou pelo furor dos demônios, nunca haverá calamidade, pública ou privada, que ele não consiga superar com paciência.
É, pois, realmente verdadeiro o dito: "É de cristão fazer e suportar coisas árduas"; porque todo aquele que não quiser ser indigno desse nome não pode deixar de imitar Cristo que sofre. E repare-se em que como resignação não entendemos a vã ostentação de um ânimo endurecido à dor, como o tiveram alguns filósofos antigos; mas sim essa resignação que se funda no exemplo d'Aquele que "em lugar do gozo que tinha diante de si, suportou o suplício da Cruz, desprezando a ignomínia" (Heb 12, 2); essa resignação que, depois de pedir a Ele o necessário auxilio da graça, de modo algum recusa afrontar as adversidades; antes, alegra-se com elas, e considera um lucro qualquer sofrimento, por mais acerbo que seja.
A Igreja Católica sempre teve, e tem ainda agora, insignes campeões de tal doutrina: homens e mulheres, em grande número, em todas as partes do mundo, de todas as condições. Estes, seguindo as pegadas de Cristo, em nome da fé e da virtude suportam contumélias e amarguras de todo gênero, e têm como seu programa, mais com os fatos do que com as palavras, a exortação de S. Tomé: "Vamos também nós, e morramos com Ele" (Jo. 11, 16).
12. Oh! praza ao Céu que exemplos de tão admirável fortaleza se multipliquem sempre mais, a fim de que deles brote segurança para a sociedade, e virtude e glória para a Igreja.
O descaso dos bens eternos
13. O terceiro mal para o qual é preciso achar um remédio é particularmente próprio dos homens dos nossos dias Com efeito, os homens dos tempos passados, mesmo quando com excessiva paixão procuravam as coisas terrenas, contudo não desprezavam totalmente as celestes; antes, os mais sábios entre os próprios pagãos ensinaram que esta nossa vida é um lugar de hospedagem e uma estação de passagem, antes que uma morada fixa e definitiva.
Ao contrário, muitos dos modernos, embora educados na fé cristã, procuram de tal modo os bens transitórios desta terra, que não somente esquecem uma pátria melhor na eternidade bem-aventurada, mas, por excesso de vergonha, chegam a cancelá-la completamente de sua memória, contra a advertência de S. Paulo: "Não temos aqui uma cidade permanente, porém demandamos a futura" (Heb. 13, 14).
Quem quiser examinar as causas desta aberração logo notará que a primeira delas é a convicção de muitos de que o pensamento das coisas eternas extingue o amor da pátria terrena e impede a prosperidade do Estado. Calúnia odiosa e insensata.
E, de fato, os bens que esperamos não são de natureza tal que absorvam os pensamentos do homem até o ponto de o distrair inteiramente do cuidado dos interesses terrenos. O próprio Cristo embora recomendando-nos procurarmos antes de tudo o reino de Deus, com isto nos insinua que não devemos descurar tudo o mais.
E, de fato, se o uso dos bens terrenos e dos gozos honestos que deles derivam servem de estímulo à virtude; se o esplendor e o bem-estar da, cidade terrena - que depois redundam em glória da sociedade humana - são considerados como uma imagem do esplendor e da magnificência da cidade eterna, eles não são nem indignos de homens racionais, nem contrários aos desígnios de Deus.
Porque Deus é ao mesmo tempo autor da natureza e da graça; e por isto não pode ter disposto que uma obste à outra e estejam entre si em luta; mas, ao contrário, que, amigavelmente unidas, nos guiem, por uma trilha mais fácil, àquela eterna felicidade a que, embora mortais, somos destinados.
14. Mas os homens dados ao prazer e egoístas, que de tal modo mergulham e aviltam os seus pensamentos nas coisas caducas a ponto de não saberem elevar-se a mais alto, estes, antes que procurarem os bens eternos através dos bens sensíveis de que gozam, perdem completamente de vista a eternidade, caindo assim numa condição verdadeiramente abjeta. Na verdade, Deus não poderia infligir ao homem punição mais terrível do que abandonando-o por toda a vida às seduções dos vícios, sem ter jamais um olhar para o Céu.
As lições dos mistérios gloriosos
15. A este perigo não estará exposto aquele que, rezando o santo Rosário, meditar com atenção e com freqüência as verdades contidas nos mistérios gloriosos. Desses mistérios, com efeito, brilha na mente dos cristãos uma luz tão viva, que nos faz descobrir aqueles bens que o nosso olho humano nunca poderia perceber, mas que Deus - assim o cremos com fé inabalável - preparou "para aqueles que o amam".
