terça-feira, 27 de agosto de 2013

SANTA MÔNICA: AMOR DE MÃE



“(...) Minha mãe, forte na piedade, já tinha vindo ao meu encontro, seguindo-me por terra e por mar, com a segurança posta em Vós, no meio de todos os perigos. Era ela que, nos riscos dos mares, incutia coragem aos próprios marinheiros que costumam animar os inexperientes navegadores do abismo, quando se perturbam: prometia-lhes a chegada a salvamento, porque Vós, em visão, lhe havíeis prometido isso.
 
Encontrou-me em grave perigo, na desesperação de buscar a verdade; mas, enfim, descobrindo-lhe que já não era maniqueísta e que também ainda não era católico, não saltou de alegria, como quem ouve qualquer nova imprevista, apesar de já estar sossegada por eu abandonar parte da minha miséria, que a fazia chorar por mim como um morto, que havíeis de ressuscitar. Minha mãe oferecia-me a Vós, no esquife do pensamento, para que dissésseis a este filho de viúva: ‘Jovem, eu te digo, levanta-te’ – e para que ele revivesse, começasse a falar e o entregásseis à mãe!
 
Não foi, portanto, com imoderado júbilo que seu coração estremeceu, ao ouvir que em grande parte me tinha convertido, graça que ela todos os dias Vos pedia com lágrimas. Ainda não havia alcançado a verdade, mas já me tinha arrancado do erro. Tendo a certeza de que Vós, que lhe prometestes a graça total, me daríeis o que faltava, respondeu-me, com grande calma e com o coração cheio de confiança, que esperava em Cristo que, antes de partir desta vida, me havia de ver fiel católico. Foi isto o que me disse. Mas, diante de Vós, ó fonte de misericórdias, aumentava cada vez mais as súplicas e lágrimas, para que apressásseis o Vosso auxílio e iluminásseis as minhas trevas. Por isso corria com mais diligência à igreja, ficando suspensa dos lábios de Ambrósio como ‘de uma fonte de água que jorra para a vida eterna’. Ela amava este homem como um anjo de Deus, porque sabia que fora ele quem me tinha levado a flutuar nesta dúvida. Antevia, com absoluta certeza, que eu ia passar da doença para a saúde, depois de sofrer de permeio um perigo mais grave, o dessa dúvida, que era o paroxismo das enfermidades que os médicos chamam estado crítico.” (Santo Agostinho, “Confissões”)

domingo, 25 de agosto de 2013

TRANSVERBERAÇÃO DE SANTA TERESA DE JESUS

 
 
"13. Quis o Senhor que viesse então algumas vezes esta visão. Via um anjo ao pé de mim, para o lado esquerdo, em forma corporal, o que não costumo ver senão por maravilha. Ainda que muitas vezes se me representam anjos, é sem os ver, senão como na visão passada, que disse antes. Nesta visão quis o Senhor que o visse assim: não era grande mas pequeno, formoso em extremo, o rosto tão incendido, que parecia dos anjos mais sublimes que parecem todos se abrasam. Devem ser os que chamam Querubins, que os nomes não mos dizem, mas bem vejo que no Céu há tanta diferença duns anjos a outros e destes outros a outros, que não o saberia dizer. Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de ferro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar aqueles queixumes e tão excessiva a suavidade que me causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire, nem a alma se contenta com menos de que com Deus. Não é dor corporal mas espiritual, embora o corpo não deixa de ter a sua parte, e até muita. É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus, que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto." (Santa Teresa de Jesus, "Livro da Vida", Capítulo 29, 13. A escultura é o célebre "O Êxtase de Santa Teresa", de Bernini, Igreja Santa Maria da Vitória, em Roma) 


sábado, 17 de agosto de 2013

AOS PÉS DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS


O mês de outubro, caro leitor, inicia-se com a comemoração de grandes santos. Já no dia primeiro, temos Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. Com apenas vinte e quatro anos, ela atingiu tão estupenda santidade que qualquer marmanjo como eu, com seus trinta e sete anos mal vividos de infidelidades no serviço de Deus, ao pensar nela, sente como que uma paulada na cabeça, para usar uma expressão do gosto de Dostoiévski.

Santa Teresinha pode muito bem ser considerada um caso de menina prodígio, pois, falecendo tão jovem, em pouquíssimo tempo, além de subir à honra dos altares, foi proclamada padroeira das Missões, sem nunca ter saído do Carmelo, ao lado de São Francisco Xavier, doutora da Igreja (uma entre as únicas três mulheres, de um total de trinta e três doutores até então) e padroeira secundária da França, atrás apenas de Santa Joana d’ Arc.

Eis o que a graça de Deus pode fazer com uma alma! Certamente, nem todas serão grandes como Santa Teresinha, mas ela é um belo exemplo de como uma alma pode se elevar se não resistir aos impulsos e às inspirações de Deus.

Em companhia dos nossos anjos da guarda, passamos pelo dia 2. No dia 3, comemoramos São Francisco Borja. E quando a zonzeira na cabeça parece ir-se embora, vem São Francisco de Assis no dia 4 e dá-nos uma paulada mais certeira ainda, da qual não sabemos se nos recuperamos. Não sei dizer se São Francisco é um homem ou se é um serafim.

Mas, se Deus pode fazer o homem subir tanto, a ausência de Deus também oferece um terrível espetáculo.

Sendo eu um homem de hábitos regulares, vim uma vez mais a Tiradentes, para uma semana de descanso e, além disso, a fim de acompanhar as magníficas celebrações litúrgicas de São João Del-Rei.

Ontem foi dia de São Benedito e achei por bem visitá-lo na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Conta-se aqui, em Tiradentes, a impressionante história segundo a qual os escravos não podiam rezar nas outras igrejas e que tiveram de construir a sua própria igreja, à noite, trazendo ouro escondido entre os dentes, para adornar o altar da Virgem do Rosário.

Tolstói afirmou certa vez que a história de uma aldeia é a história do mundo. Pois bem. Desse dramático relato da edificação da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos pode-se tirar algumas conclusões.

Não há limites para o mal quando o homem, a sociedade ou uma nação se afastam de Deus. Não nos devemos espantar com o que faz uma alma em pecado mortal, mas com o que ela deixa de fazer, dizia Santa Teresa. Sem Deus, qualquer atrocidade pode ter lugar.

No meu texto anterior, indiquei alguns partidos que fazem guerra aberta à Igreja e aos valores cristãos. O Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, esse profeta dos nossos tempos, apresentou lista mais extensa, no excelente texto “Três passos para escolher um candidato” (http://www.providaanapolis.org.br/3passos.htm). O mesmo Pe. Lodi divulgou também um vídeo extraordinário esclarecendo porque um católico não pode votar no Partido dos Trabalhadores (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=2rREUfWwfXw ).

Se não votarmos bem amanhã, não se assuste o leitor-eleitor se, daqui a algum tempo, o Estado proibir-nos de ir à Igreja, pois ele já tem envidado esforços para alijar a nossa fé da vida pública. Nossa liberdade religiosa está em risco, como a dos pobres escravos de séculos atrás. Não vou dizer que já chegamos à situação extrema em que eles se encontravam, mas quero alertar, se preciso for, gritando, que é possível retornar àquela situação brutal e descer ainda mais fundo. Não há limites para o mal, se excluirmos Deus da vida pública. Liberdade alguma escapará da escravidão, e costume algum se desvencilhará da podridão se não perguntarmos a Deus, com insistência, na oração, em quem devemos votar amanhã, e aos seus amigos, bons formadores da nossa consciência, em quem não devemos votar.

Colocar o voto em oração. É preciso levar o nosso voto, tal qual ouro escondido entre nossos dedos, ao altar de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, para render-lhe culto e tributar-lhe glória. Enfim, para que nossa escolha seja louvor agradável a Deus e benfazejo aos irmãos.

 

Paul Medeiros Krause
No dia de São Bruno, fundador dos cartuxos,
6 de outubro de 2012

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O BRASIL É 'GAY'?


Quando da renúncia do Papa Bento XVI, alguns jornalistas espertinhos, com ar de superioridade, aproveitaram a ocasião para menoscabar dogmas católicos, sobretudo o da infalibilidade papal. A incompetência da maior parte deles revelou-se de uma forma tão gritante que eu chamaria até de apocalíptica. Muitos nem se deram ao cuidado de abrir o Código de Direito Canônico ou algum documento oficial da Igreja. Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, em tom de galhofa, chegou a perguntar-se se o Papa Bento XVI continuaria infalível após ter renunciado. Na ocasião, cheguei a escrever ao “Fórum dos Leitores” do Estadão, advertindo o articulista de que a infalibilidade papal só existe quando o pontífice se pronuncia ex cathedra.

Causa espécie, então, que o que a imprensa recusa a Roma atribua a si própria, numa escala muito maior. Ela, a imprensa, sem ser especialista no assunto, ao contrário do Papa nas matérias que lhe dizem respeito, pronunciou-se ex cathedra, definindo um novo dogma de fé: “o homossexualismo é bom, é moral, é natural, e quem se opõe a ele viola os direitos humanos”.

Muitos jornalistas ostentam indisfarçável prazer ao dar uma estocada na Igreja no tema Inquisição. Mas não estamos vivendo uma nova inquisição, muitos séculos após o fim da Idade Média, nós que somos tão avançados? Quem não percebe que diversos veículos de comunicação resolveram promover o linchamento moral de Marco Feliciano? Tais veículos ficam esmiuçando a vida do sujeito, a fim de encontrar algum piolho, alguma lêndea, um arroto que o comprometa. Até vigiar o que o pastor anda pregando em cerimônias religiosas estão fazendo. Resolveram fazer o controle de conteúdo do sermão. Entram no templo, espionam e filmam o pregador. É mole?!

Ora, no sermão, o pastor pode apresentar a sua visão espiritual da realidade e não cabe à imprensa dar pitaco. Preocupados com o controle de qualidade das prédicas, os jornais esqueceram-se do controle de qualidade do jornalismo. Deveriam eles olhar para o próprio umbigo. Aos olhos da grande maioria dos jornalistas, excetuados alguns poucos sensatos, Marco Feliciano é um herege, um boca maldita. Merece a fogueira da perda do mandato. Parte-se já de uma pressuposta violação inconcebível de verdade de fé, que, diga-se de passagem, é verdade de fé para eles, jornalistas e artistas “mente aberta”, não para nós. E o pior: o julgamento é sumário, cruel, covarde, por tribunal de exceção (não é realizado pela autoridade competente) e sem direito de defesa.

Jornalistas e artistas arvoraram-se em censores da opinião pública e do próprio Legislativo.

A questão é de fé, meu amigo. Na verdade, ninguém está preocupado com as lêndeas de Marco Feliciano. Afinal, por que os meios de comunicação não pegam no pé de José Genoíno e João Paulo Cunha, condenados no processo do mensalão e membros da Comissão de Constituição e Justiça? São eles impolutos? Não, mas eles não chegaram a violar a fé. A questão é essa, leitor. O problema é que Marco Feliciano, de forma mais ou menos habilidosa, atreveu-se a contestar o dogma. Desestabilizou verdades confortáveis. Ele é um anátema. Uma ameaça ao catecismo dos tabloides. Um herege. Cometeu crime de lesa-majestade ou lesa-verdade das minorias. O problema é de ortodoxia.

Estou preocupado com o assunto porque alguns setores da sociedade estão querendo ganhar no grito, com total vilipêndio das instituições democráticas. Por que motivo um pastor evangélico não pode presidir a Comissão de Direitos Humanos e de Minorias da Câmara? É pecado? É pecado ser contrário ao homossexualismo? E qual é a pena: excomunhão? Ou, ao contrário, não estará o pastor sendo vítima de preconceito, por motivo de crença religiosa? A meu ver, o deputado é que está sendo vítima de crime.

O que grande parte da imprensa e alguns setores da sociedade estão dizendo é que só representantes dos movimentos LGBT podem presidir a citada comissão. Mas, com que fundamento? Com que argumento legal? O que confere aos movimentos gays esse privilégio de detentores do monopólio da verdade, de prefeitos da congregação da doutrina da fé, de paladinos dos direitos humanos (eu sempre havia pensado que direitos humanos são para todos os homens, não para determinados grupos de seres humanos)? Ah!... É que os meios de comunicação e os defensores das minorias pronunciaram-se ex cathedra. É mesmo?! Mas não dizem que o Brasil é um estado laico? Por que eu devo recusar um dogma papal e aceitar um dogma jornalístico? Por que eu devo ceder ao catecismo dos artistas beijoqueiros?

Ninguém é obrigado a acreditar em dogmas propalados por quem quer que seja. Os únicos dogmas a que estamos vinculados são jurídicos, constitucionais: o do respeito às instituições democráticas e o do estado de direito. As comissões da Câmara não são um brinquedinho que crianças birrentas conquistam no grito.

Quando se lê jornal ou se vê televisão, a impressão que se tem é que todo o Brasil é gay. Parece que o homossexualismo é o supervalor fundante da nação. Alguns artistas estão emburrados. Que dó! Mas, deixe-me dizer-lhes, leitor: o Brasil não é gay, meus senhores! O Brasil é cristão, queiram ou não, e os cristãos merecem respeito. Eu me sinto representado por Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. A maior parte da população sente-se representada por ele, não por Daniela Mercury. Os artistas e a imprensa não têm de nos ensinar o que fazer. Eles têm de baixar a bola. Ficar na miúda, como se diz. Não somos incapazes, interditados, menores impúberes. A imprensa não manda no Brasil. Não controla o Legislativo; quem o controla é o povo! Não precisamos da tutela dos artistas. Temos nossa própria opinião. Evangélico também tem direitos políticos.

Para terminar, quero dizer uma coisa, quase como se fosse um sussurro ao pé do ouvido. Posso estar mal informado ou sendo muito exigente, mas gostaria de ter ouvido alguma palavra da CNBB sobre esse assunto. Além disso, será que alguns de nós não estamos sendo omissos, vendo cristãos serem alijados da vida pública? Seremos coniventes com essa caça às bruxas, com uma congregação para a doutrina da fé LGBT na Câmara? Espero que o cristianismo não seja expulso do Congresso. Senhores artistas, não por acaso, Cristo foi traído com um beijo.
 

Paul Medeiros Krause

TERESA E OS PAIS ENVERGONHADOS


Conheci um jovem que, no seu último dia de aula na oitava série, lá pelos fins dos anos 80, tomou o ônibus 8001, rumo ao BH Shopping, com vários colegas de turma que resolveram celebrar a amizade. Naquela época, este era o único shopping da capital mineira, pelo menos, o único importante.

No meio das conversas e risos, já entremeados de saudades, o rapaz, com alguns amigos, entrou na não mais existente “Hi-Fi”, que havia ali, perto da antiga praça de alimentação. A loja de discos, de aspecto muito moderno e refinado, possuía umas cabines extraordinárias em que se podia ouvir sozinho algum “LP” previamente escolhido.

Havia uma música que deixava aquele rapaz quase que em transe toda vez que a ouvia. Ele não tinha lá muito dinheiro, de modo que não lhe seria possível comprar o disco tão desejado. Apesar disso, estava consciente de que se apresentava diante dele uma oportunidade singular: a de poder ouvir algumas vezes os solos de Fender Stratocaster que quase o tiravam de si.