Deles aprendemos, além disto, que a morte não é um esfacelamento que tudo perde e destrói, mas sim uma simples passagem e uma mudança de vida. Aprendemos que o caminho do céu está aberto a todos; e, quando observamos Cristo que volta ao Céu, recordamos a sua bela promessa: "Vou preparar-vos o lugar".
Aprendemos que haverá um tempo em que "Deus enxugará toda lágrima dos nossos olhos; em que não haverá mais nem lutos, nem pranto, nem dor, mas estaremos sempre com o Senhor, semelhantes a Deus, porque o veremos como Ele é, bebendo na torrente das suas delícias, concidadãos dos santos", em feliz união com a grande Mãe e Rainha.
16. Uma alma que se nutra destas verdades deverá necessariamente inflamar-se delas e repetir a frase de um grande. Santo: "Oh! como me parece sórdida a terra quando olho o Céu"; deverá necessariamente alegrar-se ao pensamento de que "um instante de um leve sofrimento nosso produz em nós uma medida eterna de glória".
E, verdadeiramente, só aqui está o segredo de harmonizar o tempo com a eternidade, a cidade terrena com a celeste, e de formar caracteres fortes e generosos. E se estes se tornarem muito numerosos, sem dúvida estará com isso consolidada a dignidade e a grandeza do Estado; e florescerá tudo o que é verdadeiro, tudo o que é bom, tudo o que é belo; florescerá em harmonia com aquela norma que é o sumo princípio e a fonte inexaurível de toda verdade, de toda bondade e de toda beleza.
17. Ora, quem não vê a verdade disso que havemos observado desde o princípio, isto é, de que preciosos bens é fecundo o santo Rosário? O quanto ele é maravilhosamente eficaz em curar os males dos nossos tempos, e em opor um dique aos gravíssimos males da sociedade?
As confrarias do Rosário
18. Mas, como cada um facilmente compreende, de tal eficácia serão mais direta e mais largamente participantes os membros das sacras confrarias do Rosário, porque a ela adquirem um direito particular, quer pela sua união fraterna, quer pela sua devoção especial à Virgem Santíssima.
Tais sodalícios autorizadamente aprovados pelos Romanos Pontífices e por eles enriquecidos de privilégios e de tesouros de indulgências, têm uma forma própria de ordenação e de disciplina. Promovem reuniões em dias determinados, e neles são fornecidos meios mais adequados para florescer na piedade e para prestar úteis serviços à própria sociedade civil. Eles são como que falanges militantes que, guiadas e amparadas pela celeste Rainha, combaterão as batalhas de Cristo, em virtude dos seus santos mistérios.
E em todas as ocasiões, mas especialmente em Lepanto, pôde-se ver como a Virgem se compraz com as orações, as festas e as procissões desses seus devotos.
19. Bem justo é, pois, que não somente os filhos do patriarca S. Domingos - certamente obrigados mais do que os outros, por motivo da sua vocação, - mas também todos aqueles que têm cura de almas -especialmente nas igrejas onde essas confrarias estão canonicamente eretas - se apliquem com todo o seu zelo a multiplicá-las, desenvolvê-las e assisti-las. Antes, ardentemente desejamos que também se dediquem a este trabalho aqueles que empreendem missões, seja para levar a doutrina de Cristo aos infiéis, seja para reforçá-la nos fiéis.
20. Não duvidamos de que, pelas exortações de todos estes, muitos cristãos estarão prontos não só a inscrever-se nessas confrarias, mas também a esforçar-se, por todos os meios, para colher as já indicadas vantagens espirituais que formam como que a razão de ser e, por assim dizer, a substância do santo Rosário. Depois, o exemplo dos membros das confrarias arrastará também os outros fiéis a uma maior estima e devoção ao Rosário; os quais, assim estimulados, porão todo o seu empenho - como Nós vivamente desejamos - em tirar também, na mais larga medida, salutares vantagens desta prática.
21. Eis aí a esperança que nos sorri. É ela que, no meio de tantas calamidades públicas, nos guia e profundamente nos consola. Digne-se Maria, Mãe de Deus e dos homens, inspiradora e mestra do santo Rosário, de realizar plenamente esta esperança, acolhendo as preces comuns.
Nós, ó Veneráveis Irmãos, temos confiança de que, pelo zelo de cada um de vós, os vossos ensinamentos e os Nossos votos produzirão toda espécie de bem, e contribuirão, em particular, para a prosperidade das famílias e para a paz dos povos.
Enquanto isso, em penhor dos favores celestes e em testemunho da Nossa benevolência, no Senhor concedemos a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 8 de Setembro de 1893, décimo sexto ano do Nosso Pontificado.
 
LEÃO XIII PAPA