Então acorreu ele decidido a uma das estantes, tomou o disco “Dire Straits”, que leva o mesmo nome da banda, e resoluto entrou em uma daquelas cabines. A faixa escolhida era “Sultans of Swing”. Basta dizer que o moço escutou essa música um número tão grande de vezes que algum diligente empregado da “Hi-Fi” viu-se obrigado a desligar a energia da cabine. Constrangido, o nosso amigo teve de deixar a loja e o disco, fingindo que nada lhe acontecera.

Faço esta introdução, para relatar outra espécie de transe, uma espécie de microêxtase. Por causa dele, matei algumas aulas no secundário. Trazia comigo escritos de uma mulher apaixonada, de uma inteligência pouco comum, cheia de vida, de bom humor e de um extraordinário entusiasmo. Tais escritos, que sempre falavam de amor (ainda que da espécie mais rara), revezavam-se. Por vezes, eram “O Castelo Interior ou Moradas”, outras, “O Livro da Vida”, outras ainda, o “Caminho de Perfeição”. Esses livros punham-me em contato com um outro mundo, com um universo até então desconhecido.
 
Se há uma coisa que sempre me atraiu é uma espécie de intemperança no amor, um certo descomedimento ou expansão, como se um sentimento metódico, burocrático, meramente protocolar, fosse exatamente a antítese do amor verdadeiro.

Exatamente por isso, apaixonei-me por Santa Teresa de Jesus, ou de Ávila, logo na primeira página. Há nela um amor transbordante, espontâneo, aberto, despido de neuras e de escrúpulos. É um gênio, mas é simplesmente ela mesma. Apresenta-se tal como é. Suas palavras, como a de um número seleto de escritores, exalam fogo, parecem escritas com sangue. Não há como não se sentir inflamado.

De Santa Teresa pode-se dizer que como poucos soube unir o rigor do conteúdo à perfeição da forma, a profundidade e a clareza, a sutileza das figuras e a beleza dos exemplos. Que dizer, por exemplo, de como ela designa a imaginação: “a louca da casa”? Ou da metáfora do “bicho da seda”?

Este que lhe escreve, caro leitor, é um rapazinho de uniforme, que quer lhe falar dos seus gostos, da sua façanha na “Hi-Fi”, do seu amor por Teresa. Como não amar Teresa?

Lembro-me de que em seu programa diário, da sua tribuna radiofônica, o saudoso Dom João Resende Costa gostava de mencionar o livro de um autor protestante, René Füllop-Müller, intitulado “Os santos que abalaram o mundo”. Teresa está lá, neste livro, ao lado de Santo Antão, Santo Agostinho, São Francisco e Santo Inácio de Loyola. Ela é a única mulher. É a santa da transverberação, “a santa do êxtase”, também magistralmente retratada por Bernini. É a mulher do coração atravessado por uma seta do amor divino.

Teresa, doutora da Igreja, mestra de vida espiritual, tem muito a falar e a ensinar ao homem de hoje. Ao homem inquieto que se entope de barulho por todos os lados. Ao homem que teme o silêncio e liga a televisão já no café da manhã para não ter de enfrentar a si mesmo. Ao jovem que conhece os recursos do iPhone e do iPad mas nunca ouviu falar das potencialidades da alma.

O homem de hoje percorre o mundo inteiro. Vai à China, ao Japão, ao Himalaia. Gaba-se de verter umas Guinness na Irlanda (o que de fato deve ser uma experiência emocionante, não nego), de visitar a Torre Eiffel, de assistir ao show do Paul McCartney na Praça Vermelha. Tudo bem. Não há nisso qualquer problema. Mas o que mais importa é saber abrir as portas de um castelo (“a porta do castelo”– da alma – “é a oração”). Explorar um mundo escondido, mais belo, mais rico, interior. Invisível mas palpável. Conhecer belezas insuspeitadas e sublimes. Experimentar delícias de outra ordem. Conhecer-se a si mesmo. Travar amizade com um Rei. Eis do que o homem-exterior não é capaz.

Não haverá salvação para o mundo se o homem não passar pelas primeiras moradas, que são as do autoconhecimento. Conta-se que o Santo Cura d’ Ars recebeu este dom em grau tão elevado que recomendava não o pedíssemos a Deus com a mesma intensidade, tal a confusão e desespero que inspira. Com efeito, o homem moderno não se dá conta da sua real miséria, de que toda a sua força é emprestada.

Gustavo Corção, ao começar suas Confissões, que possuem, a meu ver, uma das mais belas páginas inaugurais da língua portuguesa (em que se lê a citação: “Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?”), fala das prestidigitações da técnica e do seu efeito inebriante. Em algum outro lugar, ele mesmo menciona uma máxima, se não menciona, agasalha a ideia: “a temperança gera riqueza; mas, a riqueza gera intemperança”.
 
E eis, desvendado, o outro mal do homem moderno: a intemperança, o aburguesamento. Esse mal afligira o mundo e a Igreja ao tempo da reforma protestante. Contra ele soube lutar a sábia Teresa, iniciando outra reforma e devolvendo ao Carmelo o espírito de pobreza e a sua primitiva austeridade. Ela que já havia padecido de semelhante peste, a tibieza, chegando mesmo a enxergar, por uma visão, o seu lugar no inferno.

Sim, o coração dilatado de Teresa nos é necessário. Como uma mãe, ensina-nos a rezar. É mestra em assuntos de oração. Fala-nos da fealdade e do deplorável espetáculo de uma alma afastada de Deus. Teresa sacode-nos. Quer ela devolver-nos o espírito de modéstia, da santa pobreza, inspirar-nos o rigor primitivo. E, por que não dizer, quer ela devolver-nos o sentido de uma autêntica feminilidade, apresentando-se sempre como modelo de uma obediência perfeita a Deus e aos seus superiores.

O mundo de hoje está excessivamente sentimental, feminino. Perdeu muito do senso prático e da noção de autoridade que emanam do caráter masculino. Em razão de abusos havidos no passado, descambou a civilização ocidental para o extremo oposto, quando o ideal seria um meio-termo, o equilíbrio, a harmonia dos contrários.

Não é sentimental o discurso ambientalista? Que dizer então do discurso abortista? Há bases lógicas consistentes para o que defendem? E na causa de emancipação dos homossexuais? Não há sempre a síndrome do coitadinho, um passar de mãos na cabeça, no âmago dessas teorias? Não há nessas ideologias algo daninho de mãe superprotetora que ao invés de corrigir aumenta os vícios dos filhos?

Os pais pós-revolução sexual são pais envergonhados. Quase pedem desculpas por ser pais. Sentem-se constrangidos ao exercer autoridade e exigir responsabilidade dos filhos. Temos muitas mães, mas onde estão os pais? Pois o verdadeiro pai não amolece diante das lamúrias dos filhos. Ele sabe que um certo rigor é amor.

Santa Teresa tirou São José das sombras do esquecimento e exibiu ao mundo sua colossal grandeza, sua incomensurável força. Ele, José, o humilde carpinteiro, que ensinou o autor do sol a andar. Talvez Teresa queira hoje tirar os pais da penumbra, devolver-lhes a dignidade, restituir-lhes ânimo. A doutora de Ávila, que é mãe de muitos filhos, quer revelar aos pais e aos homens sua real importância, que o mundo precisa deles, pois está muito feminino. Hoje ela quer restaurar a correta compreensão do que seja o sereno exercício e o devido respeito à autoridade.

 

Paul Medeiros Krause

 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SÃO MAXIMILIANO KOLBE E A MILÍCIA DA IMACULADA

 
No ano de 1917, a maçonaria mundial celebrava o segundo centenário de sua fundação, mediante comemorações principalmente em Roma. Grupos de exaltados carbonários desfilavam pelas ruas da Cidade Eterna, empunhando bandeiras negras com a figura de satanás em atitude de esmagar São Miguel Arcanjo. Isso provocou a mais profunda indignação em Frei Maximiliano que, em contrapartida, fundou com seis de seus condiscípulos uma associação, a Milícia da Imaculada, com o fim de “converter pecadores, hereges e cismáticos, particularmente franco-maçons, e trazer todos os homens ao amor de Maria Imaculada”.
 
 
 
 
 

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No texto anterior, eu comentava sobre a importância de o católico instruir-se, compreender com profundidade o mundo à sua volta, servindo-se dos olhos de homens que Deus suscitou exatamente para curar a nossa cegueira intelectual. Mencionei, em especial, dois grandes nomes: Gustavo Corção e Gilbert Keith Chesterton.

Hoje eu gostaria de insistir no tema, pedindo ao caro leitor que seja ousado, que caminhe um pouco mais, seguindo o mandamento evangélico de andar duas milhas se alguém lhe pedir para andar uma. Certamente, é útil e necessário ler Corção e Chesterton; mas é também imprescindível, tanto quanto se possa, ler o que eles leram, beber da água que eles beberam.

Refiro-me, principal mas não exclusivamente, a Santo Agostinho e a Santo Tomás de Aquino. Para se ter uma ideia do quanto esses santos doutores influenciaram os dois outros autores citados, basta dizer que A descoberta do outro são as Confissões de Gustavo Corção, enquanto Dois amôres – duas cidades é a sua A cidade de Deus. Parece-me oportuno frisar que Confissões é leitura obrigatória. (Já venci alguns debates por causa desse livro. Você pode fazer o mesmo.) Também creio que o seja O livre-arbítrio. De A cidade de Deus é recomendável ter pelo menos uma noção geral.

Mas não para por aí a influência dos dois santos nas obras do inglês e do brasileiro. Chesterton e Corção, corrijam-me se eu estiver errado, podem ser considerados tomistas; seu pensamento está geneticamente associado à filosofia do doutor angélico. O vigor com que eles defendem a valorização do senso comum – que, aliás, é bastante democrático –, do senso de objetividade, o seu realismo, a insistência com que propugnam que todo conhecimento nos chega pela porta dos sentidos, isso tudo é Santo Tomás! Para eles, conhecimento é a adequação da inteligência ao objeto.

Não é demais recordar que Chesterton possui uma das melhores biografias de Santo Tomás que já foram escritas, recebendo louvores incontidos do próprio Étienne Gilson, expert no assunto.

Um católico que conhece bem Santo Agostinho e Santo Tomás é como um soldado armado até os dentes. Mais do que isso: é alguém que sabe manejar as armas. À medida que se lê o bispo de Hipona e o boi mudo, absorve-se um pouco do seu modo de raciocinar, da sua habilidade em esgrimir múltiplos argumentos com uma lógica irrefutável.

Convém, pois, que nos esforcemos por entender um pouco de tomismo, de apreender um pouco do seu vocabulário e dos seus conceitos. Algum contato com a Suma Teológica é necessário. É indispensável conhecer as antológicas cinco vias da prova filosófica da existência de Deus. Ademais, as lições de Santo Tomás sobre direito natural são magníficas, estupendas, talvez insuperáveis. Não é à-toa que sejam tão elogiadas e tenham influenciado tão fortemente autores como Michel Villey, Edgar de Godói da Mata-Machado e André Franco Montoro.

Nenhum católico cometa o tresloucado ato de, ao dialogar com o mundo não-católico ou não-cristão, condenar o aborto ou o casamento gay simplesmente porque são pecados. Decerto, faltar à Missa aos domingos, sem justo motivo, também é pecado, mas nem por isso se vai pretender que a lei do Estado obrigue as pessoas a ir à Missa. O nosso argumento perante o mundo exterior, argumento verdadeiro, argumento útil, argumento científico, é o de que o aborto e o casamento gay são injurídicos, violam o direito natural, atentam contra a dignidade humana. E é esse direito, essa lei natural, que constitui a verdadeira fonte, a origem do direito positivo, das leis do Estado.

A propósito, vale lembrar a distinção que Santo Tomás estabelece entre ilícitos contra a razão e ilícitos contra a natureza. Esses últimos revestem-se de maior gravidade. É o caso dos atos de homossexualidade.

Hans Kelsen afirmava: a lei positiva deve obedecer à Constituição. Forjou ele uma estranha e abstrata norma hipotética fundamental: “devemos obedecer ao pai da Constituição”. Nós, com Tomás, dizemos: a Constituição deve obediência à lei natural, pois é esta lei que diz o que é o homem. É dele a célebre advertência: “Toda lei humanamente imposta tem tanto de razão de lei quanto deriva da lei da natureza. Se, contudo, em algo discorda da lei natural, já não será lei, mas corrupção de lei” (Suma Teológica. Vol. IV. I Seção da II Parte, questão 95, artigo 2).

O justo e o injusto não dependem de um critério procedimental, formal: que o Parlamento aprove, seguindo determinado rito, um texto constitucional. Constituições também podem trazer aberrações. É a lei natural que fornece o verdadeiro critério de justiça material à Constituição e às leis positivas. A virtude da justiça não depende do consenso da maioria ou do confronto de forças antagônicas dentro do Parlamento. Existe a justiça real, válida para todos os homens, e não creio ser possível compreendê-la realmente sem a explicação de Santo Tomás.

O jusnaturalismo clássico, objetivo, realista, não se confunde com o jusnaturalismo abstrato, racionalista, dos iluministas, que tratam do homem em um estado ideal – artificial, abstrato, fictício –, denominado estado de natureza. Com efeito, o progresso do homem também integra a sua natureza. Não é menos natural o homem com iPad do que o homem com tacape. Um dos aspectos pelos quais o homem é imagem de Deus é justamente a sua autotranscendência: o ser humano nunca está satisfeito, tem sede de infinito, sempre quer superar-se, não se acomoda no tempo e no espaço. Obviamente, no debate com um não-cristão, não vamos invocar a semelhança do homem com Deus. Contudo, a autotranscendência humana é de per si evidente, objetivamente demonstrável, independendo de argumentação teológica.

Não há por que pensar que o direito natural só existia para o homem das cavernas, até porque o homem das cavernas não conhecia a distinção entre direito e sentimento religioso. Nos primórdios da humanidade, normas jurídicas foram tomadas como normas religiosas. Hoje compreende-se que direito e religião possuem campos próprios, autônomos, embora não necessariamente se contraponham e eventualmente possam interpenetrar-se (o homicídio é pecado, mas também é crime).

Em suma: quando se discute direito, os argumentos devem ser jurídicos. Não devemos esquecer os conselhos de nossos pais, mais sábios e experimentados do que nós: demos ouvidos a Agostinho e Tomás. Invoquemo-os, também, pedindo a sua intercessão. É certo que nós nos assemelhamos àqueles com quem convivemos. Quanto mais intimidade tivermos com essas duas muralhas da fé pela leitura e pela oração, mais nos enriqueceremos com as suas virtudes. Um pouco daquela torrente de graças, daquela superabundância do Espírito que foi derramada neles chegará até nós.

 

Paul Medeiros Krause

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

OS ANOS DE APRENDIZADO




 
Um dos melhores livros que li ultimamente, e em toda a minha vida, é “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister”, de Goethe. O próprio título do livro, de grande beleza, já convida à introspecção, suscita recordações, produzindo uma espécie de viagem do espírito. Quantas impressões não nos grava na alma, não nos evoca à mente, a ideia de “anos de aprendizado”? Não digo simplesmente “aprendizado”, mas a poética recordação dos “anos de aprendizado”. Trata-se de algo como o “voltar para casa”, tema recorrente na música e na literatura. Se a casa, a origem do indivíduo são sagrados, também o são seus anos de aprendizado.

A narrativa do progresso espiritual de Wilhelm revela a preocupação constante de Goethe com a formação plena do indivíduo, com o desenvolvimento máximo das suas múltiplas capacidades e potencialidades. Se o jovem Wilhelm ansiava formar-se plenamente, o Dr. Fausto do “Fausto: uma tragédia”, principal obra do escritor alemão, também o aspirava com todas as suas forças. Fausto, em sua obsessiva busca pelo saber completo, total, percebeu frustrado, esmagado, que algo lhe faltava.

“Os anos de aprendizado” inauguram e representam em grau máximo esta importante contribuição originalmente alemã para a literatura universal: o “Bildungsroman”, o romance de formação.

De notar-se o caráter marcadamente simbólico da narrativa das peripécias do jovem Wilhelm e da sua incursão pela vida teatral. Destaca-se o seu contato com a secreta Sociedade da Torre, cujos integrantes se incumbem da instrução de Wilhelm, sem que este o perceba, por meio de encontros aparentemente casuais. O aprendiz possuía formadores, instrutores, que se dedicavam a promover o seu crescimento e amadurecimento intelectual e moral, e a introduzi-lo na Sociedade da Torre, sem que aquele se desse conta disso. Aparentemente, o aprendiz estava sozinho; era governado pelo acaso.

 A certa altura do romance, os formadores de Wilhelm revelam-se a ele, e ele então é declarado apto a integrar a sua sociedade. Recebe pois a carta de aprendizado. O livro, talvez no seu ápice, traz a sentença: “Glória a ti, jovem! Teus anos de aprendizado acabaram. A natureza te absolveu.”

Até o recebimento da carta de aprendizado, Wilhelm, idealista e inexperiente, de coração bom e impulsivo, comete muitos erros, muitos deles por ingenuidade e afoiteza. Mas o passado não é para ele algo descartável ou desprezível. Fica nítido que os erros constituíram parte importante, se não a principal, do seu processo de amadurecimento.

Quando chegam ao fim os anos de aprendizado, Wilhelm dá-se conta de que a sua incursão no teatro não era mais do que uma etapa. A carreira teatral, ao contrário do que sempre pensara, não constituía a sua autêntica vocação. Mas é só a voz da maturidade que lhe revela isso. Aquele período teatral, porém, fora necessário. Fora útil. Ter mergulhado com todas as forças naquele ambiente favoreceu o desabrochar das suas múltiplas capacidades então em estado de potência.

A convivência, e por que não dizer, a amizade que travei com Wilhelm, essa simpática personagem, a sua companhia por alguns meses – li o romance com bastante vagar, como é meu hábito e defeito –, despertaram em mim algumas ideias.

No livro, o herói está em constante viagem. Não será porém a nossa vida a mais venturosa e arriscada de todas as viagens?

As personagens enigmáticas que se incumbiram da formação de Wilhelm também não existirão na vida de cada um? Seria absurdo imaginar que cada uma das pessoas com quem convivemos ou nos relacionamos, ainda que por fugidios instantes, nos deixam marcas indeléveis na alma, contribuem e participam, mesmo inconscientemente, da nossa formação?

Mais ainda: a secreta Sociedade da Torre não poderia, com razoável precisão, significar ou representar uma metáfora da comunhão dos santos, do modo como somos auxiliados, socorridos e formados pelos anjos e pelos santos, que permanecem velados, invisíveis, obscuros até o fim dos nossos dias?

Não será que no dia do Juízo, esses celestes instrutores e auxiliadores ocultos não se nos revelarão, e todos os obséquios que nos foram prestados, cada dádiva, socorro ou lição, não brilharão ao sol do meio dia, com a exata indicação de seu autor? Por exemplo: não será que alguns obséquios nos chegaram por São Paulo, outros, por Santo Antônio, outros, pela intercessão de uma avó falecida, outros, pela prece de uma alma do purgatório?

A vida toda são anos de aprendizado. Mas talvez seja possível determinar período ou períodos em que essa marca, esse signo do progresso, do amadurecimento, às vezes espinhoso, se revele de uma forma mais evidente. Talvez haja um período de formação e, depois, uma fase do trabalho, da execução da obra, da elaboração artística pelo artífice já constituído. Sim, da elaboração artística, porque viver é uma delicadíssima arte.

Sou da opinião de que a nossa vida, com tudo o que a circunda, com todos os acontecimentos e vicissitudes que comporta, é a matéria-prima nas mãos do artífice. Nós somos o artífice; a nossa liberdade é o cinzel. Pelas nossas escolhas, moldamos, damos forma ao itinerário da nossa existência. Esse elevado tipo de arte todos podem realizar. Todos podemos elaborar uma obra-prima: a obra-prima das nossas vidas. Uma vida bem vivida é um quadro belissimamente pintado, um filme magistralmente produzido, uma sinfonia magnificamente executada. Não faltam cores. Não sobram cenas. Não há tons e acordes desperdiçados. Tudo se aproveita. Não há atos isolados. Há uma excepcional coerência entre o todo e as partes, e digo por quê: porque não estamos soltos no mundo; temos mestres escondidos.

Recordando uma belíssima figura utilizada por Gustavo Corção em “O desconcerto do mundo”, no fim dos tempos, no dia do Juízo, haverá um magnífico Ofertório. E nesse Ofertório entregaremos ao Pai a obra-prima das nossas vidas.

 

Paul Medeiros Krause

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

MAIS SÃO DOMINGOS, POR CHESTERTON





"Assim, a popular história de São Francisco pode servir como uma espécie de ponte entre o mundo moderno e o medieval de uma outra maneira. E essa maneira baseia-se no próprio fato já mencionado: que São Francisco e São Domingos estão na história como pessoas que fizeram o mesmo trabalho, mas se acham separados na tradição popular inglesa do modo mais estranho e surpreendente. Cada qual em sua terra, eles são como gêmeos celestiais, irradiando a mesma luz do céu, parecendo às vezes dois santos sob um único halo, tal como outra Ordem descreveu a Santa Pobreza como dois cavaleiros num único cavalo. Nas lendas de nossa própria terra, eles estão unidos como São Jorge e o dragão. Domingos ainda é concebido como um inquisidor que inventou instrumentos de tortura para apertar o polegar, enquanto São Francisco já é aceito como um humanista que condenava as ratoeiras. [...]

Mas deve haver algo errado por trás dessa contradição que transforma os que foram aliados em casa em inimigos fora dela. [...] E é claro que a lenda sobre São Domingos é inteiramente equivocada. Quem conhece algo a respeito de São Domingos sabe que ele foi um missionário, não um perseguidor militante; que sua contribuição à religião foi o rosário, não o cavalete de tortura; que toda a sua carreira perde o sentido se não compreendemos que suas famosas vitórias foram vitórias de persuasão, não de perseguição. Ele acreditava que a perseguição se justificava, no sentido de que o braço secular podia reprimir desordens religiosas. E todas as outras pessoas também acreditavam nessa perseguição, inclusive o elegante blasfemador Frederico II, rei alemão e imperador romano, que não acreditava em nada mais. Alguns dizem que Frederico foi o primeiro a queimar hereges, mas, seja como for, ele julgava que um de seus privilégios e deveres imperiais era perseguir hereges. Mas dizer que a única coisa que Domingos fez foi perseguir hereges é como culpar o padre Mathew (que convenceu milhões de bêbados a fazer votos de temperança) pela lei que permite que a polícia prenda alguém bêbado. É desprezar o essencial: a enorme capacidade desse homem de converter, mesmo sendo obrigado a perdoar sua compulsão. A verdadeira diferença entre Francisco e Domingos, que não desmerece nenhum deles, foi que Domingos teve diante de si uma ampla campanha de conversão de hereges, ao passo que Francisco teve apenas de se encarregar da tarefa mais suave de converter seres humanos. Há uma velha história que explica que, embora se possa precisar de um Domingos para converter pagãos ao cristianismo, precisa-se ainda mais de alguém como Francisco para converter os cristãos ao cristianismo. Ainda assim, não podemos perder de vista o problema especial de São Domingos, que era o de lidar com toda uma população, reinos e cidades, bem como localidades rurais que haviam se desviado da fé, transformando religiões novas em algo estranho e anormal. O fato de ele ter conseguido recuperar massas de homens enganados dessa maneira, recorrendo apenas às palavras e à pregação, continua a ser um enorme triunfo que merece um enorme troféu. São Francisco foi considerado humano porque tentou converter os sarracenos e fracassou; São Domingos é considerado injusto e obstinado porque tentou converter os albigenses e conseguiu." (Gilbert Keith Chesterton, "Santo Tomás de Aquino")

UM POUCO DE SÃO DOMINGOS DE GUSMÃO, POR CHESTERTON


 


 
 
"Em 1215, Domingos Guzmán, o castelhano, fundou uma Ordem bem parecida com a de São Francisco; e, graças a uma enorme coincidência da história, quase exatamente no mesmo momento em que São Francisco fundara a sua. A Ordem se dedicava essencialmente a pregar a filosofia católica aos hereges albigenses, cuja filosofia era uma das formas daquele maniqueísmo com o qual esta história tem muita relação. A origem dessa filosofia é o remoto misticismo e o desapego moral do Oriente; e era portanto inevitável que os dominicanos fossem mais uma irmandade de filósofos enquanto os franciscanos eram em comparação uma irmandade de poetas. Por essas e por outras razões, São Domingos e seus seguidores são pouco conhecidos ou compreendidos na Inglaterra moderna. Eles acabaram por se envolver numa guerra religiosa que veio de uma discussão teológica, e havia algo na atmosfera inglesa, mais ou menos ao longo do século XIX, que tornou a discussão teológica ainda mais incompreensível do que a guerra religiosa. O efeito último é em alguns aspectos curioso, porque São Domingos, ainda mais do que São Francisco, foi marcado pela independência intelectual e pelo padrão estrito de virtude e de veracidade que as culturas protestantes tendem a considerar como especialmente protestante. Há uma história a respeito de São Domingos, que seria bem mais contada na Inglaterra se tivesse sido atribuída a um puritano, segundo a qual o papa apontou seu maravilhoso Palácio Pontifício e disse: 'Pedro já não pode dizer: 'De prata e ouro não disponho'', e o frade espanhol respondeu: 'Não, e tampouco pode dizer agora: 'Levanta-te e anda''." (Gilbert Keith Chesterton, "Santo Tomás de Aquino")

SÃO DOMINGOS DE GUSMÃO

http://santo.cancaonova.com/santo/sao-domingos-de-gusmao/

AMANHÃ, 8 DE AGOSTO, DIA DO GRANDE SÃO DOMINGOS




Dia 8 de agosto é dia do grande São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Frades Pregadores ou dominicanos ("cães do Senhor"), o grande apóstolo e propagador da devoção do Santo Rosário. As imagens de Nossa Senhora do Rosário costumam trazê-lo recebendo esse objeto de devoção das mãos de Nossa Senhora, ao lado de Santa Catarina de Sena, que também era dominicana, embora leiga.
 
São Domingos, com São Francisco, iluminou o mundo com a criação das ordens mendicantes no século XIII. É pai espiritual de uma multidão, incluído Santo Tomás de Aquino, também dominicano.
 
Sua imagem costuma trazer um cão com uma tocha na boca, em razão de um sonho que sua mãe teve enquanto o esperava na gravidez. Ela viu um cão de cuja boca saía uma luz que iluminava o mundo todo. Com efeito, aquela luz era figura das pregações de São Domingos.

CELIBATO E PEDOFILIA


O art. 295, parágrafo único, inciso II, do Código de Processo Civil diz: “Considera-se inepta a petição inicial quando da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão”.

Embora o texto acima transcrito seja oriundo de uma norma legal, do específico mundo do direito, a ideia nele contida é perfeitamente aplicável à ideológica correlação que se faz entre o celibato dos padres e os crimes de pedofilia praticados por alguns deles.

Há alguns dias, Carlos Alberto Di Franco publicou no “Estado de São Paulo” um excepcional artigo intitulado “Igreja, uma megacobertura”. Do seu texto, extraem-se essas valiosas informações:

“O conhecido sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas 100 sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto 6 mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo delito.

Na Alemanha, desde 1995, existiram 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, menos de 0,2%. Por que só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? E as outras 209 mil denúncias? Trata-se, como já afirmei, de um escândalo seletivo.”

Linhas acima, Di Franco havia afirmado:

“O exame sereno, tecnicamente responsável, mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos ocorridos é muitíssimo menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade.”

Em um sentido diametralmente oposto ao de Di Franco, mas também no “Estadão”, li ontem, 26/3/2013, o curioso artigo de Arnaldo Jabor: “Teologia da libertação sexual”. Embora eu me condoa e lamente profundamente o episódio por ele narrado e no qual figura como vítima – a Igreja realmente tem de ter tolerância zero com a pedofilia, cortando na própria carne –, o artigo de Jabor abusa dos lugares comuns, revela leitura ligeira e compreensão superficial da teologia católica e evidencia a inépcia com que a imprensa tantas vezes tem tratado do assunto. Da narração dos fatos não decorre logicamente a conclusão. Jabor acusa a Igreja de medievalismos, só que não se deu ao cuidado de ler Santo Agostinho. Santo Agostinho é mais moderno do que a ideia que Jabor tem da Igreja. Os estudos teológicos de Arnaldo Jabor não chegaram ao século IV!

Por que o Arnaldo não propõe acabar com o celibato dos professores de educação física? Seria mais lógico. Ou, se os professores de educação física da Itália não são celibatários, por que razão vincular o celibato com a pedofilia? E na Alemanha: qual é o grupo que responde pela maior parte dos casos de denúncias de pedofilia? Confesso que não sei, mas talvez a imprensa devesse saber.

Façamos um exercício de raciocínio. Dentre os padres católicos, a maior parte vive o celibato, que por sinal atravessou séculos isento dessa avalanche denuncista. Uma mínima parcela cometeu crimes de pedofilia. Esta parcela vivia o celibato? Era homossexual ou heterossexual? Pelo que se tem notícia, a maior parte dos casos de pedofilia no interior da Igreja deu-se entre pessoas do mesmo sexo. Então, por que não relacionar a pedofilia com o homossexualismo, em vez de relacioná-lo com o celibato, vivido pela maioria? Os padres pedófilos eram celibatários ou homossexuais?

Do nada, nada surge. Da abstinência sexual não pode surgir uma prática sexual. A prática sexual depravada só pode surgir entre os que têm vida sexual ativa, seja ela evidente ou oculta. É preciso distinguir o celibato real, verdadeiro, exercitado, do celibato aparente, simulado, fictício, irreal. Deve-se separar o celibato autêntico do falso. E a seleção dos candidatos ao sacerdócio deve ser capaz de distinguir os celibatários autênticos dos dissimulados.

Ora, a ideologia de emancipação dos homossexuais repele a conexão existente entre homossexualismo e pedofilia, não porque esse elo contrarie os fatos, mas porque desmente a teoria. Para as ideologias, o confronto com os fatos é uma espécie de exorcismo. Por que se fuzilam opositores a regimes ideológicos? Porque eles falam, e as palavras verdadeiras têm uma força assustadora.

As ideologias repelem os fatos como o diabo repudia a cruz. E o que o diabo faz no possesso quando vê o crucifixo? Grita e se contorce. Não é o que os defensores dos direitos dos homossexuais fazem quando se lhes opõem os fatos? O psicólogo holandês Gerard J. M. van den Aardweg, Ph.D. pela Universidade de Amsterdã, e o perito espanhol José María Amenós Vidal já demonstraram estatisticamente que o número de casos de pedofilia entre homossexuais é significativamente maior do que entre heterossexuais, o que constitui mais um ponto desfavorável à adoção de crianças por aqueles. Mas, a ideologia não nutre amor pelos fatos. Coincidentemente, o diabo, nossa alegoria, é chamado “pai da mentira”.

Na verdade, os defensores da causa gay, como de resto os últimos comunistas em extinção, veem a Igreja Católica como seu pior inimigo. Poderoso em força e em densidade intelectual. Por isso, procuram desacreditá-la.

Por que razão alguns querem editar a lei da mordaça gay, o PLC 122/2006, antigo PL 5003-b/2001? Para evitar o exorcismo dos fatos, isto é, a expulsão do diabrete da ideologia.

Por que razão querem retirar Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara? Por que tanta suscetibilidade com o que ele diz? É como eu lhe disse, leitor, a ideologia possui e subjuga as pessoas como o demônio possui os indivíduos. Embaraça-lhes o uso da razão. Põem-lhes escamas nos olhos. A oração que expele o mau espírito da ideologia é o ritual ou liturgia do confronto com os fatos. O sacramental utilizado é a água benta da clareza das ideias. Daí os gritos. Daí o contorcionismo. Os fatos doem. As preces têm eficácia.

O celibato mete medo, causa pavor. A castidade e a pureza dos padres e das freiras humilham-nos, desconcertam-nos. Não nos sentimos capazes de imitá-los. Desconfio que também os que vivem a homossexualidade sintam-se confundidos pelas pessoas continentes. Estas acusam a nossa sociedade encharcada de sexo. A mesma TV que promove a sacanagem, hipocritamente, condena a pedofilia. O celibato é um incômodo feixe de luz atirado aos olhos de quem está no breu, cambaleando, trôpego, embriagado pelo prazer dos sentidos. (Gostaria de perguntar a Arnaldo Jabor se prazer e alegria são a mesma coisa). A luz em si é boa, mas incomoda a quem está nas trevas. A continência sexual em si é boa, mas agride a quem quer comer o alimento dos porcos. Quem deplora o celibato é porque se sente incapaz de vivê-lo. Julga impossível aos outros o que é impossível para si. O inepto julga os demais ineptos.

Se alguém gritar contra este artigo, não me assustarei. É o exorcismo fazendo efeito. A propósito, deveríamos ir às ruas para defender o Feliciano. Não basta defendê-lo de longe. É o estado de direito que está em jogo. A França, outra vez, saiu na frente.
 
Paul Medeiros Krause
 
Texto também publicado no site da Revista Vila Nova

 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

TESTEMUNHO SOBRE DOM CRISTIANO




É com muito prazer que falo de Dom Cristiano. Ele foi uma espécie de pai para mim por mais de uma década.

Conheci-o por intermédio de uma pessoa amiga, muito da minha confiança. Tal pessoa, a quem eu pedi licença para falar sobre o assunto, chegou a Dom Cristiano por causa de um sonho que tinha a aparência de coisa sobrenatural. Essa pessoa, tendo conversado com o seu pároco e com uma senhora da sua paróquia que dava atendimento e aconselhamento, recebeu dessa senhora o seguinte conselho: “Tudo o que sei sobre esse tipo de coisa eu lhe disse. Para saber mais, vá conversar com um bispo emérito chamado Dom Cristiano, que é capelão do Hospital Madre Teresa. Ele entende totalmente desse tipo de assunto. Ele possui todos os dons do Espírito Santo.”

Essa pessoa então procurou Dom Cristiano e marcou com ele um horário para conversar. Para sua surpresa, quando Dom Cristiano a recebeu, conta ela, ele adivinhou coisas a seu respeito, coisas sobre a sua família, relações de parentesco e profissão. Prefiro não entrar em mais detalhes, mas essa pessoa disse-me que ele realmente demonstrou ter total domínio do assunto espiritual do qual ela foi tratar, parecia mesmo saber exatamente tudo o que ocorreu mesmo antes de ela contar, limitando-se, porém, a dizer: “Foi de Deus”, talvez para não despertar nela a vaidade ou curiosidade.

Tendo essa pessoa me contado o acontecido, passei a ir confessar-me com frequência com ele. Inicialmente, ia uma vez por mês com a minha mãe, enquanto estava no segundo grau. Depois que tirei a carteira de motorista, já na universidade, ia até lá quase semanalmente. Geralmente, encontrava-me com ele nos sábados ou domingos pela manhã.

O que sempre me impressionou nele era a sua ortodoxia, fidelidade ao magistério da Igreja, profunda, intensa e extensa vida de oração. Certamente, tinha grande cultura, mas parecia escondê-la. Suas mãos estavam sempre frias, talvez por sempre tomar banho gelado (ouvi alguém dizer que ele fazia isso. Não posso afirmar).

Eu gostava também de assistir às suas Missas, na minha opinião, talvez as melhores de Belo Horizonte embora não fosse muito frequentada. Antes das Missas, ele estava sempre sentado, já com os paramentos, no confessionário da Capela do Hospital Madre Teresa. Após elas, sempre fazia uma ação de graças bastante demorada no genuflexório da mesma capela.

Suas homilias, proferidas de forma simples, não escondiam totalmente o seu grande conhecimento das coisas de Deus, sua grande inteligência e, por que não dizer, seu espírito prático. Ele procurava recomendar ações concretas, tirar lições de vida objetivas, das celebrações. Todo final de homilia possuía recomendações práticas, concretas.

Pode ser que eu esteja superdimensionando a influência de Dom Cristiano sobre a arquidiocese de Belo Horizonte, mas, sendo completamente honesto, eu o enxergo quase que como um anjo da guarda, um guardião da arquidiocese. Pelas amizades que ele tinha com Dom Sigaud, Dom João Resende Costa, outros sacerdotes e bispos, parecia-me que ele exercia grande e silenciosa influência, que sua palavra e seus conselhos tinham grande peso, que ele detinha grande força moral perante o clero de Belo Horizonte. Mas, certamente, sobre isso, outras pessoas estarão em melhores condições de opinar. Recordo-me, porém, com muita clareza de um artigo sobre ele do saudoso Padre Paschoal Rangel, no jornal "O Lutador". O artigo, feito por ocasião da morte do santo bispo, intitulava-se: "Ao mestre, com carinho". Nele, o Padre Paschoal afirmava que poucas vezes na vida tinha tido tanto a sensação de estar perto de um santo (como quando ao se encontrar com Dom Cristiano). "Santo mesmo. Canonizável!" - dizia.

O que posso dizer mais de Dom Cristiano é que ele sempre me tratou paternalmente e, de uma certa forma, como São Rafael livrando Tobias dos perigos da viagem, ele me preservou de grandes perigos, pecados e desvios da adolescência e início da juventude. Foi ele meu companheiro e proteção na juventude, conduzindo-me são e salvo à fase adulta, quando faleceu.

Algumas coisas mais gostaria de destacar a respeito dele. Quando a sua saúde começou a declinar de forma definitiva, por não ter conseguido marcar uma confissão com ele pelo telefone, fui ao Hospital Madre Teresa mesmo sem telefonar. Eu não sabia, mas ele não estava em sua casa contígua à capela, mas em um quarto do hospital. Descobri qual era o quarto e fui vê-lo. Se a memória não me trai – às vezes, confundimos e fantasiamos algumas coisas –, ele usava uma máscara de oxigênio, embora plenamente consciente. Ele estava no leito, deitado. Quando me viu, mesmo deitado e com a máscara – o leitor me perdoe se não havia máscara, minha memória me diz que havia –, disse-me: “Ô, meu filho! Você veio se confessar?”, demonstrando paternal solicitude e estar inteiramente pronto e disponível para me atender em confissão mesmo com a máscara e deitado no leito do hospital. Eu realmente tinha ido ao hospital com a intenção de confessar-me, mas é claro que não tive coragem de dizer isso a ele. Respondi-lhe: “Não, Dom Cristiano, vim apenas ver o senhor”. Em todo o caso, não deixo de imaginar a beleza e grandeza desse quadro: confessar-me com um sacerdote, com um bispo emérito, já próximo da morte, com máscara de oxigênio e deitado no leito do qual não mais se levantaria. Sim, talvez Dom Cristiano tivesse o sonho de morrer atendendo confissão, administrando os sacramentos, a misericórdia divina, gastando-se e desgastando-se inteiramente por Cristo. Afinal, o seu lema era “apóstolo do amor de Cristo”.

Devo acrescentar ainda que a ele e a Dom Bosco recorro nas minhas angústias, desesperos e necessidades mais prementes. Naqueles três ou quatro momentos raros e cruciais da nossa vida nos quais não sabemos mais o que fazer e a quem recorrer, eu recorri a ele e a Dom Bosco. Em dois deles, levei um quadro do primeiro, que eu tinha na sala, para o meu quarto. O problema foi solucionado, de forma totalmente inesperada, no dia seguinte. Não digo que em todas as quatro vezes, mas pelo menos em duas. E, nas outras duas, também fui atendido, embora a solução dos casos tenha exigido mais tempo. Num desses casos em que a graça levou mais tempo – tratava-se de conseguir a aprovação em um concurso público –, na véspera de uma prova para promotor de justiça em Minas Gerais, tive um sonho em que ele me disse: “Meu filho, eu quero que você estude muito.” Não passei no concurso de promotor e não sei se foi algo real, mas o sonho me deu um certo ânimo ou entusiasmo para continuar estudando para outros concursos.

Por último, quero relatar um outro episódio interessante. Em uma noite tive vontade de conversar com a alma dele e de dizer-lhe: “Se o senhor for santo – perdoe-me a franqueza, via algumas limitações no senhor, na minha opinião o senhor não era, mas a lógica de Deus não é a minha! – e quiser ser canonizado, peça-me o que o senhor quiser e eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para consegui-lo! É o mínimo que eu posso fazer pelo senhor para demonstrar-lhe a minha gratidão.” Pois bem. No dia seguinte, abro minha caixa de e-mails e está lá um e-mail de uma pessoa que era muito próxima a ele, pedindo uma grande ajuda, não exatamente para si, mas para uma terceira pessoa. Respondi a ela: “Conte comigo. Vou lhe prestar essa ajuda. Mas não pense que sou eu quem a está ajudando. Considere essa ajuda vinda diretamente das mãos do Dom Cristiano”.
 

Paul Medeiros Krause

domingo, 4 de agosto de 2013

DOM ESTÊVÃO BETTENCOURT SOBRE A SUA VOCAÇÃO

"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria a Deus." (Dom Estêvão Tavares Bettencourt, OSB, criador da famosa Revista "Pergunte e Responderemos", sobre sua vocação ao sacerdócio)

sábado, 3 de agosto de 2013

SANTA TERESA DE ÁVILA SOBRE SÃO JOSÉ

 
 
 
 
CAPÍTULO 6

Trata do muito que ficou a dever ao Senhor por lhe ter dado conformidade em tão grandes trabalhos e como tomou por medianeiro e advogado ao glorioso São José e o muito que lhe aproveitou
 
[...]
 
5. Pois, como me vi tão tolhida em tão pouca idade e no que haviam dado comigo os médicos da terra, determinei-me a recorrer aos do Céu para que me sarassem, pois desejava a saúde, embora sofresse com muita alegria a sua falta. Pensava algumas vezes que, se estando boa me havia de condenar, melhor seria estar assim. Pensava, no entanto, que serviria muito mais a Deus com saúde. Este é o nosso engano: não nos entregamos de todo ao que faz o Senhor, que melhor sabe o que nos convém.
 
6. Comecei a fazer devoções de Missas e coisas muito aprovadas de orações, pois nunca fui amiga doutras devoções que fazem algumas pessoas - em especial mulheres - com cerimônias que eu não podia suportar e a elas lhes fazia devoção. Depois tem-se dado a entender não convirem; eram superstições. Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claramente que, tanto desta necessidade como de outras maiores de honra e perda de alma, este Pai e Senhor meu me tirou com maior bem do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo até agora de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É de espantar as grandes mercês que Deus me tem feito por meio deste bem-aventurado Santo e dos perigos de que me tem livrado, tanto no corpo como na alma. A outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrerem numa necessidade; deste glorioso Santo tenho experiência que socorre em todas. O Senhor nos quer dar a entender que, assim como lhe foi sujeito na terra - pois como tinha nome de pai, embora sendo aio, O podia mandar -, assim no Céu faz quanto Lhe pede.
 
Isto têm visto, por experiência, algumas outras pessoas, a quem eu dizia para se encomendarem a ele. E assim há muitas que lhe são devotas, experimentando de novo esta verdade.
 
7. Procurava eu fazer a sua festa com toda a solenidade que podia, mais cheia de vaidade que de espírito, querendo que se fizesse mui curiosamente e bem, embora com boa intenção. Mas isto tinha de mal - se algum bem o Senhor me dava a graça de fazer -: era cheio de imperfeições e com muitas faltas. Para o mal e curiosidade e vaidade tinha eu grande manha e diligência. Que o Senhor me perdoe.
 
Quisera eu persuadir a todos a serem devotos deste glorioso Santo, pela grande experiência que tenho dos bens que alcança de Deus. Não tenho conhecido pessoa que deveras lhe seja devota e lhe presta particulares obséquios, que a não veja mais aproveitada na virtude; porque aproveita de grande modo às almas que a ele se encomendam. Parece-me que há alguns anos que, cada ano no seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo realizada; se a petição vai algo torcida ele a endireita para maior bem meu.
 
8. Se eu fora pessoa que tivesse autoridade para escrever, de boa vontade me alongaria a dizer muito por miúdo as mercês que este glorioso Santo me tem feito a mim e a outras pessoas. Mas, para não fazer mais do que me mandaram, em muitas coisas serei mais breve do que quisera. Em outras, mais extensa do que era mister; enfim, como quem em todo o bem tem pouca discrição. Só peço, por amor de Deus, que faça a prova quem não me acreditar e verá, por experiência, o grande bem que é o encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção. Em especial, as pessoas de oração sempre lhe haviam de ser afeiçoadas. É que não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos - no tempo em que tanto passou com o Menino Jesus - sem que se dê graças a São José pelo muito que então Os ajudou. Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome a este glorioso Santo por mestre e não errará o caminho. Praza ao Senhor não haja eu errado em atrever-me a falar dele; porque embora publique ser-lhe devota, no seu serviço e imitação sempre tenho falhado. Ele procedeu como quem é, fazendo com que eu me pudesse levantar e andar e não ficasse tolhida, e eu, como quem sou, usando mal desta mercê."
 
- Santa Teresa de Jesus, primeira mulher a ser proclamada Doutora da Igreja, mestra de oração e de vida espiritual, em "Livro da Vida", Edições Carmelo, Portugal.
 
* De nota de rodapé da referida edição extrai-se: "Toda esta passagem tem grande interesse na história e na teologia da devoção a S. José."